Na Suécia, a cúpula da Igreja também tem seu dia de eleições gerais. No domingo, 900 mil suecos foram às urnas para escolher os representantes da maior organização religiosa do país, a Igreja da Suécia, instituição protestante de confissão luterana. Foi o maior comparecimento na história das eleições da instituição desde 1950.

sistema eleitoral dessa instituição cristã é único no mundo. A cada quatro anos, os cidadãos filiados à igreja elegem uma espécie de Parlamento da Igreja Sueca(Svenska kyrkan), a que é a maior organização religiosa do país.

Esse Parlamento é composto tanto por representantes do clero como por leigos e tem o poder de decidir não só questões mundanas, como a reforma das paróquias e o valor de doações a países pobres, mas também assuntos de ordem teológica – a exemplo do casamento entre pessoas do mesmo sexo, aprovado pela Igreja Sueca em 2009.

“A Constituição sueca é clara: a Igreja deve ser democrática e aberta”, diz à BBC Brasil a pastora sueca Jenny Sjögren, chefe do Departamento de Teologia e Ecumenismo da Igreja da Suécia.

As eleições, contudo, estão atreladas à política tradicional. Representantes de três dos oito partidos políticos tradicionais do país disputaram o pleito, ao lado de grupos independentes. Os resultados preliminares indicam que o Partido Social-Democrata, nacionalista e anti-imigração, conquistou a maior parcela dos votos e aumentou sua participação na Igreja.

“Pode-se dizer que a Igreja da Suécia tem um sistema eleitoral único no mundo, no sentido de que todas as instâncias do poder decisório da instituição são eleitas de forma direta. Embora as igrejas protestantes de países como a Noruega realizem algum tipo de eleições, em geral os pleitos ocorrem apenas a nível paroquial. Já na Suécia, desde a virada do milênio o próprio Sínodo Geral, que pode ser definido como o Parlamento da Igreja Sueca, é eleito nas urnas”, acrescentou Sjögren, que se tornou padre há 17 anos: desde 1958, a Igreja da Suécia aceita a ordenação feminina.

Regras

Para participar das eleições – seja como eleitor, ou como candidato -, o cidadão deve ser membro da Igreja da Suécia. A idade mínima para votar é de 16 anos, e a partir de 18 anos é possível se candidatar ao pleito.

No total, 5,2 milhões de suecos têm direito a votar no país de cerca de 10 milhões de habitantes.

A eleição de bispos e arcebispos na Suécia também costuma ser realizada com a participação popular: 50 por cento do eleitorado deve ser composto por leigos.

“Em várias partes do mundo protestante, as eleições de bispos e arcebispos se dão através do voto tanto de clérigos como de leigos. Isto se dá por razões históricas, diz Jenny Sjögren.

Em 2013, a Suécia elegeu pela primeira vez uma mulher como ‘arcebispa’ – a até então bispa da cidade de Lund, Antje Jackelén.

Campanha Eleitoral

Na mídia sueca, a cobertura da campanha para as eleições gerais da Igreja segue, ainda que em menor dimensão, o figurino dos pleitos políticos. Nesta reta final da corrida eleitoral, candidatos leigos e religiosos duelam na TV e no rádio, jornais debatem as diferentes propostas, e os “partidos” – chamados de “grupos” – apresentam filmes de campanha publicitária. Nas ruas, cartazes e panfletos reforçam o clima de eleição.

Todo o processo das eleições eclesiásticas é muito semelhante ao processo eleitoral para o Parlamento, assim como as regras democráticas que regem o funcionamento das assembleias eleitas pelos membros da Igreja”, diz à BBC Brasil o membro da Igreja David Axelson Fisk, que participou do comitê organizador das primeiras eleições gerais, na virada do milênio.

“Até o ano 2000, a Igreja da Suécia realizava apenas eleições a nível paroquial, como ocorre em outros países protestantes. Mas quando a separação entre Igreja e Estado entrou em vigor, naquele ano, entendeu-se que a forma mais democrática de gerir a instituição deveria ser através de eleições gerais e diretas para todas as instâncias do poder eclesiástico”, observa Fisk.

As eleições da Igreja da Suécia são organizadas em três níveis, num único dia de votação: a nível local, os membros de cada uma das 2.225 paróquias do país elegem uma Assembléia da Paróquia (Kyrkofullmäktige). A nível regional, os eleitores das 13 dioceses escolhem a Assembléia da Diocese (Stiftsfullmäktige), com 81 representantes. E a nível nacional, é eleito o Sínodo Geral da Igreja da Suécia(Kyrkomötet) – a mais alta instância da instituição, composta por 251 integrantes.

arcebispa sueca é a representante da Igreja para eventos ecumênicos e conferências internacionais, mas a autoridade máxima de poder decisório da instituição é o Sínodo Geral. E pelas regras suecas, os bispos não fazem parte do Sínodo, embora devam estar presentes nas sessões do órgão.

“Os 13 bispos do país podem se pronunciar ou apresentar propostas nas sessões do Sínodo, mas não estão autorizados a votar”, esclarece Ewa Almqvist, do departamento de Comunicação da Igreja da Suécia. Por outro lado, segundo Jenny Sjögren, os bispos detêm influência no poderoso Comitê Doutrinário do Sínodo.

Em sua composição atual, 187 dos 251 assentos do Sínodo Geral são ocupados por representantes leigos. Entre os 64 clérigos da assembleia, estão 61 pastora e três diáconos. Os valores suecos da igualdade de gênero também se refletem na formação da assembleia nacional eleita no último pleito: são 124 mulheres e 127 homens, segundo dados fornecidos à BBC Brasil pela Igreja da Suécia.

Os representantes eleitos não ganham salário: recebem apenas compensação pelas horas que deixam de trabalhar em seus empregos regulares, a fim de exercer suas atividades do Sínodo. E em cumprimento às práticas suecas de transparência, as atividades e finanças da Igreja da Suécia também são disponibilizadas para a fiscalização pública.

Críticas

Um dos principais temas do debate da campanha eleitoral deste ano foi o questionamento sobre a participação política nas eleições da Igreja.
Embora as agremiações que concorrem ao voto não tenham a denominação de “partido”, o fato é que três dos oito partidos políticos tradicionais do país disputam o pleito com suas próprias legendas, ao lado de grupos independentes – o Partido Social-Democrata, o Partido do Centro e o Democratas da Suécia, de extrema-direita.

“Há diferentes pontos de vista, e o tema é complexo”, diz a padre sueca Jenny Sjögren.

“Um eleitor pouco familiarizado com as questões da Igreja, por exemplo, pode sentir-se mais seguro ao votar no candidato de um partido político com o qual ele tem afinidade. Este seria um lado positivo de se ter representantes de partidos políticos tradicionais na disputa. Por outro lado, muitos começam a questionar esse envolvimento político na igreja. Mas cada vez mais, surgem novos grupos independentes que não possuem conexão com partidos. Portanto, este é um processo em evolução”, ela ressalta.

Êxodo

Apesar do caro e complexo aparato democrático para a realização de eleições diretas nos três níveis decisórios da Igreja, o comparecimento às urnas tem sido relativamente baixo. Especialmente nestes novos tempos, em que a Igreja da Suécia enfrenta uma perda considerável de seu rebanho.

Nas últimas eleições gerais da Igreja, em 2013, apenas 700 mil pessoas votaram. O índice de comparecimento às urnas não costuma ultrapassar 15% do eleitorado – em claro contraste com o percentual registrado nas eleições políticas para o Parlamento sueco, que costuma girar em torno de 86%.

O êxodo têm preocupado as autoridades eclesiásticas. Em 2016, mais de 90 mil pessoas deixaram de ser membros da Igreja – praticamente o dobro do índice registrado no ano anterior. Segundo pesquisa conduzida pelo instituto sueco Norstat, o principal argumento dos fiéis que decidiram abandonar a instituição é franco: eles não acreditam em Deus.

A Igreja da Suécia abandonou a Igreja Católica Romana no século 16, quando aderiu à Reforma Protestante.

Na virada do milênio, quando a Suécia se tornou oficialmente um Estado laico, 82% dos suecos eram membros da Igreja da Suécia – mais por tradição, segundo muitos comentam, do que por uma real afirmação de fé. Atualmente, segundo os números oficiais, a instituição possui 6,1 milhões de membros (cerca de 62% da população). Mas cada vez mais, a tradição religiosa perde força neste país de descrentes.

Até meados da década de 90, os filhos de membros da Igreja da Suécia se tornavam automaticamente, ao nascer, também membros da instituição. Na era do Estado laico, a nova geração tende a desfazer esses tênues laços religiosos: hoje, pelos cálculos da agência central de estatísticas da Suécia (Statistiska centralbyrån), somente cinco por cento dos suecos costumam frequentar algum tipo de igreja.

Apenas 29% da população afirma ter alguma crença religiosa. E na hora de casar, um em cada três casais optam por uma cerimônia civil.

Fonte: BBC Brasil.

O próximo 31 de outubro se completarão 500 anos desde que Lutero afixou suas 95 teses na porta da igreja do castelo de Wittenberg. Era o início da Reforma Protestante que mudou o curso da história ocidental: do ponto de vista religioso, social, cultural e político. Seguiram-se décadas de guerras e séculos de divisões dentro do mundo cristão. Hoje, um estudo duplo – um na América e outro na Europa – do Pew Research Center registra que católicos e protestantes veem as suas crenças mais semelhantes do que diferentes. Em um mundo onde as divisões religiosas voltaram a se manifestar com toda a ênfase, é interessante notar que cinco séculos depois do cisma de Martinho Lutero diferenças permanecem, mas a tendência é por uma visão da religião e da vida convergentes.

Nos Estados Unidos, entre os protestantes, 57% considera que os dois credos são semelhantes, contra 41% que os considera diferentes. Entre os católicos, as percentagens são, respectivamente, 65 e 32.

Na Europa, a situação é mais complexa, mas não se desvia da tendência. Entre os protestantes europeus, os alemães caracterizam-se por serem aqueles que menos percebem a diferença: para 78% as duas religiões são semelhantes e apenas 19% as considera claramente diferentes.

Na Holanda, as opiniões dividem-se em 65% contra 28%, na Grã-Bretanha, 58 contra 37 e assim por diante, com uma predominância em todo lugar de quem vê mais pontos de compartilhamento do que de discordância. O mesmo vale para os católicos do Velho Continente, com exceção dos britânicos, onde 45 contra 41 veem mais divisão do que unidade.

Na Holanda, Áustria, Suíça e Alemanha, entre os católicos a percepção de semelhança é bastante evidente.

Na Itália, menos: 47% veem mais proximidades contra 41% que ressalta as divergências.

Ainda mais interessante é observar as opiniões sobre como obter a salvação eterna. De acordo com Lutero, somente por meio da fé. A maioria dos protestantes de hoje (com exceção dos noruegueses) considera que é alcançada através da combinação de fé e boas ações, que é substancialmente a posição tradicional da Igreja Católica.

Mas deve-se notar que na Europa, tanto entre os protestantes como entre os católicos, as pessoas praticantes são uma minoria: apenas 14% dos primeiros e o 8% dos segundos afirmam participar dos serviços religiosos pelo menos uma vez por semana. Cinco séculos depois, podemos dizer que, no Ocidente, as guerras religiosas acabaram.

