Em síntese: Os Florais de Bach representam uma corrente da medicina que explora o valor terapêutico da essência das flores; como tal, é moralmente lícita, devendo ser avaliada segundo critérios médicos. Ocorre, porém, que os Florais estão sendo atualmente apregoados dentro de uma visão holística ou panteísta correspondente às concepções de Nova Era. Daí a necessidade de que o cristão distinga a terapia e a cosmovisão dos Florais de Bach e não se deixe envolver por esta última.

Os Florais de Bach são uma corrente terapêutica baseada na seguinte concepção: a medicina convencional, inspirada nas descobertas do sábio francês Louis Pasteur, tenciona extirpar o gérmen da doença mediante medicamentos para “combater a infecção” ou “batalhar contra o câncer”. O homem seria um mecanismo cibernético passível de ser acionado por remédios. Esta teoria tem dado resultados, mas ainda há doenças incuráveis, como o câncer, a artrite, as moléstias cardiovasculares (…).

À concepção tradicional de medicina opõe-se outra, inspirada pelo Dr. Claude Bernard: este enfatizou a importância do ambiente interior da pessoa e seu grau de receptividade à doença; introduziu o conceito de resistência à doença ou de sistema imunológico.

É nesse contexto de estimulação geral à saúde que se entende a contribuição das essências florais. Não são um substitutivo da medicina moderna, mas têm a finalidade de preparar a terra onde cresce a boa saúde, enriquecer o solo profundo da vida humana para que a vitalidade possa criar raízes e florescer.

As origens da corrente dos Florais estão na década de 1930, quando o Dr. Edward Bach observou o papel dasemoções e atitudes na doença – o que o levou a conceber o sistema dos Florais ditos “de Bach”. Sobreveio a segunda guerra mundial, que provocou terríveis traumas sociais; a medicina então tomou mais consciência de que toda doença é psicossomática; muitas delas têm causas emocionais e não físicas, embora possam ter efeitos físicos. Esta verificação deu grande impulso às tentativas de sanar as emoções da população mediante o recurso aos Florais ou à essência das flores.

Um Livro Significativo

Entendidos como atrás foi exposto, os Florais de Bach são um procedimento médico que não sofre restrições por parte da Moral católica. Ocorre, porém, que está sendo associado a uma filosofia panteísta por certas escolas, como se depreende do livro Repertório das Essências Florais da autoria de Patricia Kaminski e Richard Katz (Ed. Triom, São Paulo, 2ª edição 2001). A antropologia proposta por estes doisautores não é aceitável ao cristão, pois professam o holismo que vê a realidade como um todo (holon) sem levar na devida conta as diferenças entre Deus, o mundo irracional e o homem.

Sob o título de “Visão Holística” são propostos os seguintes conceitos:

Corpo Humano

“Embora haja muitos sistemas de anatomia sutil, neste Repertório referimo-nos a uma fundamental divisão quádrupla do ser humano, que tem origem em várias tradições da sabedoria e da cura metafísicas, e que é resumida sucintamente nos escritos do moderno cientista espiritual, Dr. Rudolf Steiner.

Essa classificação quádrupla refere-se a: 1) o corpo físico – a estrutura bioquímica e mecânica do corpo; 2) o corpo elétrico – o envoltório vital que circunda imediatamente o corpo físico e que está intimamente conectado com as forças vitais da Natureza; 3) o corpo astral – a sede da alma e o repositório dos desejos, emoções e sentimentos humanos, especialmente correlacionado com o mundo dos astros e outras influências cósmicas; e 4) o Self ou Eu Espiritual – a essência ou identidade espiritual verdadeira de cada ser humano. Esses quatro corpos também podem ser vistos como se estivessem contidos em duas polaridades fundamentais do ser humano: o pólo da vida (o físico-elétrico) e o pólo da consciência (o anímico-espiritual). Já analisamos os corpos físico e elétrico; passamos agora ao pólo da consciência do ser humano.” (p. 14).

Rudolf Steiner é o fundador da Antroposofia, que é evidentemente panteísta..

A respeito do Eu lê-se à p. 15:

“O aspecto supremo do ser humano no sistema quádruplo é o ego espiritual ou Self, também conhecido como a presença do Eu ou a centelha de divindade que habita no indivíduo, que leva o ser humano à liberdade de dar forma ao seu destino e desenvolver  as forças morais da consciência assim como a consciência de si. Esse Eu, ou presença auto-reflexiva, distingue os seres humanos dos três outros reinos da Natureza – os animais, as plantas e os minerais.

O Eu Espiritual é aquele aspecto divino do nosso ser que age através da matriz do corpo e da alma, buscando a encarnação na matéria a fim de evoluir. Ele representa uma identidade individual que não pode ser plenamente definida por fatores demográficos ou hereditários, mas que se manifesta em nosso caráter e destino pessoal. Assim como é única a estrutura cristalina de cada floco de neve que cai do céu sobre a Terra, também a diamantina divindade que pertence a cada alma humana é uma expressão sublime de espiritualidade individual”.

Sobre a alma humana está dito às pp. 17s:

“A alma está assim fortemente conectada ao corpo astral, morada das nossas emoções, do nosso gostar e não gostar, das nossas experiências. Contudo, seria uma simplificação exagerada dizer que a alma é o corpo astral, pois ela também busca um relacionamento com o mundo físico, com a Natureza e com a sociedade humana.

Como pode a alma nascer do mundo espiritual e, ainda assim, expressar-se através do corpo físico? Qual o mistério contido nesse paradoxo? Onde exatamente podemos achar a alma? O poeta alemão Novalis disse, “A sede da alma é ali onde o mundo interior e o mundo exterior se encontram. Onde eles se sobrepõem; a alma está em cada um dos pontos da sobreposição”. A palavra grega psyche significa tanto “alma” como “borboleta”. Essa imagem sugere que a alma é capaz de transmutação, metamorfose, desde a lagarta presa à terra, passando pela crisálida encasulada, até chegar finalmente às asas celestiais libertas. A alma é assim um intermediário entre o interior e o exterior; entre o corpo (encarnação na matéria) e o espírito (expansão ilimitada do Eu), entre a vida e a consciência.

Essa natureza dinâmica e fluída da alma é essencial. Se confundimos alma e espírito, como fizeram muitos teólogos do passado, então a alma torna-se uma abstração desincorporada, separada da pulsação da vida. Se reduzimos a alma a um mecanismo físico, como faz a ciência materialista moderna, então negamos seus atributos transcendentes e misteriosos e promovemos a macabra visão de um mundo sem cor habitado apenas por criaturas mecânicas”.

E à p. 19:

“infelizmente, Jung estava certo apenas pela metade em sua avaliação de alquimia. Seus insights levaram a uma nova sabedoria sobre a vida da alma humana, mas sem uma conexão direta com a alma da natureza”.

Nos dois últimos textos acima note-se a palavra Natureza com N maiúsculo; além do quê à p. 19 se lê “alma da natureza” como se a natureza toda ou o cosmos fosse um grande vivente.

A antropologia católica distingue no ser humano dois componentes apenas: o corpo material e a alma espiritual. Esta é responsável por todas as funções vegetativas, sensitivas e intelectivas do ser humano, na qualidade de princípio vital. As emoções e afetos têm sede na sensibilidade do corpo humano, sensibilidade animada pela mesma alma que é sede das faculdades espirituais ou do intelecto e da vontade.

Observação final

Embora professem o holismo panteísta, os autores da obra Repertório (…) reconhecem que a aplicação dos Florais de Bach é independente dessa concepção filosófica e pode ocorrer dentro de uma visão diferente do ser humano. 

Tais são as palavras de Patrícia Kaminski e Richard Katz na Apresentação do livro (p. XII):

“O Repertório das Essências Florais foi elaborado com a intenção de ser facilmente acessado por aqueles que desejam trabalhar com ele de variadas maneiras. Embora, ao longo do Repertório, sejam feitas referências a vários conceitos filosóficos e metafísicos, não é uma precondição que o leitor acredite num determinado ensinamento cultural ou espiritual para obter benefício das essências florais. O mais importante é que cada pessoa considere os méritos desta modalidade terapêutica e aplique as crenças ou conceitos que vivem dentro de seu coração e sua mente. Independentemente da visão filosófica de uma pessoa, o Repertório pode sempre ser usado de um modo muito básico e direto, se ele simplesmente tornar-se sensível à vida dos sentimentos da alma humana e aprender as qualidades das flores que refletem as condições da alma. Esperamos sinceramente que o Repertório venha a ser uma ferramenta para a verdadeira cura da alma e para buscas e descobertas adicionais por parte do leitor”.

Portanto ao cristão não é ilícito aplicar os Florais de Bach, contanto que guarde a sua filosofia religiosa, acautelando-se contra insinuações contrárias.

Revista: “PERGUNTE  E RESPONDEREMOS”
D. Estevão Bettencourt, osb
Nº 484 – Ano 2002 – p. 424

Carta aos Bispos
a respeito da nova redação do n. 2267
do Catecismo da Igreja Católica
sobre a pena de morte

1. O Santo Padre Francisco, no Discurso por ocasião do vigésimo quinto aniversário da publicação da Constituição Apostólica Fidei depositum, com a qual João Paulo II promulgou o Catecismo da Igreja Católica, pediu que fosse reformulado o ensinamento sobre a pena de morte, a fim de reunir melhor o desenvolvimento da doutrina sobre este ponto nos últimos tempos.[1] Este desenvolvimento apoia-se na consciência cada vez mais clara na Igreja do respeito devido a toda vida humana. Nesta linha, João Paulo II afirmou: «Nem sequer o homicida perde a sua dignidade pessoal e o próprio Deus Se constitui seu garante».[2]

2. É nesta perspectiva que se deve compreender a postura em relação a pena de morte, afirmada largamente no ensinamento dos pastores e na sensibilidade do povo de Deus. Se, de fato, a situação política e social do passado tornava a pena de morte um instrumento aceitável para a proteção do bem comum, hoje a consciência cada vez maior de que a dignidade de uma pessoa não se perde nem mesmo depois de ter cometido crimes gravíssimos, a compreensão aprofundada do sentido das sanções penais aplicadas pelo Estado e o desenvolvimento dos sistemas de detenção mais eficazes que garantem a indispensável defesa dos cidadãos, contribuíram para uma nova compreensão que reconhece a sua inadmissibilidade e, portanto, apela à sua abolição.

3. Neste desenvolvimento, o ensinamento da Carta encíclica Evangelium vitae de João Paulo II é de grande importância. O Santo Padre incluiu entre os sinais de esperança de uma nova civilização da vida «a aversão cada vez mais difusa na opinião pública à pena de morte, mesmo vista só como instrumento de “legítima defesa” social, tendo em consideração as possibilidades que uma sociedade moderna dispõe para reprimir eficazmente o crime, de forma que, enquanto torna inofensivo aquele que o cometeu, não lhe tira definitivamente a possibilidade de se redimir».[3] O ensinamento da Evangelium vitae foi proposto na editio typica do Catecismo da Igreja Católica. No mesmo, a pena de morte não se apresenta como uma pena proporcional à gravidade do delito, mas justifica-se somente se fosse «a única solução possível para defender eficazmente vidas humanas de um injusto agressor», mesmo se de fato «os casos em que se torna absolutamente necessário suprimir o réu são já muito raros, se não mesmo praticamente inexistentes» (n. 2267).

