É cada vez mais frequente que professores de grupos de escolas protestantes do norte da Europa, que visitam Roma, levem seus estudantes a uma missa católica, para que vejam como é e para que estes tomem tranquilamente a comunhão.

Segundo muitos protestantes e católicos da Europa e da América, esta é também uma das consequências de uma aproximação para baixo entre os dois credos, segundo confirmou uma ampla pesquisa realizada em uma quinzena de países pelo Pew Research Center, de Washington.

Quinhentos anos após fixar suas 95 teses em WittenbergMartinho Lutero já não é esse fomentador de discórdias que foi durante séculos.

Nos Estados Unidos, 65% dos católicos e 57% dos protestantes estão convencidos que entre seus respectivos credos há mais semelhanças que diferenças.

E na Europa ocidental mais da metade dos protestantes e católicos pensam o mesmo. Com índices que chegam a 78% entre os protestantes da Alemanha, 67% entre os católicos da Holanda e 64% entre os católicos da Áustria. Também entre os católicos da Itália já são mais os que consideram que há semelhanças: 47% frente a 41%.

Entre os católicos que continuam se sentindo mais distintos que iguais, em último lugar estão os católicos da Bélgica e Espanha, com 28%. Ao passo que entre os protestantes irredutíveis, os últimos são os da Suécia, com 18%.

A pesquisa também permitiu identificar uma importante faixa da população que não se identifica como católica, nem protestante, e que se considera sem religião. Na Europa ocidental, o índice mais elevado de ateus ou agnósticos é registrado na Holanda, com 48%. Seguem Noruega, com 43%; Suécia, com 41%; Bélgica, com 37%; Dinamarca e Espanha com 30%.

É interessante o dado da Alemanha, a pátria de Lutero. Aqui, o tradicional equilíbrio entre católicos e protestantes sofreu uma fratura. Os protestantes descenderam até chegar a ser só de 28%, os católicos são 42% e os ateus ou agnósticos são já um quarto da população, com 24%.

Também na Itália os ateus e agnósticos aumentaram e são 15%, frente aos 78% dos católicos e o 1% dos protestantes.

No que diz respeito à prática religiosa entre os protestantes europeus, os que vão à igreja uma vez por semana praticamente desapareceram. São 3% na Dinamarca, 7% na Alemanha e, de qualquer modo, em quase todas as partes são menos de 10%. A única exceção é a Holanda, onde entre os poucos protestantes ainda existentes – 18% da população -, 43% vão à igreja semanalmente.

Vice-versa, sempre na Holanda, os católicos estão em queda livre: são 20% da população e apenas 5% vão à igreja uma vez por semana. Números pequenos também na Bélgica, com 8%; no Reino Unido, com 9%; na Áustria, com 11%; na França, com 13%; na Alemanha, com 14%. Acima de 20% são os casos de Itália, Portugal, Espanha e Irlanda.

Curiosamente, no que durante séculos existiu um dos mais fortes fatores de divisão, a saber: a convicção dos protestantes de que a salvação se obtém sola fide, ao passo que para os católicos a fé deve ser acompanhada de obras, o pêndulo se deslocou em favor dos segundos. Praticamente em todas as partes, ou seja, também entre os protestantes, a maioria pensa que ambas, fé e obras, são necessárias. A única exceção são os protestantes noruegueses, entre os quais a sola fide prevalece para 51% frente aos 30%.

No entanto, é necessário ressaltar que a sola fide luterana também encontra um grande número de defensores entre os católicos: na Itália e na Alemanha, um quarto dos católicos a defendem; no Reino Unido, França e Suíça, um terço.

No que diz respeito à comunhão aos protestantes nas missas católicas – e vice-versa, aos católicos nos cultos evangélicos -, a pesquisa realizada por Pew Research Center não indica nada. Mas, bem se sabe que é um comportamento cada vez mais difundido, certamente não podado, ao contrário, estimulado pelo que o Papa Francisco e o cardeal Walter Kasper disseram acerca do assunto.

Sandro Magister- Settimo Cielo.

Um total de 43 países no mundo tem religião oficial e, destes, a maioria é de muçulmanos: o Islão é a religião oficial de 27 países.

Já o Cristianismo é a religião oficial de 13 países, incluindo nove na Europa, segundo um estudo levado a cabo pela Pew Research Center.

Dos restantes países que têm religião oficial, dois – Camboja e Butão – adotam o budismo e um, Israel, o judaísmo.

As conclusões deste estudo baseiam-se nas leis oficiais de cada país, mas a Pew Research Center tem ainda uma categoria intermédia, na qual agrupa os países que, não tendo uma religião oficial, ainda assim dão tratamento privilegiado a uma ou mais confissões. O lote de exemplos inclui a Rússia, onde a Igreja Ortodoxa Russa tem privilégios em relação outros credos.

Uma dezena dos Estados apresentados neste documento são classificados como hostis para com qualquer religião. Todos esses Estados são oficialmente comunistas ou então repúblicas ex-soviéticas. A Coreia do Norte está na lista, juntamente com a China, Cuba e Vietname. Ao lote juntam-se Azerbaijão, Cazaquistão, Quirguistão, Tajiquistão, Turquemenistão e Uzbequistão.

Por fim, a vasta maioria dos Estados constam da lista dos países que, segundo a Pew Research Center, não têm religião oficial nem favorecem de forma particular qualquer religião. Há 106 países nesta categoria.

A maioria dos países cuja religião oficial é o Islão encontram-se no Médio Oriente e no Norte de África. As únicas exceções no Médio Oriente são Israel, naturalmente, o Líbano e a Síria. Alguns países asiáticos também professam oficialmente o Islã, incluindo o Paquistão e a Malásia, bem como alguns países de África subsaariana: o Djibouti, a Mauritânia e a Somália. As Maldivas, no Índico, também têm o Islã como religião de Estado.

Já a maioria dos 13 países oficialmente cristãos encontra-se na Europa. Dos nove países europeus nesta categoria a maioria são Estados protestantes do Norte, como a Dinamarca, a Islândia, a Noruega e o Reino Unido. Os únicos católicos são Malta, o Liechtenstein e o Mónaco.

Embora o Vaticano tenha estatuto de Estado independente e tenha como religião oficial o catolicismo, não foi considerado para efeitos desta análise. A Grécia e a Armênia, cristãos ortodoxos, completam a lista. Fora da Europa, a Costa Rica e a República Dominicana, na América, a Zâmbia, em África, e Tuvalu, no Pacífico, são oficialmente cristãos.

Cristianismo,“preferido”

Se o Islã tem vantagem no que diz respeito a países com religião oficial, o caso muda de figura quando a Pew elenca os países que tratam de forma privilegiada alguma fé. Aí é o cristianismo que fica em vantagem, com 28 países num total de 40. Há três – Sudão, Síria e Turquia – que não sendo oficialmente muçulmanos dão preferência ao islã, quatro que o fazem com o budismo e cinco que dão preferência a mais do que uma religião.

Nesta categoria de Estados que dão preferência a uma religião encontram-se dois países de língua oficial portuguesa, Angola e Cabo Verde, que favorecem o Cristianismo, e está também Espanha e Itália. Todos os outros países lusófonos estão na lista de países sem religião oficial e que não dão preferência a qualquer fé.

Segundo a Pew Research Center, ter uma religião oficial não significa a mesma coisa em todas as situações. Se nos países europeus, e cristãos em geral, o estatuto é em larga medida cerimonial, havendo liberdade para praticantes de outras religiões ou nenhuma, em alguns países muçulmanos o Islã é incontornável. Na Arábia Saudita, nos Comoroes, na Mauritânia e nas Maldivas, por exemplo, todos os cidadãos do país devem ser muçulmanos e em vários outros países os detentores de cargos públicos têm de professar essa religião. Contudo, em praticamente todos os países com religião oficial verifica-se que o Estado financia de alguma forma o credo dominante.