Fonte: Corriere della Sera.

Historia-Europa

Minha avó paterna costumava soltar frases inteiras em italiano quando conversava entusiasmadamente. Seus filhos nascidos nos Estados Unidos lhe recordavam: “Mamãe, você está na América. Nós não falamos mais essa língua“.

No álbum de família, minha avó faz parte de uma narrativa que começa com imigrantes empobrecidos e avança rapidamente para a imagem de um dos seus filhos erguendo um carro, de tão forte que era. Sua irmã aparece em pose de estrela, num modesto maiô. Há fotos de um casamento e, de repente, o álbum revela uma forte mudança para o lado irlandês, à medida que as culturas iam se misturando.

A mobilidade ascendente faz uma breve aparição antes do baque financeiro. Uma breve recuperação permite belas cerimônias de batismos, casamentos e primeiras comunhões antes de um segundo desastre, quase aniquilador. Depois, o álbum perde o seu significado. Deixa de haver uma história porque não há mais coerência: apenas imagens formais, geralmente seguindo a tendência da época. Um carro aqui, um bolo ali, a próxima casa acolá.

A narrativa terminou porque a família, em sua essência, terminou. A própria palavra “família” deixou de ter significado para muitos de nós.

Nós não falamos mais essa língua”.

No entanto, aqueles que conseguiram se manter ligados a esta palavra e à linguagem do amor em que ela se enraíza construíram novas narrativas, sanaram-se e fortaleceram-se no paradoxo do sacrifício e do serviço a algo que é maior que nós e que nos torna plenos, livres e suficientemente destemidos para não desprezar o antigo dialeto, mas reaprendê-lo e reabraçá-lo.

Estes pensamentos me surgiram depois de ler esta descrição da Casa da História Européia, que me parece um álbum de família incoerente e morto:

“Os andares dedicados às atrocidades do século XX, a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais, são particularmente impressionantes. O visitante chega a essa parte da exposição no escuro, sentindo-se desorientado. É uma experiência física do estado mental de quem atravessa a impressionante exposição da Casa sobre o Holocausto.

Após essas imagens agitadoras, o último andar é realmente decepcionante. Ele é reservado a uma visão geral das instituições da União Europeia, como o Parlamento Europeu, o Conselho Europeu e a Comissão Europeia (…) Mas o mais notável nessa Casa é que, para ela, é como se a religião não existisse na Europa – e não só na atualidade: é como se a religião nunca tivesse existido nem impactado a história do continente”.

Sem o reconhecimento da sua história espiritual, esse museu de Bruxelas está dizendo, em essência, “Nós não falamos mais essa língua. E não queremos nenhuma ligação com as nossas raízes”.

Se for isso mesmo, se a Europa estiver mesmo empenhada em eliminar a língua e a memória da fé, então a sua narrativa chegará a um final rápido, deliberado e sem glória. A Europa se sepultará no túmulo “sustentável” que ela própria já está cavando.

Elizabeth Scalia

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O hospital infantil britânico Great Ormond Street anunciou nesta que reavaliará novas possibilidades para tratar um bebê gravemente doente após as intervenções do papa Francisco e do presidente americano, Donald Trump.

O hospital londrino tinha previsto deixar de manter o bebê Charlie Gard vivo após uma decisão da Justiça contra à qual os pais se opuseram. Charlie tem 10 meses e sofre de uma doença genética rara e terminal.

“Dois hospitais internacionais e seus pesquisadores nos indicaram nas últimas 24 horas que havia novos elementos para o tratamento experimental que propuseram”, explicou o hospital em um comunicado.

“Consideramos, assim como os pais de Charlie, que é justo explorar esses elementos”, acrescentou.

O hospital disse que solicitou a um tribunal britânico “uma audiência sobre o caso de Charlie Gard à luz do anúncio de novos elementos relacionados a um possível tratamento de sua doença”. “Não é uma questão de dinheiro ou de recursos, trata-se unicamente do que é justo para Charlie”, acrescentou a instituição.

O hospital afirmou que os seus médicos “testaram todos os tratamentos médicos” e que outro tratamento “seria injustificável […] e prolongaria o sofrimento de Charlie”. “Nosso ponto de vista não mudou”, acrescentou.

“Acreditamos que seja justo contar com a opinião da Alta Corte sobre os supostos novos elementos”.

Em abril, um tribunal britânico afirmou que os médicos deveriam interromper o tratamento que mantinha Charlie Gard vivo – ele sofre de uma rara doença genética e seu cérebro está muito prejudicado.

O Tribunal Europeu de Direitos Humanos (TDH) ratificou a decisão. Os pais do bebê de 10 meses lutam para que o seu filho possa receber tratamento nos Estados Unidos.

O tribunal decidiu que manter o bebê vivo somente prolongaria o seu sofrimento. A doença mitocondrial que o atinge deteriora os tecidos musculares.

O Papa Francisco deu o seu apoio aos pais do bebê em suas tentativas de transferir o menino, enquanto o presidente Trump ofereceu ajuda.

G1

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Descubra o que está por trás da sentença de morte do pequeno Charlie Gard, o bebê cuja vida e família foram simplesmente “atropeladas” pela decisão irrecorrível de um tribunal.

Está-se passando no Reino Unido um caso terrível, ao qual os jornais aqui, de forma geral, não deram um pingo de atenção. Mas eles deveriam. Porque, se olharmos bem de perto, podemos enxergar nele o nosso futuro, bem como o nosso presente.

Charlie Gard é um bebê de apenas 10 meses com uma doença rara chamada “síndrome de depleção do DNA mitocondrial”. Trata-se de uma condição genética gravíssima, que leva ao mal funcionamento dos órgãos, lesões cerebrais e outros sintomas. O hospital infantil Great Ormond Street, de Londres, sob cujos cuidados estava o garoto, declarou que não há mais nada a ser feito por ele e determinou que fossem desligados os aparelhos que o mantêm vivo. No parecer dos médicos, o menino deveria “morrer com dignidade”, mas os pais, Chris Gard e Connie Yates, definitivamente não estão de acordo.

Este é o ponto mais importante a ser entendido: os pais não estão insistindo para que Charlie se mantenha ligado aos aparelhos. O que eles querem é tirá-lo do hospital e levá-lo aos Estados Unidos para ser submetido a uma forma de terapia experimental, e que um médico norte-americano já concordou em ministrar à criança. Chris e Connie conseguiram levantar mais de 1,6 milhão de libras para financiar este último e desesperado esforço para salvar a vida de seu filho. Tudo o que eles precisavam do hospital britânico era a liberação da criança aos cuidados dos pais — o que não parece ser um pedido assim tão absurdo. Eles deixariam o país, então, e tentariam a sorte com este tratamento no exterior: mesmo que fosse pequena a chance de isso dar certo, seria sem dúvida melhor do que simplesmente ficar sentado, assistindo ao seu filho morrer.

É aqui, então, que as coisas se tornam verdadeiramente insanas e barbáricas. O hospital se recusou a entregar Charlie de volta aos seus pais. A questão foi parar na Justiça e, finalmente, o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos acaba de proibir os pais de levarem o seu filho para receber tratamento nos Estados Unidos. De acordo com a sentença, é um “direito humano” de Charlie expirar na sua cama de hospital em Londres; os pais não estão autorizados a tentar salvar a sua vida; faz parte “de seu maior interesse” simplesmente morrer.

Na Europa, a “morte com dignidade” sobrepõe-se a todos os direitos.

Na Europa, uma mãe pode matar o seu filho, mas não pode mantê-lo vivo.

Mais uma vez, trata-se de algo barbárico.

Tenho ouvido muitas pessoas racionalizando essa decisão demente com o argumento de que “os médicos entendem melhor” sobre o assunto. Isso pode muito bem ser relevante e verdadeiro em situações nas quais os familiares tentam forçar os médicos a tratamentos que eles, como profissionais, sabem que não funcionarão. Mas não é isso o que está acontecendo aqui. A única coisa que esses pais estão tentando “forçar” os médicos a fazer é liberar o seu filho, a fim de que ele possa ser levado a médicos diferentes, em um país diferente. Os médicos podem até ser a autoridade final a respeito de que medidas eles pessoalmente tomariam, mas não são a autoridade final sobre a vida em si mesma. Uma coisa é eles dizerem: “Eu não farei este tratamento”; outra bem diferente é eles sentenciarem: “Vocês não estão autorizados a pedir este tratamento a ninguém. A criança deve morrer.” A primeira afirmativa é razoável; a segunda é bárbara e chama-se eutanásia.

Tenho visto algumas pessoas nas redes sociais qualificando o caso como “inimaginável” ou “incompreensível”. Trata-se certamente de algo terrível, mas infelizmente não foge à minha compreensão nem excede os limites de minha capacidade imaginativa. Esses tipos de casos são inevitáveis na Europa e, a menos que aconteça uma mudança drástica no curso das coisas, em breve se tornarão comuns também deste lado do Atlântico. Já está tudo sendo cuidadosamente delineado nesse sentido. Basta levar em consideração os dois seguintes fatores.

Primeiro, é isso o que acontece quando os direitos dos pais são subordinados ao Estado.

Esse caso trouxe à tona algumas questões de relevância máxima. Quem deve deter a palavra final sobre uma criança? Devem ser os seus pais, ou um grupo de médicos, juízes e burocratas? Se os pais não têm precedência em uma situação que envolva a vida e a morte, que direito eles possuem? Se eu não tenho poder de decisão quando a vida de meu filho está em jogo, que raio de poder, então, realmente me cabe?

Na Europa, é assim que as coisas têm funcionado: um pai pode até ter alguma “jurisdição” sobre as menores minúcias da vida diária de seus filhos, mas, quando se trata das grandes questões — como eles serão educados, como devem levar a vida, em que devem acreditar, quando devem morrer —, é cada vez mais da alçada do Estado determiná-las. Como diz um especialista em “ética médica” de Oxford, os direitos dos pais estão “no coração” das decisões médicas mais importantes, mas “tudo tem limites”. Chris e Connie aparentemente atingiram os “limites” de sua autoridade parental e, agora, devem resignar-se enquanto seu filho agoniza até a morte. São esses, observem bem, os tais “limites” a que querem constringir a família. Você é pai até um certo ponto, a partir do qual o relacionamento com seu filho não conta para absolutamente mais nada.

Segundo, é isso o que acontece quando a vida humana deixa de ser vista como algo sagrado.

Qual o problema em levar uma criança aos Estados Unidos para receber tratamento? Pode não funcionar, é claro, mas por que não tentar? Os pais conseguiram levantar dinheiro suficiente para pagar tudo, incluindo uma ambulância aérea para transportar o bebê até a unidade de tratamento. Ninguém está sendo excessivamente onerado aqui. Ninguém está sendo forçado a fazer algo que não queria fazer. Existe alguma coisa a perder?

Olha, respondeu o Tribunal, só não vale a pena o transtorno. Eles analisaram todas as variáveis, usando as suas várias formulações, e chegaram à conclusão de que não faz sentido passar por todo esse transtorno na pequena esperança de salvar a vida de um ser tão “insignificante”. Sim, eles usaram a desculpa de que a criança está “sofrendo” — e eu tenho certeza que está —, mas isso não justifica proibir os pais de esgotarem todas as opções possíveis para aliviar o sofrimento do seu filho. Morrer não é um plano de tratamento para o sofrimento. Morrer é morrer. É a destruição da vida. Todos nós vamos experimentar a morte um dia, mas a sua inevitabilidade não anula o valor e a dignidade da vida humana.