4. João Paulo II interveio também em outras ocasiões contra a pena de morte, apelando seja em relação ao respeito à dignidade da pessoa quanto aos meios que a sociedade possui hoje para se defender do criminoso. Assim, na Mensagem natalícia de 1998, ele esperava «no mundo o consenso quanto a medidas urgentes e adequadas … para acabar com a pena de morte».[4] No mês sucessivo, nos Estados Unidos, ele repetiu: “Um sinal de esperança é constituído pelo crescente reconhecimento de que a dignidade da vida humana nunca deve ser negada, nem sequer a quem praticou o mal. A sociedade moderna possui os instrumentos para se proteger, sem negar de modo definitivo aos criminosos a possibilidade de se redimirem. Renovo o apelo lançado no Natal, a fim de que se decida abolir a pena de morte, que é cruel e inútil”.[5]

5. O esforço em comprometer-se com a abolição da pena de morte continuou com os sucessivos Pontífices. Bento XVI chamou «a atenção dos responsáveis da sociedade para a necessidade de fazer todo o possível a fim de se chegar à eliminação da pena capital».[6] E sucessivamente desejou a um grupo de fiéis que «suas deliberações possam encorajar as iniciativas políticas e legislativas, promovidas em um número crescente de países, a eliminar a pena de morte e continuar os progressos substanciais realizados para adequar a lei penal tanto às exigências da dignidade humana dos prisioneiros quanto à efetiva manutenção da ordem pública».[7]

6. Nesta mesma perspectiva, o Papa Francisco reiterou que «hoje a pena de morte é inadmissível, por mais grave que seja o delito do condenado».[8] A pena de morte, quaisquer que sejam as modalidades de execução, «implica um tratamento cruel, desumano e degradante».[9] Deve também ser recusada «por causa da seletividade defeituosa do sistema penal e da possibilidade de erro judicial».[10] É neste horizonte que o Papa Francisco pediu uma revisão da formulação do Catecismo da Igreja Católica sobre a pena de morte, de modo que se afirme que «por muito grave que possa ter sido o delito cometido, a pena de morte é inadmissível, porque atenta contra a inviolabilidade e dignidade da pessoa».[11]

7. A nova redação do n. 2267 do Catecismo da Igreja Católica, aprovada pelo Papa Francisco, situa-se em continuidade com o Magistério anterior, levando adiante um desenvolvimento coerente da doutrina católica.[12] O novo texto, seguindo os passos do ensinamento de João Paulo II na Evangelium vitae, afirma que a supressão da vida de um criminoso como punição por um delito é inadmissível, pois atenta contra a dignidade da pessoa. Tal dignidade não se perde nem mesmo depois de ter cometido delitos gravíssimos. Chega-se também a essa conclusão levando em conta a nova compreensão das sanções penais aplicadas pelo Estado moderno, que deve antes de tudo, orientar-se para a reabilitação e reinserção social do criminoso. Enfim, dado que a sociedade de hoje possui sistemas de detenção mais eficazes, a pena de morte é desnecessária como proteção da vida de pessoas inocentes. Certamente, permanece o dever do poder público de defender a vida dos cidadãos, como sempre foi ensinado pelo Magistério e confirmado pelo Catecismo da Igreja Católica nos números 2265 e 2266.

8. Tudo isso mostra que a nova formulação do n. 2267 do Catecismo expressa um autêntico desenvolvimento da doutrina, que não está em contradição com os ensinamentos anteriores do Magistério. De fato, tais ensinamentos podem ser explicados à luz da responsabilidade primária do poder público em tutelar o bem comum, num contexto social em que as sanções penais eram compreendidas diversamente e se davam num ambiente em que era mais difícil garantir que o criminoso não pudesse repetir o seu crime.

9. Na nova redação, se acrescenta que a conscientização sobre a inadmissibilidade da pena de morte cresceu «à luz do Evangelho».[13] De fato, o Evangelho ajuda a compreender melhor a ordem da criação que o Filho de Deus assumiu, purificou e levou à plenitude. O Evangelho também nos convida à misericórdia e à paciência do Senhor, que oferece a todos, tempo para se converterem.

10. A nova formulação do n. 2267 do Catecismo da Igreja Católica quer impulsionar um firme compromisso, também através de um diálogo respeitoso com as autoridades políticas, a fim que seja fomentada uma mentalidade que reconheça a dignidade de toda vida humana e sejam criadas as condições que permitam eliminar hoje o instituto jurídico da pena de morte, onde ainda está em vigor.

O Sumo Pontífice Francisco, na Audiência concedida ao subscrito Secretário no dia 28 de junho de 2018, aprovou a presente Carta, decidida na Sessão Ordinária desta Congregação no dia 13 de junho de 2018, e ordenou a sua publicação.

Dado em Roma, na Sede da Congregação para a Doutrina da Fé, no dia 1º de agosto de 2018, Memória de Santo Afonso Maria de Ligório.

Luis F. Card. Ladaria, S.I.
Prefeito

+ Giacomo Morandi
Arcebispo Titular de Cerveteri
Secretário

Notas

[1] Cf. Francisco, Discurso aos participantes no encontro promovido pelo Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização (11 de outubro de 2017): L’Osservatore Romano (13 de outubro de 2017), 4.

[2] João Paulo II, Carta enc. Evangelium vitae (25 de março de 1995), n. 9: AAS 87 (1995), 411.

[3] Ibid., n. 27: AAS 87 (1995), 432.

[4] João Paulo II, Messagem Urbi et Orbi por ocasião do Santo Natal (25 de dezembro de 1998), n. 5: Ensinamentos XXI,2 (1998), 1348.

[5] Id., Homilia no Trans World Dome de St. Louis (27 de janeiro de 1999): Ensinamentos XXII,1 (1999), 269; cf. Homilia da Missa na Basílica de Nuestra Señora de Guadalupe na Cidade do México (23 de janeiro de 1999): «Deve haver um fim para o recurso desnecessário à pena de morte»: Ensinamentos XXII,1 (1999), 123.

[6] Bento XVI, Exort. Apost. Pós-Sinodal Africae munus (19 de novembro de 2011), n. 83: AAS 104 (2012), 276.

[7] Id., Audiência geral (30 de novembro de 2011): Ensinamentos VII,2 (2011), 813.

[8] Francisco, Carta ao Presidente da Comissão internacional contra a pena de morte (20 de março de 2015): L’Osservatore Romano (20-21 de março de 2015), 7.

[9] Ibid.

[10] Ibid.

[11] Francisco, Discurso aos participantes no encontro promovido pelo Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização (11 de outubro de 2017): L’Osservatore Romano (13 de outubro de 2017), 5.

[12] Cf. Vincenzo di Lérins, Commonitorium, cap. 23: PL 50, 667-669. Em referência a pena de morte, tratando sobre as especificações dos mandamentos do Decálogo, a Pontifícia Comissão Bíblica falou em “refinar” as posições morais da Igreja: «No curso da história e com o desenvolvimento das civilizações, a Igreja também refinou as próprias posições morais referentes à pena de morte e à guerra, em nome de uma reverência pela vida humana que ela acalenta sem cessar meditando a Escritura, reverência que toma sempre mais a cor de um absoluto. O que subentende essas posições aparentemente radicais é sempre a mesma noção antropológica de base: a dignidade fundamental do ser humano criado à imagem de Deus» (Bíblia e moral. Raízes bíblicas do agir cristão, 2008, n. 98).

[13] Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. Gaudium et spes, n. 4.

O novo Rescrito do Papa, ou seja, a decisão papal sobre a questão da pena de morte, foi publicado na manhã desta quinta-feira, dia 02 de agosto, no Vaticano.
” O Santo Padre recebeu em audiência, no dia 11 de maio p.p., no Vaticano, o Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Cardeal Luís Ladaria, durante a qual aprovou a nova redação do Catecismo da Igreja Católica (n. 2267), sobre a “pena de morte”.

O novo Rescrito do Papa, ou seja, a decisão papal sobre a questão da pena de morte, foi publicado na manhã desta quinta-feira, no Vaticano:

Durante muito tempo, o recurso à pena de morte, por parte da legítima autoridade, era considerada, depois de um processo regular, como uma resposta adequada à gravidade de alguns delitos e um meio aceitável, ainda que extremo, para a tutela do bem comum”.

No entanto, hoje, torna-se cada vez mais viva a consciência de que a dignidade da pessoa não fica privada, apesar de cometer crimes gravíssimos. Além do mais, difunde-se uma nova compreensão do sentido das sanções penais por parte do Estado. Enfim, foram desenvolvidos sistemas de detenção mais eficazes, que garantem a indispensável defesa dos cidadãos, sem tirar, ao mesmo tempo e definitivamente, a possibilidade do réu de se redimir.

Por isso, a Igreja ensina, no Novo Catecismo, à luz do Evangelho, que “a pena de morte é inadmissível, porque atenta contra a inviolabilidade e dignidade da pessoa, e se compromete, com determinação, em prol da sua abolição no mundo inteiro”.

Fonte: News.va 

A meio século da publicação da Humanae vitae (25 de julho de 1968), um estudo reconstrói a gênese do documento com o qual o Papa Paulo VI condenou a contracepção artificial. O resultado dessa pesquisa histórica é o livro La nascita di un’enciclica [O nascimento de uma encíclica. imagem acima] (Libreria Editrice Vaticana, 288 páginas), assinado por Gilfredo Marengo, professor de Antropologia Teológica no Pontifício Instituto João Paulo II, que, em virtude de uma permissão especial do Papa Francisco, examinou os documentos dos Arquivos Vaticanos, trazendo à luz fatos inéditos.

Monsenhor, por que sentiu a necessidade de um estudo tão aprofundado sobre a Humanae vitae?

Como se sabe, estamos diante de um dos documentos eclesiais mais debatidos e contestados. Nestes anos, convenci-me de que muitas dessas críticas dependem, senão exaustivamente, pelo menos em grande parte de conjecturas sobre o processo seguido na elaboração da encíclica. Por isso, acredito que um estudo rigoroso, centrado nas fontes conservadas nos Arquivos Vaticanos, pode contribuir para restaurar as intenções reais de Paulo VI.

O senhor também considera que a Humanae vitae, na memória coletiva, foi achatada na sua estigmatização à pílula, fazendo com que se perca de vista aquela urgência pastoral de acompanhamento dos casais tão sentida por Montini e expressada por ele na terceira e última parte do texto?

O papa, em consciência, considerou que devia condenar a contracepção artificial, mas, ao mesmo tempo, estava ciente da dificuldade de recepção de tal pronunciamento. Ele sentia a complexidade para os casais cristãos de acolher esse juízo moral sobre a pílula. Não por acaso, no ditado da encíclica, está muito claro como Montini se esforçou em convidar os fiéis a refletir, a entender as razões de uma proibição que, nas suas intenções, não era e não devia ser uma mortificação da sexualidade e do amor, mas sim um objetivo positivo a ser alcançado com um percurso de acompanhamento.

O “não” de Montini à pílula se justifica apenas de um ponto de vista moral ou os Arquivos Vaticanos também mostram algo mais?

Os documentos nos entregam um papa fortemente preocupado com as políticas de birth control patrocinadas pelas agências internacionais nos países africanos em desenvolvimento, que, naqueles anos, saíam do colonialismo. Chegavam continuamente até ele cartas das nunciaturas apostólicas daqueles territórios nas quais se denunciavam essas atitudes. Infelizmente, o fato de ter reduzido a Humanae vitae apenas ao juízo moral sobre a contracepção artificial ofuscou a grande intuição de Montini, que previra a dramática desnatalidade dos nossos dias. A reivindicação moral e a reivindicação voltada a combater a queda demográfica caminhar de mãos dadas nele.

Contestado pelos ambientes progressistas por ter removido o tema da pílula do debate conciliar e por não ter dado prosseguimento às indicações liberais elaboradas pela comissão ad hoc, deve-se reconhecer a Paulo VI o fato de ter se recusado a considerar a Humanae vitae como infalível. Quem pressionava para encerrar de uma vez por todas o debate na Igreja sobre a contracepção?

As pressões vinham principalmente dos ambientes da Cúria ligados à Tradição. Os mesmos setores pelos quais foi elaborada, depois, entre 1967 e 1968, a De nascendae prolis. Um documento que, apesar de alguma antecipação da imprensa publicada nos últimos dias, não abria de modo algum à legalidade da pílula. Seu redator, o padre dominicano Mario Luigi Ciappi, no máximo estava preocupado em preparar uma sólida estrutura doutrinal em apoio da procriação como fim primário do matrimônio, rejeitando, consequentemente, na verdade de maneira definitiva mais do que infalível, a contracepção artificial e sem assumir um forte perfil pastoral do texto.

Como se explica o fato de Montini não querer deixar no debate conciliar um tema tão delicado como o da pílula?

Paulo VI, durante o Vaticano II, sempre sentiu a urgência de salvaguardar e mostrar ao exterior uma Igreja unida, em vez de dividida em várias posições. Com a Gaudium et spes, o Concílio afirmou, pela primeira vez, por um lado, que, se se quiser descrever o matrimônio, é preciso partir do amor entre os cônjuges; por outro, que a paternidade responsável é um valor e não uma concessão, como havia sido entendida por Pio XII no seu “Discurso às parteiras”. Chegou-se a esses resultados após um duro e denso debate entre os bispos, que convenceu Paulo VI do fato de que, com muita probabilidade, pôr como tema um juízo sobre os métodos de regulação dos nascimentos criaria fortes divisões entre os Padres conciliares.

No fim, ele decidiu e foi contra as orientações da comissão especial sobre a pílula e da maioria dos bispos, como também demonstra, no seu pequeno âmbito, o resultado da sondagem de 1967.

A clareza de juízo que Montini havia amadurecido sobre o problema convenceu-o a proceder em uma direção diferente da que, de vários modos, a maioria daqueles que ele havia consultado lhe sugeriu. Certamente não foi uma decisão fácil, mas ele a tomou com grande serenidade, embora ciente de que isso o exporia a reações críticas fortes, como de fato aconteceu.

