O suicídio não é um problema que afeta somente os famosos endinheirados, como mostram as notícias. Nem se limita aos que sofrem de depressão ou de alguma doença mental. Trata-se de uma multifacetada e complexa epidemia, que precisa ser entendida. E um estudo publicado dois anos atrás nos ajuda nesta missão.

Segundo pesquisa divulgada pela Revista da Associação Médica Americana, o suicídio não é um “fenômeno evanescente”. Outra constatação: estudo feito por enfermeiras comprovou que “entre um grupo de 6.999 mulheres católicas que assistiam à Missa mais de uma vez por semana não houve nenhum caso de suicídio”.

Entretanto, seria terrivelmente errôneo inferir desta estatística a ideia de que quem sofre de depressão ou perdeu algum familiar para o suicídio não é católico. A fé não é, em si, um remédio para enfermidade, seja ela mental ou física. Estou seguro que há uma extensa lista de pessoas que cometeram suicídio mesmo sendo católicas praticantes. No entanto, aposto que há uma lista ainda maior de pessoas que, se não fosse a fé que possuem, teriam se suicidado.

Os católicos têm o dever de saber que a religião, especialmente o Catolicismo, faz a diferença e também precisam descobrir como podemos ajudar o nosso próximo, que, por ventura, tenha pensamentos depressivos ou suicidas. Somos chamados a nos envolvermos nesta questão – e somos mais fortes para isso do que pensamos.

A religião dá o sentido de pertença de que precisamos

Os seres humanos não conseguem sobreviver sem a comunidade, e a religião cria uma comunidade melhor do que qualquer outra coisa.

No livro “The Righteous Mind” [“A Mente Justa”], Jonathan Haidt abre um capítulo entitulado “A religião é um esporte de equipe” e faz uma comparação com uma partida de futebol na Universidade da Virgínia a partir do ponto de vista de um torcedor. Segundo o autor, o culto religioso faz a mesma coisa que uma partida de futebol, mas de maneira embasada. Haidt afirma que as críticas à religião a reduzem ao “crer e fazer”, mas o sentimento de propriedade e aproximação inerentes a ela é igualmente importante. Haidt prova que a religião é o fator que muda tudo para os seres humanos, permitindo que eles façam o que nenhum outro animal é capaz: “cooperar sem ter parentesco” e construir cidades e nações.

A sociedade secularizada, do Vila Sésamo às redes sociais, tentou criar o sentimento de propriedade sem Deus – e fracassou. O mundo pede a gritos o que somente a religião é capaz de dar.

A prática católica da Confissão desempenha papel importante

Se o grupo em que não houve suicídios ia à Missa mais de uma vez por semana, podemos apostar que seus membros também se confessavam. A principal ação da Confissão é no campo espiritual. Mas este sacramento também tem efeitos psicológicos significativos.

Eu ouvi uma das minhas histórias favoritas sobre a Confissão da boca de uma psicoterapeuta. A paciente dela tinha passado por um terrível ciclo de depressão. Nada parecia ajudar. Certo dia, ela se encontrou com a paciente em frente a uma igreja católica. Elas se esconderam dentro do local por causa de uma forte chuva e, lá, viram pessoas que estavam se confessando.

– Devo ir também?, perguntou a paciente.
– Não!, disse a terapeuta. Ela pensou que a Confissão faria com que a sua paciente ficasse cheia de culpas, o que aumentaria ainda mais o ódio que ela sentia de sim mesma.

Mesmo assim, a paciente entrou no confessionário e saiu de lá com um sorriso que não se via há anos e que se repetiu nas semanas seguintes. A terapeuta, por sua vez, estudou mais sobre a confissão e acabou se convertendo ao Catolicismo. Agora, recomenda que seus pacientes católicos se confessem regularmente.

A Confissão nos oferece um recomeço; é uma oportunidade para dizer a outro ser humano (e a Deus): “lamento muito o que eu fiz”. Também é um oportuno momento para ouvir: “o Senhor o absolve de seus pecados. Vá em paz”. O benefício disso é incalculável.

A fé protege contra o desespero

“As convicções e práticas religiosas podem ajudar as pessoas a fomentar um sentimento de esperança, inclusive em meio a grandes adversidades ou crises”, disse o psiquiatra Aaron Kheriaty ao Los Angeles Times num artigo sobre pessoas religiosas e o suicídio. “A fé religiosa pode ajudar as pessoas a encontrar significado e propósito até mesmo no sofrimento”, acrescentou.

Este elemento único – a esperança real – talvez seja a peça que falta neste mundo secularizado. Com a fé, podemos ter esperança até mesmo além da prisão, da morte e das trevas.

A epidemia de suicídios representa um enorme fracasso por parte do mundo – e as pessoas começam a perceber isso. Em seu último livro, o bispo Robert Barron diz que as pessoas educadas no secularismo já demonstram irritação por esse mundo. Reduzir tudo ao cientificismo elimina a poesia, a arte e escurece o coração humano. “Vejo esta realidade em forma de vícios e depressões causadas por profunda preocupação por parte das pessoas”, assinala o bispo.

Enfim, nós, católicos, Somos os guardas de nossos irmãos. Temos o que as pessoas necessitam, algo sem o qual não podemos viver. E é nosso dever oferecer tudo isso aos nossos irmãos.

Tom Hoopes

O técnico Tite, comandante da seleção brasileira que está na Rússia em busca do hexacampeonato mundial de futebol, é um homem de muita fé. E sempre fez questão de demonstrar sua devoção a Nossa Senhora e São Jorge.

Quando era técnico do Corinthians, por exemplo, Tite mantinha uma imagem de Nossa Senhora no vestiário do centro de treinamento. Ele rezava e acendia uma vela sempre antes e depois dos treinos. Nos dias de jogos, os roupeiros do time eram encarregados de levar a imagem aonde quer que a equipe fosse. E a cena se repetia nos vestiários.

De acordo com os amigos mais próximos, quando está em casa, o técnico vai semanalmente à Missa e comunga. Nas viagens, também costuma fazer uma pausa no trabalho para conhecer algum templo católico do lugar e ter um momento de oração.

Conselheiro espiritual 

O site globoesporte.com revelou que Tite tem um conselheiro espiritual e está conversando com ele nestes dias em que seu trabalho está focado na Copa da Rússia: é o Padre Jeferson Mengali, que pertence à paróquia de São José em Bragança Paulista, no interior de São Paulo. O padre é devoto de São Jorge, assim como o técnico da seleção.

Ainda de acordo com o site, as conversas com o padre acontecem via WhatsApp. São conversas apenas de orientação espiritual, porque, segundo o sacerdote, dentro de campo, Tite é convicto do seu trabalho. “Ele é muito centrado, ele é muito seguro, ele é fiel às convicções dele. Então não vai ser o padre falando alguma coisa que ele vai mudar. No que diz respeito ao que é do futebol, ele está certinho. Ele é convicto e deve continuar assim”, declarou o padre.

O amigo e conselheiro de Tite confessa que o treinador está tranquilo para a disputa pelo hexa: “Ele está sereno, ele está focado no trabalho… É aquilo que o Tite sempre me diz: ‘padre, vencer por vencer não vale a pena. Nós temos que vencer se formos merecedores’”.

Em seu perfil no Facebook, o Pe. Jeferson Mengali tem várias fotos em que aparece ao lado de Tite.

Vale lembrar que a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) proíbe qualquer tipo de culto religioso no local de preparação da seleção brasileira. A medida foi tomada em 2015, quando um pastor evangélico se reuniu com 10 jogadores da seleção de Dunga na concentração do time em Boston, quando a equipe enfrentaria os Estados Unidos. O encontro não tinha a autorização da CBF. A decisão, entretanto, não impede as manifestações religiosas de âmbito pessoal da comissão técnica e dos jogadores.