A Pew Research Center é um organização apartidária que se dedica à análise demográfica e de opinião numa variedade de áreas, incluindo a religião no espaço público. Este estudo contou com financiamento da Templeton Global Religious Futures Project, que analisa as alterações religiosas e o seu impacto nas sociedades mundiais.

Renascença

Vivemos dentro de 1984, a distopia de George Orwell, em que o Ministério da Verdade controlava as informações sobre o passado para influenciar o futuro com suas mentiras. Nesse revisionismo histórico, o legado ocidental precisa ser pintado como uma sucessão de horrores perpetrados pelo grande vilão da humanidade: o homem branco cristão. Eis o denominador comum de toda a marcha das minorias oprimidas.

Um livro que pode ajudar a lançar luz sobre essa questão é The Evolution of the West, de Nick Spencer, do Instituto Theos. Com abordagem histórica, ele tenta mostrar como o cristianismo influenciou nossas instituições modernas, reconhecendo o lado bom e o lado ruim dessa influência.

Mas um fato é inquestionável: tal evolução é indissociável da principal religião de nossa civilização. Suas impressões digitais se encontram em todos os grandes marcos civilizatórios. Alguns tentam reescrever essa trajetória como um mar de obscurantismo, preconceito e superstição, mas tal visão é que parece extremamente preconceituosa e obscura.

A começar pela ideia de que antes do cristianismo o mundo antigo vivia num ambiente secular, de tolerância, com liberdade e igualdade. Na verdade, a religião era onipresente, e a família era tudo: a fonte básica de identidade, com os paterfamilias agindo como magistrados com poderes quase ilimitados. À medida que o mundo mudou de cidades-Estado para impérios, os laços sociais localizados se afrouxaram, num progresso lento, reduzindo o papel do primogênito e dando status de cidadão a todos os filhos, enfraquecendo o poder dos paterfamilias.

Essa individuação gradual, que não se deu numa linha reta, teve apoio na mensagem de Cristo, ao revelar que Deus está potencialmente presente em cada crente. Por um ato de fé em Jesus, cada um poderia ter acesso ao amor divino, uma mensagem igualitária que tornava menos relevante a figura aristocrática do intermediário. Pensar não era mais um privilégio da elite social, e passava a se associar não ao status, mas à humildade.

O cristianismo, segundo Spencer, trouxe a nova ideia revolucionária para a associação humana em que pessoas se uniam com base no desejo e no amor, não mais apenas pelo laço de sangue ou interesses materiais comuns. Pela primeira vez, os humanos – todos os humanos – tinham uma identidade pré-social, sendo alguém antes de ter algum papel relacional definido. A Igreja era inclusiva e universal como nada existente na Antiguidade.

Havia também o aspecto da interiorização do indivíduo, ilustrado pelos monastérios e na figura dos monges. O reconhecimento desse lado interior teve impacto nas leis. Ajudou a introduzir a ideia de intencionalidade no Direito Penal, julgando que o que a pessoa pretendia merecia atenção além do ato objetivamente praticado. Isso ajudou a criar vereditos com base em evidências.

Os direitos das mulheres, o cuidado dos pobres, a escravidão atenuada, a igualdade jurídica, a consciência: nada disso era uma realidade na época, e é altamente duvidoso que qualquer um deles fosse sequer desejado por aquelas pessoas. Mas as sementes que tinham sido semeadas pelo cristianismo não foram totalmente destruídas no caos social e político da Idade Média. E elas germinaram com o tempo, com suas raízes plantadas lá atrás.

O autor usa vários relatos, textos e leis que mostram como a tendência já apontava nessa direção. Quando, por exemplo, o Concílio de Narbona, em 1054, conclui que “Nenhum cristão deve matar outro cristão, pois quem mata outro cristão indubitavelmente derrama o sangue de Cristo”, isso era parte dessa ideia que foi se desenvolvendo até chegar ao código de conduta de cavaleiros, destacando a cortesia, a honra e o cavalheirismo. Poderia ser hipócrita até, mas sem dúvida era um tremendo avanço em relação ao ambiente de violência irrestrita que o precedeu.

Havia, nas guildas e cidades, a emergência de uma esfera legal de segurança que seria um dia chamada de “sociedade civil”. A lei passava a ser mais centralizada e estruturada. A influência cristã na linguagem, na literatura e na cultura ocidentais é evidente e inegável. Até mesmo Richard Dawkins, um dos “quatro cavaleiros” do neoateísmo militante, reconhece que é impossível apreciar a literatura inglesa sem mergulhar de alguma forma na Bíblia. Não conhecê-la, admitiu o cientista, é ser de certa forma um bárbaro.

O cristianismo e a Bíblia foram centrais na formação da Grã-Bretanha, que por sua vez foi o grande farol da civilização ocidental. Quando essa civilização esteve ameaçada durante a Segunda Guerra Mundial, Churchill e os ingleses em geral encararam a “cruzada” em defesa da civilização cristã como peça central da narrativa de mobilização no combate ao inimigo.

Há muito mais evidência da influência cristã e da Igreja nas principais instituições ocidentais. A Magna Carta, por exemplo, que completou 800 anos recentemente, teve participação direta da Igreja, e uma cláusula negociada com o rei João especificava o direito de a Igreja inglesa permanecer livre, com seus direitos garantidos. Não era, ainda, o império impessoal das leis, claro, pois os “livres” eram parte de uma elite. Mas era a semente do Bill of Rights, plantada com ajuda essencial do cristianismo.

Se, por um lado, a Igreja ajudou na ideia de direito divino do monarca, por outro lado ela foi fundamental para limitar tais direitos e impor um código de conduta mais justo. Em conjunto, as responsabilidades que o cristianismo colocou sobre o rei – justiça, paz, cuidado com os fracos, moral pessoal – apontam na direção de um monarca que foi colocado em uma ordem política cuja legitimidade de sua posição dependia, de alguma forma, do cumprimento desses deveres. Era uma realeza sob Deus, orientada, ainda que por esperança, para o bem comum do povo.

Há também um debate interessante sobre a participação cristã no próprio humanismo secular, ou ainda na formação do welfare State. Mas o ponto central já está claro: não dá para fingir que o Ocidente moderno não tem ligação umbilical com o cristianismo. E, se consideramos a civilização ocidental digna de admiração e do esforço de ser preservada, talvez seja interessante questionar se é mesmo viável mantê-la sem o arcabouço religioso e moral que lhe deu, desde sempre, sustentação.

Rodrigo Constantino, economista e jornalista, é presidente do Conselho do Instituto Liberal.

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Quando eu era adolescente, fazia coisas típicas do início dos anos 70: mantinha o cabelo comprido, vestia calças boca de sino, usava gravatas largas, deixava abertos pelo menos os três primeiros botões da camisa e, é claro, ouvia rock-n-roll.

Mesmo assim, eu sentia um grande amor pelas coisas antigas. Acho que isso tinha alguma coisa a ver com a minha avó, Nana, que eu amava com profundo carinho. Ela se lamentava, com frequência, pela perda “das coisas e dos jeitos de antigamente”. Ela sentia saudade da missa em latim, dos “tempos em que havia boas maneiras”, em que as pessoas se vestiam bem, em que as coisas eram mais claras, em que “as meninas eram meninas e os homens eram homens”, como cantavam Archie e Edith no início de “All in the Family”. Ela também sentia falta do tempo em que as coisas eram feitas para durar e o plástico era praticamente desconhecido.