Hoje o senhor acha que há margens para uma atualização da encíclica?

Não se trata de “atualizar a encíclica”, mas de valorizar o seu ensinamento, à luz de tudo aquilo que, nesse meio século, a vida eclesial amadureceu sobre os temas fundamentais do matrimônio e da família, de João Paulo II ao atual papa. Pessoalmente, considero profética a decisão tomada por Paulo VI em 1968. Os conteúdos da Humanae vitae provavelmente ainda precisam ser mais bem acolhidos e compreendidos.

Fonte: Pacem in Terris, 25-07-2018.

O bispo da Diocese de Fréjus-Toulon, França, é autor do livro ‘Can We Be a Christian and Freemason?’ (‘Podemos ser cristãos e maçons?’)

Existem muitos obstáculos entre a Maçonaria e a Igreja Católica?

Bispo Rey: Sim, entre a Maçonaria e o ensinamento da Igreja Católica existem muitos pontos de dissonância. O primeiro é o esoterismo. Com os maçons, a doutrina é transmitida apenas a um pequeno círculo de iniciados. Já no século 2, Santo Irineu condenou a heresia do gnosticismo, uma doutrina segundo a qual a salvação passa por um conhecimento de Deus adquirido através da iniciação em práticas esotéricas. Na Maçonaria, o iniciado é obrigado ao segredo absoluto.

Na Igreja Católica, não existe um ensino assim tão secreto. A Bíblia, o Catecismo, os textos do Concílio Vaticano e o ensinamento de papas e bispos são acessíveis a todos. O Evangelho é destinado a todos e cada homem e mulher, sem restrições e sem distinção de castas ou posição. A Igreja também é uma instituição visível, aberta a todos, “um sinal e instrumento de salvação” (Vaticano II).

Os rituais também são um ponto central de atrito. A Maçonaria usa um simbolismo com códigos e ritos próprios (símbolos nas roupas, durante as assembleias e para iniciações particulares). Na Igreja, a iniciação é ordenada para a vida sacramental e para a economia da graça.

E o relativismo?

O relativismo filosófico e moral também estão incluídos. Para a Maçonaria, nenhuma verdade é definitiva, intangível ou absoluta. De fato, de seu ponto de vista, a verdade sempre nos escapa ou é chamada a ser construída pelo homem e para o homem; o dogma é, em princípio, contrário à liberdade humana.

A fé, pelo contrário, ensina-nos que a verdade tem o rosto de Cristo que se identificou com ela: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6). Esta verdade é acessível à razão humana e é proclamada na Igreja pelo Credo, que inclui os dogmas principais, isto é, as certezas que nossa fé confessa sobre a Trindade, a Encarnação, a Ressurreição, a Maternidade Divina da Virgem Maria… Os dogmas constituem tantas “janelas” que o Apocalipse abre para o mistério de Deus.

A Igreja também desafia o relativismo religioso professado pela Maçonaria, em nome da tolerância e da autonomia da Razão, colocando todas as convicções religiosas em igualdade. Por outro lado, respeitando a liberdade de consciência de todos, a Igreja vê em Cristo a chave para o entendimento final do mistério do homem e do seu destino: “Não há salvação em nenhum outro” senão Jesus Cristo (Atos 4,12).

A maçonaria frequentemente está associada a alguma forma de elitismo. Isso também é uma diferença fundamental?

Claro! Nascido na pobreza em uma manjedoura, morto crucificado, Cristo identificou-se com os pobres ao longo de sua vida. É para eles que anunciou a Boa Nova da Salvação. Por sua vez, a Igreja, em sua pastoral, exerce uma opção preferencial pelos pobres. Sua mensagem universal exclui todo o elitismo. Esta posição evangélica está em contradição com o recrutamento por indicação e a seleção de membros na Maçonaria, de acordo com os critérios pelos quais algumas pessoas pressionam para influenciar melhor as mudanças políticas e sociais no mundo.

E quanto ao secularismo?

A Igreja reconhece a autonomia das realidades terrestres governadas por suas próprias leis. No entanto, ela também enfatiza que estas não podem ser separados de Deus a qualquer preço. A palavra “leigo” aparece na tradição cristã desde o início. Alguns discursos dos responsáveis ​​pela Maçonaria, no entanto, parecem promover um secularismo que nega a expressão pública da fé e afasta a fé para a esfera privada. De certa forma, eles estão tentando fazer do secularismo uma religião estatal.

A Maçonaria pede aos seus membros que acreditem em um “Grande Arquiteto do Universo”. Isso dá a aparência de liberdade religiosa. Para um cristão, esse grande arquiteto do universo não seria simplesmente Deus?

Existe dentro da Maçonaria uma multiplicidade de crenças sobre a relação com os religiosos, desde o ateísmo declarado até as lendas de “maçonaria cristã”. Alguns, como o Grand National Lodge da França, falam do “Grande Arquiteto do Universo”. Esse reconhecimento de uma dimensão divina, inacessível ao homem, não pode ser equiparado ao encontro do homem com um Deus pessoal, manifestado em Cristo, que vem para nos encontrar para revelar a plenitude do seu amor (Col 1,26-28). Nossa fé não se limita à crença na existência de Deus, mas nos revela a salvação que Ele opera através da redenção de Cristo, cuja graça nos faz participar da natureza divina (2 Pedro 1,4).

A Maçonaria de alguma forma compete com a Igreja?

O objetivo oficial da Maçonaria é trabalhar para a melhoria material e moral da humanidade, bem como o seu aperfeiçoamento intelectual e moral. Nesse sentido, ela compartilha a preocupação da Igreja em trabalhar por um mundo melhor. Ao longo dos tempos, houve um desejo de alguns dos líderes da Maçonaria de construir uma nova humanidade a partir das ruínas da Igreja Católica, derrubando a fé que ela ensina. Albert Lantoine, membro do Supremo Conselho do Rito Escocês da França do século XX, disse: “A Maçonaria é a única religião humana”.

Na posição da Igreja Católica, como devemos interpretar o cânone 2335 do antigo Código de Direito Canônico (1917)? Ali se diz “aqueles que dão seu nome à seita maçônica, ou a outras associações do mesmo gênero, que maquinam contra a Igreja ou contra as potestades civis legítimas, incorrem ipso facto em excomunhão simplesmente reservada à Sede Apostólica”.

Como o ex-grande mestre do Grande Oriente da França, Paul Gourdeau, afirmou: “Essas duas culturas, uma baseada no Evangelho e outra na tradição histórica do humanismo republicano, são fundamentalmente opostas: a verdade é revelada e intangível, apontando para um Deus na origem de todas as coisas, ou então a verdade encontra seu fundamento nas construções do Homem, sempre em questão porque ele é infinitamente perfeito” (Humanisme Magazine, n° 193, outubro de 1990). Como resultado, “registrar-se na Maçonaria significa separar-se do cristianismo” (Leão XIII). Sem mencionar uma conspiração geral contra a Igreja. Alguns ex-maçons, que deixaram a maçonaria depois de descobrirem Cristo, não hesitam em mencionar em alguns círculos o ódio dos Maçons à Igreja Católica no que ela é e o que ela promove. Penso no último livro-testemunho de Serge Abad-Gallardo, com o título evocativo de I unwittingly served Lucifer (Servi involuntariamente ao Diabo).

A declaração romana da Congregação para a Doutrina da Fé assinada pelo Cardeal Ratzinger em 1983 afirma que “o julgamento negativo da Igreja sobre as associações maçônicas permanece inalterado no novo Código de Direito Canônico, porque seus princípios sempre foram considerados inconciliáveis com a doutrina da Igreja, e juntar-se a essas associações permanece proibido pela Igreja”. Essa é uma reafirmação para evitar qualquer confusão?

O Magistério da Igreja não mudou em sua doutrina desde a primeira condenação por Clemente XII em 1738, mas sua atitude pastoral evoluiu. É parte de uma lógica promovida pelo Concílio Vaticano II, durante o qual a Igreja iniciou o caminho do diálogo com “todos os homens de boa vontade”, independentemente das suas opiniões ou crenças. Como recorda o Papa Francisco, a firmeza dos princípios pode acompanhar a benevolência para com aqueles que não os compartilham.

Se a Igreja reconhecesse a possibilidade de ser maçom e cristão, não seria um novo “campo de evangelização”?

Como cristãos, temos uma verdadeira missão de evangelização a realizar. A atração pela Maçonaria destaca algumas deficiências pastorais dentro da Igreja: insuficiência na formação doutrinal e moral dos cristãos, falta de interioridade e vida de oração, falta de fraternidade e lugares de reflexão ou compartilhamento, qualidade insuficiente em sua vida litúrgica e na expressão de sua ritualidade, que é tão rica, a necessidade de evangelização das elites… Tantas áreas para explorar e investir para trazer respostas eclesiais relevantes. Mas é na Igreja e para a Igreja que a evangelização é concebida e expressa através dos pobres instrumentos que somos. Podemos testemunhar a nossa fé somente recorrendo constantemente à fonte da graça divina que Cristo faz surgir continuamente em sua Igreja. É uma vida convertida que converte os outros. É a exemplaridade de uma vida tomada por Cristo que vem às suas expectativas mais profundas.

A maçonaria também é uma rede de influência e poder em muitos setores da sociedade. Apenas nesse ponto, por que não podemos nos juntar a um maçom?

O fim não justifica os meios, e o homem não deve trair suas convicções (e, para um cristão, o seu compromisso batismal) para o bem-estar material ou profissional. “Pois, que adiantará ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?” (Mt 16,26). No discurso das bem-aventuranças (Mt 5,3-12), Jesus nos adverte que o cristão, que rema contra a corrente do “espírito do mundo”, será necessariamente “um sinal de contradição” (Lc 2,35). O Evangelho exige que nos juntemos ao mundo sem nos tornarmos do mundo, mas sim trazendo uma palavra profética crítica e cheia de misericórdia.

Que atitude você tem em relação aos maçons?

Várias atitudes parecem necessárias. Em primeiro lugar, não devemos nos concentrar no “enredo maçônico” exagerando a influência da Maçonaria, ou vê-la em todos os lugares. Em segundo lugar, não se pode subestimar a sua influência devido ao tamanho da sua rede. Muitos observaram que na França, em questões de sociedade, bioética, família ou escolas católicas, o programa das principais lojas maçônicas da França tinha sido parcialmente ou completamente realizado. Finalmente, não devemos demonizar os membros da Maçonaria: entre eles há muitas pessoas de integridade e generosidade qualificadas e comprometidas com o serviço do bem comum e com um genuíno humanismo. Os cristãos compartilham com eles os valores do progresso, humanismo e liberdade, e isso é o que nos permite dialogar na verdade e na caridade.

Fonte: Aleteia

No capítulo 13, versículo 18 do Livro de Revelação de João, lê-se:

“Aqui há sabedoria. Aquele que tem entendimento, calcule o número da besta; porque é o número de um homem, e o seu número é seiscentos e sessenta e seis” Apocalipse 13,18.

Em 15 de março de 2000, enquanto ainda era o Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, o então Cardeal Joseph Ratzinger falou durante a inauguração da Terceira Semana de Fé Diocesana na Catedral de Palermo, na Sicília, diante de aproximadamente 1.500 pessoas. Esse discurso – não tão conhecido como o de Regensburg  –  agora é comumente referido como a conferência de Ratzinger sobre Paternidade e Apocalipse.

Nesta conferência, Ratzinger advertiu o público sobre os perigos da biotecnologia, explicando que a redução da paternidade humana a um fenômeno biológico, privando-a das suas dimensões humana e espiritual, é uma ameaça que esvazia todas as afirmações que se poderia dizer sobre Deus, o Pai. “A dissolução da paternidade e da maternidade”, explicou, “está ligada à dissolução de nossos filhos e filhas”.

Agora, o que isso pode ter a ver com o número apocalíptico da Besta? O argumento de Ratzinger explica que o antagonista de Deus, a Besta, é o único personagem da Bíblia que não tem um nome, mas um número. Na revelação bíblica, a presença atenta de Deus revela-se com um nome e, até mesmo, pode argumentar, em um nome. Este ato, argumenta Ratzinger, significa o desejo de Deus de ser abordado, para entrar em comunhão. O antagonista de Deus, “esta Besta”, explica Ratzinger na mesma conferência, “não tem um nome, mas um número […] A Besta é um número e se transforma em números”.

Alguns autores leram isso como a crítica de Ratzinger à razão instrumental. O então cardeal estava claramente se referindo à experiência dos campos de concentração, mas também aos riscos de compreender o humano em termos de meros mecanismos biomecânicos.