Aleteia

O Instituto Latinobarômetro divulgou, em 12 de janeiro de 2018, por ocasião da visita do Papa Francisco ao Chile, um pesquisa sobre as tendências religiosas, especialmente do catolicismo, na América Latina e Caribe (ALC). A América Latina tinha 4 países onde a Igreja Católica possuía uma representação abaixo de 50% da população em 2013 e passou para 7 países, em 2017. No conjunto, o catolicismo está passando de altas para baixas taxas de afiliação na região

O gráfico abaixo mostra que os católicos representavam 80% da população da ALC (18 países) em 1995, caiu para 70% em meados da década passada e atingiu o nível mais baixo, de 59%, em 2017. Oito países estavam acima da média e dez países abaixo da média. O destaque dos países mais católicos são o Paraguai (89%) e México (80%). Mas os católicos representavam mais de 60% da população no Equador, Peru,Colômbia, Bolívia, Venezuela e Argentina.

Abaixo da média (de 59% da ALC) em 2017, mas acima de 50%, estavam a Costa Rica(57%), Panamá (55%) e Brasil (54%). Abaixo da média, mas acima de 40%, estavam República Dominicana (48%), Chile (45%), Guatemala (43%) e Nicarágua (40%). Já abaixo de 40% estavam El Salvador (39%), Uruguai (38%) e Honduras (37%).

Nota-se que o Chile vinha apresentando uma leve tendência de queda da presença católica na população total até 2010, mas a perda de fiéis se acelerou depois de 2011. Entre 1995 e 2009 a queda da presença católica no Chile foi de 74% para 65% (queda de 9 pontos em 14 anos). Mas de 2009 a 2017 a queda foi de 20 pontos em oito anos.

A tabela abaixo mostra como foi a perda das filiações católicas nos 17 países da ALC entre 1995 e 2017 e o aumento de 77% para 80% no México, no mesmo período. A maior queda ocorreu em Honduras, onde os católicos caíram de 76% em 1995 para 37% em 2017, uma perda impressionante de 39% em 22 anos. Se essa tendência se mantiver, os católicos desaparecerão de Honduras nos próximos 21 anos.

A perda de filiações católicas também foi muito acima da média na Nicarágua (queda de 37% em 22 anos) e no Panamá (queda de 34%). Em El Salvador a queda foi um pouco menor (de 29% em 22 anos), mas isto porque a presença católica já era relativamente pequena em 1995, sendo que ficou em apenas 40% em 2017.

O Chile (queda de 29%) e o Brasil (queda de 25%) também apresentaram grande queda entre 1995 e 2017, mas a queda do Chile foi maior na segunda década do século XXI, sendo que os católicos chilenos já perderam a maioria absoluta. A Argentina continua bem mais católica do que o Brasil e o Chile, mas a perda de católicos tem se dado no ritmo de 1% ao ano. Neste ritmo os católicos argentinos podem perder a maioria absoluta no espaço de 15 anos. O único país em que os católicos se fortaleceram, no período, foi o México.

Cabe indicar que o Uruguai se destaca não só como o segundo país menos católico da região, mas também como um dos mais secularizados, ou seja, com maior presença de pessoas que se declaram sem religião, agnósticos ou ateus. O gráfico abaixo mostra o crescimento do percentual de pessoas que se declaram sem religião na ALC. Percebe-se que os sem religião mais do que quadruplicaram, passando de 4% em 1995 para 18% em 2017. A novidade desta nova pesquisa do Latinobarômetro é que o Chile tomou o lugar do Uruguai como o país mais secularizado da região.

 

As pessoas que não optaram por qualquer religião, em 2017, atingiu 35% no Chile, 31% no Uruguai, 30% em El Salvador, 28% na República Dominicana, 25% na Nicarágua e assim por diante, sendo que os sem religião estavam em 14% no Brasil(o que coincide com uma pesquisa do Datafolha de dezembro de 2016). Bolívia e Paraguai são os dois países menos secularizados.

 

Ao contrário do Brasil, a queda do percentual de católicos no Uruguai e no Chile não foi acompanhada por um aumento significativo dos evangélicos. O Brasil é o maior país católico do mundo e a ALC é o continente mais católico do Planeta. A queda acentuada de católicos poderá ter uma grande implicação para a correlação de forças internacionais entre as grandes religiões globais. 

 

Fonte EcoDebate via IHU

Quinhentos anos após a Reforma Protestante, o quadro religioso está mudando de maneira irreversível na América Latina. O Brasil e suas grandes regiões estão passando por uma acelerada transição religiosa que se manifesta em 4 aspectos:

1) Declínio nos números do catolicismo;

2) Aumento acelerado das filiações evangélicas (com diversificação das denominações e aumento dos evangélicos não institucionalizados);

3) Crescimento lento do percentual das religiões não cristãs;

4) Aumento absoluto e relativo das pessoas que se declaram sem religião (incluindo ateus e agnósticos);

O quadro que se desenha para um futuro próximo é de mudança de hegemonia entre católicos e evangélicos, com os segundos ultrapassando os primeiros e aumento da pluralidade de crenças e do processo de secularização (grande aumento da desafeição religiosa e da apostasia).

O censo demográfico de 1890, realizado logo após a Proclamação da República(1889), apontava que os católicos eram, praticamente, 100% da população brasileira. Mas esse número veio caindo e estava em praticamente 90% em 1980. Mas a partir daí a queda se acelerou e os católicos ficaram com 83,3% em 1991, 73,9% em 2000 e 64,6% em 2010.

Entre 1890 e 1970 os católicos perderam posição relativa na população total cerca de 1% por década. Entre 1991 e 2010 a perda passou a ser de 1% ao ano. Portanto, o ritmo de queda da presença católica no Brasil foi multiplicado por dez.

Todavia, esta queda não é uniforme e segue ritmos diferenciados nas regiões, nos Estados e nas cidades. A Unidade da Federação com menor proporção de católicos é o Rio de Janeiro e a com maior percentagem de evangélicos é Rondônia. O Rio de Janeiro também é a UF com maior pluralidade de crenças e com o maior percentual de pessoas que se declaram sem religião.

A região geográfica mais ‘avançada’ na transição religiosa é a Sudeste (com mais de 80 milhões de habitantes em 2010) onde os católicos caíram de 69,2% para 59,5% entre 2000 e 2010, os evangélicos passaram de 17,5% para 24,6%, as outras religiões passaram de 4,9% para 7% e os sem religião passaram de 8,4% para 9%, no mesmo período.

Nas regiões Centro-Oeste e Norte o percentual de católicos é bem parecido com o percentual da região Sudeste. Já o percentual de evangélicos é maior na região Norte, que, no entanto, tinha um percentual de sem religião menor do que em outras regiões, com exceção da região Sul. A região Nordeste tinha o maior percentual de católicos e o menor de evangélicos. Já a região Sul fica na transição religiosa um pouco à frente da região Nordeste, mas atrás das demais regiões.

Nota-se que a transição religiosa não tem uma relação determinística com o grau de desenvolvimento, pois enquanto o Sudeste lidera o quadro de transformações religiosas, juntamente com a região Norte, a região Sul está mais próxima da região Nordeste. O fato comum entre as regiões é que os quatro pontos indicados no início deste artigo seguem ao longo do tempo, apenas com velocidades diferentes de transições.