De alguma forma, o amor dela pelas coisas e pelos “jeitos de antigamente” me influenciou, embora eu me deixasse envolver também por algumas modas dos anos 70. A geração dos meus pais, nascida no final dos anos 20 e durante os anos 30 e, mais ainda, a geração nascida depois da Segunda Guerra Mundial, eram gerações um pouco iconoclastas. O lema delas parecia ser “Chega do que é velho e viva o que é novo!”. Novo e “melhorado”.

A minha mãe estava quase sempre querendo se livrar de alguma coisa velha. Eu me oferecia para jogar aquelas coisas fora, mas, na verdade, dava um jeito de escondê-las no sótão de casa: prataria, lâmpadas Tiffany, estátuas e peças diversas… Além disso, os edifícios antigos me fascinavam e eu odiava as “caixas de vidro” que estavam sendo construídas na década de 70. Também me lembrava das antigas igrejas da minha infância em Chicago, porque elas “pareciam igrejas mesmo”, e deplorava a “igreja moderna e feiosa” do meu bairro nos anos 70. Eu gostava de rock, mas não suportava a “música hippie” dos anos 60 que ainda predominava nas paróquias durante a década seguinte: “Kumbaya”, “Sons of God”… Aquelas letras terríveis, distribuídas para os fiéis em folhas mimeografadas, do tipo “Vamos cantar alelu, alelu, alelu, alelu-i-a!”…

Minha avó sempre falava da falta que sentia dos belos cantos litúrgicos antigos, do incenso, dos véus, dos sacerdotes usando batina e de tantas outras coisas. Eu a entendia e concordava com ela. Mas escondia as antiguidades tanto dos meus pais quanto da Igreja. Não via a hora em que a lucidez voltasse e toda aquela “velharia” fosse valorizada novamente.

E essa hora, de certa forma, chegou. Boa parte daquela iconoclastia que prevaleceu dos anos 50 até meados dos anos 80 deu lugar a um novo apreço pelas coisas antigas. No início dos anos 90, quando eu trouxe do sótão algumas das coisas que tinha guardado por lá, a minha mãe, estranhamente, voltou a gostar delas. Outros membros da família resolveram ficar com algumas das peças de prata. O meu cálice, como sacerdote, era uma daquelas peças velhas, que eu mesmo restaurei. As estátuas começaram a voltar para as igrejas. Alguns dos velhos hinos também retornaram. E a missa em latim, depois de anos e anos relegada aos porões, foi “espanada” e hoje volta a ser apreciada por muitos católicos, principalmente por católicos jovens. Eu também tive a felicidade de ajudar a restaurar duas igrejas antigas, devolvendo a elas o velho resplendor e desfazendo um pouco da iconoclastia que elas tinham sofrido. Além disso, eu uso a minha batina com bastante frequência.

Não me incomoda que existam igrejas de arquitetura mais moderna; algumas delas têm uma simplicidade realmente bonita. Mas nada me irrita mais do que ver uma bela igreja antiga “renovada” para evocar 1985, toda nua e despojada. Eu acho, felizmente, que essa época terrível está chegando ao fim.

Algumas coisas, talvez, tenham tido que ir “para o sótão” durante um tempo para poderem ser depois resgatadas e reapreciadas. Quaisquer que tenham sido as razões para a iconoclastia, principalmente na década de 1960, eu sinto que agora estamos recuperando um pouco de equilíbrio: um equilíbrio que não rejeita o que é novo, mas que ainda aprecia o que é antigo; um equilíbrio que acena para uma hermenêutica da continuidade, da qual fala o papa Francisco, em vez de optar pela ruptura e pela descontinuidade radical do passado; um equilíbrio sobre o qual Jesus nos diz: “Todo escriba que se tornou discípulo do reino dos céus é semelhante a um pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e velhas” (Mt 13,52).

Muita gente olha para trás e se admira com a grande ruptura e com o tsunami cultural que estamos sofrendo no Ocidente. Gostaríamos de saber como e por que tamanha perda de tradições. Há, é claro, inúmeras razões, mas eu gostaria de destacar apenas uma: o esquecimento.

As tradições são estabelecidas e mantidas por algum motivo. Fundamentalmente, elas simplificam a nossa vida ao nos darem estrutura, limites e expectativas. As pessoas conseguem navegar mais facilmente pelos mares da tradição. No entanto, um sinal de que a tradição representa um perigo é quando as pessoas se esquecem do seu objetivo; quando as pessoas se esquecem da origem da tradição e do porquê da sua observância; quando as pessoas se esquecem do que ela significa ou simboliza.

Imagine o que aconteceria se eu entrasse em uma máquina do tempo e voltasse para 1940, nesta mesma paróquia, e fizesse às pessoas algumas perguntas: Por que as mulheres usam véu e os homens não cobrem a cabeça? Por que as pessoas se ajoelham para receber a comunhão? Por que a missa é rezada em latim? Por que o sacerdote fica voltado para o altar? Por que todas essas coisas são feitas desse jeito? Eu suspeito que ouviria respostas como “Eu não sei, mas é assim que nós fazemos. Por que você não pergunta ao padre?”.

Eu me pergunto se a primeira fase da perda de uma tradição é esse momento em que ela não faz mais sentido consciente para as pessoas; quando não é mais claro para as pessoas o porquê de fazermos o que fazemos; quando tudo o que podemos dizer sobre ela é simplesmente que “é assim que nós fazemos”.

Quando o assunto são as tradições, corremos o risco, em certo momento, de que elas se petrifiquem, se mecanizem, virem cinzas de uma fogueira que já se apagou. Se não mantivermos acesos os dons do amor de Deus (cf. 2 Tim 1, 6), a nossa apreciação desses dons acaba esfriando e a sua beleza acaba se esfumaçando. Assim, quando alguém nos pergunta “O que é isso?”, devolvemos a pergunta indagando “Isso o quê, essa coisa velha?”. E, ao recebermos em retorno a sugestão de “jogar isso fora”, damos um aceno superficial e concordamos: “Boa ideia, vamos nos livrar disso”.

Todo o processo começa com o esquecimento. O esquecimento leva a uma falta de compreensão, que, por sua vez, abre o caminho para a falta de apreço. Tudo isso culmina num desdém pelas coisas antigas e pelas agora apagadas tradições, muito embora elas já tenham sustentado e emoldurado a nossa vida.

É claro que algumas coisas precisam ser deixadas de lado. Talvez haja um tempo e um lugar para “aposentar” certas coisas durante certo tempo, a fim de redescobri-las mais adiante. Mas o que temos vivido nos últimos sessenta anos tem ido além desse processo natural: tem sido uma ruptura, uma descontinuidade radical, que abalou muitos dos nossos alicerces, em especial a Igreja e a família.

Por isso, fazemos muito bem ao “recordar” muitas das nossas tradições. A palavra “recordar” sugere um processo de “recolocar no coração”, fazendo com que aquilo que já foi precioso volte a fazer parte do corpo, da Igreja, da família. Recordar muitas das nossas tradições perdidas, inclusive quando criamos novas tradições, é uma forma importante de assegurar a continuidade da nossa herança e o nosso vínculo com o corpo todo.

A tradição é a “democracia dos mortos”: ela permite que os nossos antepassados nos “digam” alguma coisa capaz de nos ajudar hoje. A tradição é uma forma de “recordar” a trajetória da Igreja, de homenagear as práticas dos antigos, aquele “jeito” que a minha avó lembrava com carinho, com saudade e com certo sentimento de perda. E era mesmo uma perda, mas uma perda que, acredito eu, estamos começando a remediar ao nos lembrarmos do melhor do nosso passado e ao recuperarmos as nossas tradições.

Estive pensando em tudo isso depois de rever um trecho do musical “Fiddler on the Roof” [“Um violinista no telhado”]. Ele foi escrito numa época em que as mudanças radicais dos últimos sessenta anos já estavam acontecendo. A canção “Tradição!” ridiculariza o tradicional e sugere que a tradição é o tipo de coisa que, essencialmente, mantém os homens no poder, submete as mulheres e força as crianças a viver num ambiente de casamentos arranjados e infelizes.