Tudo isso se resume, no fim das contas, ao fato de que os poderes vigentes não vêem o valor fundamental da vida. É por isso que você escuta essas pessoas falarem mais frequentemente da “dignidade” da morte do que da dignidade da vida. Eles defendem com unhas e dentes o “direito” de morrer, mas dão de ombros para — quando não militam contra — o direito à vida. As leis na Europa refletem essa ênfase na morte ao invés da vida: lá se matam as crianças nos ventres e, depois que nascem, a eutanásia espera por elas ( sejam doentes terminais ou não). Uma vez que o “direito de morrer” é colocado acima do direito à vida, a morte continua a ganhar terreno e a devorar cada vez mais pessoas. A morte é uma força destrutiva. A que pode mais ela conduzir, senão à aniquilação?

Nós na América não estamos tão mal a este ponto, mas chegaremos lá. Só nos Estados Unidos, já matamos centenas de milhares de crianças no ventre de suas mães, e frequentemente falamos com admiração de pessoas que tomaram a “corajosa” decisão de cometer suicídio. Também nós, em muitas situações, infelizmente colocamos a autoridade do Estado acima dos direitos dos pais. Nosso sistema educacional está construído sobre essa filosofia.

Por isso, eu repito, tudo já está sendo delineado. Prepare-se para o que há de vir. E reze por esses pais que estão perdendo a alma de seu filho para o Estado Leviatã.

Por Matt Walsh — The Blaze | Tradução e adaptação: Equipe CNP

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Uma pesquisa exclusiva Ifop para o jornal La Croix revela uma imagem muito positiva dos padres na sociedade francesa, em todas as categorias. A pesquisa também mostra que somente metade dos jovens entre 18 e 24 anos já teve contato com um padre.
Para a grande maioria dos franceses, o padre é “um homem de escuta”: são 83% dos entrevistados que dizem isso, 98% dos católicos praticantes e também 68% dos sem religião. Um verdadeiro plebiscito que causaria inveja a muitos políticos ou profissionais, médicos ou jornalistas, por exemplo…
Como faz regularmente desde 1993, La Croix quis pesquisar novamente a relação que os franceses têm com seus padres. Sua imagem é extraordinariamente positiva, “até mesmo surpreendentemente positiva”, reconhecem alguns padres que nós consultamos. Em época recente, difícil ou até mesmo terrível para a Igreja católica – diminuição das vocações sacerdotais, revelações em série de crimes ou de delitos sexuais cometidos por muitos deles – e após décadas de secularização massiva, poderíamos imaginá-la mais arruinada ou simplesmente empalidecida.
A imagem do padre continua surpreendentemente estável
À primeira vista, não é nada. 71% dos franceses (contra 67% em 1993) consideram o padre como alguém “próximo das outras pessoas”. Um de cada dois (isto é, 11 pontos a mais que há 24 anos) o julga mesmo “feliz, realizado”. Os franceses não hesitam em usar palavras de fé: 52% continuam a vê-los como “testemunhas de Deus sobre a terra”. Os qualificativos usados com mais frequência para designá-los vão na mesma linha: eles estão “disponíveis” para 76%, mas também são “dignos de confiança” (68%). “Esta imagem global é contrária ao que ouvimos em ambientes católicos”, relata o padre Jean Rouet, vigário-geral da diocese de Bordeaux. “Neste ambiente, o padre é, geralmente, considerado como inalcançável, pressionado e sobrecarregado pelo trabalho”.
A imagem do padre continua, portanto, surpreendentemente estável. Ele é julgado, às vezes, “aberto” e “moralizador” exatamente nas mesmas proporções. Enquanto os bispos estão lutando para manter a malha territorial da Igreja, os franceses estão convencidos de que caso a necessidade se apresentar, um padre estará disponível para eles, ao qual eles terão desejo de se confiar.
A Igreja não provoca “mais medo”
Perguntados sobre o impacto provocado pelas revelações dos atos de pedofilia cometidos pelos membros da Igreja católica, as sondagens reconhecem que elas não os deixaram incólumes: para dois de cada três franceses a imagem dos padres foi “afetada” por esses casos, chegando a 70% entre aqueles com idade entre 35 e 49 anos, ou seja, aqueles que estão em idade de ter filhos jovens. Mas os não praticantes são mais numerosos nesse caso do que os praticantes.

A fotografia é tão bonita que podemos nos perguntar: não se trata de uma imagem idílica? Esta é, em todo o caso, a hipótese de alguns especialistas. “A imagem e o papel do padre são consenso”, espanta-se a socióloga Céline Béraud. “Talvez seja porque esta figura não mais provoca debate porque se tornou uma figura distante?”
Para ela, esta representação positiva poderia ser a culminância última da secularização: privada da autoridade moral, a Igreja – e, portanto, o padre – não provoca “mais medo”. Diretor do Ifop, Jérôme Fourquet também se pergunta se não se deve ver nisso a explicação de uma espécie de erro de perspectiva: “Muitos franceses veem os padres como homens felizes, disponíveis. Visivelmente, eles não conhecem realmente sua vida, seu isolamento, suas dificuldades materiais, a dilatação geográfica das suas paróquias”.
Diferenças significativas conforme a idade dos entrevistados
No entanto, e esta é uma das principais lições deste estudo, são muitos os franceses que ainda têm “contato ao longo da sua vida” com um deles; mas esta proporção cai drasticamente entre os mais jovens. Enquanto 76% dos franceses, de todas as faixas etárias, respondem afirmativamente (31% em muitas ocasiões e 45% raramente), apenas um jovem de 18 a 24 anos sobre dois encontra-se nessa situação. A pesquisa “objetiva” isso de alguma maneira. E, pela primeira vez, o que os sociólogos e muitos pastores detectaram. Em muitas ocasiões, as respostas fazem aparecer diferenças significativas segundo a idade dos entrevistados.

Uma ruptura geracional problemática, destaca dom Jean-Marc Eychenne. O bispo de Pamiers (Ariège) relaciona diretamente a percepção dos padres pelos franceses com a questão das vocações presbiterais: “O despertar das vocações passa por uma possível identificação dos jovens com os padres. Ora, aqui sentimos bem que a imagem dos padres é mais negativa entre os mais jovens”. Outro possível freio, segundo ele, para a atração ao sacerdócio: o fato de que os padres são “úteis para a coesão social” apenas para 55% dos franceses.
De fato, a “utilidade social” dos padres aparece globalmente em queda: somente pouco mais da metade da população considera-nos como “úteis para a busca de sentido”. E o mesmo número estima (especialmente entre os ativos e dirigentes de empresas) que eles estão “distantes da realidade”. Esta procura “de eficácia e de compreensão rápida da realidade” não surpreende o padre Jean Rouet. “Os padres são muito pouco visíveis no trabalho de transformação social. Nós não “servimos” mais em nada: nós estamos muito menos presente na escola, nas colônias de férias…”, destaca, mais inquieto em ver as expectativas dos católicos praticantes sobre “a transformação dos valores”. “A vida cristã tem a tendência, nesta perspectiva, de ser reduzida a uma moral”.
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Metodologia. A pesquisa do Ifop para La Croix foi realizada com uma amostra de 2 mil pessoas, representativas da população francesa com idades acima dos 18 anos. A representatividade da amostra foi garantida pela metodologia das cotas (sexo, idade, profissão da pessoa entrevistada) após estratificação por região e tamanho de cidade. As entrevistas foram realizadas por meio de um questionário auto-administrado pela internet entre os dias 28 de abril e 03 de maio de 2017.
Número de padres diocesanos na França (dados da Conferência Episcopal da França). 11.908 contra 16.075 em 2005. Desse total, menos da metade dos padres ainda está na ativa: cerca de 5.800 em 2014; os demais estão aposentados.
Projeções

 A Igreja da França deverá ter menos de 4.300 padres diocesanos ativos em 2024. Os nascidos entre os anos 1940-1950 e ordenados logo após o Concílio, os padres da geração “baby boom”, estarão aposentados.
Ordenações.

Cerca de 100 novos padres foram ordenados em 2016. Cerca de 80 padres diocesanos e aproximadamente 20 membros de instituições religiosas. Em 2006, 135 padres foram ordenados.

A reportagem é de Loup Besmond de Senneville e Anne-Bénédicte Hoffner, publicada por La Croix, 02-06-2017.

 

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Jovens ‘fanáticos’que reivindicam a própria fé. Com orgulho, entenda-se. O Le Monde talvez seja um pouco depreciativo ao descrever o retorno ao religioso na França, onde o que era sagrado, nas últimas décadas, era a laïcité. Alguma coisa mudou. Quem diz isso são os indicadores numéricos, elaborações de estatísticas de autoridade e – acima de tudo – as massas de jovens que não têm escrúpulos ao exibirem símbolos da própria fé, que frequentam as igrejas e fazem peregrinações..

Que fique claro: trata-se sempre de uma minoria (criativa). Os jovens que se definem como crentes estão sempre abaixo dos 50% da população. Mas, entre os muito jovens (dos 18 aos 29 anos), os crentes sobem para 53%. Apenas nove anos atrás, eles eram 34%.

Um acréscimo necessário: não são apenas muçulmanos, já que 42% dos “crentes” são católicos. Uma bela mudança de curso, se considerarmos que, no fim do século passado, o cristianismo era dado como agonizante na terra das catedrais. Era a “grande era da pós-religião”, lembra o Le Monde: “Todas as pesquisas e as investigações afirmavam que as igrejas estavam vazias, que os jovens não acreditavam mais e que os pais não transmitiam (ou faziam isso muito pouco) aos seus filhos o patrimônio religioso. Dizia-se que o budismo e as filosofias Nova Era estavam substituindo o monoteísmo ocidental”.

Em suma, na aurora do novo milênio, olhava-se com temor para a profecia apócrifa de André Malraux, segundo a qual “o século XXI será espiritual ou não será”.

Vinte anos depois do oráculo sinistro, observa o jornal progressista francês, estamos “na ostentação” da própria fé. “Socorro, Jesus está voltando!”, era a manchete do Libération em novembro passado. Na televisão, os políticos exibiam cruzes no pescoço. Durante a campanha presidencial, mais de um candidato falou sobre a fé e sobre a sua educação cristã.

“Nos debates – informa o Le Monde – foi até invocada a revisão da lei de 1905 sobre a separação entre Igreja e Estado.” Sem falar, no fim da campanha, das visitas às catedrais (até em Reims, onde os reis eram ungidos). “Em um país onde não ser filiado a nenhuma religião é até banal demais, o fato de ser crente ou de reivindicar uma dimensão religiosa significa ser não conformista. Deus não está mais relegado à esfera privada”, ressalta a reportagem do jornal parisiense.

E não se trata apenas de sair às ruas, brandindo bandeiras cruzadas para reconquistar um espaço público aniquilado antes da revolução antropológica, social, histórica e política. Em suma, há mais coisas além da batalha contra o mariage pour tous.