José Eustáquio Diniz Alves, doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE, em artigo publicado por EcoDebate

Referências:

ALVES, J. E. D; NOVELLINO, M. S. F. A dinâmica das filiações religiosas no Rio de Janeiro: 1991-2000. Um recorte por Educação, Cor, Geração e Gênero. In: Patarra, Neide; Ajara, Cesar; Souto, Jane. (Org.). A ENCE aos 50 anos, um olhar sobre o Rio de Janeiro. RJ, ENCE/IBGE, 2006, v. 1, p. 275-308

ALVES, JED, BARROS, LFW, CAVENAGHI, S. A dinâmica das filiações religiosas no brasil entre 2000 e 2010: diversificação e processo de mudança de hegemonia. REVER (PUC-SP), v. 12, p. 145-174, 2012.

ALVES, JED, CAVENGHI, S. BARROS, LFW. A transição religiosa brasileira e o processo de difusão das filiações evangélicas no Rio de Janeiro, PUC/MG, Belo Horizonte, Revista Horizonte – Dossiê: Religião e Demografia, v. 12, n. 36, out./dez. 2014, pp. 1055-1085

ALVES, JED. “A encíclica Laudato Si’: ecologia integral, gênero e ecologia profunda”, Belo Horizonte, Revista Horizonte, Dossiê: Relações de Gênero e Religião, Puc-MG, vol. 13, no. 39, Jul./Set. 2015

ALVES, JED et. al. Cambios en el perfil religioso de la población indígena del Brasil entre 1991 y 2010, CEPAL, CELADE, Notas de Población. N° 104, enero-junio de 2017, pp: 237-261

ALVES, JED, CAVENAGHI, S, BARROS, LFW, CARVALHO, A.A. Distribuição espacial da transição religiosa no Brasil, Tempo Social, revista de sociologia da USP, v. 29, n. 2, 2017, pp: 215-242

ALVES, JED. CAVENAGHI, S. Igreja Católica, Direitos Reprodutivos e Direitos Ambientais, Horizonte, Belo Horizonte, v. 15, n. 47, p. 736-769, jul./set. 2017

 

Os verdadeiros católicos não são católicos por causa da Igreja, mas por causa do Cristo fidelíssimo, que nos amou até a cruz e nos deu a Sua Igreja como Mãe e canal de Sua graça. Certamente que os escândalos, a crise de fé, o mau exemplo de quem deveria ser presença viva de Cristo – tudo isto nos entristece; no entanto, se compreendermos bem o que é a Igreja, se tivermos os olhos e o coração fixos no Cristo, então todas essas realidades negativas, mesmo nos entristecendo e até envergonhando, em nada tirarão a nossa paz.

Precisamos compreender que a Igreja não existe por si mesma e não é santa por si própria, mas tudo recebe do Cristo.

Precisamos levar a sério que é Cristo quem atrai os Seus e agindo por Sua graça operosa os congrega e os mantém firmes na fé.
Não somos nós quem seguramos o povo e não somos os astros “pop stars” e interessantes, que mantêm o povo na Igreja… Tudo isto é um grosseiro e triste erro, é bobagem e presunção humana!
Por que tantos ministros sagrados se sentem na obrigação de ser astros, de ser adaptáveis a tudo quanto é mundano, na ilusão de que isso atrai?
É Cristo o Astro único, é Cristo quem atrai, é Cristo a novidade, é Cristo quem nos mantém fieis, é Cristo – e só Cristo – a alegria perene do nosso coração.
Aliás é bom ter bem presente: quem entra na Igreja ou nela permanece por outro motivo que não Cristo, perde tempo e não está na Igreja!

Angustia-me muito – mais que qualquer escândalo – ver tantos membros do clero e tantos teólogos preocupados em ser agradáveis às pessoas, atraentes e simpáticos ao mundo, gente de “boa pinta”, interessante e simpática… Recordo de Pedro, de Paulo, de João, de Madre Teresa, de Frei Damião… Certamente nunca procuraram ser atraentes, mas docemente, benignamente fieis!
Não somos nós quem atraímos! Não temos de ser boa gente e engraçadinhos para atrair! É Cristo quem atrai, é Cristo o centro! A nós, basta deixar que Cristo de tal modo impregne a nossa vida que quem nos vir, veja Cristo em nós: como exigente bondade, como amor que se dá, como responsabilidade que não esconde nem omite o essencial!

Tantos pregam a secularização para atrair o povo e a mundanização da Igreja, na ilusão de se fazerem simpáticos e compreendidos… Desprezam tudo aquilo que ajuda a mostrar a identidade católica, a alegria da consagração e o gosto de ser diferente do mundo… Pensam que com isso estão aproximando as pessoas e se fazendo compreender pelo mundo atual… Pura ilusão ideológica e ultrapassada! O mundo grita por sinais de Deus, por marcas do eterno, por reflexos do sagrado, por gente que não tenha medo de crer, viver e testemunhar o Infinito que renova esta terra!

O que afasta o povo é uma Igreja que não dá Cristo; o que esmorece a fé são padres e religiosos que querem ser protagonistas, ao invés de darem lugar ao Cristo, único Senhor e Astro; o que cansa as pessoas são homilias que falam de tudo, mas não falam pura e simplesmente de Cristo, de Seu amor, de Sua beleza, de Seu perdão e salvação; o que torna a Igreja sem graça é o moralismo ideológico, que confunde o Reino com sociedade socialista, que só sabe falar em questões sociais.

A Igreja não existe para si, mas para um Outro! Não deve se colocar no centro, mas deixar que Cristo seja o centro!
A função da Igreja, sua razão de ser é pura e simplesmente provocar o encontro das pessoas com Jesus! Nossa questão não é pensar no que atrai o povo, mas anunciar Jesus, pura e simplesmente, com toda fidelidade, simplicidade, amor e mansidão… O resto é graça, é ação do Senhor, é misericórdia de Deus…

Dom Henrique Soares

É cada vez mais frequente que professores de grupos de escolas protestantes do norte da Europa, que visitam Roma, levem seus estudantes a uma missa católica, para que vejam como é e para que estes tomem tranquilamente a comunhão.

Segundo muitos protestantes e católicos da Europa e da América, esta é também uma das consequências de uma aproximação para baixo entre os dois credos, segundo confirmou uma ampla pesquisa realizada em uma quinzena de países pelo Pew Research Center, de Washington.

Quinhentos anos após fixar suas 95 teses em WittenbergMartinho Lutero já não é esse fomentador de discórdias que foi durante séculos.

Nos Estados Unidos, 65% dos católicos e 57% dos protestantes estão convencidos que entre seus respectivos credos há mais semelhanças que diferenças.

E na Europa ocidental mais da metade dos protestantes e católicos pensam o mesmo. Com índices que chegam a 78% entre os protestantes da Alemanha, 67% entre os católicos da Holanda e 64% entre os católicos da Áustria. Também entre os católicos da Itália já são mais os que consideram que há semelhanças: 47% frente a 41%.

Entre os católicos que continuam se sentindo mais distintos que iguais, em último lugar estão os católicos da Bélgica e Espanha, com 28%. Ao passo que entre os protestantes irredutíveis, os últimos são os da Suécia, com 18%.

A pesquisa também permitiu identificar uma importante faixa da população que não se identifica como católica, nem protestante, e que se considera sem religião. Na Europa ocidental, o índice mais elevado de ateus ou agnósticos é registrado na Holanda, com 48%. Seguem Noruega, com 43%; Suécia, com 41%; Bélgica, com 37%; Dinamarca e Espanha com 30%.