Um momento-chave da música é quando Tevye descreve a tradição do véu feminino nas orações: “Você pode perguntar ‘Como é que começou esta tradição?’. Eu vou lhe contar”. E, depois de uma pausa, ele diz: “Eu não sei, mas é uma tradição!”.

O primeiro sinal de que a tradição está em apuros é o esquecimento.

Mas o musical, escrito em 1964, capta muito bem as atitudes iconoclastas que emergiam na época: atitudes avessas à tradição de forma geral. Apesar disso, Tevye observa corretamente o que viemos a descobrir muito bem: “Sem as nossas tradições, a nossa vida seria tão instável quanto um violinista no telhado”.

Pe. Charles Pope

0011853627Paraguai e Equador são os países com maior número de católicos no continente.

Mesmo que o número de católicos tenha caído nos últimos anos, a América Latina continua sendo profundamente crente, com mais de 60% da população que se declara fiel da Igreja católica, embora nem todos na mesma medida.

Embora o número de católicos tenha caído no continente de 80% para 67% – de acordo com um informe do Latinobarómetro que foi divulgado no ano passado –, a realidade é que hoje mais da metade da população do continente continua sendo seguidora da Igreja de Roma liderada pelo Papa Francisco.

Isso é especialmente visível no Paraguai, que conta com 88% de fiéis, ou no Equador, com 81%. Ambos são os países com maior número de fiéis católicos, seguidos de perto por México e Venezuela, com 79%, embora outros estudos (como o do Centro de Pesquisa Pew, dos Estados Unidos) coloquem também nessa categoria a Colômbia. O caso do México merece uma menção à parte, pois ali o número de católicos não só não caiu nos últimos anos, mas teve um ligeiro aumento.

Embora 13% seja um número a ser reconhecido, a opinião majoritária dos especialistas é de interesse menor na América, que segue sendo hoje um dos feudos mais notáveis da religião católica.

O caso mais curioso talvez seja que a grande maioria daqueles que abandonam a Igreja católica não o fazem para virarem ateus ou agnósticos (algo que parece acontecer exclusivamente em dois países: Uruguai e Chile), mas que se convertem a outras religiões, na maioria dos casos à Igreja evangélica.

De fato, os protestantes cresceram na mesma proporção que o número de católicos diminuiu, sendo estes, além disso, mais praticantes e mais confiantes em sua instituição. 
Curiosamente, a religião que não consegue ter entrada entre os latino-americanos é a que cresce com maior rapidez no mundo: o Islã. Calcula-se que em 2050 o número de muçulmanos tenha aumentado 73% no mundo, transformando-se na religião mais numerosa; enquanto isso, na América Latina tenha conquistado apenas 13% da população.

É muito notável nestes números a figura do Papa Francisco, Jorge Mario Bergoglio, pois muitos são os especialistas que consideram que o trabalho do Santo Padre argentino freou muito a perda de fiéis (tema que o preocupa, como ele mesmo reconhecia para nós) em todo o mundo.

La Civiltà Cattolica Iberoamericana

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Recentemente, foi anunciado o fechamento de um número considerável de paróquias católicas no estado de Connecticut, Estados Unidos. Isso é somente uma parte do problema que está vivendo a Igreja na nação americana, especialmente nas dioceses do norte.

Sobre este aspecto, o monsenhor Charles Pope propôs, na revista Community in Mision, seis pontos para a reflexão, oferecendo aos fiéis americanos um guia para saber quais são as raízes do fenômeno e, portanto, para ajudá-los a enfrentar o problema com mais conhecimento.

  1. Os bispos não fecham as paróquias; são as pessoas que o fazem. É certo, entretanto, que, juridicamente, os bispos são os responsáveis por dar o certificado de reconhecimento de abertura, fechamento ou fusão das paróquias. Em última instância, é o povo de Deus que cria ou retira a necessidade de ter uma paróquia. A dura verdade é que, a cada dia, há mais católicos a favor dos anticoncepcionais e do aborto. O número de fiéis só cai. Nas áreas urbanas do noroeste dos Estados Unidos, somente 15% frequentam regularmente as missas dominicais. Houve uma falha na evangelização, mas as feridas mais profundas estão na diminuição da frequência nas missas e nossa incapacidade de transmitir a fé. Atualmente, estamos enterrando a última geração que ensinou que a missa do domingo é uma obrigação, que deveria ser cumprida – sob a pena de pecado mortal.
  2. Existe uma responsabilidade compartilhada. É fácil ficar zangado com os bispos e padres quando eles fecham as paróquias. Anos de má catequese, falta de pregação efetiva e liturgias mal celebradas estão na conta. E o clero deve ficar com a primeira responsabilidade sobre isso. No entanto, a divisão dos fiéis e o desvio da prática da fé também são fatores importantes. Há muitos padres que não pregam com firmeza nem insistem em uma doutrina clara. O preço disso é alto, sim, mas no final do dia, o clero não pode assumir a responsabilidade completa do problema nem abordá-lo por si só. A evangelização não pode ser só um problema da reitoria; em última instância, é um problema familiar. Os pais e avós devem se esforçar mais para reunir seus filhos em casa e serem testemunhos da força transformadora da liturgia e dos sacramentos.
  3. A liturgia tem culpa? Muitos culpam a liturgia da Igreja Católica por ser “enfadonha”, “monótona” e até “banal”. As soluções para este tema são, muitas vezes, desconcertantes e não cumprem com o objetivo, atraindo somente porções muito pequenas de fiéis. Por exemplo, alguns são a favor da reintrodução da missa tradicional, em latim. Com todo o encanto que isso possa ter, não há uma só diocese nos Estados Unidos em que essa forma de expressar a liturgia atraia mais de um por cento dos frequentadores da missa. Portanto, o problema parece ser mais profundo.
  4. O coração do problema é um mal-estar geral. Há pouca urgência; poucas pessoas parecem sentir a necessidade da fé, da Igreja, dos sacramentos ou da palavra de Deus. O universalismo (todos se salvarão) e o relativismo (tudo é verdade) dentro e fora da Igreja representaram o papel mais importante do problema. O que a Igreja oferece “não é necessário”. Os problemas dela “não são os problemas da modernidade”. A opinião comum em nossa cultura é que a religião é um pouco menos do que um acessório agradável para a vida. Quem se importa com isso?
  5. Como controlar a erosão da prática da fé católica? Como disse Ralph Martin, o primeiro passo deve ser reviver uma visão mais bíblica – com urgência – da salvação. O fato de muitas pessoas, inclusive entre o clero, dizerem que a salvação “não é um problema” não significa que não seja. Jesus dedicou muitas horas de pregação e muitas parábolas para nos alertar sobre a necessidade de merecer a salvação que Ele oferece. Mas muita gente não considera a confissão dos pecados, a frequência na missa e o recebimento da Eucaristia como caminhos para a salvação de nossas almas.
  6. Não cair na ilusão do chamado “discurso do medo”. Muitos temem o juízo de Deus. De algumas coisas temos que ter medo, incluindo nossa tendência a sermos de coração duro e tolo em relação à Graça e a preferir as coisas do mundo às verdades eternas. O pânico, com efeito não é útil. Mas a sobriedade, a necessidade vital dos sacramentos, a Palavra proclamada, a comunhão e o poder transformador da liturgia são.

É triste perder edifícios, muitos deles verdadeiras obras de arte. Mas é ainda mais triste refletir sobre a perda humana que os edifícios vazios representam.