Os jovens de hoje, aqueles que leem a página do Facebook do Abbé Grosjean e que consideram a exasperação laicista como um óvni e que organizam vigílias de oração noturna em algum santuário do país, não têm superestruturas sociológicas que dominaram as gerações anteriores, que cresceram a pão e laicidade exasperada, reduzindo o ser crente a ser algo pessoal, e a participação nos ritos, a uma espécie de hobby como o bridge ou o cinema d’essai.

“A relação dos jovens com a religião manifesta uma mudança de paradigma entre a religião e a modernidade”, disse o sociólogo das religiões Jean-Paul Willaime, acrescentando que “mais modernidade não significa menos religião”. Ao contrário, “na religião, busca-se uma dimensão relevante da própria personalidade, o modo de estar em uma sociedade que não é mais tão cheia de significado”.

Os jovens de hoje, “em comparação com a geração dos anos 1970 – continua Willaime – que foram ‘socializados religiosamente’, não têm uma atitude de rejeição da religião. Eles não têm uma educação para se rebelar contra. A fé os fascina, faz-lhes perguntas. E, se os jovens são mais religiosos, eles são mais engajados, mais visíveis, mais coerentes”. Em suma, reivindicando a própria pertença religiosa, eles “reivindicam a sua liberdade pessoal”.

Jornal Il Foglio

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O impacto da crescente presença muçulmana no mundo ocidental é um dos temas mais candentes da atualidade – e em torno dele se verificam todos os dias acaloradas discussões de diferentes vieses ideológicos.

Giulio Meotti, jornalista e editor cultural do periódico italiano Il Foglio, abordou o tema do ponto de vista de quem vive no meio do dilema que se impõe aos europeus. Em artigo para o Gatestone Institute, o jornalista registra a seguinte impressão dos seus conterrâneos captada por pesquisas recentes:

“Todos os cantos europeus veem sinais de fissuras. Ao que tudo indica, os jihadistas estão tomando de assalto a liberdade e as democracias seculares. Apreensões dominam o imaginário coletivo dos europeus. Um levantamento com dados de mais 10.000 entrevistados de dez países europeus revelou uma crescente oposição pública à imigração muçulmana. A Chatham House Royal Institute of International Affairs realizou uma pesquisa de opinião perguntando aos entrevistados, pela internet, o que eles achavam da afirmação de que ‘toda a migração futura de países, principalmente muçulmanos, deve ser interrompida’: nos 10 países europeus onde foram realizados os levantamentos, uma média de 55% dos entrevistados concordou com a afirmação”.

A grande mídia, segundo Meotti, “já questiona se a Europa teme mais os muçulmanos do que os Estados Unidos”, e, ainda no tocante à mídia, o editor italiano recorda a recente publicação de imagens de uma oração muçulmana em massa diante do Coliseu, um dos mais célebres monumentos da Itália e do planeta: “Ecoando a captura da grande civilização cristã de Bizâncio em Constantinopla, o pregador mais destacado do islã sunita, Yusuf al Qaradawi, declarou que chegará o dia em que Roma será islamizada“.

Citando o historiador David Engels, Meotti considera que a Europa vai encarar o mesmo destino da antiga República Romana: a guerra civil. E se pergunta:

“As civilizações morrem de fora para dentro ou de dentro para fora? O seu desaparecimento resulta de agressão externa (guerra, desastres naturais, epidemias) ou de erosão interna (decadência, incompetência, escolhas desastrosas)? No século passado, Arnold Toynbee ressaltou de forma resoluta: ‘as civilizações morrem se suicidando, não por assassinato’”.

Por toda a Europa, observa o jornalista,

“há sinais de tomada de poder. O número de estudantes muçulmanos já supera o de estudantes cristãos em mais de 30 escolas britânicas ligadas às igrejas. Uma escola primária anglicana já conta com 100% de estudantes muçulmanos. A Igreja da Inglaterra estima que cerca de 20 das suas escolas têm mais alunos muçulmanos do que cristãos e 15 escolas católicas romanas têm maioria muçulmana entre seus estudantes. Na Alemanha também há temores de um influxo muçulmano massivo no sistema escolar, a ponto de que alguns professores alemães estejam alertando abertamente contra a ameaça de uma ‘guetização’”.

Meotti prossegue anotando que a França registrou 34.000 nascimentos a menos no ano passado em comparação com 2014 e que o número de mulheres francesas que deram à luz atingiu o nível mais baixo em 40 anos. A baixa taxa de fertilidade tornou-se, para o jornalista, uma “praga em toda a Europa“: em 1995, apenas a Itália tinha mais pessoas acima de 65 anos do que abaixo de 15; hoje há 30 países nessa mesma situação – e até 2020 serão 35.

É significativo notar que a França teria uma taxa de natalidade ainda menor se não fosse pelas mulheres muçulmanas: “Com taxa de fertilidade de 3,5 filhos por mulher, os argelinos contribuem significativamente para o crescimento populacional da França“, de acordo com o demógrafo Gérard-François Dumont. Ele também cita a taxa de fertilidade de outras mulheres de origem muçulmana em terras francesas: 3,3 filhos no caso das marroquinas e tunisianas; 2,9 no caso das turcas.

É também por causa dos migrantes muçulmanos que as maternidades da Suécia estão hoje ocupadas: entre 2001 e 2014, foi registrado no país um aumento de 25% nos nascimentos. A percentagem de estrangeiros saltou de 4% na década de 1960 para 17% em 2015.

Em Milão, centro financeiro da Itália, o nome mais dado aos recém-nascidos é Maomé.

Situações similares acontecem em Londres, nas quatro maiores cidades da Holanda e em várias outras regiões da Europa, de Bruxelas a Marselha. “É o islã, não o cristianismo, que agora permeia a paisagem e a imaginação da Europa“, registra Meotti.

Enquanto isso, vários dos maiores líderes europeus simplesmente não têm filhos. É o caso da alemã Angela Merkel, da primeira-ministra britânica Theresa May e de um dos principais candidatos à presidência da França, Emmanuel Macron. Se os próprios líderes europeus não têm filhos e, portanto, não tem razões pessoais para se preocuparem com o futuro porque tudo termina com eles mesmos, é plausível que eles não entendam cabalmente os motivos de preocupação dos pais e mães europeus com a abertura indiscriminada das fronteiras do seu continente. A maior preocupação dos políticos parece ser sempre econômica e nunca familiar, conforme se vê nas palavras de Federica Mogherini, representante das relações exteriores da União Europeia: “Eu acredito que os europeus devem compreender que precisamos da migração para as nossas economias e para os nossos sistemas de bem-estar social. Com as tendências demográficas atuais, temos que ser sustentáveis“.

A Batalha de Poitiers, em 732, foi o marco final da primeira grande onda islâmica na Europa Ocidental. Se os cristãos não tivessem vencido, “talvez”, como assinalou Edward Gibbon, “a interpretação do alcorão seria agora lecionada nas escolas de Oxford e os seus púlpitos poderiam pregar a um povo circuncidado a santidade e a verdade da revelação de Maomé“. Giulio Meotti complementa com uma indagação: “Isso não soa familiar hoje em dia?“.

Os islamistas, recorda o editor italiano, levam a cultura e a história mais a sério do que os ocidentais. Recentemente, em Paris, um terrorista egípcio tentou atacar o grande museu do Louvre: ele planejava desfigurar a arte do museu por ser “um poderoso símbolo da cultura francesa“.

Giulio Meotti encerra o seu artigo propondo uma reflexão incômoda:

“Pense num extremista islâmico gritando ‘Allahu Akbar’ ao mesmo tempo em que desfigura a Mona Lisa. Esta é a tendência que precisamos começar a reverter”.

É uma discussão com a qual se pode concordar ou discordar. O que não se pode mais é evitá-la com base no dogma do politicamente correto.

Francisco Vêneto

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Willem Jacobus Eijk é, desde 2008, arcebispo de Utrecht e primaz da Holanda e cardeal desde 2012. Sua tarefa não é fácil: é responsável por uma Igreja que nos últimos anos sofreu uma redução drástica em termos numéricos, chegou a um acordo com um processo de secularização impetuoso e presenciou polêmicas internas, que, contudo, foram aos poucos se abrandando. Os católicos holandeses caíram de 5,5 milhões em 1990, a pouco menos de 4 milhões hoje, o que representa uma redução de 37 a 23 por cento da população. Formado em medicina, com uma tese sobre eutanásia, e em filosofia, o Cardeal Eijk foi ordenado sacerdote em 1985.

Eis a entrevista.

Eminência, de acordo com um estudo da ONU a Holanda é o sexto país mais feliz do mundo. Quem está dentro sente a mesma coisa? Os holandeses são felizes hoje?

Depende muito dos critérios que essas pesquisas utilizam para chegar a conclusões. De acordo com um relatório de uma entidade oficial holandesa, o Instituto para o Planejamento Social e Cultural (SCP), dois terços dos holandeses são pessimistas, acreditam que o país está seguindo na direção errada. Há um sentimento generalizado de que nos últimos anos a Holanda piorou. Lamenta-se um empobrecimento dos costumes, do modo como as pessoas se tratam. Nas discussões públicas é comum ouvir insultos, mesmo no parlamento, e respira-se um clima de intolerância. Uma parte crescente da população está convencida que o Estado ajuda demais os imigrantes e muito pouco os holandeses nativos. Alguns vivem em um estado de carência extrema.

A Holanda é um país rico, é claro, e essa riqueza é certamente uma das razões que levou a ONU a declarar que os holandeses estão entre os mais felizes do mundo. Mas nem todos nos últimos anos têm aproveitado a recuperação econômica: os grupos da população menos instruídos estão sofrendo um empobrecimento. Nós, Igrejas, estamos fazendo mais e mais para as famílias pobres, aquelas em que pai e mãe ficaram ambos desempregados. O estado ocupa-se cada vez menos dessas pessoas, os recursos para a assistência social diminuíram e o resultado é que o número de pessoas que já não conseguem pagar o aluguel ou as contas básicas aumentou.

Uma parte da população está se tornando cada vez mais rica, tem nas mãos a maioria dos recursos financeiros, enquanto a outra parte é cada vez mais pobre e cada vez mais irritada porque vê que os outros estão aproveitando a situação. Dentro desse quadro é crescente a desconfiança em relação à elite política: uma parte da população pensa que os políticos não fazem nada para ajudá-la e que nem sequer tentam fazê-lo porque a Holanda perdeu parte da sua soberania, devolvendo-a à UE.

Hoje em dia, qual é a característica da sociedade holandesa que mais lhe agrada e qual a que mais lhe preocupa?

Os holandeses são generosos, querem ajudar os menos afortunados. Neste momento estamos realizando uma grande arrecadação de fundos para as vítimas da fome no Sudão do Sul, organizações cristãs e não cristãs se uniram nesta iniciativa. Por outro lado, há coisas que me deixam triste: a falta de fé em nossa sociedade e a relativa perda de valores éticos ligados à fé e ao bom senso. É possível constatar que no nosso país o respeito pela vida humana está aos poucos diminuindo. Outro campo que gera preocupação é em relação ao casamento: poucos se casam, seja na igreja ou no registro civil.

Como em muitos outros países europeus, a fé e a prática religiosa diminuíram muito na Holanda. Segundo a edição de 2016 do levantamento “Deus na Holanda” a soma de ateus e agnósticos representa quase 60 por cento da população holandesa, e pela primeira vez o número de ateus declarados superou o daqueles que acreditam na existência de um Deus pessoal.