É interessante o dado da Alemanha, a pátria de Lutero. Aqui, o tradicional equilíbrio entre católicos e protestantes sofreu uma fratura. Os protestantes descenderam até chegar a ser só de 28%, os católicos são 42% e os ateus ou agnósticos são já um quarto da população, com 24%.

Também na Itália os ateus e agnósticos aumentaram e são 15%, frente aos 78% dos católicos e o 1% dos protestantes.

No que diz respeito à prática religiosa entre os protestantes europeus, os que vão à igreja uma vez por semana praticamente desapareceram. São 3% na Dinamarca, 7% na Alemanha e, de qualquer modo, em quase todas as partes são menos de 10%. A única exceção é a Holanda, onde entre os poucos protestantes ainda existentes – 18% da população -, 43% vão à igreja semanalmente.

Vice-versa, sempre na Holanda, os católicos estão em queda livre: são 20% da população e apenas 5% vão à igreja uma vez por semana. Números pequenos também na Bélgica, com 8%; no Reino Unido, com 9%; na Áustria, com 11%; na França, com 13%; na Alemanha, com 14%. Acima de 20% são os casos de Itália, Portugal, Espanha e Irlanda.

Curiosamente, no que durante séculos existiu um dos mais fortes fatores de divisão, a saber: a convicção dos protestantes de que a salvação se obtém sola fide, ao passo que para os católicos a fé deve ser acompanhada de obras, o pêndulo se deslocou em favor dos segundos. Praticamente em todas as partes, ou seja, também entre os protestantes, a maioria pensa que ambas, fé e obras, são necessárias. A única exceção são os protestantes noruegueses, entre os quais a sola fide prevalece para 51% frente aos 30%.

No entanto, é necessário ressaltar que a sola fide luterana também encontra um grande número de defensores entre os católicos: na Itália e na Alemanha, um quarto dos católicos a defendem; no Reino Unido, França e Suíça, um terço.

No que diz respeito à comunhão aos protestantes nas missas católicas – e vice-versa, aos católicos nos cultos evangélicos -, a pesquisa realizada por Pew Research Center não indica nada. Mas, bem se sabe que é um comportamento cada vez mais difundido, certamente não podado, ao contrário, estimulado pelo que o Papa Francisco e o cardeal Walter Kasper disseram acerca do assunto.

Sandro Magister- Settimo Cielo.

Um total de 43 países no mundo tem religião oficial e, destes, a maioria é de muçulmanos: o Islão é a religião oficial de 27 países.

Já o Cristianismo é a religião oficial de 13 países, incluindo nove na Europa, segundo um estudo levado a cabo pela Pew Research Center.

Dos restantes países que têm religião oficial, dois – Camboja e Butão – adotam o budismo e um, Israel, o judaísmo.

As conclusões deste estudo baseiam-se nas leis oficiais de cada país, mas a Pew Research Center tem ainda uma categoria intermédia, na qual agrupa os países que, não tendo uma religião oficial, ainda assim dão tratamento privilegiado a uma ou mais confissões. O lote de exemplos inclui a Rússia, onde a Igreja Ortodoxa Russa tem privilégios em relação outros credos.

Uma dezena dos Estados apresentados neste documento são classificados como hostis para com qualquer religião. Todos esses Estados são oficialmente comunistas ou então repúblicas ex-soviéticas. A Coreia do Norte está na lista, juntamente com a China, Cuba e Vietname. Ao lote juntam-se Azerbaijão, Cazaquistão, Quirguistão, Tajiquistão, Turquemenistão e Uzbequistão.

Por fim, a vasta maioria dos Estados constam da lista dos países que, segundo a Pew Research Center, não têm religião oficial nem favorecem de forma particular qualquer religião. Há 106 países nesta categoria.

A maioria dos países cuja religião oficial é o Islão encontram-se no Médio Oriente e no Norte de África. As únicas exceções no Médio Oriente são Israel, naturalmente, o Líbano e a Síria. Alguns países asiáticos também professam oficialmente o Islã, incluindo o Paquistão e a Malásia, bem como alguns países de África subsaariana: o Djibouti, a Mauritânia e a Somália. As Maldivas, no Índico, também têm o Islã como religião de Estado.

Já a maioria dos 13 países oficialmente cristãos encontra-se na Europa. Dos nove países europeus nesta categoria a maioria são Estados protestantes do Norte, como a Dinamarca, a Islândia, a Noruega e o Reino Unido. Os únicos católicos são Malta, o Liechtenstein e o Mónaco.

Embora o Vaticano tenha estatuto de Estado independente e tenha como religião oficial o catolicismo, não foi considerado para efeitos desta análise. A Grécia e a Armênia, cristãos ortodoxos, completam a lista. Fora da Europa, a Costa Rica e a República Dominicana, na América, a Zâmbia, em África, e Tuvalu, no Pacífico, são oficialmente cristãos.

Cristianismo,“preferido”

Se o Islã tem vantagem no que diz respeito a países com religião oficial, o caso muda de figura quando a Pew elenca os países que tratam de forma privilegiada alguma fé. Aí é o cristianismo que fica em vantagem, com 28 países num total de 40. Há três – Sudão, Síria e Turquia – que não sendo oficialmente muçulmanos dão preferência ao islã, quatro que o fazem com o budismo e cinco que dão preferência a mais do que uma religião.

Nesta categoria de Estados que dão preferência a uma religião encontram-se dois países de língua oficial portuguesa, Angola e Cabo Verde, que favorecem o Cristianismo, e está também Espanha e Itália. Todos os outros países lusófonos estão na lista de países sem religião oficial e que não dão preferência a qualquer fé.

Segundo a Pew Research Center, ter uma religião oficial não significa a mesma coisa em todas as situações. Se nos países europeus, e cristãos em geral, o estatuto é em larga medida cerimonial, havendo liberdade para praticantes de outras religiões ou nenhuma, em alguns países muçulmanos o Islã é incontornável. Na Arábia Saudita, nos Comoroes, na Mauritânia e nas Maldivas, por exemplo, todos os cidadãos do país devem ser muçulmanos e em vários outros países os detentores de cargos públicos têm de professar essa religião. Contudo, em praticamente todos os países com religião oficial verifica-se que o Estado financia de alguma forma o credo dominante.

A Pew Research Center é um organização apartidária que se dedica à análise demográfica e de opinião numa variedade de áreas, incluindo a religião no espaço público. Este estudo contou com financiamento da Templeton Global Religious Futures Project, que analisa as alterações religiosas e o seu impacto nas sociedades mundiais.

Renascença

Vivemos dentro de 1984, a distopia de George Orwell, em que o Ministério da Verdade controlava as informações sobre o passado para influenciar o futuro com suas mentiras. Nesse revisionismo histórico, o legado ocidental precisa ser pintado como uma sucessão de horrores perpetrados pelo grande vilão da humanidade: o homem branco cristão. Eis o denominador comum de toda a marcha das minorias oprimidas.

Um livro que pode ajudar a lançar luz sobre essa questão é The Evolution of the West, de Nick Spencer, do Instituto Theos. Com abordagem histórica, ele tenta mostrar como o cristianismo influenciou nossas instituições modernas, reconhecendo o lado bom e o lado ruim dessa influência.

Mas um fato é inquestionável: tal evolução é indissociável da principal religião de nossa civilização. Suas impressões digitais se encontram em todos os grandes marcos civilizatórios. Alguns tentam reescrever essa trajetória como um mar de obscurantismo, preconceito e superstição, mas tal visão é que parece extremamente preconceituosa e obscura.