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“Se há quem duvide da transição religiosa no Brasil, a capital do Acre é um exemplo de cidade que já promoveu a mudança de hegemonia entre católicos e evangélicos (especialmente para a população feminina e jovens). Impressiona o ritmo ocorrido nas últimas duas décadas, pois os católicos caíram cerca de 2% ao ano, enquanto para o Brasil a queda foi de 1% ao ano”, escreve José Eustáquio Diniz Alves, doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE, em artigo publicado por EcoDebate.

Depois de 500 anos de predominância católica, o Brasil está passando por uma transição religiosa, com declínio das filiações católicas e aumento das filiações evangélicas, além do aumento do percentual de outras religiões e do percentual de pessoas que se declaram sem religião.

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Esse fenômeno acontece em todo o território nacional, mas com ritmos diferentes nas regiões, nos estados e nos municípios. A Unidade da Federação com menor percentual de católicos era o Rio de Janeiro, com somente 45,8%, segundo o censo demográfico de 2010. A Unidade da Federação com maior percentual de evangélicos era Rondônia, com 33,8%.

Estes dois estados são os mais avançados na transição religiosa, segundo os últimos dados do IBGE. A razão entre evangélicos e católicos (REC) era de 71,1% em Rondônia e de 64,1% no Rio de Janeiro. Para o Brasil a REC era de 34,3% em 2010, significando que existia 34,3 evangélicos para cada 100 católicos.

Mas em termos das capitais, a cidade de Rio Branco, no Acre, é a mais adiantada na transição religiosa no Brasil, com uma REC de 100%, ou seja, o número de católicos e evangélicos estava praticamente empatado, em 2010.

O percentual de católicos na capital do Acre, em 1991, era de 82,4% e o percentual de evangélicos era de 10%. Mas tudo mudou rapidamente em menos de 20 anos. A tabela acima mostra que, para a população total do município, o percentual de católicos caiu para 61,5% em 2000 e declinou ainda mais para 39,9% em 2010, uma queda impressionante (de 42,5% em 19 anos e de 21,6% em 10 anos). O percentual de evangélicos passou de 23,3%, em 2000, para 39,8% em 2010, subindo 30% em 19 anos e 16,5% na última década. Outras religiões e sem religião somavam 20,3% em 2010.

Quando se analisa a população de 0 a 14 anos o percentual de católicos é ainda menor (34,1% em 2010) e o percentual de evangélicos é ainda maior (44,7%). Este padrão que se repete no país como um todo, mostra que existe um fator intergeracional na transição religiosa, pois as gerações mais jovens estão mais avançadas na transição religiosa e os idosos são os menos afeitos às mudanças de hegemonia.

Quando se considera apenas a população feminina, a capital do Acre já completou a transição religiosa, pois as filiações católicas representavam 38,6% entre as mulheres e as filiações evangélicas representavam 43,4%, em 2010. Outras religiões e sem religião somavam 18% em 2010. Entre as mulheres jovens a mudança de hegemonia é ainda mais visível.

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Artigo do Portal G1 (24/01/2014) mostra que a transição religiosa em Rio Branco foi acompanhada pela multiplicação dos templos evangélicos. Somente nas ruas Valdomiro Lopes e Rua da Conquista, no Bairro da Paz, há mais de sete igrejas evangélicas ao longo de pouco mais de 1 km. O número de templos pode ser decisivo na conquista de fiéis, pois as pessoas tendem a frequentar as igrejas próximas de suas residências.

Se há quem duvide da transição religiosa no Brasil, a capital do Acre é um exemplo de cidade que já promoveu a mudança de hegemonia entre católicos e evangélicos (especialmente para a população feminina e jovens). Impressiona o ritmo ocorrido nas últimas duas décadas, pois os católicos caíram cerca de 2% ao ano, enquanto para o Brasil a queda foi de 1% ao ano. Resta saber se a cidade de Rio Branco é uma exceção ou se as demais capitais também vão seguir este mesmo processo. A resposta deve ser dada no censo demográfico de 2020, quando teremos um panorama atualizado das filiações religiosas em todos os municípios brasileiros.

Referências:

ALVES, J. E. D; NOVELLINO, M. S. F. A dinâmica das filiações religiosas no Rio de Janeiro: 1991-2000. Um recorte por Educação, Cor, Geração e Gênero. In: Patarra, Neide; Ajara, Cesar; Souto, Jane. (Org.). A ENCE aos 50 anos, um olhar sobre o Rio de Janeiro. RJ, ENCE/IBGE, 2006, v. 1, p. 275-308
https://pt.scribd.com/doc/249670739/A-dinamica-das-filiacoes-religiosas-no-Rio-de-Janeiro-1991-2000-Um-recorte-por-educacao-cor-geracao-e-genero

ALVES, JED, CAVENGHI, S. BARROS, LFW. A transição religiosa brasileira e o processo de difusão das filiações evangélicas no Rio de Janeiro, PUC/MG, Belo Horizonte, Revista Horizonte – Dossiê: Religião e Demografia, v. 12, n. 36, out./dez. 2014, pp. 1055-1085

ALVES, JED, BARROS, LFW, CAVENAGHI, S. A dinâmica das filiações religiosas no brasil entre 2000 e 2010: diversificação e processo de mudança de hegemonia. REVER (PUC-SP), v. 12, p. 145-174, 2012.

ALVES, JED. “A encíclica Laudato Si’: ecologia integral, gênero e ecologia profunda”, Belo Horizonte, Revista Horizonte, Dossiê: Relações de Gênero e Religião, Puc-MG, vol. 13, no. 39, Jul./Set. 2015

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O intelectual não pode viver em uma torre de marfim. E, se for católico, tem que “decifrar o sentido do presente” e “combater o cinismo em todas as suas formas.” São dois dos deveres imprescindíveis do intelectual católico do nosso tempo que o filósofo da Universidade Ramon Llull, Francesc Torralba , compartilhou no II Congresso da revista Questions de Vida Cristiana e da Fundació Joan Maragall, que aconteceu no mosteiro beneditino catalão de Montserrat.

Veja outros deveres do intelectual católico, segundo o filósofo:

  1. Decifrar o significado do presente, articular uma cartografia do agora, explorando os vetores que movem a cultura e as tendências da época. Este dever requer a habilidade de detectar o que é de boa fé, puro, verdadeiro e bom e, por outro lado, exige a capacidade de entender a obscuridade do presente.
  2. Recriar linguisticamente a herança recebida, articulá-la mediante um jogo de linguagem que seja significativo, claro e inteligível para o homem e a mulher de hoje. Evitar cair no tradicionalismo pétreo e, da mesma forma, na “novolatria” (idolatria do que é novo).
  3. Manter um compromisso ativo com a racionalidade, identificando seus potenciais e limitações, evitando cair no sentimentalismo, mas também não atendo somente ao racionalismo. Espera-se que um intelectual católico lute contra a credulidade e o fideísmo.
  4. Construir pontes com as tradições espirituais e religiosas da humanidade, e, quando possível, com novas formas de espiritualidade laica que emergem às margens das instituições formalmente articuladas.
  5. Articular uma chamada profética a favor dos mais vulneráveis, dos excluídos e dos que estão à margem de nossa sociedade – e atuar em defesa da dignidade inerente à toda pessoa humana.
  6. Não renunciar o criticismo moderno e desenvolvê-lo tanto ad intra (dentro da instituição eclesial), quanto ad extra (o mundo). Viver o sentido de pertinência sem complexos e não se esquivar da dor de ser membro da Igreja em certas ocasiões.
  7. Apostar na visibilidade midiática. Existir no ágora digital, ter a audácia de estar presente neste espaço e propor a própria cosmovisão. Recusar a hipervisibilidade e, por outro lado, a tendência à marginalidade e ao refúgio no calor do rebanho. Colocar-se para fora, ter a audácia de estar na praça pública e, se convier, de ser ferido.
  8. Comprometer-se com as causas nobres da sociedade. Lutar contra o puritanismo moral e o perfeccionismo, a moral da elite e a tendência de jogar o papel do espectador neutro. Não há neutralidade para o intelectual católico. É necessário ser ator; não espectador passivo do mundo. É preciso lutar para melhorar o mundo, participando de organizações que transformam a sociedade.
  9. Reconhecer as grandes produções artísticas, culturais e filosóficas da cultura laica. Também reconhecer as manifestações do ateísmo dos séculos XIX e XX e do humanismo ateu em todas as suas formas. Não se sentir provocado pelo laicismo de voo galináceo.
  10. Articular um discurso de esperança, capaz de combater racionalmente a tendência ao niilismo histórico e, especialmente, não se deixar vencer pelo desânimo diante dos acontecimentos. O intelectual católico deve combater o cinismo em todas as suas formas – inclusive aquele que pode nascer em seu interior.