“Em seu horror [os campos de concentração] cancelam rostos e história, transformando o homem em um número, reduzindo-o a uma engrenagem em uma máquina enorme. O homem não é mais do que uma função. (…) Nos nossos dias, não devemos esquecer que eles prefiguraram o destino de um mundo que corre o risco de adotar a mesma estrutura dos campos de concentração se a lei universal da máquina for aceita. As máquinas que foram construídas impõem a mesma lei. De acordo com essa lógica, o homem deve ser interpretado por um computador e isso só é possível se traduzido em números. A Besta é um número e se transforma em números. Deus, no entanto, tem um nome e chama pelo nome. Ele é uma pessoa e procura a pessoa”.

Agora, como acontece com a gematria hebraica (ou seja, a atribuição do valor numérico às letras do alfabeto), as letras gregas também podem ter um valor numérico correspondente. Isso é o que é conhecido como isopsephia. O uso da isopsephia para “calcular” o número da Besta ajudou toda uma tradição teológica e hermenêutica a entender o número 666 como equivalente ao nome e título de Nero César, que era o imperador romano do ano 54 até 68. Seu nome, escrito em aramaico, também pode ser “calculado” como equivalente a 666 usando gematria hebraica tradicional. Na verdade, “Nero Caesar” em hebraico lê נרון קסר (NRON QSR). Essa ortografia, quando usada como números, representa 50-200-6-50-100-60-200, o que equivale a 666.

Os historiadores entenderam que essa era a maneira pela qual as primeiras comunidades cristãs perseguidas podiam falar contra o imperador sem que as autoridades romanas soubessem. Mas esta explicação não torna o argumento de Ratzinger inválido, simplesmente porque Nero era uma pessoa histórica real. O que o número da Besta revela é que a dissolução de traços pessoais, a substituição de nomes por estatística, a redução do ser humano a qualquer das suas funções básicas (como na redução da paternidade a apenas um fenômeno biológico, privada de sua dimensão espiritual e moral, ou como na redução da crise dos refugiados a mera estatística), cedo ou tarde, corre o risco de conduzir à desumanização.

Aleteia

Quando o padre estendeu a mão e tocou com ternura o rosto do menino, não consegui me controlar. E isso só se intensificou. Quando o Papa Francisco chamou o relutante Emanuele para perguntar baixinho onde estava seu amado pai depois da morte, eu chorava tanto que as outras pessoas na fila do Starbucks tiraram os olhos do celular. Eu pedi desculpas pela exposição, murmurando, e continuei vendo o resto das incríveis filmagens do Papa Francisco sendo pastoral: um bom pastor, com o menor cordeiro no colo, perto do coração. Emanuele queria saber: será que seu pai estava mesmo no céu, mesmo sendo descrente?

Por que eu chorava? Por que este videozinho de um senhor sendo simpático com um garotinho me tocou e tocou muitas outras pessoas tão profundamente? Acho que foi porque Francisco nos mostrou como arriscar ao simplesmente abraçar o mundo que sofre. Sem explicação, apenas amor. Assim é o amor em ação, ele fala conosco de uma forma que as palavras não conseguem. Francisco corta a distância entre o Papa e a criança, entre o crente e o incrédulo, e chega ao núcleo: somos humanos.

Francisco se recusa a não estar presente para um coração ferido.

Quando o Papa Francisco diz que “Deus é o único que diz quem vai para o céu”, ele evita se colocar acima de Deus ou idolatrar as nossas regras humanas e nossa compreensão limitada de Deus. Ele escolhe agir com base no que ele sabe de Deus, em vez de limitá-lo conjecturando sobre a vida após a morte. Sim, continua sendo verdade — de acordo com nosso melhor palpite e nossa tradição cuidadosamente pensada, com base no Evangelho e no consagrado Catecismo da Igreja Católica — que “os que morrerem na graça e na amizade de Deus e estiverem perfeitamente purificados, viverão para sempre com Cristo” (Nº 1023). E isso colocaria o pai de Emanuele, um ateu, fora da possibilidade de ir para o céu.

Mas “Deus é o único que pode dizer quem vai para o céu”. Não é o Papa, nem eu, nem você, mas Deus.

Assegurar a Emanuele que um Deus amoroso aceitaria seu pai no céu diz mais sobre Deus do que sobre o céu. A realidade é que não sabemos muita coisa sobre o céu. Mas sabemos muito sobre Deus. E espero que possamos concordar que Deus é amor. Não apenas porque encontramos essa afirmação de forma clara nas Escrituras, mas porque é assim que vivenciamos Deus em nossas vidas. E quase todas as especulações sobre a vida após a morte é estruturada pelo que pensamos sobre Deus. 

Estamos dispostos a deixar Deus ser Deus? E se acreditamos que Deus é amor, podemos seguir em frente e acreditar que Ele vai fazer a coisa certa. É muito difícil que o amor não seja amável. Sabemos se nossos entes queridos estão no céu? Lembre-se de que dizemos que são nossos entes queridos não só porque nós os amamos, mas porque Deus os amou primeiro e continua a amá-los. Então podemos continuar confiando no amor de Deus.

Às vezes é possível contrastar a verdade técnica da doutrina da Igreja com sua aplicação pastoral. Mesmo que o povo de Deus não possa lidar com a verdade, sendo melhor alimentado com banalidades fracas em termos do amor de Deus. E eu não acho que o Papa Francisco tenha feito isso com o jovem Emanuele. Ele não estava apenas sendo simpático, evitando dizer a um menino a verdade nua e crua de que seu pai não estava no céu. Não é assim que funciona.

Uma resposta pastoral é articular a doutrina da Igreja diante da vulnerabilidade humana. É destacar da doutrina os ingredientes básicos do amor e do acolhimento — na forma do convite permanente para seguir a Cristo em uma relação radical com o mundo. E isso nos move. Vemos nosso líder amando de uma forma que queremos amar, sendo vulnerável e confiando assim como queremos confiar. E se o Papa consegue resistir a incorporar o Deus Todo-Poderoso, será que nós não podemos tentar?

Jack Bentz, S.J., em artigo publicado pela revista América.

CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ

Carta Placuit Deo
aos Bispos da Igreja católica
sobre alguns aspectos da salvação cristã

I. Introdução

1. «Aprouve a Deus na sua bondade e sabedoria, revelar-se a Si mesmo e dar a conhecer o mistério da sua vontade (cfr. Ef 1,9), segundo o qual os homens, por meio de Cristo, Verbo encarnado, têm acesso ao Pai no Espírito Santo e se tornam participantes da natureza divina (cfr. Ef 2,18; 2 Pe 1,4). […] Porém, a verdade profunda tanto a respeito de Deus como a respeito da salvação dos homens, manifesta-se-nos, por esta revelação, em Cristo, que é, simultâneamente, o mediador e a plenitude de toda a revelação».[1]O ensinamento sobre a salvação em Cristo exige sempre ser aprofundado novamente. A Igreja, tendo o olhar fixo em Cristo Senhor, dirige-se com amor materno a todos os homens, para anunciar-lhes o inteiro desígnio de Aliança do Pai que, mediante o Espírito Santo, deseja «submeter tudo a Cristo» (Ef 1,10). A presente Carta pretende destacar, na linha da grande tradição da fé e com especial referência ao ensinamento de Papa Francisco, alguns aspectos da salvação cristã que possam ser hoje difíceis de compreender por causa das recentes transformações culturais.

II. O impacto das transformações culturais de hoje sobre o significado da salvação cristã

2. O mundo contemporâneo questiona, não sem dificuldade, a confissão de fé cristã, que proclama Jesus o único Salvador de todo o homem e da humanidade inteira (cf. At 4,12; Rom 3,23-24; 1 Tm 2,4-5; Tit 2,11-15).[2]Por um lado, o individualismo centrado no sujeito autônomo, tende a ver o homem como um ser cuja realização depende somente das suas forças.[3]Nesta visão, a figura de Cristo corresponde mais a um modelo que inspira ações generosas, mediante suas palavras e seus gestos, do que Aquele que transforma a condição humana, incorporando-nos numa nova existência reconciliada com o Pai e entre nós, mediante o Espírito (cf. 2 Cor 5,19; Ef 2,18). Por outro lado, difunde-se a visão de uma salvação meramente interior, que talvez suscita uma forte convicção pessoal ou um sentimento intenso de estar unido a Deus, mas sem assumir, curar e renovar as nossas relações com os outros e com o mundo criado. Com esta perspectiva, torna-se difícil compreender o significado da Encarnação do Verbo, através da qual Ele se fez membro da família humana, assumindo a nossa carne e a nossa história, por nós homens e para a nossa salvação.

3. O Santo Padre Francisco, no seu magistério ordinário, referiu-se muitas vezes a duas tendências que representam os dois desvios antes mencionados, e que se assemelham em alguns aspectos a duas antigas heresias, isto é, o pelagianismo e o gnosticismo.[4]Prolifera em nossos tempos um neo-pelagianismo em que o homem, radicalmente autônomo, pretende salvar-se a si mesmo sem reconhecer que ele depende, no mais profundo do seu ser, de Deus e dos outros. A salvação é então confiada às forças do indivíduo ou a estruturas meramente humanas, incapazes de acolher a novidade do Espírito de Deus.[5]Um certo neo-gnosticismo, por outro lado, apresenta uma salvação meramente interior, fechada no subjetivismo.[6]Essa consiste no elevar-se «com o intelecto para além da carne de Jesus rumo aos mistérios da divindade desconhecida».[7]Pretende-se, assim, libertar a pessoa do corpo e do mundo material, nos quais não se descobrem mais os vestígios da mão providente do Criador, mas se vê apenas uma realidade privada de significado, estranha à identidade última da pessoa e manipulável segundo os interesses do homem.[8]Por outro lado, é claro que a comparação com as heresias pelagiana e gnóstica pretende somente evocar traços gerais comuns, sem entrar, nem fazer juízos, sobre a natureza destes erros antigos. De fato, a diferença entre o contexto histórico secularizado de hoje e o contexto dos primeiros séculos cristãos, nos quais estas heresias nasceram, é grande.[9]Todavia, enquanto o gnosticismo e o pelagianismo representam perigos perenes de equívocos da fé bíblica, é possível encontrar uma certa familiaridade com os movimentos de hoje apenas referidos acima.

4. Seja o individualismo neo-pelagiano que o desprezo neo-gnóstico do corpo, descaracterizam a confissão de fé em Cristo, único Salvador universal. Como poderia Cristo mediar a Aliança da família humana inteira, se o homem fosse um indivíduo isolado, que si autorrealiza somente com as suas forças, como propõe o neo-pelagianismo? E como poderia chegar até nós a salvação mediante a Encarnação de Jesus, a sua vida, morte e ressurreição no seu verdadeiro corpo, se aquilo que conta fosse somente libertar a interioridade do homem dos limites do corpo e da matéria, segundo a visão neo-gnóstica? Diante destas tendências, esta Carta pretende reafirmar que, a salvação consiste na nossa união com Cristo, que, com a sua Encarnação, vida, morte e ressurreição, gerou uma nova ordem de relações com o Pai e entre os homens, e nos introduziu nesta ordem graças ao dom do seu Espírito, para que possamos unir-nos ao Pai como filhos no Filho, e formar um só corpo no «primogênito de muitos irmãos» (Rom 8,29).

III. O desejo humano de salvação

5. O homem percebe, direta ou indiretamente, de ser um enigma: eu existo, mas quem sou eu? Tenho em mim o princípio da minha existência? Toda pessoa, a seu modo, procura a felicidade e tenta alcançá-la recorrendo aos meios disponíveis. No entanto, esse desejo universal não é necessariamente expresso ou declarado; ao contrário, esse é mais secreto e oculto do que parece, e está pronto a revelar-se diante de situações específicas. Com frequência, tal desejo coincide com a esperança da saúde física, às vezes assume a forma de ansiedade por um maior bem-estar econômico, mais difusamente expressa-se através da necessidade de uma paz interior e de uma convivência pacífica com o próximo. Por outro lado, enquanto o desejo de salvação se apresenta como um compromisso na direção de um bem maior, esse conserva também uma característica de resistência e de superação da dor. Ao lado da luta pela conquista do bem se coloca a luta de defesa do mal: da ignorância e do erro, da fragilidade e da fraqueza, da doença e da morte.