A começar pela ideia de que antes do cristianismo o mundo antigo vivia num ambiente secular, de tolerância, com liberdade e igualdade. Na verdade, a religião era onipresente, e a família era tudo: a fonte básica de identidade, com os paterfamilias agindo como magistrados com poderes quase ilimitados. À medida que o mundo mudou de cidades-Estado para impérios, os laços sociais localizados se afrouxaram, num progresso lento, reduzindo o papel do primogênito e dando status de cidadão a todos os filhos, enfraquecendo o poder dos paterfamilias.

Essa individuação gradual, que não se deu numa linha reta, teve apoio na mensagem de Cristo, ao revelar que Deus está potencialmente presente em cada crente. Por um ato de fé em Jesus, cada um poderia ter acesso ao amor divino, uma mensagem igualitária que tornava menos relevante a figura aristocrática do intermediário. Pensar não era mais um privilégio da elite social, e passava a se associar não ao status, mas à humildade.

O cristianismo, segundo Spencer, trouxe a nova ideia revolucionária para a associação humana em que pessoas se uniam com base no desejo e no amor, não mais apenas pelo laço de sangue ou interesses materiais comuns. Pela primeira vez, os humanos – todos os humanos – tinham uma identidade pré-social, sendo alguém antes de ter algum papel relacional definido. A Igreja era inclusiva e universal como nada existente na Antiguidade.

Havia também o aspecto da interiorização do indivíduo, ilustrado pelos monastérios e na figura dos monges. O reconhecimento desse lado interior teve impacto nas leis. Ajudou a introduzir a ideia de intencionalidade no Direito Penal, julgando que o que a pessoa pretendia merecia atenção além do ato objetivamente praticado. Isso ajudou a criar vereditos com base em evidências.

Os direitos das mulheres, o cuidado dos pobres, a escravidão atenuada, a igualdade jurídica, a consciência: nada disso era uma realidade na época, e é altamente duvidoso que qualquer um deles fosse sequer desejado por aquelas pessoas. Mas as sementes que tinham sido semeadas pelo cristianismo não foram totalmente destruídas no caos social e político da Idade Média. E elas germinaram com o tempo, com suas raízes plantadas lá atrás.

O autor usa vários relatos, textos e leis que mostram como a tendência já apontava nessa direção. Quando, por exemplo, o Concílio de Narbona, em 1054, conclui que “Nenhum cristão deve matar outro cristão, pois quem mata outro cristão indubitavelmente derrama o sangue de Cristo”, isso era parte dessa ideia que foi se desenvolvendo até chegar ao código de conduta de cavaleiros, destacando a cortesia, a honra e o cavalheirismo. Poderia ser hipócrita até, mas sem dúvida era um tremendo avanço em relação ao ambiente de violência irrestrita que o precedeu.

Havia, nas guildas e cidades, a emergência de uma esfera legal de segurança que seria um dia chamada de “sociedade civil”. A lei passava a ser mais centralizada e estruturada. A influência cristã na linguagem, na literatura e na cultura ocidentais é evidente e inegável. Até mesmo Richard Dawkins, um dos “quatro cavaleiros” do neoateísmo militante, reconhece que é impossível apreciar a literatura inglesa sem mergulhar de alguma forma na Bíblia. Não conhecê-la, admitiu o cientista, é ser de certa forma um bárbaro.

O cristianismo e a Bíblia foram centrais na formação da Grã-Bretanha, que por sua vez foi o grande farol da civilização ocidental. Quando essa civilização esteve ameaçada durante a Segunda Guerra Mundial, Churchill e os ingleses em geral encararam a “cruzada” em defesa da civilização cristã como peça central da narrativa de mobilização no combate ao inimigo.

Há muito mais evidência da influência cristã e da Igreja nas principais instituições ocidentais. A Magna Carta, por exemplo, que completou 800 anos recentemente, teve participação direta da Igreja, e uma cláusula negociada com o rei João especificava o direito de a Igreja inglesa permanecer livre, com seus direitos garantidos. Não era, ainda, o império impessoal das leis, claro, pois os “livres” eram parte de uma elite. Mas era a semente do Bill of Rights, plantada com ajuda essencial do cristianismo.

Se, por um lado, a Igreja ajudou na ideia de direito divino do monarca, por outro lado ela foi fundamental para limitar tais direitos e impor um código de conduta mais justo. Em conjunto, as responsabilidades que o cristianismo colocou sobre o rei – justiça, paz, cuidado com os fracos, moral pessoal – apontam na direção de um monarca que foi colocado em uma ordem política cuja legitimidade de sua posição dependia, de alguma forma, do cumprimento desses deveres. Era uma realeza sob Deus, orientada, ainda que por esperança, para o bem comum do povo.

Há também um debate interessante sobre a participação cristã no próprio humanismo secular, ou ainda na formação do welfare State. Mas o ponto central já está claro: não dá para fingir que o Ocidente moderno não tem ligação umbilical com o cristianismo. E, se consideramos a civilização ocidental digna de admiração e do esforço de ser preservada, talvez seja interessante questionar se é mesmo viável mantê-la sem o arcabouço religioso e moral que lhe deu, desde sempre, sustentação.

Rodrigo Constantino, economista e jornalista, é presidente do Conselho do Instituto Liberal.

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Quando eu era adolescente, fazia coisas típicas do início dos anos 70: mantinha o cabelo comprido, vestia calças boca de sino, usava gravatas largas, deixava abertos pelo menos os três primeiros botões da camisa e, é claro, ouvia rock-n-roll.

Mesmo assim, eu sentia um grande amor pelas coisas antigas. Acho que isso tinha alguma coisa a ver com a minha avó, Nana, que eu amava com profundo carinho. Ela se lamentava, com frequência, pela perda “das coisas e dos jeitos de antigamente”. Ela sentia saudade da missa em latim, dos “tempos em que havia boas maneiras”, em que as pessoas se vestiam bem, em que as coisas eram mais claras, em que “as meninas eram meninas e os homens eram homens”, como cantavam Archie e Edith no início de “All in the Family”. Ela também sentia falta do tempo em que as coisas eram feitas para durar e o plástico era praticamente desconhecido.

De alguma forma, o amor dela pelas coisas e pelos “jeitos de antigamente” me influenciou, embora eu me deixasse envolver também por algumas modas dos anos 70. A geração dos meus pais, nascida no final dos anos 20 e durante os anos 30 e, mais ainda, a geração nascida depois da Segunda Guerra Mundial, eram gerações um pouco iconoclastas. O lema delas parecia ser “Chega do que é velho e viva o que é novo!”. Novo e “melhorado”.

A minha mãe estava quase sempre querendo se livrar de alguma coisa velha. Eu me oferecia para jogar aquelas coisas fora, mas, na verdade, dava um jeito de escondê-las no sótão de casa: prataria, lâmpadas Tiffany, estátuas e peças diversas… Além disso, os edifícios antigos me fascinavam e eu odiava as “caixas de vidro” que estavam sendo construídas na década de 70. Também me lembrava das antigas igrejas da minha infância em Chicago, porque elas “pareciam igrejas mesmo”, e deplorava a “igreja moderna e feiosa” do meu bairro nos anos 70. Eu gostava de rock, mas não suportava a “música hippie” dos anos 60 que ainda predominava nas paróquias durante a década seguinte: “Kumbaya”, “Sons of God”… Aquelas letras terríveis, distribuídas para os fiéis em folhas mimeografadas, do tipo “Vamos cantar alelu, alelu, alelu, alelu-i-a!”…

Minha avó sempre falava da falta que sentia dos belos cantos litúrgicos antigos, do incenso, dos véus, dos sacerdotes usando batina e de tantas outras coisas. Eu a entendia e concordava com ela. Mas escondia as antiguidades tanto dos meus pais quanto da Igreja. Não via a hora em que a lucidez voltasse e toda aquela “velharia” fosse valorizada novamente.