Em sua opinião, qual foi o fator mais importante que desencadeou a tendência de queda no número de crentes e da prática religiosa? Trata-se de causas relacionadas com as Igrejas, portanto com a teologia liberal e com a pastoral ligada a esse direcionamento, ou é a pressão geral da sociedade que enfatiza e impõe valores seculares?

O fator mais importante, em minha opinião, é a cultura. Os primeiros sinais de uma secularização entre os católicos na Holanda já podiam ser observados nas décadas de 1920 e 1930. Nas grandes cidades já havia católicos que não frequentavam mais a igreja, que já não batizavam mais os filhos. O fenômeno se intensificou desde a Segunda Guerra Mundial. Em outubro de 1947, realizou-se um simpósio no seminário menor da Arquidiocese de Utrecht em que sacerdotes e laicos reuniram-se para estudar este problema. Eles falaram dos problemas da pastoral e formularam a previsão de que um grande número de pessoas batizadas deixaria a Igreja silenciosamente nas décadas seguintes. Eles estavam certos, porque vinte anos mais tarde a Igreja holandesa havia se esvaziado bem rapidamente. Em 1947 já se verificava que muitos católicos mantinham com a Igreja um vínculo de tipo ético-social, mas não estavam interessados nas verdades da fé. Vivia-se em uma rede de organizações católicas, mas faltava uma vida pessoal de oração, uma verdadeira espiritualidade.

Karol Wojtyla visitou nosso país no final da década de 1940, quando estava realizando a sua tese de doutorado na Universidade de Leuven, na vizinha Bélgica, e mesmo expressando admiração para a grande estrutura e organização da Igreja Católica, observou uma falta de vida espiritual, de uma ligação pessoal com Cristo. Ele constatou que a Igreja Católica na Holanda estava unida e combatia os protestantes, mas era uma unidade puramente no negativo, pois carecia de fé pessoal.

Todos esses fatores tornaram-se a causa da grave crise que a Igreja holandesa tem vivido desde o início dos anos 1960, momento em que surgiu o fenômeno do individualismo. A grande prosperidade que se iniciou na época colocava a pessoa em condições de viver de forma bastante independente dos outros e isso levou a um individualismo muito forte, exagerado, que bem conhecemos agora em nosso país. O individualista é uma pessoa autorreferencial, que acredita ter não apenas o direito, mas o dever de construir por si o seu próprio ser e seus próprios valores éticos. Não procura pontos de referência nos outros, em realidades e estruturas que o transcendam, mas apenas em si mesmo. E esse indivíduo está fechado em si mesmo, não se abre a um Deus transcendente e nem mesmo a uma comunidade de fiéis, que é a essência da Igreja. Todos esses fatores levaram à grave crise de fé e da vida da Igreja Católica de hoje.

Inclusive os teólogos vêm experimentado essa evolução, tornando-se cada vez mais liberais. Eles sentiram os efeitos bem mais do que os produziram. Edward Schillebeeckx, por exemplo, um professor de dogmática na Universidade de Nijmegen, costumava ser bastante ortodoxo nos anos 1950, mas a partir de 1965 tem se transformado em um defensor das novas correntes teológicas. Os teólogos foram mais seguidores das mudanças da cultura do que tiveram influencia sobre ela. Para isso contribuíram múltiplos fatores, cujo resultado é que a catequese acabou faltando na Igreja Católica nos últimos cinquenta anos.

Eu frequentei uma escola religiosa em Amsterdã e, nos primeiros anos, de 1965 a 1967, recebi uma excelente formação de catequese, especialmente bíblica. Prometeram-nos que tratariam dos sacramentos a partir do terceiro ano, mas nunca o fizeram. Os professores de religião ainda eram sacerdotes, mas havia discussões sobre Che Guevara, sobre os temas da época, mas nada sobre religião. Eu descobri e mantive a vocação sacerdotal graças ao pároco da minha cidade natal, perto de Amsterdã, uma pessoa de grande sensibilidade. Em geral na escola católica não tinha catequese, e isso é um problema que subsiste até hoje.

Nas paróquias não é ensinada a catequese?

Atualmente apenas é feita uma preparação para a Primeira Comunhão e para a Crisma, mas é muito difícil reunir os jovens para a catequese, há muitas atividades recreativas, todo mundo tem seus próprios programas pessoais. Quando eu era criança não havia tantas atividades, hoje em dia é muito difícil reunir as pessoas à tarde ou à noite para a catequese. Ainda existem muitas escolas com uma identidade católica, mas como a maioria dos alunos não é mais católica, e nem mesmo os professores o são, ou não são membros ativos, a escola católica não tem mais condições de transmitir a fé como acontecia até 50 anos atrás.

No Relatório “Deus na Holanda”, ressalta-se que os católicos mais jovens são mais ortodoxos do que os mais velhos em relação à doutrina católica tradicional. O senhor concorda ou isso não passa de uma ilação?

É isso mesmo, posso confirmá-lo. As gerações mais velhas são aquelas que nos anos 1960 adotaram as novas correntes teológicas, enquanto os jovens, quando ainda acreditam, não questionam a ortodoxia e têm uma intensa vida de oração. O Domingo de Ramos coincide com uma atividade da pastoral juvenil na minha arquidiocese, que inclui uma hora de Adoração.

Os nossos jovens realmente amam a Adoração, adoram a oração silenciosa. Durante essa hora, nós sempre oferecemos a possibilidade de fazer a confissão, e praticamente todos os jovens se confessam, mas quando se fala em confissão com a geração mais velha, as reações são bem mais negativas e hostis: “Nós não fazemos mais essas coisas”. Não se vê isso entre os jovens, eles são muito abertos para a confissão. O número de católicos é sempre decrescente, mas a qualidade está aumentando, e isso é um sinal de esperança.

Num futuro próximo, a Igreja na Holanda será muito pequena, mas vai ser uma Igreja com uma forte fé, que poderá ser a semente para o Reino de Deus na sociedade do amanhã. Eu não sou um arcebispo desesperançado, no entanto, temos de aceitar que a Igreja na Holanda vai se tornar muito pequena. Estou fechando muitas igrejas, talvez um terço das igrejas da Arquidiocese de Utrecht será fechada antes de 2020 e dois terços antes de 2025. Talvez tenhamos condições de manter umas 20 paróquias, com uma ou duas igrejas em cada uma delas, enquanto na década de 1960 eram quase 400: é uma imensa redução. Mas quando os paroquianos têm uma fé forte e profunda, esta poderá ser o fermento do futuro: esta é a minha esperança para o tempo que virá. E devo dizer que, mesmo entre os idosos aqueles que permanecem têm uma fé mais substancial do que a que havia em sua própria geração no passado.

Quando eu me tornei pároco assistente em 1985, a maioria dos meus paroquianos apoiava às idéias do movimento de 8 de Maio. Era o nome do movimento surgido na véspera da visita de João Paulo II à Holanda, que justamente ocorreu em 8 de Maio de 1985. Foi uma visita muito especial, com muitos protestos contra o papa: foi a visita mais difícil que João Paulo enfrentou durante o seu longo pontificado. Os participantes do movimento defendiam uma teologia liberal, criticavam muitos pontos delicados da doutrina da Igreja, especialmente contestavam à moralidade sexual. No domingo, a igreja ainda estava bastante cheia, mas eu sabia que a maioria das pessoas presentes não aceitava o teor de meus sermões. Hoje não é mais assim, o ambiente é mais relaxado, é mais tranquilo. Agora anunciar a fé se tornou mais fácil do que era há 30 anos. Nem todos os desenvolvimentos são negativos, seria um erro pensar isso.

Apesar da diminuição do número de católicos na Holanda, as estatísticas mostram que a cada ano várias centenas de adultos convertem-se ao catolicismo. Que tipos de pessoas são estes adultos que pedem para ser acolhidos na Igreja Católica?

São pessoas tão diversas como é a sociedade holandesa. Algumas poucas se tornam católicas para se casar com um católico, a maioria descobre a fé católica através de amigos ou após um evento importante na vida. Alguns são protestantes, outros nunca foram batizados. Eles são pessoas muito diferentes, e cerca de metade deles se tornam fiéis ativos com uma forte fé.

Há muitos estrangeiros entre eles, ou em sua maioria são holandeses?

A maioria é de nativos holandeses. Entre os imigrantes cristãos encontram-se muitas pessoas batizadas, crentes, mais educadas na fé do que os holandeses. Na Holanda temos um milhão de islâmicos, mas também 800-900 mil católicos imigrantes, que são uma parte muito ativa nas paróquias da parte ocidental do país, nas grandes cidades como Amsterdã, Haia e Rotterdam.

Recentemente o senhor ressaltou a necessidade de um documento de alto nível da Igreja Católica sobre a ideologia de gênero. Por que tal documento seria importante?

Inclusive sobre esta questão a Holanda foi pioneira. Na década de 1980 uma clínica universitária de Amsterdã, de filiação protestante, foi a primeira a oferecer tratamentos tanto hormonais como cirúrgicos para mudar o sexo biológico. O seguro de saúde pagava a maior parte do tratamento e continua sendo assim. Hoje, através de comissões da ONU, são exercidas pressões consideráveis sobre os estados para implementar legislações adequadas com a teoria de gênero, principalmente programas nas escolas. O que defende em resumo esta teoria? Que no passado a identidade de gênero era imposta pela sociedade, especialmente em relação ao papel social da mulher, mas agora somos individualistas, adulto, autônomos, e, portanto, temos o direito e o dever de escolher a nossa identidade de gênero.

Hoje, na Holanda, a teoria do gênero já não é mais um tema debatido, todos a aceitam como um fato evidente: o gênero não tem uma ligação essencial com o sexo biológico, o indivíduo tem a liberdade de determinar sua própria identidade de gênero e de mudar o sexo biológico conforme sua vontade, de acordo com suas idéias sobre a sua identidade de gênero. Para as pessoas tornou-se difícil entender que uma mudança de sexo é algo incompatível com a doutrina da Igreja sobre o casamento e a sexualidade. É por isso que eu pedi um documento sobre a teoria do gênero para o magistério romano: não necessariamente uma encíclica, mas um documento que explique claramente o que a Igreja pensa da teoria de gênero, com base em uma antropologia filosófica cristã, de modo que as pessoas possam entender que, com base na visão do mundo que a Igreja defende, e que vem da Sagrada Escritura e Tradição, o sexo biológico é essencial para a identidade de gênero.

Pode haver mudanças em relação ao papel social do gênero, isso acontece em todas as culturas e ao longo da história, mas não pode ser dito que o gênero é totalmente separado do sexo biológico. Fiz o pedido de tal documento porque todos na nossa sociedade aceitam a teoria de gênero sem ter ciência de suas consequências e da antropologia que pressupõe. O Papa falou algo sobre o assunto aqui e ali, falou de uma colonização ideológica agressiva em relação à teoria de gênero, de uma guerra em escala mundial contra o casamento e a família, mas um documento específico sobre a teoria de gênero poderia ser profético.

Outra questão delicada é a legislação para a eutanásia que na Holanda já existe e é bastante permissiva. O que o senhor pensa da legislação em vigor e das consequências das reformas que são propostas na direção do suicídio assistido?