6. Com relação a estas aspirações, a fé em Cristo ensina-nos, rejeitando qualquer pretensão de auto-realização, que as mesmas somente podem realizar-se plenamente se Deus mesmo as torna possíveis, atraindo-nos a Ele. A salvação plena da pessoa não consiste nas coisas que o homem poderia obter por si mesmo, como o ter ou o bem-estar material, a ciência ou a técnica, o poder ou a influência sobre os outros, a boa fama ou a auto-realização.[10]Nada da ordem do criado pode satisfazer completamente ao homem, porque Deus nos destinou à comunhão com Ele, e o nosso coração permanecerá inquieto até que não repouse Nele.[11]«A vocação última de todos os homens é realmente uma só, a divina».[12]A revelação, desta forma, não se limita a anunciar a salvação como resposta à expectativa contemporânea. «Se a redenção, ao contrário, devesse ser julgada ou medida pela necessidade existencial dos seres humanos, como poderíamos evitar a suspeita de termos simplesmente criado um Deus-Redentor à imagem de nossas próprias necessidades?».[13]

7. Além disso, é necessário afirmar que, segundo a fé bíblica, a origem do mal não se encontra no mundo material e corpóreo, experimentado como um limite e como uma prisão da qual deveríamos ser salvos. Pelo contrário, a fé proclama que o mundo inteiro é bom, enquanto criado por Deus (cf. Gen 1,31; Sab 1,13-14; 1Tim 4,4), e que o mal que mais prejudica o homem é aquele que provém do seu coração (cf. Mt 15,18-19; Gen 3,1-19). Pecando, o homem abandonou a fonte do amor, e se perde em falsas formas de amor, que o fecham cada vez mais em si mesmo. É esta separação de Deus – isto é, Daquele que é fonte de comunhão e de vida – que leva à perda de harmonia entre os homens e dos homens com o mundo, introduzindo a desintegração e a morte (cf. Rom 5,12). Consequentemente, a salvação que a fé nos anuncia não diz unicamente respeito à nossa interioridade, mas ao nosso ser integral. De facto, é a pessoa inteira, em corpo e alma, criada pelo amor de Deus à sua imagem e semelhança, que é chamada a viver em comunhão com Ele.

IV. Cristo, Salvador e Salvação

8. Em nenhum momento do caminho do homem, Deus deixou de oferecer a sua salvação aos filhos de Adão (cf. Gen 3,15), estabelecendo uma Aliança com todos os homens em Noé (cf. Gen 9,9) e, mais adiante, com Abraão e a sua descendência (cf. Gn 15,18). Assim, a salvação divina assume a ordem da criação compartilhada por todos os homens e percorre os seus caminhos concretos na história. Escolhendo para Si um povo, a quem ofereceu os meios para lutar contra o pecado e para se aproximar Dele, Deus preparou a vinda de «um poderoso Salvador, na casa de David, seu servidor» (Lc 1,69). Na plenitude dos tempos, o Pai enviou ao mundo seu Filho, o qual anunciou o reino de Deus, curando todo tipo de doenças (cf. Mt 4,23). As curas realizadas por Jesus, através das quais se tornava presente a providência de Deus, eram um sinal que se referia à sua pessoa, Àquele que se revelou plenamente como Senhor da vida e da morte no acontecimento pascal. Segundo o Evangelho, a salvação para todos os povos começa com o acolhimento de Jesus: «Hoje veio a salvação a esta casa» (Lc 19,9). A Boa Nova da salvação tem um nome e um rosto: Jesus Cristo, Filho de Deus Salvador. «No início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo».[14]

9. Ao longo da sua tradição secular, a fé cristã tornou presente, através de muitas figuras, a obra salvífica do Filho encarnado. Fê-lo sem nunca separar o aspecto regenerador da salvação, no qual Cristo nos resgata do pecado, do aspecto da elevação, pelo qual Ele nos faz filhos de Deus, participantes da sua natureza divina (cf. 2 Pe 1,4). Considerando a perspectiva salvífica no seu significado descendente, isto é, a partir de Deus que vem para resgatar os homens, Jesus é iluminador e revelador, redentor e libertador; Aquele que diviniza o homem e o justifica. Assumindo a perspectiva ascendente, isto é, a partir dos homens que se dirigem a Deus, Ele é Aquele que, como Sumo Sacerdote da Nova Aliança, oferece ao Pai o culto perfeito em nome dos homens: se sacrifica, repara os nossos pecados e permanece sempre vivo para interceder a nosso favor. Desta forma, verifica-se na vida de Jesus uma sinergia maravilhosa do agir divino com o agir humano, que mostra a falta de fundamento de uma perspectiva individualista. Assim, por um lado, o sentido descendente testemunha a primazia absoluta da acção gratuita de Deus; a humildade em receber os dons de Deus, antes mesmo do nosso agir, é essencial para poder responder ao seu amor salvífico. Por outro lado, o sentido ascendente recorda-nos que, através do agir plenamente humano de seu Filho, o Pai quis regenerar o nosso agir, para que, assemelhados a Cristo, possamos realizar «as boas obras que Deus de antemão preparou para nelas caminharmos» (Ef 2,10).

10. Para além disso, é claro que a salvação que Jesus trouxe na sua própria pessoa não se realiza somente de modo interior. Assim, para poder comunicar a cada pessoa a comunhão salvífica com Deus, o Filho se fez carne (cf. Jo 1,14). É exatamente assumindo a carne (cf. Rom 8,3; Heb 2,14; 1 Jo 4,2), e nascendo de uma mulher (cf. Gal 4,4), que «o Filho de Deus se fez filho do homem»[15]e, também, nosso irmão (cf. Heb 2,14). Assim, entrando a fazer parte da família humana, «uniu-se de certo modo a cada homem»[16]e estabeleceu uma nova ordem nas relações com Deus, seu Pai, e com todos os homens, na qual podemos ser incorporados para participar na sua própria vida. Consequentemente, assumir a carne humana, longe de limitar a acção salvífica de Cristo, permite-Lhe mediar de maneira concreta a salvação de Deus com todos os filhos de Adão.

11. Concluindo, e para responder, quer seja ao reducionismo individualista da tendência pelagiana, quer seja ao reducionismo neo-gnóstico que promete uma libertação interior, é necessário recordar o modo como Jesus é Salvador. Ele não se limitou a mostrar-nos o caminho para encontrar Deus, isto é, um caminho que poderemos percorrer por nós mesmos, obedecendo às suas palavras e imitando o seu exemplo. Cristo, todavia, para abri-nos a porta da libertação, tornou-se Ele mesmo o caminho: «Eu sou o caminho» (Jo 14,6).[17]Além disso, esse caminho não é um percurso meramente interior, à margem das nossas relações com os outros e com o mundo criado. Pelo contrário, Jesus ofereceu-nos um «caminho novo e vivo que Ele abriu para nós através […] da sua carne» (Heb 10,20). Enfim, Cristo é Salvador porque Ele assumiu a nossa humanidade integral e viveu em plenitude a vida humana, em comunhão com o Pai e com os irmãos. A salvação consiste em incorporar-se nesta vida de Cristo, recebendo o seu Espírito (cf. 1 Jo 4,13). Assim, Ele tornou-se «em certo modo, o princípio de toda graça segundo a humanidade».[18]Ele é, ao mesmo tempo, o Salvador e a Salvação.

V. A Salvação na Igreja, corpo de Cristo

12. O lugar onde recebemos a salvação trazida por Jesus é a Igreja, comunidade daqueles que, tendo sido incorporados à nova ordem de relações inaugurada por Cristo, podem receber a plenitude do Espírito de Cristo (cf. Rom 8,9). Compreender esta mediação salvífica da Igreja é uma ajuda essencial para superar qualquer tendência reducionista. De fato, a salvação que Deus nos oferece não é alcançada apenas pelas forças individuais, como gostaria o neo-pelagianismo, mas através das relações nascidas do Filho de Deus encarnado e que formam a comunhão da Igreja. Além disso, uma vez que a graça que Cristo nos oferece não é, como afirma a visão neo-gnóstica, uma salvação meramente interior, mas que nos introduz nas relações concretas que Ele mesmo viveu, a Igreja é uma comunidade visível: nela tocamos a carne de Jesus, de maneira singular nos irmãos mais pobres e sofredores. Enfim, a mediação salvífica da Igreja, «sacramento universal de salvação»,[19]assegura-nos que a salvação não consiste na auto-realização do indivíduo isolado, e, muito menos, na sua fusão interior com o divino, mas na incorporação em uma comunhão de pessoas, que participa na comunhão da Trindade.

13. Tanto a visão individualista como a visão meramente interior da salvação contradizem a economia sacramental, através da qual Deus quis salvar a pessoa humana. A participação, na Igreja, à nova ordem de relações inauguradas por Jesus realiza-se por meio dos sacramentos, entre eles, o Baptismo que é a porta,[20]e a Eucaristia que é fonte e culmine.[21]Assim, se vê, a inconsistência das pretensões de auto-salvação, que contam apenas com as forças humanas. Pelo contrário, a fé confessa que somos salvos por meio do Baptismo, que imprime o caráter indelével de pertencer a Cristo e à Igreja, do qual deriva a transformação do nosso modo concreto de viver as relações com Deus, com os homens e com a criação (cf. Mt 28,19). Assim, purificados do pecado original e de todo pecado, somos chamados a uma nova vida em conformidade com Cristo (cf. Rom 6,4). Com a graça dos sete sacramentos, os crentes continuamente crescem e se regeneram, sobretudo, quando o caminho se torna mais difícil e as quedas não faltam. Quando eles pecam, abandonam o amor por Cristo, podendo ser reintroduzidos, por meio do sacramento da Penitência, à ordem das relações inaugurada por Jesus, para caminhar como Ele caminhou (cf. 1 Jo 2,6). Desta forma, olhamos com esperança para o juízo final, no qual cada pessoa será julgada pelo amor (cf. Rm 13,8-10), especialmente pelos mais fracos (cf. Mt 25,31-46).

14. A economia salvífica sacramental opõe-se ainda às tendências que propõem uma salvação meramente interior. De facto, o gnosticismo está associado a um olhar negativo sobre a ordem da criação, inclusive, como uma limitação da liberdade absoluta do espírito humano. Consequentemente, a salvação é vista como libertação do corpo e das relações concretas que a pessoa vive. Pelo contrário, como somos salvos «por meio da oferta do corpo de Jesus Cristo» (Heb 10,10; cf. Col 1,22), a verdadeira salvação, longe de ser libertação do corpo, compreende também a sua santificação (cf. Rom 12,1). O corpo humano foi modelado por Deus, que nele inscreveu uma linguagem que convida a pessoa humana a reconhecer os dons do Criador e a viver em comunhão com os irmãos.[22]O Salvador restabeleceu e renovou, com a sua Encarnação e o seu mistério pascal, esta linguagem originária, e comunicou-a na economia corporal dos sacramentos. Graças aos sacramentos, os cristãos podem viver fielmente à carne de Cristo e, consequentemente, em fidelidade à ordem concreta das relações que Ele nos deu. Esta ordem de relações requer, de maneira especial, o cuidado pela humanidade sofredora de todos os homens, através das obras de misericórdia corporais e espirituais.[23]

VI. Conclusão: comunicar a fé, esperando o Salvador

15. A consciência da vida plena, na qual Jesus Salvador nos introduz, impulsiona os cristãos à missão de proclamar a todos os homens a alegria e a luz do Evangelho.[24] Neste esforço, eles estarão também prontos para estabelecer um diálogo sincero e construtivo com os crentes de outras religiões, na confiança que Deus pode conduzir à salvação em Cristo «todos os homens de boa vontade, em cujos corações a graça opera ocultamente».[25]Ao dedicar-se com todas as suas forças à evangelização, a Igreja continua a invocar a vinda definitiva do Salvador, porque «na esperança fomos salvos» (Rom 8,24). A salvação do homem será plena somente quando, depois de ter vencido o último inimigo, a morte (cf 1 Cor 15,26), participaremos plenamente da glória de Cristo ressuscitado, que leva à plenitude a nossa relação com Deus, com os irmãos e com toda a criação. A salvação integral, da alma e do corpo, é o destino final ao qual Deus chama todos os homens. Fundamentados na fé, sustentados pela esperança, operantes na caridade, seguindo o exemplo de Maria, a Mãe do Salvador e a primeira dos que foram salvos, estamos certos de que nossa cidadania “está nos céus, de onde certamente esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo. Ele transfigurará o nosso pobre corpo, conformando-o ao seu corpo glorioso, com aquela energia que o torna capaz de a si mesmo sujeitar todas as coisas”(Fil 3,20-21).

O Sumo Pontífice Francisco, no dia 16 de fevereiro de 2018, aprovou esta Carta, decidida na Sessão Plenária desta Congregação no dia 24 de janeiro de 2018, e ordenou a publicação.

Dado em Roma, na Sede da Congregação para a Doutrina da Fé, no dia 22 de fevereiro de 2018, Festa da Cátedra de São Pedro.

+ Luis F. Ladaria, S.I.
Arcebispo titular de Thibica
Prefeito

+ Giacomo Morandi
Arcebispo titular de Cerveteri
Secretário


[1] Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. Dei Verbum, n. 2.