E essa hora, de certa forma, chegou. Boa parte daquela iconoclastia que prevaleceu dos anos 50 até meados dos anos 80 deu lugar a um novo apreço pelas coisas antigas. No início dos anos 90, quando eu trouxe do sótão algumas das coisas que tinha guardado por lá, a minha mãe, estranhamente, voltou a gostar delas. Outros membros da família resolveram ficar com algumas das peças de prata. O meu cálice, como sacerdote, era uma daquelas peças velhas, que eu mesmo restaurei. As estátuas começaram a voltar para as igrejas. Alguns dos velhos hinos também retornaram. E a missa em latim, depois de anos e anos relegada aos porões, foi “espanada” e hoje volta a ser apreciada por muitos católicos, principalmente por católicos jovens. Eu também tive a felicidade de ajudar a restaurar duas igrejas antigas, devolvendo a elas o velho resplendor e desfazendo um pouco da iconoclastia que elas tinham sofrido. Além disso, eu uso a minha batina com bastante frequência.

Não me incomoda que existam igrejas de arquitetura mais moderna; algumas delas têm uma simplicidade realmente bonita. Mas nada me irrita mais do que ver uma bela igreja antiga “renovada” para evocar 1985, toda nua e despojada. Eu acho, felizmente, que essa época terrível está chegando ao fim.

Algumas coisas, talvez, tenham tido que ir “para o sótão” durante um tempo para poderem ser depois resgatadas e reapreciadas. Quaisquer que tenham sido as razões para a iconoclastia, principalmente na década de 1960, eu sinto que agora estamos recuperando um pouco de equilíbrio: um equilíbrio que não rejeita o que é novo, mas que ainda aprecia o que é antigo; um equilíbrio que acena para uma hermenêutica da continuidade, da qual fala o papa Francisco, em vez de optar pela ruptura e pela descontinuidade radical do passado; um equilíbrio sobre o qual Jesus nos diz: “Todo escriba que se tornou discípulo do reino dos céus é semelhante a um pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e velhas” (Mt 13,52).

Muita gente olha para trás e se admira com a grande ruptura e com o tsunami cultural que estamos sofrendo no Ocidente. Gostaríamos de saber como e por que tamanha perda de tradições. Há, é claro, inúmeras razões, mas eu gostaria de destacar apenas uma: o esquecimento.

As tradições são estabelecidas e mantidas por algum motivo. Fundamentalmente, elas simplificam a nossa vida ao nos darem estrutura, limites e expectativas. As pessoas conseguem navegar mais facilmente pelos mares da tradição. No entanto, um sinal de que a tradição representa um perigo é quando as pessoas se esquecem do seu objetivo; quando as pessoas se esquecem da origem da tradição e do porquê da sua observância; quando as pessoas se esquecem do que ela significa ou simboliza.

Imagine o que aconteceria se eu entrasse em uma máquina do tempo e voltasse para 1940, nesta mesma paróquia, e fizesse às pessoas algumas perguntas: Por que as mulheres usam véu e os homens não cobrem a cabeça? Por que as pessoas se ajoelham para receber a comunhão? Por que a missa é rezada em latim? Por que o sacerdote fica voltado para o altar? Por que todas essas coisas são feitas desse jeito? Eu suspeito que ouviria respostas como “Eu não sei, mas é assim que nós fazemos. Por que você não pergunta ao padre?”.

Eu me pergunto se a primeira fase da perda de uma tradição é esse momento em que ela não faz mais sentido consciente para as pessoas; quando não é mais claro para as pessoas o porquê de fazermos o que fazemos; quando tudo o que podemos dizer sobre ela é simplesmente que “é assim que nós fazemos”.

Quando o assunto são as tradições, corremos o risco, em certo momento, de que elas se petrifiquem, se mecanizem, virem cinzas de uma fogueira que já se apagou. Se não mantivermos acesos os dons do amor de Deus (cf. 2 Tim 1, 6), a nossa apreciação desses dons acaba esfriando e a sua beleza acaba se esfumaçando. Assim, quando alguém nos pergunta “O que é isso?”, devolvemos a pergunta indagando “Isso o quê, essa coisa velha?”. E, ao recebermos em retorno a sugestão de “jogar isso fora”, damos um aceno superficial e concordamos: “Boa ideia, vamos nos livrar disso”.

Todo o processo começa com o esquecimento. O esquecimento leva a uma falta de compreensão, que, por sua vez, abre o caminho para a falta de apreço. Tudo isso culmina num desdém pelas coisas antigas e pelas agora apagadas tradições, muito embora elas já tenham sustentado e emoldurado a nossa vida.

É claro que algumas coisas precisam ser deixadas de lado. Talvez haja um tempo e um lugar para “aposentar” certas coisas durante certo tempo, a fim de redescobri-las mais adiante. Mas o que temos vivido nos últimos sessenta anos tem ido além desse processo natural: tem sido uma ruptura, uma descontinuidade radical, que abalou muitos dos nossos alicerces, em especial a Igreja e a família.

Por isso, fazemos muito bem ao “recordar” muitas das nossas tradições. A palavra “recordar” sugere um processo de “recolocar no coração”, fazendo com que aquilo que já foi precioso volte a fazer parte do corpo, da Igreja, da família. Recordar muitas das nossas tradições perdidas, inclusive quando criamos novas tradições, é uma forma importante de assegurar a continuidade da nossa herança e o nosso vínculo com o corpo todo.

A tradição é a “democracia dos mortos”: ela permite que os nossos antepassados nos “digam” alguma coisa capaz de nos ajudar hoje. A tradição é uma forma de “recordar” a trajetória da Igreja, de homenagear as práticas dos antigos, aquele “jeito” que a minha avó lembrava com carinho, com saudade e com certo sentimento de perda. E era mesmo uma perda, mas uma perda que, acredito eu, estamos começando a remediar ao nos lembrarmos do melhor do nosso passado e ao recuperarmos as nossas tradições.

Estive pensando em tudo isso depois de rever um trecho do musical “Fiddler on the Roof” [“Um violinista no telhado”]. Ele foi escrito numa época em que as mudanças radicais dos últimos sessenta anos já estavam acontecendo. A canção “Tradição!” ridiculariza o tradicional e sugere que a tradição é o tipo de coisa que, essencialmente, mantém os homens no poder, submete as mulheres e força as crianças a viver num ambiente de casamentos arranjados e infelizes.

Um momento-chave da música é quando Tevye descreve a tradição do véu feminino nas orações: “Você pode perguntar ‘Como é que começou esta tradição?’. Eu vou lhe contar”. E, depois de uma pausa, ele diz: “Eu não sei, mas é uma tradição!”.

O primeiro sinal de que a tradição está em apuros é o esquecimento.

Mas o musical, escrito em 1964, capta muito bem as atitudes iconoclastas que emergiam na época: atitudes avessas à tradição de forma geral. Apesar disso, Tevye observa corretamente o que viemos a descobrir muito bem: “Sem as nossas tradições, a nossa vida seria tão instável quanto um violinista no telhado”.

Pe. Charles Pope

0011853627Paraguai e Equador são os países com maior número de católicos no continente.

Mesmo que o número de católicos tenha caído nos últimos anos, a América Latina continua sendo profundamente crente, com mais de 60% da população que se declara fiel da Igreja católica, embora nem todos na mesma medida.

Embora o número de católicos tenha caído no continente de 80% para 67% – de acordo com um informe do Latinobarómetro que foi divulgado no ano passado –, a realidade é que hoje mais da metade da população do continente continua sendo seguidora da Igreja de Roma liderada pelo Papa Francisco.