Autor: Miriam Diez Bosch

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O livro que delineia essa previsão, “A Antologia do Cristianismo Africano”, foi apresentado na Universidade de Bossey, na Suíça.

“O cristianismo está crescendo mais rápido na África do que em qualquer outra parte do mundo”, disse Lawrence Iwuamadi, professor de Ecumenismo e Hermenêutica Bíblica no Instituto Ecumênico do Conselho Mundial de Igrejas (CMI) de Bossey. A ocasião foi uma discussão convocada para apresentar a “Antologia do Cristianismo Africano”, no Instituto de Bossey, no dia 15 de fevereiro passado, da qual participaram inúmeros especialistas convidados para a prestigiosa sede em Genebra.

Dos dados contidos no livro, emerge que, “nos próximos quatro anos, um quarto dos cristãos de todo o mundo viverá na África”, destacou Iwuamadi, que afirmou que “a antologia é pontual nas suas 1.400 páginas e é um precioso recurso analítico”.

Cento e sessenta artigos abordam, com 30 pesquisas regionais e confessionais e mais de 50 pesquisas nacionais, as questões sociais e políticas contemporâneas enfrentadas pelos cristãos no continente. “A educação certamente foi o fator determinante para a difusão do cristianismo”, acrescentou Iwuamadi.

O livro examina ainda o papel das mulheres na Igreja na África, onde “se evidencia como elas são hoje a ‘espinha dorsal’ do cristianismo”, concluiu.

A “Antologia do Cristianismo Africano” foi editada por Isabel Apawo Phiri, Dietrich Werner, Chammah Kaunda e Kennedy Owino e publicada pela Regnum Studies in Global Christianity 2016.

“O livro é também um precioso instrumento para fazer avançar o ecumenismo”, disse Werner, ex-diretor do CMI: “O ecumenismo só terá futuro se for informado. Temos sempre muitas declarações comuns, mas pouco conhecimento sobre o cristianismo contemporâneo.”

“Quisemos também inserir nos capítulos análises contemporâneas, focadas no cristianismo que se espalhou na África do Norte, na África ocidental, oriental e meridional”, disse a vice-secretária-geral do CMI, Apawo Phiri.

Respondendo a uma pergunta, Phiri disse ainda: “A teologia do cristianismo africano certamente foi influenciada pelo contexto social em que operava. Por exemplo, a sexualidade em algumas áreas pode ser percebida ainda hoje como um problema”.

Um conhecimento profundo do cristianismo é necessário tanto para os governos quanto para as Nações Unidas, afirmou-se em Bossey, “e muitas vezes essas instituições nos pedem para trabalhar ao seu lado”.

Benjamin Simon, professor de Missiologia Ecumênica no Instituto de Bossey, descreveu a “Antologia” como um maravilhoso “buquê de flores”, com os seus 20 artigos elaborados por teólogos famosos e provenientes de ambientes africanos. “Um único capítulo do livro pode ser considerado um livro, um ‘buquê de flores’ pela variedade de posições e opiniões, além de perspectivas e de pontos de vista”, disse também Simon.

Riforma.it

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“O cristianismo no tempo do Papa Francisco” é o tema do congresso de estudos que se realizou em Roma nos dias 19 e 20 de janeiro, na Sociedade Dante Alighierino Palazzo Firenze. O congresso, promovido pela Universidade de Roma II, pela Universidade Católica de Milão, pela Universidade para Estrangeiros de Perugia e pela World History Academy, contou com a participação de renomados historiadores de todo o mundo sobre os temas tão caros a Bergoglio: centros e periferias, globalização, história, cultura e teologia, e perspectivas futuras.

Entre os palestrantes, estavam o cardeal Walter Kasper, Mons. Dario E. Viganò, o teólogo Pierangelo Sequeri, os historiadores Andrea Riccardi, Agostino Giovagnoli, Jean Pierre Bastienne, Jean François Colosimo, Massimo Faggioli, Marta Margotti, Francesco Bonini e Mariella Pieroni.

“No título do tema não está indicado o catolicismo, mas o cristianismo em Francisco”, afirma Agostino Giovagnoli, “porque, no catolicismo do papa, a parte ecumênica é uma realidade fundamental.” Além disso, por um lado, a eleição de Francisco foi menos casual do que se possa pensar, mas “foi o fruto de dinâmicas históricas de décadas e, por outro lado, o seu pontificado leva as periferias para o centro e insere uma mudança profunda em uma realidade como a católica que, durante séculos, foi marcada por uma lógica territorial. Francisco, portanto, é um líder cristão em uma realidade mais ampla do que a Igreja Católica apenas”.

O papa é contemporâneo de Trump e de Putin, e emerge em relação aos líderes políticos pela sua força profética e alternativa, acrescenta Giovagnoli: “Esse pontificado está profundamente ligado à realidade histórica, mas a sua novidade não está ligada apenas à sua energia pessoal, à sua espiritualidade, mas, na realidade, Franciscotambém é expressão de uma mudança que é irreversível e, portanto, o seu papado é impensável como um parêntese, porque a realidade do mundo globalizado apresenta desafios diferentes dos tradicionais”, e o papa argentino os encarna no respeito à tradição, mas, principalmente, na fidelidade ao Evangelho.

As vozes críticas contra o Papa Francisco expressam um preconceito muito eurocêntrico, continua Giovagnoli. “Imputa-se ao papa sul-americano que ele não tem uma sólida preparação teológica, porque a teologia do povo, aos olhos daqueles que movem as críticas, vale pouco. A perspectiva, para o papa argentino, é iniciar os processos, e muitos deles foram iniciados.”

No congresso, essa visão foi ilustrada, porque – continua o professor da Católica –, “em Bergoglio, há um modelo alternativo, que é um cristianismo de minorias, coeso, identitário e perdedor em relação ao mundo globalizado. Existem nostalgias de um modelo do passado, que parece largamente inadequado para falar com o mundo de hoje, que precisa de uma Igreja que deve ser missionária e estar à escuta.”

“Nos próximos anos, o seu papado – explica Giovagnoli – poderá reservar algumas surpresas na relação com a China, nas relações com a Ortodoxia e, em particular, com a Rússia. E, além disso, o grande desafio da Igreja em saída, que deverá fazer cada vez menos as contas com as suas forças institucionais, com a sua capacidade organizativa, com a aplicação do direito canônico, em suma, com tudo aquilo que ele herdou do passado, para se preparar para uma novidade pastoral como a delineada pela Amoris laetitia.”

Uma das passagens mais interessantes do congresso foi apresentada por Massimo Faggioli, que falou dos leigos na Igreja em tempos de Francisco. “Há uma relação estreita entre a crise da democracia e a crise do laicato católico organizado”, afirma o professor de Ferrara, que ensina nos Estados Unidos.