[2] Cf. Congregação para a Doutrina da Fé, Decl. Dominus Iesus (6 de agosto de 2000), nn. 5-8: AAS 92 (2000), 745-749.

[3] Cf. Francisco, Exort. apost. Evangelii gaudium(24 de novembro de 2013), n. 67: AAS105 (2013), 1048.

[4] Cf. Id., Carta enc. Lumen fidei (29 de junho de 2013), n. 47: AAS 105 (2013), 586-587; Exort. apost. Evangelii gaudium, nn. 93-94AAS (2013), 1059; Discurso aos representantes do V Congresso nacional da Igreja italiana, Florença (10 de novembro de 2015)AAS 107 (2015), 1287.

[5] Cf. Id., Discurso aos representantes do V Congresso nacional da Igreja italiana, Florença (10 de novembro de 2015)AAS 107 (2015), 1288.

[6] Cf. Id., Exort. apost. Evangelii gaudium, n. 94AAS105 (2013), 1059: «o fascínio do gnosticismo, uma fé fechada no subjetivismo, onde apenas interessa uma determinada experiência ou uma série de raciocínios e conhecimentos que supostamente confortam e iluminam, mas, em última instância, a pessoa fica enclausurada na imanência da sua própria razão ou dos seus sentimentos»; Pontíficio Conselho para a Cultura –– Pontifício Conselho para o diálogo Inter-religioso, Jesus Cristo, portador da água viva. Uma reflexão cristã sobre a “New Age” (janeiro de 2003), Cidade do Vaticano 2003.

[7] Francisco, Carta enc. Lumen fidei , n. 47: AAS 105 (2013), 586-587.

[8] Cf. Id., Discurso aos participantes da peregrinação da diocese de Brescia (22 de junho de 2013): AAS 95 (2013), 627: «neste mundo onde nega-se o homem, onde se prefere andar na estrada do gnosticismo, […] do “sem carne” – um Deus que não se fez carne […]».

[9] De acordo com a heresia Pelagiana, desenvolvida durante o século V ao redor de Pelágio, o homem, para cumprir os mandamentos de Deus e ser salvo, precisa da graça apenas como um auxílio externo à sua liberdade (como luz, exemplo, força), mas não como uma sanação e regeneração radical da liberdade, sem mérito prévio, para que ele possa realizar o bem e alcançar a vida eterna.

Mais complexo é o movimento gnóstico, surgido nos séculos I e II, que manifestou-se de formas muito diferentes. Em geral, os gnósticos acreditavam que a salvação é obtida através de um conhecimento esotérico ou “gnose”. Esta gnose revela ao gnóstico sua essência verdadeira, isto é, uma centelha do Espírito divino que habita em sua interioridade, que deve ser libertada do corpo, estranho à sua verdadeira humanidade. Somente assim o gnóstico retorna ao seu ser originário em Deus, de quem ele afastou-se pela queda original.

[10] Cf. Tomás, Summa theologiae, I-II, q. 2.

[11] Cf. Agostinho, Confissões, I, 1: Corpus Christianorum, 27,1.

[12] Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. Gaudium et spes, n. 22.

[13] Comissão Teológica Internacional, Algumas questões sobre a teologia da redenção, 1995, n. 2.

[14] Bento XVI, Carta enc. Deus caritas est (25 de dezembro de 2005), n. 1: AAS 98 (2006), 217; cf. Francisco, Exort. apost. Evangelii gaudium, n. 3AAS 105 (2013), 1020.

[15] Irineu, Adversus haereses, III, 19,1: Sources Chrétiennes, 211, 374.

[16] Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. Gaudium et spes, n. 22.

[17] Cf. Agostinho, Tractatus in Ioannem, 13, 4: Corpus Christianorum, 36, 132: «Eu sou o caminho, a verdade e a vida (Jo 14, 6). Se você busca a verdade, siga o caminho; porque o caminho é o mesmo que a verdade. A meta que se busca e o caminho que se deve percorrer, são a mesma coisa. Não se pode alcançar a meta seguindo um outro caminho; por outro caminho não se pode alcançar a Cristo: a Cristo se pode alcançar somente através de Cristo. Em que sentido se chega a Cristo através de Cristo? Se chega a Cristo Deus através de Cristo homem; por meio do Verbo feito carne se chega ao Verbo que era no princípio Deus junto a Deus.

[18] Tomás, Quaestio de veritate, q. 29, a. 5, co.

[19] Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. Lumen gentium, n. 48.

[20] Cf. Tomás, Summa theologiae, III, q. 63, a. 3.

[21] Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. Lumen gentium, n. 11; Const. Sacrosanctum Concilium, n. 10.

[22] Cf. Francisco, Carta enc. Laudato si’ (24 de maio de 2015), n. 155: AAS 107 (2015), 909-910.

[23] Cf. Id., Carta apost. Misericordia et misera (20 de novembro de 2016), n. 20: AAS 108 (2016), 1325-1326.

[24] Cf. João Paulo II, Carta enc. Redemptoris missio (7 de dezembro de 1990), n.40: AAS 83 (1991), 287-288; Francisco, Exort. apost. Evangelii gaudium, nn. 9-13AAS105 (2013), 1022-1025.

[25] Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. Gaudium et spes, n. 22.

 

O Cardeal norte-americano Kevin Farrel, prefeito do Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida, vetou duas oradoras que iam participar de um evento no Vaticano sobre a mulher devido a suas posturas contrárias ao ensinamento católico e a favor do lobby LGBT.

Trata-se de Mary McAleese, ex-presidente da Irlanda, e Ssenfuka Juanita Warry, que dirige a organização LGBT Catholics in Uganda.

Segundo Chantal Gotz, fundadora e diretora de Voices of Faith (Vozes de Fé), a lista de oradoras requeria a aprovação do Cardeal Farrel. Quando o Purpurado devolveu a lista dos nomes aprovados, McAleese e Warry não estavam incluídas.

O evento Vozes de Fé aconteceu pela primeira vez em 2014 e, desde então, é promovido em março de cada ano na sede da Pontifícia Academia para as Ciências, a Casina Pio IV, que está no Vaticano.

O evento é intitulado “Why Women Matter” (Por que as mulheres importam) e acontecerá no dia 8 de março para coincidir com o Dia Internacional da Mulher.

Em uma declaração em 2 de fevereiro, Vozes de Fé assinala que a ex-presidente da Irlanda “não é uma estranha para o Vaticano, tendo estado no comando como funcionária pública de um país predominantemente católico”.

McAleese, indica o texto da organização, “é conhecida por seu claro apoio aos direitos dos gays e das mulheres e falou publicamente e com frequência sobre suas frustrações com a fé católica”.

Em declarações à CNA – agência em inglês do grupo ACI – Chantal Gotz disse que ficou “surpresa” pela decisão do Cardeal Farrel, pois temas semelhantes não foram considerados um problema no passado.

A diretora de Vozes de Fé disse que, em oportunidades anteriores, já foram convidadas pessoas com posturas diferentes dos ensinamentos da Igreja em temas como aborto, anticoncepção e ordenação de mulheres.

A conferência de marco, acrescentou Gotz, “permite-nos criar um debate e diálogo sobre o poder atual e as estruturas de liderança em nossa Igreja hoje”.

Sobre a mudança de sede para o evento, Gotz disse a CNA que “os jesuítas, de modo autêntico, nos receberam e aos nossos oradores”.

Em diferentes ocasiões, Mary McAleese defendeu o casamento de pessoas do mesmo sexo e acusou a Igreja Católica de “hipocrisia” por defender o casamento natural entre um homem e uma mulher.

McAleese também defendeu a ordenação sacerdotal de mulheres, em contravenção ao que São João Paulo II estabeleceu no documento Ordinatio Sacerdotalis, que sublinha que o ministério sacerdotal está destinado somente aos homens.

No voo de regresso de suaviagem a Suécia, o Papa Francisco recordou que, “sobre a ordenação de mulheres na Igreja Católica, a última palavra é clara e foi dada por São João Paulo II e isso permanece”.

A carta apostólica Ordinatio Sacerdotalis foi escrita por São João Paulo II em 1994. Nela, é estabelecido que “a ordenação sacerdotal, pela qual se transmite a missão, que Cristo confiou aos seus Apóstolos, de ensinar, santificar e governar os fiéis, foi na Igreja Católica, desde o início e sempre, exclusivamente reservada aos homens”.

ACI

Um amigo perguntou, dia desses, se o Papa era como o STF da Igreja Católica. A analogia na qual ele estava pensando era a seguinte: assim como é o Supremo Tribunal Federal quem diz definitivamente o que é constitucional e o que não é constitucional dentro da ordem jurídica brasileira, seria, na Igreja Católica, o Papa quem por último diria o que é ortodoxo e o que é herético dentro da Doutrina Católica. Assim como o STF diz o que é que a Constituição diz, o Papa seria aquele que diz o que é que a Revelação diz.

O Direito me parece fortemente tributário da Teologia, sem dúvidas, e é possível — mais até, é fácil — encontrar diversos paralelos entre os juristas e os teólogos. Não obstante, penso que é preciso ressaltar as diferenças entre um acórdão do STF e uma bula papal, a despeito de a metáfora acima parecer sedutora. Ou melhor, é preciso enfatizar, por todas, uma única diferença crucial e insuperável entre as duas esferas: o direito é essencialmente mutável, a doutrina não pode mudar jamais.

Isso porque o direito deve se adaptar às peculiaridades (obviamente, apenas àquelas legítimas) dos diversos tempos e lugares, dos usos e dos costumes dos homens. Com a doutrina acontece exatamente o contrário: são os homens que devem se adaptar a ela, às suas consequências e suas exigências. Daí porque é legítimo (mais até, é perfeitamente razoável, é até esperado) que um Tribunal modifique o seu entendimento a respeito de determinada norma jurídica levando em conta as transformações sociais, ao passo em que a Igreja não pode mudar jamais um jota da lei de Deus mesmo que uma centena de cidades dos homens sejam edificadas sobre os escombros da Cidade de Deus.

Sim, é claro que existe um direito natural imutável do qual o direito positivo deriva — ou ao menos deve derivar. Ainda assim a lei humana pode (e, em muitos casos, até deve) mudar. É o que ensina Santo Tomás (Summa, I-IIae, q. 97, a. 1): conquanto a lei natural não mude nunca, deve a lei positiva mudar por um duplo motivo. Primeiro, porque a razão humana é imperfeita e, portanto, as leis por ela ditadas podem ser sempre aperfeiçoadas a fim de que correspondam melhor aos ditames do direito natural. E, segundo, porque mudam naturalmente as condições dos homens, e a estes «convêm coisas diversas segundo as suas diversas condições» (id. ibid, Resp.).

O Papa (ou, melhor dizendo, o Magistério da Igreja) é infalível em determinadas condições, e aquilo que é verdadeiro não pode simplesmente passar a ser falso depois: o aprofundamento da Revelação no curso da história da Igreja, que existe, só pode ser integrativo e não superativo. Isso quer dizer que coisas distintas podem vir a se acumular no corpo doutrinário e moral da Igreja Católica, mas aquilo que era doutrinariamente certo não pode passar um dia a ser incerto, e aquilo que era moralmente ilícito não pode passar a ser lícito nem vice-versa. Com o direito é diferente, as diversas teses jurídicas podem (e em alguns casos até devem) se superar umas às outras, inclusive eivando de ilicitude aquilo que em outros tempos era perfeitamente jurídico, e isso é completamente natural. Não dá para estabelecer nenhuma comparação entre o ordenamento jurídico e o magistério eclesiástico desconhecendo essas coisas.

Certamente não faltará entre meus interlocutores quem me interpele sobre os juros, ou a tortura ou a escravidão. A isso é preciso responder sucintamente, primeiro, que nenhuma dessas coisas é intrinsecamente má ( Não entendi porque não seriam más, especialmente a escravidão e a tortura. Talvez o tempo histórico amenize o julgamento da prática mas em essência me parecem más,sim! Nota do blogueiro); segundo, que em tempos passados determinadas condições dos homens, distintas das atuais, autorizaram-nas ou as vedaram, legitimamente; terceiro, que a consciência moral da humanidade encontra-se hoje em um patamar superior — quando menos de acúmulo de experiências históricas –, em melhores condições portanto de apreciar o que melhor convém à comunidade humana. Antes do ensino da Igreja, portanto, o que mudaram foram as condições dos homens; outrossim, o rol exíguo, restritíssimo destes exemplos históricos aponta antes para o caráter extraordinário do fenômeno do que para uma superabilidade essencial da moral católica que a pudesse tornar análoga ao direito humano.