Isso é especialmente visível no Paraguai, que conta com 88% de fiéis, ou no Equador, com 81%. Ambos são os países com maior número de fiéis católicos, seguidos de perto por México e Venezuela, com 79%, embora outros estudos (como o do Centro de Pesquisa Pew, dos Estados Unidos) coloquem também nessa categoria a Colômbia. O caso do México merece uma menção à parte, pois ali o número de católicos não só não caiu nos últimos anos, mas teve um ligeiro aumento.

Embora 13% seja um número a ser reconhecido, a opinião majoritária dos especialistas é de interesse menor na América, que segue sendo hoje um dos feudos mais notáveis da religião católica.

O caso mais curioso talvez seja que a grande maioria daqueles que abandonam a Igreja católica não o fazem para virarem ateus ou agnósticos (algo que parece acontecer exclusivamente em dois países: Uruguai e Chile), mas que se convertem a outras religiões, na maioria dos casos à Igreja evangélica.

De fato, os protestantes cresceram na mesma proporção que o número de católicos diminuiu, sendo estes, além disso, mais praticantes e mais confiantes em sua instituição. 
Curiosamente, a religião que não consegue ter entrada entre os latino-americanos é a que cresce com maior rapidez no mundo: o Islã. Calcula-se que em 2050 o número de muçulmanos tenha aumentado 73% no mundo, transformando-se na religião mais numerosa; enquanto isso, na América Latina tenha conquistado apenas 13% da população.

É muito notável nestes números a figura do Papa Francisco, Jorge Mario Bergoglio, pois muitos são os especialistas que consideram que o trabalho do Santo Padre argentino freou muito a perda de fiéis (tema que o preocupa, como ele mesmo reconhecia para nós) em todo o mundo.

La Civiltà Cattolica Iberoamericana

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Recentemente, foi anunciado o fechamento de um número considerável de paróquias católicas no estado de Connecticut, Estados Unidos. Isso é somente uma parte do problema que está vivendo a Igreja na nação americana, especialmente nas dioceses do norte.

Sobre este aspecto, o monsenhor Charles Pope propôs, na revista Community in Mision, seis pontos para a reflexão, oferecendo aos fiéis americanos um guia para saber quais são as raízes do fenômeno e, portanto, para ajudá-los a enfrentar o problema com mais conhecimento.

  1. Os bispos não fecham as paróquias; são as pessoas que o fazem. É certo, entretanto, que, juridicamente, os bispos são os responsáveis por dar o certificado de reconhecimento de abertura, fechamento ou fusão das paróquias. Em última instância, é o povo de Deus que cria ou retira a necessidade de ter uma paróquia. A dura verdade é que, a cada dia, há mais católicos a favor dos anticoncepcionais e do aborto. O número de fiéis só cai. Nas áreas urbanas do noroeste dos Estados Unidos, somente 15% frequentam regularmente as missas dominicais. Houve uma falha na evangelização, mas as feridas mais profundas estão na diminuição da frequência nas missas e nossa incapacidade de transmitir a fé. Atualmente, estamos enterrando a última geração que ensinou que a missa do domingo é uma obrigação, que deveria ser cumprida – sob a pena de pecado mortal.
  2. Existe uma responsabilidade compartilhada. É fácil ficar zangado com os bispos e padres quando eles fecham as paróquias. Anos de má catequese, falta de pregação efetiva e liturgias mal celebradas estão na conta. E o clero deve ficar com a primeira responsabilidade sobre isso. No entanto, a divisão dos fiéis e o desvio da prática da fé também são fatores importantes. Há muitos padres que não pregam com firmeza nem insistem em uma doutrina clara. O preço disso é alto, sim, mas no final do dia, o clero não pode assumir a responsabilidade completa do problema nem abordá-lo por si só. A evangelização não pode ser só um problema da reitoria; em última instância, é um problema familiar. Os pais e avós devem se esforçar mais para reunir seus filhos em casa e serem testemunhos da força transformadora da liturgia e dos sacramentos.
  3. A liturgia tem culpa? Muitos culpam a liturgia da Igreja Católica por ser “enfadonha”, “monótona” e até “banal”. As soluções para este tema são, muitas vezes, desconcertantes e não cumprem com o objetivo, atraindo somente porções muito pequenas de fiéis. Por exemplo, alguns são a favor da reintrodução da missa tradicional, em latim. Com todo o encanto que isso possa ter, não há uma só diocese nos Estados Unidos em que essa forma de expressar a liturgia atraia mais de um por cento dos frequentadores da missa. Portanto, o problema parece ser mais profundo.
  4. O coração do problema é um mal-estar geral. Há pouca urgência; poucas pessoas parecem sentir a necessidade da fé, da Igreja, dos sacramentos ou da palavra de Deus. O universalismo (todos se salvarão) e o relativismo (tudo é verdade) dentro e fora da Igreja representaram o papel mais importante do problema. O que a Igreja oferece “não é necessário”. Os problemas dela “não são os problemas da modernidade”. A opinião comum em nossa cultura é que a religião é um pouco menos do que um acessório agradável para a vida. Quem se importa com isso?
  5. Como controlar a erosão da prática da fé católica? Como disse Ralph Martin, o primeiro passo deve ser reviver uma visão mais bíblica – com urgência – da salvação. O fato de muitas pessoas, inclusive entre o clero, dizerem que a salvação “não é um problema” não significa que não seja. Jesus dedicou muitas horas de pregação e muitas parábolas para nos alertar sobre a necessidade de merecer a salvação que Ele oferece. Mas muita gente não considera a confissão dos pecados, a frequência na missa e o recebimento da Eucaristia como caminhos para a salvação de nossas almas.
  6. Não cair na ilusão do chamado “discurso do medo”. Muitos temem o juízo de Deus. De algumas coisas temos que ter medo, incluindo nossa tendência a sermos de coração duro e tolo em relação à Graça e a preferir as coisas do mundo às verdades eternas. O pânico, com efeito não é útil. Mas a sobriedade, a necessidade vital dos sacramentos, a Palavra proclamada, a comunhão e o poder transformador da liturgia são.

É triste perder edifícios, muitos deles verdadeiras obras de arte. Mas é ainda mais triste refletir sobre a perda humana que os edifícios vazios representam.

Aleteia

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“Se há quem duvide da transição religiosa no Brasil, a capital do Acre é um exemplo de cidade que já promoveu a mudança de hegemonia entre católicos e evangélicos (especialmente para a população feminina e jovens). Impressiona o ritmo ocorrido nas últimas duas décadas, pois os católicos caíram cerca de 2% ao ano, enquanto para o Brasil a queda foi de 1% ao ano”, escreve José Eustáquio Diniz Alves, doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE, em artigo publicado por EcoDebate.

Depois de 500 anos de predominância católica, o Brasil está passando por uma transição religiosa, com declínio das filiações católicas e aumento das filiações evangélicas, além do aumento do percentual de outras religiões e do percentual de pessoas que se declaram sem religião.

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Esse fenômeno acontece em todo o território nacional, mas com ritmos diferentes nas regiões, nos estados e nos municípios. A Unidade da Federação com menor percentual de católicos era o Rio de Janeiro, com somente 45,8%, segundo o censo demográfico de 2010. A Unidade da Federação com maior percentual de evangélicos era Rondônia, com 33,8%.

Estes dois estados são os mais avançados na transição religiosa, segundo os últimos dados do IBGE. A razão entre evangélicos e católicos (REC) era de 71,1% em Rondônia e de 64,1% no Rio de Janeiro. Para o Brasil a REC era de 34,3% em 2010, significando que existia 34,3 evangélicos para cada 100 católicos.