A situação está ficando complicada. Uma comissão criada pelo governo e presidida por um membro do partido D66, que lutou muito para a introdução da eutanásia na Holanda, concluiu no ano passado que a lei atual funciona bem e não há necessidade de mudá-la. A comissão escreveu que, de fato, na Holanda existem pessoas idosas que gostariam de poder usufruir do suicídio assistido mesmo que não sofram de nenhuma doença, só porque consideram que “completaram suas vidas”. Essas pessoas, de acordo com a comissão, já podem fazer uso da lei vigente. Apesar disso, os ministros da Justiça e da Saúde, em 13 de outubro do ano passado, enviaram uma carta ao Parlamento, em que anunciaram planos para introduzir um novo projeto de lei, para ser anexado ao já existente sobre a eutanásia, para aqueles que consideram ter completado a sua vida. Tal lei sobre a “vida completada” preveria que cada pessoa tivesse o direito de solicitar o suicídio assistido dirigindo-se aos agentes assistenciais autorizados, que podem ser médicos, psicólogos e enfermeiros especializados. Os assistentes têm a competência para verificar se a pessoa está solicitando o suicídio assistido de forma coerente e livre, sem pressões familiares ou ambientais. O próprio partido D66 anunciou um projeto de lei para o suicídio assistido para os idosos, indicando como idade mínima os 75 anos.

Esta é uma nova etapa na discussão da eutanásia na Holanda. Quando alguém menciona que essas propostas estão assumindo uma inclinação perigosa, todos negam e protestam, mas é impossível não notar que a legislação tem avançado por um declive escorregadio dos anos 1970 até hoje. Principiou-se falando em eutanásia para doenças incuráveis na fase terminal da vida; em seguida, discutiu-se sobre a eutanásia fora da fase final; mais tarde, nos anos 1990, foi estendida para doenças psiquiátricas e neurodegenerativas; depois, em 2004, foi introduzido o Protocolo de Groningen, que autoriza a supressão da vida de recém-nascidos gravemente enfermos e, pela primeira vez, foi quebrada uma barreira, aquela que defendia que a supressão de vida deveria ser solicitada pelo paciente. Agora o próximo passo parece ser a introdução do suicídio assistido para aqueles que não sofrem de uma doença, mas afirmam que completaram a sua vida.

Nos últimos 30 anos, a Holanda tornou-se alvo de um grande fluxo migratório. Muito migrantes vêm de regiões do mundo onde a visão religiosa da vida ainda é prevalente. Muitos deles são muçulmanos. A sua percepção é que estes imigrantes estão se secularizando como a maioria dos holandeses, ou estão mantendo e transmitindo uma forte identidade religiosa?

Até 2004 observou-se uma tendência à secularização, inclusive entre os imigrantes islâmicos, mas desde 2004 nota-se um reforço da identidade islâmica entre os imigrantes, especialmente aqueles que chegam da Turquia e do Marrocos e que acima de 95 por cento declaram- se islâmicos praticantes. De fato, 40 por cento dos muçulmanos na Holanda visitam a mesquita às sextas-feiras, um percentual significativo quando comparado com o dos cristãos que frequentam regularmente uma igreja, que é de 10-15 por cento. A prática do culto aos domingos entre os católicos é inferior a 5 por cento. Os islâmicos têm identidade religiosa mais forte do que a de protestantes e católicos atuais.

Quantas mesquitas sunitas existem na Holanda? E quantas paróquias católicas?

As mesquitas são atualmente 500, e outras estão sendo construídas. Eles constroem mesquitas, nós cristãos fechamos igrejas. As paróquias católicas são cerca de 1.500, um número que está se reduzindo assim como o número de igrejas abertas ao culto. Há igrejas que não são mais usadas, mas como que não há compradores, esperamos antes de desconsagrá-las permanentemente. Atualmente na minha arquidiocese há cerca de vinte igrejas à venda. Eu sou da opinião que devemos evitar gastar todos os recursos financeiros de uma paróquia na manutenção de uma igreja que não está em uso, deixando as gerações futuras sem fundos, de mãos vazias: na Holanda não há a destinação de 8 por mil do imposto (alíquota destinada às igrejas, na Itália). Os municípios podem declarar uma igreja no seu território como patrimônio cultural. Isso impossibilita interferir sobre sua arquitetura, e torna-se difícil a venda, porque o comprador não poderá mais alterar sua destinação, ao mesmo tempo em que os municípios gastam muito pouco para a manutenção dessas igrejas declaradas como patrimônio. As municipalidades amarram as mãos da Igreja, mas pouco ajudam para encontrar uma solução.

Fonte: Tempi

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Islândia converteu-se no primeiro país onde todos as crianças com Trissomia 21 são abortadas. O doutor Peter McParland, do National Maternity Hospital, assegurou na Assembleia cidadã islandesa que “não nasceu nem um bebê com síndrome de Down na Islândia nos últimos cinco anos”.

Este país converteu-se no'”modelo” a ser seguido quanto se refere a medidas eugênicas. A Dinamarca lhe segue de perto comum 95% de casos abortados, e prevê que nos próximos 10 anos chegará a ser uma nação livre de síndrome de Down, segundo informou Lifesitenews.

Outros países como Espanha, Grã Bretanha e EUA já abortam a 90% dos bebês que são detectados com esta anomalia durante a gravidez.

As estatísticas não mentem
“99% são felizes com suas vidas, 99% de seus pais ama a seus filhos e 94% de seus irmãos se sentem orgulhosos deles”. Isso é o que diz um informe de NBC News, e que recolhe Juanjo Romero em Infocatólica.

“Não é difícil imaginar a “solução” às consequências sociais de outros “problemas” como a pobreza, a velhice, a enfermidade: eliminação do pobre, do ancião, do enfermo. É pura coerência. Aborto e eutanásia, também de crianças recém nascidas se o problema não se detectou na gravidez, são apenas duas ferramentas”, aponta Juanjo Romero em seu artigo.

De: religionenlibertad.com

Via Front Católico

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  • Foi ordenada a remoção de uma estátua da Virgem Maria por um tribunal no município de Publier. A Senadora Nathalie Goulet criticou severamente os juízes chamando-os de “aiatolás do secularismo”.
  • Uma escola alemã na Turquia acaba de proibir as festividades do Natal. A escola, Istambul Lisesi, financiada pelo governo alemão, decidiu que as tradições e canções de Natal não serão mais permitidas. Uma loja da Woolworth na Alemanha descartou os enfeites de Natal alegando aos clientes que a loja “agora é muçulmana”.
  • A Europa já está mutilando suas próprias tradições “para não ofender os muçulmanos”. Nós nos tornamos nosso maior inimigo.
  • Os muçulmanos também estão reivindicando “a mesquita de Córdoba”. Autoridades da cidade, que fica no sul da Espanha, recentemente deram um duro golpe na reivindicação de propriedade da catedral pela Igreja Católica. Agora os islamistas a querem de volta.
  • O resultado final do secularismo autodestrutivo da Europa poderá verdadeiramente acabar em um Califado.
  • “Tudo é cristão”, escreveu Jean-Paul Sartre depois da guerra. Dois mil anos de cristianismo deixaram uma marca profunda na língua francesa, paisagem e cultura. Mas isso não é bem assim de acordo com a ministra da Educação da França, Najat Vallaud-Belkacem. Ela acabou de anunciar que, em vez de dizer “Feliz Natal”, os servidores públicos devem dizer “Boas Festas” – trata-se claramente de uma deliberada intenção de apagar do discurso e do espaço público qualquer referência à cultura cristã na qual a França está enraizada.

Jean-François Chemain chamou isso de “erradicação de qualquer sinal cristão no cenário público”. O estopim da controvérsia ocorreu há um ano na cidade francesa de Ploermel, quando um tribunal deliberou que a estátua do Papa João Paulo II, erguida em uma praça, teria que ser removida por violar o “secularismo”.

Na sequência foi ordenada a remoção de uma estátua da Virgem Maria por um tribunal no município de Publier. A Senadora Nathalie Goulet criticou severamente os juízes chamando-os de “aiatolás do secularismo”.

Os jornais da “esquerda” francesa, indignados com a proibição dos burquínis da “direita” na Riviera Francesa, estão endossando essa política anticristã.

O Conselho de Estado da França acaba de decidir que “a instalação temporária de presépios em lugares públicos é legal se tiver um valor cultural, artístico ou festivo, mas não se expressar a identificação de um culto ou uma preferência religiosa”. Quantas precauções para justificar uma tradição milenar!

Na cidade de Scaer, uma casa de repouso foi objeto de uma reclamação secularista da mesma natureza, pela presença de um afresco da Virgem Maria. Depois foi a vez da manjedoura na estação de trens de Villefranche-de-Rouergue em Aveyron. Na cidade de Boissettes, os sinos da igreja foram silenciados por uma decisão judicial.

Felizmente certas ideias do Observatório do Secularismo – órgão criado pelo presidente François Hollande para coordenar suas políticas neoseculares – não foram implementadas. Uma delas até propunha eliminar alguns feriados nacionais cristãos para dar espaço aos feriados islâmicos, judaicos e seculares.

Por ocasião da Páscoa, o Presidente Hollande “esqueceu”de expressar seus votos de Feliz Páscoa aos cristãos da França. Mas alguns meses antes Hollande expressou seus votos de bom feriado aos muçulmanos durante a festa do Eid, quando termina o Ramadã. “A saudação de Hollande aos muçulmanos é oportunista e política. Para o Partido Socialista os muçulmanos são uma crucial clientela eleitoral”, assinalou o filósofo francês Gerard Leclerc no jornal Le Figaro.

Essa cristianofobia é o Cavalo de Troia do Islã. Conforme ressalta Charles Consigny no semanário Le Point: “através dessa tábula rasa do passado a França fará uma limpeza do seu futuro”. Lamentavelmente a França não é um caso isolado. A ausência secular de propósitos e de valores confusos e esvaziados censuram o cristianismo em favor do Islã em toda a Europa.

Um terrorista jihadista, visando um símbolo da tradição cristã, massacrou na semana passada 12 pessoas em uma feira natalina em Berlim. A Europa já está mutilando suas próprias tradições “para não ofender os muçulmanos”. Nós nos tornamos nosso maior inimigo.

A procissão anual à luz de velas de Santa Lúcia (“Sankta Lucia”), uma tradição cristã sueca celebrada durante centenas de anos, está “morrendo”. Uddevalla, Södertälje, Koping, Umeå e Ystad estão entre o número cada vez maior de cidades que não comemoram mais esse lindo evento cultural. Segundo Jonas Engman, etnólogo do Museu Nórdico, o declínio no interesse pela procissão de Sta. Lúcia acompanha uma alienação mais abrangente da cultura cristã na Suécia. Um estudo realizado pelo instituto Gallup Internacional revela que, em se tratando de praticar a religião cristã, a Suécia é “o país menos religioso do Ocidente”. Enquanto isso o Islã cresce munido de novas metas fortes e de um conjunto de valores da sharia.

Uma escola alemã na Turquia acaba de proibir festas de Natal. A escola, Istambul Lisesi, financiada pelo governo alemão, decidiu que as tradições e canções de Natal não serão mais permitidas. O Washington Post resumiu assim a decisão: “não às tradições do Natal, não às festas e não às canções de Natal”. Não se trata de um incidente isolado. Uma loja da Woolworth na Alemanha também descartou os enfeites de Natal alegando aos clientes que a loja “agora é muçulmana”.