Voltando à comparação entre o Magistério e o Judiciário, o maior problema com ela é o pressuposto que ela enseja: assim como o direito deve ser sempre revisto para melhor corresponder às mudanças sociais, então assim também o Magistério católico deveria (ao menos eventualmente) superar o seu ensino em atenção às modificações sofridas pela sociedade. Tal compreensão é falsa e ignora as sensíveis diferenças existentes entre a Igreja e o Direito secular, conforme exposto. E, por conta disso, a fim de evitar nefastas confusões, não convém traçar analogias entre os dois campos sem atentar criteriosamente para aquilo que é próprio de cada um.

Fonte original 

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O grande tesouro da Igreja Católica é a Eucaristia – o próprio Jesus disfarçado sob as aparências do pão e do vinho. Cremos que, como diz o Catecismo, No santíssimo sacramento da Eucaristia estão ‘contidos verdadeiramente, realmente e substancialmente o Corpo e o Sangue juntamente com a alma e a divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo e, por conseguinte, o Cristo todo’”(CCC 1374).

Além disso, esta presença real de Cristo na Eucaristia não termina imediatamente quando o recebemos na hora da Comunhão. O Catecismo prossegue explicando como “a presença eucarística de Cristo começa no momento da consagração e perdura enquanto a espécie eucarística subsistir” (CCC 1377).

Mas o que significa quando recebemos a Comunhão em nossas bocas? Quanto tempo permanece a Presença Real de Jesus em nossos corpos?

Há uma história famosa da vida de São Filipe Néri que ajuda a responder a essa pergunta. Um dia, enquanto celebrava a Missa, um homem recebeu a Sagrada Comunhão e deixou a igreja mais cedo. O homem parecia não ter respeito pela Presença dentro dele e, assim, Filipe Néri decidiu usar esta oportunidade como um momento de ensino. Ele enviou dois coroinhas com velas acesas para seguir o homem fora da igreja.

Depois de um tempo andando pelas ruas de Roma, o homem se virou para ver os coroinhas que ainda o seguiam. Confuso, o homem voltou à igreja e perguntou a Filipe Néri por que ele tinha mandado os coroinhas atrás dele. São Filipe Néri respondeu dizendo: “Temos que prestar o devido respeito a Nosso Senhor, que você está levando com você. Como você se recusou a adorá-lo, mandei os dois acólitos para fazer isso”. O homem ficou atordoado com a resposta e resolveu, das próximas vezes, ficar mais consciente sobre presença de Deus dentro dele.

Considera-se que a espécie eucarística do pão permanece por cerca de 15 minutos em nós, após recebermos a Comunhão. Isso se baseia na biologia simples e reflete a afirmação do Catecismo de que a presença de Cristo “permanece enquanto persistir a espécie eucarística”.

É por isso que muitos santos recomendaram oferecer 15 minutos de oração depois de receber a Eucaristia, como uma ação de graças a Deus. Isso permite que a nossa alma saboreie a presença de Deus, e que nós tenhamos um verdadeiro encontro de “coração para coração” com Jesus.

Em nosso mundo corrido, muitas vezes é difícil permanecer na Igreja muito tempo depois da Missa. Mas isso não significa que não possamos pelo menos fazer uma breve oração de agradecimento. O ponto principal é que precisamos nos lembrar de que a presença de Jesus na Eucaristia permanece conosco por vários minutos e nos apresenta um momento especial, quando podemos comungar com o Senhor e sentir seu amor dentro de nós.

Se um dia você se esquecer disso, não se surpreenda se o seu pároco enviar coroinhas para seguir o seu carro quando você sair da Igreja logo depois de receber a Comunhão!

Philip Kosloski

Rocco

Entrevista com o filósofo Rocco Buttiglione, grande conhecedor do magistério de São João Paulo II: “A perspectiva de Francisco é perfeitamente tradicional. A novidade consiste em aplicar também ao pecado cometido pelos divorciados recasados as possíveis atenuantes previstas para todos os demais pecados assim como aparecem no Catecismode São Pio X”.
“A Amoris Laetitia implica riscos pastorais. Alguns poderão dizer que a consideram uma decisão pastoral equivocada, mas, por favor, deixemos de lado os tons apocalípticos e paremos de dizer que a doutrina sobre a indissolubilidade dos sacramentos está sendo questionada quando somos confrontados com uma escolha sobre a disciplina dos sacramentos, cujas bases foram lançadas pelo Papa João Paulo II”. O professor Rocco Buttiglione, filósofo, estudioso e grande conhecedor do magistério do Papa Wojtyla, ficou surpreso com algumas das críticas feitas à Exortação Pós-sinodal de Francisco.

O que pensa, em seu conjunto, da Exortação Amoris Laetitia?

Parece-me uma grande tentativa de dizer a palavra da fé no contexto do mundo de hoje. O que era também a grande preocupação de João Paulo II: o homem concreto, o homem existente, o homem da realidade, não aquele descrito nos livros ou que gostaríamos que fosse.

Que relação existe entre este documento de Francisco e o magistério do Papa Wojtyla?

No passado, a Igreja excomungava os divorciados recasados. Fazia-o por uma justa preocupação: não escandalizar ou não colocar em discussão a indissolubilidade do matrimônio. Mas então vivíamos em uma cristandade compacta. Podia-se supor que todos sabiam o que era o matrimônio, um sacramento no qual os esposos se tornam fiadores mútuos do amor de Deus, motivo pelo qual se te abandono, de alguma maneira, é como se Deus te abandonasse.

João Paulo II disse que os divorciados recasados não podem ser excomungados, recordando que existem fatores objetivos e subjetivos em qualquer pecado. Há pessoas que podem fazer alguma coisa errada, um mal, mas sem serem completamente responsáveis. E então o Papa Wojtyla abriu, convidando os divorciados a entrar na Igreja, acolhendo-os, batizando seus filhos, reintegrando-os na comunidade cristã.

Mas, sem readmiti-los à comunhão – é o n. 84 da Familiaris Consortio –, a menos que não voltassem ao cônjuge legítimo, que se separassem do novo cônjuge ou que vivessem a segunda união como irmão e irmã, ou seja, abstendo-se das relações sexuais.

E o que propõe agora a Amoris Laetitia?

Francisco dá um passo à frente nesta direção. Não diz que os divorciados recasados podem receber ou pretender a comunhão, Não! O divórcio é péssimo e não pode haver atos sexuais fora do matrimônio. Este ensinamento moral não mudou. O Papa diz que agora os divorciados recasados podem confessar-se, iniciar uma caminhada de discernimento com o sacerdote. E, como em qualquer confissão, com cada pecado, o sacerdote deve avaliar se existem todas as condições para que um pecado seja considerado pecado mortal.

Eu gostaria de recordar aos meus colegas que disseram palavras fortes contra a Amoris Laetitia, que São Pio X – que não era propriamente um Papa ‘modernista’ – em seu Catecismo dizia que o pecado mortal exige a matéria grave, mas também a plena advertência e o consenso deliberado, isto é, a plena liberdade para assumir completamente a responsabilidade do que fez.

Por que este aspecto é tão importante neste caso?

Porque hoje há muitos casos em que não existe essa plena advertência. Há massas enormes de batizados que não foram evangelizados. Alguém poderia dizer: “Mas, para estes casos existe o processo da nulidade matrimonial”. Sim, é verdade, embora fosse preciso recordar que em muitos lugares do mundo não é tão fácil ter acesso aos tribunais eclesiásticos, e depois nem sempre é tão fácil descobrir a verdade. Vivemos em um mundo de famílias feridas, de pessoas feridas, pessoas que podem encontrar-se em situações das quais não podem sair.

Devemos avaliar tudo e ajudá-las a sair da situação de pecado, iniciar uma caminhada, mas sem prejudicar os cônjuges que as acompanharam na segunda união e que, talvez, estiveram perto delas em um momento dramático de suas vidas: pensemos no caso de uma mãe com crianças pequenas abandonada pelo marido e que se uniu a um homem que se ocupou desses filhos. Estamos falando de questões que exigem um discernimento, delicadeza, grande humanidade, compaixão, acompanhar…

Com qual objetivo, professor?

A pergunta é: em qual momento desta caminhada o padre dará a comunhão? Quando considerar que existem as condições, sem automatismos ou atalhos, mas também sem fechar as portas na cara antes de ter avaliado seriamente as histórias pessoais. Esta é a ideia da Igreja hospital de campanha, que é tão importante para o Papa Francisco. Se estivéssemos no Hospital Naval Bethesda, onde tratam o Presidente dos Estados Unidos, o paciente sairia perfeitamente curado, após terem sido feitas todas as operações necessárias. No hospital de campanha começa-se a fechar as feridas.

Qual é a relação entre esta perspectiva e a tradição da Igreja?

Esta perspectiva é perfeitamente tradicional. A Amoris Laetitia diz: avaliemos as condições subjetivas também para o pecado daqueles que se divorciaram e vivem uma segunda união. É uma questão eminentemente pastoral. Recordo que dom Luigi Giussani dizia: “Deve-se julgar os atos, nunca as pessoas, porque isto cabe exclusivamente a Deus”. Somente a Deus, e um pouco ao confessor. Li análises dramáticas e inaceitáveis sobre o documento, e, em particular, sobre uma nota de rodapé.

Vai mudar alguma coisa com a Exortação Apostólica Amoris Laetitia?

Claro que muda! Mas não mudou nem a moral nem a doutrina sobre a indissolubilidade do matrimônio. Muda a disciplina pastoral da Igreja. Até ontem havia uma perseguição de absoluta culpabilidade sobre o pecado cometido pelos divorciados recasados. Agora, mesmo para este pecado avalia-se o aspecto subjetivo, assim como acontece com o homicídio, com a evasão fiscal, com a exploração dos operários, com todos os demais pecados que cometemos. O padre escuta e avalia inclusive as circunstâncias atenuantes. Estas circunstâncias podem mudar a natureza da situação? Não, o divórcio e a nova união seguem sendo um mal objetivamente. Estas circunstâncias mudam a responsabilidade do sujeito envolvido? Talvez sim. Devemos discernir.

A insistência no aspecto subjetivo poderia levar a uma forma de subjetivismo?

Não é subjetivismo. É a justa consideração da subjetividade humana. Quem ensinou isto foi Santo Tomás de Aquino: “fizeste uma coisa errada, mas nem sempre é possível atribuir a ti toda a responsabilidade”. No fundo, esta doutrina moral começa no Calvário, quando Jesus crucificado diz: “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem”.

Há quem diga que readmitir estas pessoas à eucaristia, apenas sob certas circunstâncias e depois de um percurso de discernimento, equivaleria a mudar a doutrina da Igreja. O que lhe parece?

Não é uma questão de doutrina. A doutrina continua sendo a que é em relação à consideração do que está mal e do que não está. Em vez disso, estamos falando da responsabilidade subjetiva e das eventuais circunstâncias atenuantes. Ao anunciar o Evangelho temos que nos perguntar o que devemos dizer antes e o que devemos dizer depois. Jesus não disse a João e André: “Primeiro observem os mandamentos”, mas “Vem e segue-me”.

Quando São Paulo subiu ao Areópago de Atenas estava com o coração cheio de raiva por todos os altares dedicados às diferentes divindades. Mas quando tomou a palavra disse aos atenienses: “Admiro sua religiosidade…”, e depois valorizou o altar dedicado ao Deus desconhecido, anunciando Jesus Cristo. Começa por aí. Chegará o momento de dizer que os outros altares devem ser retirados.

O Papa Francisco anuncia que Jesus ama a cada homem e a cada mulher, na situação em que se encontram, e que quer que cada homem e cada mulher possam salvar-se encontrando o abraço de sua misericórdia. Depois virão os mandamentos, mas não podemos permitir que um erro cometido na vida possa excluir alguém deste abraço.

No entanto, São João Paulo II combateu a ética da situação, que se baseia no aspecto subjetivo…

O que eu vejo em alguns daqueles que se opõem ao Papa é a vontade de estar somente do lado da objetividade. É verdade, como você recorda, que o Papa Wojtyla combateu a ética da situação, segundo a qual não há objetividade, mas apenas intenção subjetiva. Obviamente, não é assim: existe a natureza objetiva em um ato. Mas João Paulo II nunca pensou, longe disso, em eliminar a subjetividade.

Há situações de pecado das quais é difícil se desvencilhar. Vivemos em uma sociedade pansexualista, na qual existe a falta de consciência de certas evidências éticas. Para que certas verdades sejam assimiladas por todos é preciso ter paciência e requer-se o esforço de uma caminhada.

Há riscos? Claro! Alguém poderia pensar que o divórcio e a nova união já não são um mal; alguém que permaneceu fiel mesmo depois de ter se separado de seu cônjuge poderia pensar que se equivocou; outro mais poderia temer o risco de que as consciências se debilitem.