Mas em termos das capitais, a cidade de Rio Branco, no Acre, é a mais adiantada na transição religiosa no Brasil, com uma REC de 100%, ou seja, o número de católicos e evangélicos estava praticamente empatado, em 2010.

O percentual de católicos na capital do Acre, em 1991, era de 82,4% e o percentual de evangélicos era de 10%. Mas tudo mudou rapidamente em menos de 20 anos. A tabela acima mostra que, para a população total do município, o percentual de católicos caiu para 61,5% em 2000 e declinou ainda mais para 39,9% em 2010, uma queda impressionante (de 42,5% em 19 anos e de 21,6% em 10 anos). O percentual de evangélicos passou de 23,3%, em 2000, para 39,8% em 2010, subindo 30% em 19 anos e 16,5% na última década. Outras religiões e sem religião somavam 20,3% em 2010.

Quando se analisa a população de 0 a 14 anos o percentual de católicos é ainda menor (34,1% em 2010) e o percentual de evangélicos é ainda maior (44,7%). Este padrão que se repete no país como um todo, mostra que existe um fator intergeracional na transição religiosa, pois as gerações mais jovens estão mais avançadas na transição religiosa e os idosos são os menos afeitos às mudanças de hegemonia.

Quando se considera apenas a população feminina, a capital do Acre já completou a transição religiosa, pois as filiações católicas representavam 38,6% entre as mulheres e as filiações evangélicas representavam 43,4%, em 2010. Outras religiões e sem religião somavam 18% em 2010. Entre as mulheres jovens a mudança de hegemonia é ainda mais visível.

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Artigo do Portal G1 (24/01/2014) mostra que a transição religiosa em Rio Branco foi acompanhada pela multiplicação dos templos evangélicos. Somente nas ruas Valdomiro Lopes e Rua da Conquista, no Bairro da Paz, há mais de sete igrejas evangélicas ao longo de pouco mais de 1 km. O número de templos pode ser decisivo na conquista de fiéis, pois as pessoas tendem a frequentar as igrejas próximas de suas residências.

Se há quem duvide da transição religiosa no Brasil, a capital do Acre é um exemplo de cidade que já promoveu a mudança de hegemonia entre católicos e evangélicos (especialmente para a população feminina e jovens). Impressiona o ritmo ocorrido nas últimas duas décadas, pois os católicos caíram cerca de 2% ao ano, enquanto para o Brasil a queda foi de 1% ao ano. Resta saber se a cidade de Rio Branco é uma exceção ou se as demais capitais também vão seguir este mesmo processo. A resposta deve ser dada no censo demográfico de 2020, quando teremos um panorama atualizado das filiações religiosas em todos os municípios brasileiros.

Referências:

ALVES, J. E. D; NOVELLINO, M. S. F. A dinâmica das filiações religiosas no Rio de Janeiro: 1991-2000. Um recorte por Educação, Cor, Geração e Gênero. In: Patarra, Neide; Ajara, Cesar; Souto, Jane. (Org.). A ENCE aos 50 anos, um olhar sobre o Rio de Janeiro. RJ, ENCE/IBGE, 2006, v. 1, p. 275-308
https://pt.scribd.com/doc/249670739/A-dinamica-das-filiacoes-religiosas-no-Rio-de-Janeiro-1991-2000-Um-recorte-por-educacao-cor-geracao-e-genero

ALVES, JED, CAVENGHI, S. BARROS, LFW. A transição religiosa brasileira e o processo de difusão das filiações evangélicas no Rio de Janeiro, PUC/MG, Belo Horizonte, Revista Horizonte – Dossiê: Religião e Demografia, v. 12, n. 36, out./dez. 2014, pp. 1055-1085

ALVES, JED, BARROS, LFW, CAVENAGHI, S. A dinâmica das filiações religiosas no brasil entre 2000 e 2010: diversificação e processo de mudança de hegemonia. REVER (PUC-SP), v. 12, p. 145-174, 2012.

ALVES, JED. “A encíclica Laudato Si’: ecologia integral, gênero e ecologia profunda”, Belo Horizonte, Revista Horizonte, Dossiê: Relações de Gênero e Religião, Puc-MG, vol. 13, no. 39, Jul./Set. 2015

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O intelectual não pode viver em uma torre de marfim. E, se for católico, tem que “decifrar o sentido do presente” e “combater o cinismo em todas as suas formas.” São dois dos deveres imprescindíveis do intelectual católico do nosso tempo que o filósofo da Universidade Ramon Llull, Francesc Torralba , compartilhou no II Congresso da revista Questions de Vida Cristiana e da Fundació Joan Maragall, que aconteceu no mosteiro beneditino catalão de Montserrat.

Veja outros deveres do intelectual católico, segundo o filósofo:

  1. Decifrar o significado do presente, articular uma cartografia do agora, explorando os vetores que movem a cultura e as tendências da época. Este dever requer a habilidade de detectar o que é de boa fé, puro, verdadeiro e bom e, por outro lado, exige a capacidade de entender a obscuridade do presente.
  2. Recriar linguisticamente a herança recebida, articulá-la mediante um jogo de linguagem que seja significativo, claro e inteligível para o homem e a mulher de hoje. Evitar cair no tradicionalismo pétreo e, da mesma forma, na “novolatria” (idolatria do que é novo).
  3. Manter um compromisso ativo com a racionalidade, identificando seus potenciais e limitações, evitando cair no sentimentalismo, mas também não atendo somente ao racionalismo. Espera-se que um intelectual católico lute contra a credulidade e o fideísmo.
  4. Construir pontes com as tradições espirituais e religiosas da humanidade, e, quando possível, com novas formas de espiritualidade laica que emergem às margens das instituições formalmente articuladas.
  5. Articular uma chamada profética a favor dos mais vulneráveis, dos excluídos e dos que estão à margem de nossa sociedade – e atuar em defesa da dignidade inerente à toda pessoa humana.
  6. Não renunciar o criticismo moderno e desenvolvê-lo tanto ad intra (dentro da instituição eclesial), quanto ad extra (o mundo). Viver o sentido de pertinência sem complexos e não se esquivar da dor de ser membro da Igreja em certas ocasiões.
  7. Apostar na visibilidade midiática. Existir no ágora digital, ter a audácia de estar presente neste espaço e propor a própria cosmovisão. Recusar a hipervisibilidade e, por outro lado, a tendência à marginalidade e ao refúgio no calor do rebanho. Colocar-se para fora, ter a audácia de estar na praça pública e, se convier, de ser ferido.
  8. Comprometer-se com as causas nobres da sociedade. Lutar contra o puritanismo moral e o perfeccionismo, a moral da elite e a tendência de jogar o papel do espectador neutro. Não há neutralidade para o intelectual católico. É necessário ser ator; não espectador passivo do mundo. É preciso lutar para melhorar o mundo, participando de organizações que transformam a sociedade.
  9. Reconhecer as grandes produções artísticas, culturais e filosóficas da cultura laica. Também reconhecer as manifestações do ateísmo dos séculos XIX e XX e do humanismo ateu em todas as suas formas. Não se sentir provocado pelo laicismo de voo galináceo.
  10. Articular um discurso de esperança, capaz de combater racionalmente a tendência ao niilismo histórico e, especialmente, não se deixar vencer pelo desânimo diante dos acontecimentos. O intelectual católico deve combater o cinismo em todas as suas formas – inclusive aquele que pode nascer em seu interior.

Autor: Miriam Diez Bosch