Na Grã-Bretanha, David Isaac, o novo presidente da Comissão para a Igualdade e Direitos Humanos (EHRC em inglês), disse aos empregadores que eles não devem suprimir a tradição cristã por medo de ofender alguém. Anteriormente, Dame Louise Casey, a “czarina” da integração do governo britânico, alertou que “tradições como as festas natalinas morrerão a menos que as pessoas defendam os valores britânicos”.

Em inúmeras cidades espanholas como por exemplo a Cenicientos, o município desta Comunidade Autônoma de Madrid removeu a Via-crúcis. Depois a prefeita de Madrid, Manuela Carmena, decidiu retirar a tradicional exibição da Natividade em Puerta de Alcalá.

Os muçulmanos também estão reivindicando “a mesquita de Córdoba”. Autoridades da cidade que fica no sul da Espanha recentemente deram um duro golpe na reivindicação de propriedade da catedral pela Igreja Católica. Construída no local da igreja de São Vicente, que depois serviu de mesquita por mais de 400 anos quando a Espanha islâmica fazia parte de um califado, antes do reino cristão de Castela conquistar a cidade e convertê-la novamente em igreja. Agora os islamistas a querem de volta.

Os muçulmanos também estão reivindicando “a mesquita de Córdoba”. Autoridades da cidade que fica no sul da Espanha recentemente deram um duro golpe na reivindicação de propriedade da catedral pela Igreja Católica. Construída no local da igreja de São Vicente, que depois serviu de mesquita por mais de 400 anos quando a Espanha islâmica fazia parte de um califado, antes do reino cristão de Castela conquistar a cidade e convertê-la novamente em igreja. (Imagem: James Gordon/Wikimedia Commons).

Bélgica, a democracia mais islamizada da Europa, também está purgando sua herança cristã. A Natividade, o tradicional presépio, não foi montado na cidade belga de Holsbeek nos arredores de Bruxelas. Alega-se que os cenários foram retirados para “não ofenderem os muçulmanos”.

Conforme reportado pelo jornal La Libre, agendas escolares dentro da comunidade de língua francesa da Bélgica também estão usando uma nova terminologia secularizada: Dia da Todos os Santos (Congés de Toussaint) está agora sendo chamado de Folhas de Outono (Congé d’automne), Férias de Natal (Vacances de Noël) viraram Férias de Inverno (Vacances d’hiver); Férias da Quaresma (Congés de Carnaval) viraram Licença para Descanso e Relaxamento (Congé de détente) e a Páscoa (Vacances de Pâques) passou a ser Férias de Primavera (Vacances de Printemps). Na sequência a Bélgica instalou uma árvore de Natal descristianizada, abstrata, na capital Bruxelas.
Na Holanda a tradição cristã do Pedro Preto está sendo fortemente criticada e logo logo será abolida. Na Itália sacerdotes católicos cancelaram as cerimônias de Natal para “não ofenderem os muçulmanos”.

O resultado final do secularismo autodestrutivo da Europa poderá verdadeiramente acabar em um Califado, no qual o destino de suas antigas e maravilhosas igrejas recapitulariam àquelas de Constantinopla, onde a Hagia Sophia, que por milhares de anos foi a maior catedral do cristianismo, foi recentemente transformada em mesquita. A chamada do muezim agora reverbera dentro deste marco cristão pela primeira vez em 85 anos.

Terroristas islâmicos visavam o Natal em Berlim, mas são os secularistas cristãos quem o está abolindo em toda a Europa.

Giulio Meotti, Editor Cultural do diário Il Foglio, é jornalista e escritor italiano.

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A verdade é que a Europa precisa recuperar sua grande narrativa pela qual deva viver, pela qual deva determinar o que é verdadeiro, bom e benéfico para seu povo.

O grande número de pessoas desembarcando no litoral da Europa – sejam refugiados, sejam imigrantes em busca de melhores condições financeiras – assim como o maléfico advento do Estado Islâmico e de outros grupos extremistas muçulmanos, levou o historiador Niall Ferguson a comparar, no jornal britânico The Sunday Times, o estado atual da Europa com o da época da chegada das tribos germânicas e dos hunos da Ásia Central às portas de Roma, no século V.

Certamente existem pontos em comum entre a situação do então Império Romano do Ocidente e a da Europa de hoje. Nós possuímos a mesma cultura popular decadente e superficial, em que tudo é permitido e o “pão e o circo” mantém a população anestesiada com uma saraivada de esportes, entretenimento e jogos de azar sem fim. Em comum entre as duas épocas também há o cinismo em relação à fé e aos valores que dela advém, assim como a mesma acídia ou cansaço de culturas decrépitas. Mas devemos tomar cuidado em não sermos anacrônicos e atribuir a Roma todos os nossos vícios e todas as nossas virtudes. É impressionante como alguns, ao invés de enxergarem o Cristianismo como parte da resposta para as tribulações da Europa, estão aproveitando a oportunidade para caluniar a religião em geral, sejam quais forem os fatos da história.

É particularmente incorreto tomar o livro de teor extremamente anti-clerical “Declínio e Queda do Império Romano”, de Edward Gibbon, como uma referência confiável na comparação do papel do Cristianismo no Império Romano e a chegada de extremistas islâmicos em nosso meio agora. Como Larry Siedentrop bem mostrou na obra “A invenção do Indivíduo”, não houve culturas “seculares” na Antiguidade. Tudo o que havia eram religiões da família, tribo, cidade ou império, e Roma não era exceção. Desta forma, César, tal qual muitos governantes antigos, se considerava divino e, na época do surgimento do Cristianismo, foi denominado “Dominus et Deus”.

Foi isso o que causou tantos problemas para a Igreja em seus primórdios. A Igreja podia honrá-lo como imperador, mas tinha que recusar prestar-lhe o culto divino. É totalmente errado alegar que a força da Roma “secular” foi sabotada pelo advento do Cristianismo monoteísta. Também é bastante enganoso comparar o Cristianismo em sua fase inicial com o ISIS e outros grupos terroristas islâmicos. Mais importante, o Cristianismo substituiu os cultos corporativos da família, da tribo e da cidade por uma espiritualidade profundamente pessoal e pela possibilidade de se pertencer a uma comunidade universal sem classes. Como Siedentop afirma, foi o Cristianismo que nos deu a idéia da “pessoa”, da sua liberdade e do seu valor. Se os cristãos nem sempre foram fiéis a essa visão, não há motivo para fazer falsas comparações com um sistema totalitário, tal como o Islamismo radical, onde há pouco espaço para a liberdade pessoal e quase nenhum para o exame interior da consciência. Siedentop também demonstra que o reino secular surgiu a partir de idéias cristãs, como o respeito pela consciência, e da natureza não-coercitiva do Cristianismo primordial, e não de supostos antecedentes pagãos tão amados pelos intelectuais que o odeiam.

O fato é que Roma foi salva dos piores excessos dos vândalos e dos hunos pelo papa Leão I e, como lembra o filósofo Alasdair MacIntyre, as luzes do conhecimento foram mantidas acesas na Idade Média pelos beneditinos e por outras congregações religiosas. Nós certamente precisamos de estadistas como Konrad Adenauer e Robert Schuman, que viram a necessidade de uma base moral cristã para a integração da Europa do pós-guerra. Nós precisamos também de um João Paulo II, cujo papel na libertação de países da Europa Central e do Leste de outra ideologia antagônica (comunismo) não precisa sequer ser mencionado. Certamente existem trevas crescentes e que se aproximam, mas o Cristianismo é a luz que pode brilhar sobre elas e dispersá-las. Com certeza, devemos rezar por um Bento ou Wojtyla, mas quem iria querer outro Nero ou Domiciano?

Ferguson acertadamente observa o vazio da cultura do entretenimento e dos shopping centers. Porém, ele não menciona o estado caótico da vida familiar que foi criado após ter se confundido liberdade com libertarianismo. A isso ele poderia acrescentar o simbolismo empobrecido daqueles que tentam lamentar uma atrocidade horrenda, mas sem ter uma referência ou um sistema de crenças, possuindo apenas uma compreensão opaca de qualquer coisa que seja transcendente. Como John Henry Newman descreveu nas palavras do Apóstolo: “sem esperança e sem Deus no mundo”. Por que a secular Quinta República tem de realizar o memorial em homenagem às 130 vítimas dos ataques feitos por terroristas do ISIS (o artigo foi publicado uma semana após os ataques de 13 novembro de 2015, em Paris – nota do tradutor), na gloriosa catedral de Notre-Dame, e não fazê-lo no completamente secular e sem graça Centro Pompidou? Pode isso ser um indício do papel que a fé cristã pode desempenhar em ajudar a Europa a despertar de sua letargia e se acalmar, e também a assisti-la na sua renovação espiritual e moral?

A verdade é que a Europa precisa recuperar sua grande narrativa pela qual deva viver, pela qual deva determinar o que é verdadeiro, bom e benéfico para seu povo. O marxismo e o fascismo trouxeram sofrimentos terríveis para os europeus. Agora, outra ideologia totalitária os ameaça. Um espaço plural real só pode ser garantido pelas idéias intrinsecamente cristãs da dignidade da pessoa humana, do respeito pela consciência, da igualdade de pessoas e da liberdade não apenas de crer, mas de manifestar nossas crenças em público, sem discriminação ou violência contra aqueles que não as compartilham. A autogratificação imediata e o entretenimento sem fim não irão mais contribuir para a sobrevivência da Europa contemporânea do que o fizeram para a da Roma Antiga. O que é necessário é uma ética de serviço, uma abnegação e um sacrifício em nome do bem comum. Muitos reconhecerão nisso os ensinamentos do Mestre da Galiléia, e não de um paganismo qualquer, antigo ou moderno, nem de qualquer ideologia secular ou religiosa.

Não existem coisas como a neutralidade ou o processo gratuito nessas questões. O extremistas decidiram quais são seus valores e de onde eles vêm. Possuímos nós algo para se opor a isso? As instituições, a cultura, as realizações, os valores da Europa podem ser entendidos com referências à tradição judaico-cristã, seus ensinamentos com relação ao valor da pessoa, ao bem comum e principalmente à necessidade de auto-crítica e renovação. Essa é a hora de se reapropriar dela, no seu sentido mais amplo, como a fonte de nossos valores; celebrá-la e oferecê-la a todos os de boa vontade como uma base para trabalharmos juntos por uma Europa aberta, mas unida. Alguém possui outras alternativas viáveis?

* Michael James Nazir-Ali é um bispo anglicano nascido no Paquistão e naturalizado inglês.
Artigo foi publicado originalmente na revista Catholic Herald.
Tradução: Alexandre Cegalla

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É tudo uma questão de repensar a presença, encontrar novas formas, trabalhar com talento. Bento XVI reiterou isso ao seu biógrafo Peter Seewald, quando ele respondeu rapidamente sobre a descristianização da Europa nas Ultime conversazioni [Últimas conversas] (Ed. Garzanti), o seu testamento espiritual. É uma evidência, mas talvez, mais do que passar em revista a lista das igrejas vazias, fechadas e abandonadas, talvez convertidas em mercados de frutas ou salões de festa com excelente parquet – todas coisas que já sabemos de memória –, seria útil entender que o problema é a fé, sedada e distraída.
Em suma, reiniciar a partir daí, da questão central e fundamental do ser cristão. Isto é, testemunhar de formas diferentes, o que não significa que devam ser transgressivas. Até porque a história segundo a qual o catolicismo (ou até mesmo segundo o cristianismo) está em agonia, destinada a uma morte certa, é, na realidade, uma boa piada para as manchetes dos jornais e para as discussões de alguns círculos luteranos do século XVI.