Há riscos pastorais, sem dúvida. Por isso é preciso acompanhar e explicar. Mas, trata-se de uma decisão pastoral. Alguém poderia considerá-la equivocada, mas, por favor, deixemos de lado os tons apocalípticos quando nos encontramos diante de uma decisão pastoral que tem a ver com a disciplina dos sacramentos e que faz parte de uma trajetória cujas premissas foram estabelecidas por João Paulo II.
Entrevista de Andrea Tornielli, publicada por Vatican Insider

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“O Papa se disse inclinado à possibilidade de promover pequenas mudanças na lei da Igreja, desde que – fez questão de afirmar – isso seja sempre o resultado de um discernimento profundo por parte das autoridades competentes.”

Que pensar?

Historicamente já houve diaconisas na Igreja Católica. Este estudo da Comissão Teológica Internacional coloca-as, pujantes, no Oriente, até ao século VIII! No Ocidente, já em pleno século XIII, as abadessas são ainda chamadas diaconisas. O costume antigo é incontestável. No que, contudo, ele consistia exatamente?

É o próprio Papa Francisco quem o responde. Ao ser perguntado recentemente sobre o assunto, Sua Santidade disse se lembrar de que o papel das chamadas “diaconisas”, na Igreja Primitiva, era ajudar no batismo das mulheres: por uma questão de pudor, eram as diaconisas que faziam a imersão das mulheres durante o batismo, ou a unção de corpo inteiro que fazia parte do mesmo Sacramento. E ainda: quando uma mulher dizia ser espancada pelo marido, era uma diaconisa quem se encarregava de verificar-lhe os hematomas para relatar ao bispo.

O que eram, portanto, essas “diaconisas”? O mais provável é que se tratasse de mulheres que pertenciam a uma espécie de ordem religiosa primitiva, especificamente voltada à prática de serviços litúrgicos auxiliares, que o pudor mandava não serem feitos por homens — como o ungir o corpo das catecúmenas ou segurar-lhes (e às suas vestes) durante a imersão do Batismo. Isso tanto é verdade que as diaconisas vão desaparecendo ao mesmo tempo em que desaparecem esses ritos: no segundo milênio, o título de “diaconisa” ainda conferido às abadessas é claramente um resquício de algo que já deixou de existir — e persiste então meramente como referência honorífica e analógica.

Foi isso que o Papa falou, e a leitura da história completa é muito útil para se prevenir contra os semeadores da confusão — que usam manchetes reducionistas para espalhar o escândalo entre o povo católico fiel. O Papa não está pensando em promover “pequenas mudanças na lei da Igreja” para reinstituir diaconisas (a frase entre aspas está em um outro momento da sua fala, que nada tem a ver com a questão histórica do diaconato das mulheres!), apenas se referiu ao assunto quando foi perguntado. Registre-se, aliás, que ele respondeu com um rigor e uma precisão muito maiores dos que os que costuma empregar em suas respostas improvisadas. Sob esse ponto de vista, portanto, não há nada que retocar aqui.

Aproveitemos, no entanto, a oportunidade para aprofundar um pouco mais o assunto, e façamos a pergunta que o Papa não fez, mas parece que o mundo está fazendo: será possível ordenar diaconisas?

Que não se possa ordenar mulheres para o presbiterato é já ponto pacífico, definido infalivelmente por São João Paulo II:

Portanto, para que seja excluída qualquer dúvida em assunto da máxima importância, que pertence à própria constituição divina da Igreja, em virtude do meu ministério de confirmar os irmãos (cfr Lc 22,32), declaro que a Igreja não tem absolutamente a faculdade de conferir a ordenação sacerdotal às mulheres, e que esta sentença deve ser considerada como definitiva por todos os fiéis da Igreja. (Ordinatio Sacerdotalis, 4).

Toda declaração dogmática precisa ser lida no interior dos seus limites. À primeira vista, portanto, a faculdade que a Igreja não tem, conforme S. João Paulo II, é a de conferir a ordenação sacerdotal às mulheres (ordinationem sacerdotalem mulieribus conferendi), e não “qualquer” ordenação. Ou seja, a seguinte pergunta talvez se pudesse colocar: tudo bem que a Igreja não tenha a faculdade de conferir a ordenação sacerdotal às mulheres; mas e quanto aos diáconos, que, segundo a Lumen Gentium, recebem o sacramento «não em ordem ao sacerdócio mas ao ministério» (LG 29)? Também o serviço destes não se poderia conferir às mulheres? Tudo bem que não se lhes possa conferir ordenação sacerdotal; poder-se-ia, no entanto, conferir-lhes esta ordenação ministerial que é própria da diaconia?

É engraçado como a questão, nestes termos, parece não ter sido anteriormente posta. A (já citada) Ordinatio Sacerdotalis versa sobre “a ordenação sacerdotal reservada somente aos homens”; a Inter Insigniores, da década de 70, igualmente apenas aborda “a questão da admissão das mulheres ao sacerdócio ministerial”. Ora, é amplamente aceito que diácono não é sacerdote. Há, portanto, razão doutrinária para que não haja diaconisas?

O prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé entende que sim. Em entrevista publicada em 2002, Sua Eminência o Card. Müller disse o seguinte:

Q: É possível separar o diaconato de mulheres do sacerdócio das mulheres?

Müller: Não,  por causa da unidade do sacramento da Ordem, que foi sublinhada nas deliberações da Comissão Teológica; ela não pode ser medida com um critério diferente. Assim, seria uma discriminação real da mulher se ela fosse considerada como apta para o diaconato, mas não para o presbiterato ou episcopado.

A unidade do sacramento seria rasgada em sua raiz se o diaconato como ministério de serviço fosse contraposto ao presbiterato como ministério de governo, daí poderia se deduzir que a mulher, ao contrário do homem, tem uma maior afinidade para servir e por isso estaria apta para o diaconato, mas não para o presbiterato.

No entanto, o ministério apostólico é conjuntamente um ministério de serviço nos três graus em que ele é exercido.

Não vou me aprofundar nessa dicotomia entre serviço e governo (que, seguida, penso que poderia perfeitamente justificar o acesso das mulheres ao diaconato mas não ao presbiterato, em perfeita harmonia com a antropologia católica); em vez disso, penso que a referência à “unidade do sacramento da Ordem” é mais relevante aqui. Se existe um óbice doutrinário à ordenação de diaconisas, é na relação entre os três graus do Sacramento da Ordem que ele deve ser encontrado.

O diaconato é o primeiro grau do Sacramento da Ordem (cf. Lumen Gentium, 29, onde é dito que os diáconos são “fortalecidos com a graça sacramental”) e, embora exista como “degrau” autônomo desde o Vaticano II (que restabeleceu o diaconato permanente), consiste ainda assim em um caráter impresso vere et proprie pelo único Sacramento da Ordem que existe. O já referido estudo da Comissão Teológica Internacional conclui exatamente que a unidade deste Sacramento é um importante indicativo de que não se lhe possa conferir às mulheres nem mesmo sob o grau do diaconato; some-se a isso o fato de que as chamadas “diaconisas” na história da Igreja não guardavam paralelismo estrito com os diáconos, quer permanentes, quer transitórios, mas exerciam um serviço específico — oriundo de uma específica necessidade de ordem prática — que foi paulatinamente caindo em desuso e, hoje, não tem mais razão de ser.

Uma coisa, no entanto, é bastante curiosa aqui: se o diaconato não fosse um grau do Sacramento da Ordem, se fosse meramente uma função laical subalterna ao sacerdócio — como o acolitato e o leitorato –, então certamente não haveria nenhum problema (ao menos não de ordem doutrinária) para que fosse exercido por mulheres. Afinal, existem hoje, nas nossas missas, garotas no papel de coroinhas ou mulheres lendo as Epístolas; e isso, que se pode até chamar de altamente inconveniente, não recebe a pecha de herético nem mesmo pelos mais ferrenhos críticos das reformas pós-conciliares.

Se o diaconato não fosse um grau do Sacramento da Ordem, portanto, seria possível reinstituir o primitivo ministério das diaconisas como um serviço laical ao lado de tantos outros. Seria, aliás, até mais fácil explicar o fenômeno histórico: aquelas mulheres não foram nunca “ordenadas” e nem existe razão para se ter semelhante dúvida, porque o diaconato não importa ordenação. Resplandeceria com clareza a tradicional divisão católica entre o sacerdócio reservado aos homens e os serviços auxiliares do sacerdócio — entre os quais a diaconia — exercidos pelos cristãos leigos, quer homens, quer mulheres.

Mas o diaconato é um grau do Sacramento da Ordem… não é?

Quem disse? O Concílio de Trento não fechou a questão. Fala que a “hierarquia eclesiástica estabelecida por ordem de Deus (…) se compõe de bispos, presbíteros e ministros” (TrentoSessão XXIII (15-7-1563), 966 (Cân. 3)), mas inclui entre os ministros também o subdiácono, o acólito, o exorcista e o ostiário (id. ibid., 958 (Cap. 2)) — as chamadas ordens menores, as quais hoje ninguém considera como propriamente sacramentais. No séc. XVI S. Roberto Belarmino nos expõe o seguinte panorama:

R. Bellarmino ( 1621) descreve bem qual o status quaestionis nessa altura. Estabelece a sacramentalidade da ordem (vere ac proprie sacramentum novae legis) como princípio fundamental, admitido por todos os teólogos católicos e negado pelos heréticos (protestantes). Mais, no que respeita à sacramentalidade de cada uma das ordens, julga necessário fazer uma distinção, pois que, se há unanimidade quanto à sacramentalidade do presbiterado, ela não existe no respeitante ao conjunto das outras ordens.

Bellarmino declara-se claramente a favor da sacramentalidade do episcopado (ordinatio episcopalis sacramentum est vere ac proprie dictum), estando em desacordo com os antigos escolásticos que a negavam; e considera a sua afirmação uma assertio certissima, fundada na Escritura e na Tradição. Além disso, fala de um carácter episcopal distinto e superior ao carácter presbiteral.

Quanto à doutrina da sacramentalidade do diaconado, Bellarmino fê-la sua considerando-a muito provável; contudo, não a toma como uma certeza ex fide, pois não é possível deduzi-la com evidência nem da Escritura nem da Tradição nem de qualquer determinação explícita por parte da Igreja. (Comissão Teológica Internacional. “Diaconado – Evolução e perspectivas”. Cap. IV, III.)

Que o diaconato seja um Sacramento — i.e., seja realmente um grau da Ordem — não é possível, segundo S. Roberto Belarmino, deduzir “com evidência nem da Escritura nem da Tradição nem de qualquer determinação explícita por parte da Igreja”. Se hoje se afirma aberta e incontestavelmente que ele é, sim, um dos graus do Sacramento da Ordem, é majoritariamente por conta do Concílio Vaticano II, em cujos textos «(SC86; LG 20, 28, 29, 41; OE 17; CD 15; DV 25; AG 15, 16) pressupõe-se a sacramentalidade das suas duas modalidades (permanente e transitório)» (CTI, op. cit., Cap. IV, IV.). Não deixa de ser irônico, portanto, que o maior obstáculo à ordenação de diaconisas seja precisamente… a teologia pós-conciliar.

Em resumo, assim,

  • o Papa Francisco, respondendo a uma pergunta, apresentou um escorço histórico bastante abrangente e fiel sobre a presença de “diaconisas” na Igreja Primitiva;
  • só é possível “ordenar” diaconisas: i) se o diaconato não pertencer ao Sacramento da Ordem ou ii) se se estiver falando em “ordenação” de maneira analógica e imprópria (esta é a explicação mais aceita para as “diaconisas” da Igreja primitiva);
  • se o diaconato for mesmo o primeiro grau do Sacramento da Ordem e se houver uma unidade intrínseca neste Sacramento — «[o] Catecismo de 1983, nos cânones 1008/9, integra os diáconos nos sacri ministri, os quais são habilitados pela sua consagração a apascentar o povo de Deus e a executar pro suo quisque gradu as funções de ensinar, santificar e governar in persona Christi Capitis» (CTI, op. cit., Cap. VII, III, 3) –, então a vedação da Ordinatio Sacerdotalis à ordenação feminina se aplica também ao diaconato;
  • esse aprofundamento do diaconato como grau sacramental é majoritariamente pós-conciliar; e
  • já houve uma “Comissão” que estudou detalhadamente o assunto: foi a CTI em 2002, no relatório citado, que a meu ver já atende aos anseios expressos por Sua Santidade quando abordou o tema.

É o que cabe falar sobre o assunto.

Jorge Ferraz, Blogueiro católico.