“O laicato católico global não se identifica mais com aquele estrato social de extração europeia que se colocava entre o proletariado e a burguesia média-alta. As novas ênfases do magistério de Francisco sobre o matrimônio e a família são fruto dessa mutação. Bergoglio percebeu essa estagnação do movimentismo católico, uma estagnação em termos de impulso propulsor, senão também em termos demográficos. Tons totalmente novos vêm de Francisco em relação ao laicato católico organizado, quando o papa adverte contra a tentação de utilizar a experiência do movimento-associação como refúgio para católicos cultural ideologicamente afins.”

“A mensagem de Francisco continua no rastro da eclesiologia católica do século XX e conciliar, superando não só a eclesiologia dos duo genera christianorum, mas também a eclesiologia do duo genera laicorum. Francisco arquivou a ideia de uma superioridade do laicato organizado e ideologicamente orgânico ao pontificado como o modelo perfeito de laicato saudável, superior ao laicato indistinto dentro da comunhão eclesial”, conclui Faggioli.

Na introdução do congresso, Andrea Riccardi desenvolveu uma reflexão sobre a “Igreja entre centro e periferia”. O papa – sublinhou o historiador, fundador da Comunidade de Santo Egídio, além de presidente da Sociedade Dante Alighieri– é tanto “profeta” quanto “homem de governo”, e, embora Francisco expresse apreço por um estilo colegial e sinodal, “parece-me – ressaltou Riccardi, recapitulando os quase quatro anos de pontificado do papa chamado “quase do fim do mundo” para relançar, com uma reforma, uma Igreja e uma Cúria marcadas em 2013 por uma crise profunda – que há uma verticalização no governo da Igreja, à espera de que emerja uma renovação profunda à qual o papa incentiva como profeta”.

Nesse contexto, a “reforma do centro para a periferia”, personificada pelo papa, “em certo sentido, ainda não tomou forma”, enquanto “aquela sobre a qual o Papa Francisco trabalha mais, eu diria, é uma revolução cultural de longo prazo”.

A reforma de Jorge Mario Bergoglio, em suma, não tem um “desenho orgânico e eclesiológico”, como aquele promovido por Paulo VI na sua época, que, com a pressão do Concílio Vaticano II, em apenas dois anos, mudou profundamente o pessoal da Cúria.

Não é um programa detalhado como o que fez Paulo VI, mas sim um “processo”, que, por si só, “não é controlável”. Daí a pergunta: “Em um processo, tudo depende não de quem o coloca em movimento, mas da recepção”, por parte de pastores, fiéis, sujeitos eclesiais, e a reforma do Papa Francisco está despertando “adesões, resistências e também indiferença”.

Esse, para Riccardi, é o “grande desafio”, porque “a bola passa para o campo dos vários sujeitos eclesiais”. O Papa Francisco “vai incidir sobre a história de longo prazo do catolicismo?” Jorge Mario Bergoglio “terá sucesso?” Para responder, “não devemos olhar só para o papa, mas também para a realidade da Igreja do século XXI, para como os vários sujeitos aderem, resistem ou são indiferentes”, disse o historiador.

O risco, para aqueles que tentam entender e descrever o papado, é que “a observação pare no papa, não vendo a miríade de setores do catolicismo, mas que, em grande parte, determinarão o sucesso ou o insucesso daquilo que o Papa Francisco inicia”

Por Luca Rolandi

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Notícias vindas dos Estados Unidos dizem que um milhão de pessoas se converteram ao Catolicismo em apenas oito anos.(*)

Com efeito, de 2005 a 2012 a Igreja Católica incorporou, pelo batismo ou por sua adesão à fé os que já eram batizados em outras comunidades cristãs, um milhão de adultos.

Em 2012 — último ano do qual se tem dados concretos —, dos que ingressaram na Igreja pelo batismo 13% eram adultos e 87% crianças.

Alguns números

Felizmente isso vem aumentando. Por exemplo, em 2016 forão batizados na Diocese de Galveston-Houston 2.300 catecúmenos, somados aos que já o eram, mas que serão recebidos agora na plena comunhão católica. Eles são 1.913 em Atlanta, 1.666 em Los Angeles e 1.350 em Nova York.

Já a Arquidiocese de Washington batizou na última Páscoa mais de 650 catecúmenos adultos.

         “Além dos catecúmenos, nos Estados Unidos são frequentes os ‘candidatos’: são cristãos batizados principalmente em igrejas protestantes que entram agora na Igreja Católica com uma cerimônia de acolhida, recebendo depois a Confirmação, a Confissão e a Primeira Comunhão”.

Por outro lado, é grande o número dos que retornam com convicção à fé da qual se afastaram por fraqueza. No total dos católicos adultos, eles representam 9%. Ou seja, mais de 5 milhões num total de 78 milhões de católicos.

Conversões nos bolsões protestantes

 

Mesmo nos bolsões protestantes do sul dos Estados Unidos, onde predominam os protestantes, particularmente batistas, continua a haver conversões ao Catolicismo.

Por exemplo, em Louisville, Kentucky, onde os católicos são apenas 17% da população, a recepção de adultos na Igreja se mantém estável, em torno de 450 por ano. Seu arcebispo, Dom Joseph Kurtz, foi eleito presidente da Conferência Episcopal, sendo conhecido por rezar o Rosário de joelhos em frente às clínicas de aborto.

Para dar um exemplo de conversão ao Catolicismo nessas regiões predominantemente protestantes, citemos o caso de Débora Kerr, que de metodista se tornou católica na Vigília Pascal de 2013. Na Páscoa deste ano, seu exemplo atraiu para a Igreja, sua mãe e seu padrasto, juntamente com outros 109 catecúmenos e 239 ‘candidatos’ da diocese de Kansas City. Convém notar que nessa diocese os católicos formam apenas 16% da população.

A mãe de Débora, que foi educada desde pequena como metodista, afirmou sobre sua conversão: “Vi minha filha tornar-se católica, e simplesmente senti pela primeira vez em minha vida que estava na casa de Deus.”

Outros exemplos de novos convertidos

 

A título de amostragem, a Conferência Episcopal Americana apresenta dois exemplos dos novos catecúmenos que pedem o batismo. Um é o estudante de engenharia Jian Wang, nascido na China, que perdeu o pai quando era adolescente e foi abandonado pela mãe, levando vida muito dura.

Morando no país do norte, viu há alguns meses na Internet a oração da Ave Maria. Ficou tão comovido, que desejou conhecer mais. Entrou então em contato com o centro católico de sua universidade, e começou a estudar a nossa Religião. Ele se batizará em breve, juntamente com outros 113 catecúmenos da Diocese de Metuchen, Nova Jersey.

O segundo exemplo é de David Cupp, em Detroit. Casado por 40 anos com uma devota católica, não se interessara até então por religião. Depois do falecimento da esposa, mudou sua forma de pensar e quis ser recebido na Igreja Católica. Como havia sido batizado quando pequeno numa Igreja protestante, cujo batismo era válido, agora fará a profissão de fé católica e receberá o sacramento da Confirmação, “convencido de que há um Deus verdadeiro, e que isso te mantém lúcido”.

Fatores que ajudam a conversão


Importa notar que a maioria dos novos conversos acredita que a entrada na Igreja não é um final, mas sim um princípio de nova vida.

As causas de uma conversão à fé católica são muito diversas e dependem especialmente de uma graça do Divino Espírito Santo. Mas elas têm, em sua maioria, relação com um ente querido católico, como uma noiva, esposo, família católica acolhedora etc.

Interessante estudo publicado por um blog especializado em estatística sócio-religiosa (Nineteensixty-four.blogspot.co.uk) revela que nos Estados Unidos apenas 30% dos que foram educados como ateus na infância se mantêm como tais quando adultos, pois o ateísmo tem baixa taxa de adesão no país.