Philip Jenkins, um dos maiores especialistas de história e ciências das religiões, escreveu isso recentemente no jornal Catholic Herald. Nada de fim, nada de extinção. Sim, é claro, as multidões entre os bancos de madeira das igrejas (onde eles ainda existem, sem terem sido substituídos por tristes cadeiras) são raras, as procissões continuaram flutuantes, mas tudo isso está relacionado com a Europa.

Aí está o problema, na tese de Jenkins: pensar o catolicismo como algo meramente europeu, ligado à teoria das suas imensas e antigas catedrais, aos ritos de um tempo que foi, à catequese administrada em doses maciças para crianças de cinco, seis, sete anos todas as santas manhãs depois da missa e mesmo antes de ir para a escola. Essas crianças, na maioria das vezes, são aqueles que hoje – desligados dos deveres impostos – são os primeiros que não colocam mais os pés na Igreja e não levam os filhos.

Há alguns anos, em 2011, a American Physical Society publicou um volumoso e detalhado dossiê que se concluía com a sentença inapelável: o mundo se livraria das religiões (de todas, incluindo o Islã, hoje imerso na luta fratricida entre sunitas e xiitas pela supremacia sobre a umma) até 2100, e, no topo da lista dos países prontos a abandonar aquilo em que tinham acreditado durante séculos, despontavam a Áustria e a Irlanda. Ou seja, duas das realidades que mais contribuíram com a causa católica, embora hoje também lá se sofra, e não só pelos escândalos sexuais e financeiros – no que respeita à Áustria, é suficiente reler o discurso desesperado que o cardeal Christoph Schönborn, arcebispo de Viena, fez há três anos ao clero de Milão, contando uma situação que obriga a diocese a vender as Igrejas ao melhor comprador (na melhor das hipóteses, aos ortodoxos), vazias e financeiramente insustentáveis.

“O que eu posso fazer?”, perguntava-se o cardeal, descrevendo uma situação, na sua opinião, irremediavelmente comprometida. O estudo aplicava complicados modelos matemáticos que levavam todos à mesma conclusão: “Em grande parte das modernas democracias seculares, há uma tendência segundo a qual o povo não se identifica com nenhuma religião. Na Holanda, estamos em 40%, enquanto o nível mais alto foi registrado na República Checa, com 60% daqueles que se declaram não filiados a qualquer religião”.

Daí a profetizar – como Cassandras – o fim da religião dentro de poucas décadas, porém, há uma grande distância, até porque a fé individual ainda é uma das poucas coisas que escapa das classificações em banco de dados ou em tabelas do Excel.

Em suma, o fato de não haver mais católicos em Praga pode desagradar aqueles que se emocionam ao ouvir o som dos sinos medievais, mas não pode, de modo algum, marcar o destino de uma religião.

Jenkins não parte de preconceitos. Ele mesmo escreveu um livro (La storia perduta del cristianesimo [A história perdida do cristianismo], Ed. Emi) para dizer que “as religiões morrem” e que, “ao longo da história, algumas religiões desaparecem totalmente, outras se reduzem de grandes religiões mundiais a um punhado de seguidores”.

Em suma, não seria uma novidade. Mas, desta vez, o prognóstico auspicioso não tem razão de ser. Porque a Igreja Católica, que “já é a maior instituição religiosa do planeta”, está desfrutando de um crescimento global sem precedentes. Os números: em 1950, a população católica era de 347 milhões de indivíduos. Vinte anos depois, eram 640 milhões. Em 2050, de acordo com estimativas conservadoras, serão 1,6 bilhão.

E então? Aqui também, trata-se de ampliar os horizontes e olhar para fora do contexto meramente ocidental. “Eu falei de crescimento global, e o elemento ‘global’ requer ênfase”, escreve Jenkins. “A Igreja tem a pretensão de ter inventado a globalização, o que explica por que os seus números estão em plena expansão. Ao longo da história, houve tantos chamados ‘impérios mundiais’ que, na realidade, estavam confinados principalmente à Eurásia. Apenas no século XVI, os impérios espanhol e português realmente abraçaram o mundo. Para mim – escreve o estudioso, professor emérito da Penn State University – a verdadeira globalização começou em 1578, quando a Igreja Católica estabeleceu a sua diocese em Manila, nas Filipinas – como sede sufragânea da Cidade do México, do outro lado do imenso Oceano Pacífico”.

O fato é que “hoje estamos habituados a pensar o cristianismo como uma fé tradicionalmente ambientada na Europa e na América do Norte, e só gradualmente aprendemos o estranho conceito de que essa religião se propaga em escala global, porque o número dos cristãos está aumentando rapidamente na África, na Ásia e na América Latina”, escreve Jenkins.

“O cristianismo – continua – está tão enraizado no patrimônio cultural do Ocidente que faz com que se pareça quase revolucionária tal globalização, com todas as influências que ela pode exercer sobre a teologia, a arte e a liturgia. Uma fé associada principalmente com a Europa deve, de algum modo, se adaptar a esse mundo mais vasto, redimensionando muitas das suas premissas, ligadas à cultura europeia”.

O discurso, ampliado ao cristianismo, vale com ainda mais razão para o catolicismo. Diante de tudo isso, é natural se perguntar se “esse novo cristianismo global ou mundial permanecerá plenamente autêntico, como se as normas europeias representassem uma espécie de gold standard”.

Interrogações legítimas, mas sem sentido, “quando nos damos conta de como é artificial a acentuação do carácter euroamericano no contexto mais amplo da história cristã”. Até porque hoje os grandes reservatórios do catolicismo estão em outro lugar: Brasil, México, Filipinas. Neste último caso, os católicos estão destinados a crescer até chegar aos 100 milhões até 2050. Aqui, no ano passado, houve mais batismos do que na França, Espanha, Itália e Polônia juntas.

A objeção é fácil: as tendências demográficas explicam as razões para o crescimento maciço. Onde nascem mais crianças, crescem mais católicos, se o substrato (embora encoberto por acúmulos secularizantes e laicistas) estiver presente. Onde isso não acontece, o catolicismo seca.

Não precisamente, observa Jenkins: basta ir à África para entender que as coisas não são assim. Em 1900, no imenso continente africano, viviam talvez 10 milhões de cristãos (incluindo os católicos, estimados em alguns milhões), que constituíam 10% de toda a população. Hoje, lá, há meio bilhão de cristãos (200 milhões de católicos) e eles irão duplicar no próximo quarto de século. E a África certamente não é o berço do catolicismo, exceto pela distante raiz norte-africana, depois cortada brutalmente por invasões, ocupações e islamização mais ou menos forçada.

No entanto, a África sozinha, se a tendência for constante, acrescenta o estudioso, em 2040, terá mais católicos do que havia em todo o mundo apenas em 1950. Dez anos antes, mais ou menos em 2030, os católicos na África superarão os residentes na Europa: será, diz Jenkins, “um marco na história”. Pouco depois, a África vai disputar com a América Latina o título de Igreja mais católica do mundo.

No tempo de uma geração, na lista dos dez países mais católicos do planeta, figurarão a Nigéria, a Uganda, a Tanzânia, o Congo. Isto é, realidades onde o catolicismo começou a se enraizar de forma decisiva há apenas um século. É claro que nem tudo pode ser explicado pelos histogramas relativos à demografia ou reduzindo a questão ao ditado não muito original segundo o qual os africanos fazem mais filhos e, portanto, assim se explicaria porque lá há mais cristãos.

Naturalmente, as dúvidas são legítimas, especialmente em relação ao número das conversões e aos batismos em massa. São os riscos de uma Igreja jovem e ainda entusiasta. Bento XVI, em 2009, reconheceu isso, quando constatou como a África era “um imenso pulmão espiritual para uma humanidade que parece estar em crise de fé e de esperança”, alertando, porém, que um pulmão sempre pode ficar doente.

Um discurso semelhante, embora com números menos bombásticos, vale para a Ásia, terreno tão disputado por Francisco, e não só pela sua vocação jesuítica ao responder às sereias do Oriente.

Para voltar à questão de Jenkins, sobre os riscos de uma contaminação do cristianismo euroamericano, considerado por várias razões como o autêntico, a resposta está não só nas massas de fiéis africanos e asiáticos que lotam as igrejas italianas para a missa dominical, mas também no modo, na forma com que presenciamos o rito. Muitas vezes, muito mais respeitosa com o sagrado do que vemos em algumas catedrais, que têm até a rosácea brilhante, e os baldaquinos do Renascimento, e os altares majestosos, e a música que ressoa não a partir de CDs comprados em qualquer loja no mercado, mas sim por órgão s de beleza inquestionável.

Bastava ver como o papa foi acolhido em Bangui, na paupérrima República Centro-Africana, enquanto entrava na catedral depois de ter aberto a Porta Santa: o povo quase em adoração, ajoelhado, recolhido. Nada de empurrões e palavrões para conquistar uma foto tirada com o iPhone, talvez uma selfie com o vigário de Cristo.

Talvez fosse a isso que Joseph Ratzinger se referia a partir da sua ermida do mosteiro Mater Ecclesiae ao comentar a descristianização galopante no Ocidente dos velhos esquemas e das velhas tradições, até mesmo obsoletas.

Jenkins dá como exemplo Aarhus, cidade da Dinamarca conhecida nestas latitudes apenas porque, há poucas décadas, participava muitas vezes da Copa Uefa ou da Copa Intertoto (para aqueles que se lembram dela).

Pois bem, lá, em um país que tem bem pouco de católico, tanto na prática religiosa, quanto nos costumes, aquelas poucas igrejas católicas que existem, veem entrar semanalmente grupos numerosos de fiéis provenientes de terras distantes. Todos rezando, representando o caráter global (ou universal, portanto, católico) da fé.

A pergunta que poderia ser feita, no máximo, é se existe a vontade e a capacidade de buscar e experimentar novas formas de testemunho e de presença, deixando de lado os discursos sobre qual é a raiz verdadeira e autêntica do cristianismo, se a sua imagem mais correta é a da Europa que não se reconhece mais ou a da África galopante e jovem.

Uma evangelização nova, portanto. O Papa Francisco reiterou isso em uma recente mensagem enviada aos participantes do 14º Simpósio Intercristão, que foi realizado em agosto em Salônica. O tema era justamente a re-evangelização das comunidades cristãs na Europa, e Bergoglio escreveu que o continente já está lidando com “a realidade generalizada daqueles batizados que vivem como se Deus não existisse, pessoas que não estão conscientes do dom da fé recebida , não experimentam a sua consolação e não são plenamente partícipes da vida da comunidade cristã”.

É por isso que a Igreja está diante de um “desafio”: trata-se de renovar os laços com as raízes cristãs já cada vez menos percebidas. O objetivo, acrescentava o pontífice, é de “identificar caminhos novos, métodos criativos e uma linguagem apta a fazer com que o anúncio de Jesus Cristo, em toda a sua beleza, chegue ao homem europeu contemporâneo”.

Matteo Matzuzzi, publicada no jornal Il Foglio