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(*) Utilizamos para este artigo os dados dos sites  http://www.rcia.org.uk/blog/wp-content/uploads/2016/05/1-Non-Church-going-neophytes.pdf, e http://www.religionenlibertad.com/crece-el-numero-de-adultos-que-se-haran-catolicos-esta-pascua-34867.htm e http://www.religionenlibertad.com/en-8-anos-un-millon-de-adultos-se-han-hecho-catolicos-34975.htm

  • Worshippers pray during a candle light vigil at the Our Lady of Fatima shrine, in Fatima, central Portugal, Tuesday, May 12, 2015. Every year on May 12 and 13 tens of thousands of Catholic believers go on pilgrimage to the Fatima's sanctuary to pray and attend masses where the Virgin Mary is believed to be witnessed by three shepherds children Lucia, Jacinta and Francisco in 1917. (AP Photo/Francisco Seco)

    O Brasil ficou menos católico. De outubro de 2014 a dezembro deste ano, a primeira religião cristã do mundo perdeu ao menos 9 milhões de fiéis, ou 6% dos brasileiros maiores de 16 anos, segundo pesquisa Datafolha.

    Há dois anos, eram 60% os que se declaravam católicos; neste ano, são 50%. Como a margem de erro é de dois pontos para mais ou para menos, a queda foi de no mínimo 6 e no máximo 14 pontos percentuais –nesse cenário, seriam mais de 20 milhões de fiéis (algo como a população da Grande São Paulo).No mesmo período, a fatia dos que dizem não ter uma religião mais que dobrou, de 6% para 14%. Mas isso não quer dizer que essas pessoas tenham perdido a crença, diz o professor de sociologia da USP Reginaldo Prandi.

    Segundo ele, no mundo todo é cada vez mais comum que as pessoas não se prendam a uma instituição religiosa apenas, ou que exerçam a espiritualidade sem pertencer a uma igreja.

    “Pode não ter religião hoje e ter amanhã. Ficou muito ao sabor da época da vida, dos compromissos que se quer assumir. A religião deixou de ser condição obrigatória para ser bom cidadão.”

    O Datafolha ouviu 2.828 brasileiros maiores de 16 anos selecionados por sorteio aleatório, em amostragem representativa da população.

    Feita em 174 municípios, a pesquisa tem margem de erro de 2 pontos percentuais para mais ou para menos (nível de confiança de 95%).

    Infográfico: GEOGRAFIA DA CRUZ – % de evangélicos por região do país

     

    Dados do Centro Global de Estudos da Cristandade mostram que mesmo os católicos crescem a taxas maiores que a população com um todo, ou sejam, aumentam sua presença no mundo, enquanto encolhe a fatia dos não religiosos.

    O ritmo de crescimento da população total é 1,21% ao ano, o de católicos, 1,28%, o de evangélicos, 2,12% e o de pentencostais, 2,20%. As religiões independentes se expandem a taxas de 2,21% (chegando a 2,94% na Ásia).

    Já os sem-religião crescem 0,31% por ano, os agnósticos, 0,36%, e os ateus, 0,05%.

    No Brasil, ainda que a redução recente na porcentagem de católicos não tenha sido acompanhada por expansão de evangélicos, metade dos protestantes saíram da Igreja Católica, onde foram criados, segundo pesquisa do Instituto Pew.

    A mudança de religião se dá antes dos 25 anos, e os convertidos citam como principais motivos para a mudança a maior conexão com Deus (77%) e o estilo de culto da nova igreja (68%).

    Mais da metade diz que procurava mais ênfase em moralidade ou encontrou mais ajuda.

    Folha de SP

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Danielle Bean, editora-chefe da revista católica Catholic Digest (editada pela Bayard) analisa a votação pró-Trump por parte dos eleitores católicos.

Os eleitores católicos votaram majoritariamente (52%) em Donald Trump. Isso lhe surpreendeu?

Não, não é uma surpresa, não mais do que poderia ser para outra categoria. A desconfiança em relação ao establishment, que foi um dos principais motores da eleição de Donald Trump, não é especificamente uma questão de fé… Mas é verdade que, para muitos católicos, a escolha entre Hillary Clinton e Donald Trump pareceu ser, por muito tempo, difícil de fazer. Eu observei uma mudança nesse nível perto do fim da campanha. Alguns se conscientizaram da necessidade de votar, do fato de que não fazê-lo seria uma oportunidade perdida, mesmo que se tratasse de escolher o menor dos males. Alguns até votaram em um candidato independente… Mas muitos católicos, até o fim, não esconderam que, no dia da eleição, ficariam em casa.

O posicionamento “pró-vida” manifestado por Trump teve um papel na escolha dos católicos?

A questão das posições “pró-vida” ou “pró-escolha” dos candidato é sempre um debate central para os eleitores católicos. Acho que, desta vez, também havia o problema de saber se Donald Trump era realmente “pró-vida”. De fato, ele proclama isso desde o início da campanha, mas, no passado, ele se disse por muito tempo favorável ao aborto. Como muitos, eu não confio em Trump nessa questão. Ao contrário, acho que o companheiro a vice-presidente, Mike Pence, é realmente sincero. Pessoalmente, preferiria muito mais que Mike Pence fosse o candidato a presidente.
É verdade que Donald Trump, embora não seja cristão, soube se cercar de cristãos, o que tranquilizou certos eleitores. Outro tema que certamente influenciou foi o da liberdade religiosa. É preciso que só Trump se manifestou claramente sobre esse tema [ele se comprometeu a defender a liberdade religiosa em uma carta à conferência anual dos responsáveis católicos, no início de outubro]. E, depois, muitos cristãos e católicos se sentiram desprezados ou até mesmo perseguidos por Obama. Pense-se nas Irmãzinhas dos Pobres forçadas a pagar pela contracepção das suas empregadas…

Entre os e-mails das pessoas da comitiva de Hillary Clinton revelados pelo Wikileaks no início de outubro, alguns mostravam um certo desprezo pelos católicos. Membros da sua equipe se expressavam até sobre a necessidade de estabelecer uma “primavera católica” dentro da Igreja, para levar adiante as suas ideias progressistas. Que consequências tiveram essas revelações?

Foram revelações importantes para os católicos estadunidenses. Abriram-lhes os olhos para aquilo que a frente progressista era capaz de organizar a fim de interferir na religião. É claro, não eram e-mails escritos por Hillary Clinton, mas pelo diretor da sua campanha. Mas isso mostrou de forma chocante uma forma de desprezo, que muitos compartilham na sua comitiva, em relação aos crentes. Eu acho que muitos católicos já tinham essa sensação. Mas o fato de vê-la tão claramente expressa, com as suas próprias palavras, agravou essa impressão. Mesmo que, no fim, eu acho que houve tantos “escândalos” e “revelações” durante essa campanha, de ambas as partes, que as pessoas acabaram ficando um pouco insensíveis.

No dia seguinte após essa eleição, a sociedade estadunidense parece muito dividida. Os católicos estadunidenses também estão?

É difícil dizer. Há pessoas decepcionadas, isso é certo, particularmente na mídia católica, que são muito polarizados. A campanha eleitoral foi terrível. O principal compromisso para quem foi eleito e para o conjunto da sociedade, agora, é o de trabalhar para recuperar a unidade, para redescobrir os nossos valores comuns. A partir desse ponto de vista, acho que o primeiro discurso de Donald Trump após a eleição deu motivo de esperança. As divisões ainda estão presentes, ainda estamos imersos no clima das eleições. E devo dizer que estou um pouco decepcionada com as manifestações, porque eu acredito que devem ser respeitadas as escolhas democráticas dos estadunidenses. Mas eu tenho confiança no povo estadunidense e nos católicos estadunidenses. Já vivemos um clima semelhante depois de outras eleições.

A reportagem é de Gauthier Vaillant, publicada no sítio da revista La Croix, 11-11-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.