Vivemos dentro de 1984, a distopia de George Orwell, em que o Ministério da Verdade controlava as informações sobre o passado para influenciar o futuro com suas mentiras. Nesse revisionismo histórico, o legado ocidental precisa ser pintado como uma sucessão de horrores perpetrados pelo grande vilão da humanidade: o homem branco cristão. Eis o denominador comum de toda a marcha das minorias oprimidas.

Um livro que pode ajudar a lançar luz sobre essa questão é The Evolution of the West, de Nick Spencer, do Instituto Theos. Com abordagem histórica, ele tenta mostrar como o cristianismo influenciou nossas instituições modernas, reconhecendo o lado bom e o lado ruim dessa influência.

Mas um fato é inquestionável: tal evolução é indissociável da principal religião de nossa civilização. Suas impressões digitais se encontram em todos os grandes marcos civilizatórios. Alguns tentam reescrever essa trajetória como um mar de obscurantismo, preconceito e superstição, mas tal visão é que parece extremamente preconceituosa e obscura.

A começar pela ideia de que antes do cristianismo o mundo antigo vivia num ambiente secular, de tolerância, com liberdade e igualdade. Na verdade, a religião era onipresente, e a família era tudo: a fonte básica de identidade, com os paterfamilias agindo como magistrados com poderes quase ilimitados. À medida que o mundo mudou de cidades-Estado para impérios, os laços sociais localizados se afrouxaram, num progresso lento, reduzindo o papel do primogênito e dando status de cidadão a todos os filhos, enfraquecendo o poder dos paterfamilias.

Essa individuação gradual, que não se deu numa linha reta, teve apoio na mensagem de Cristo, ao revelar que Deus está potencialmente presente em cada crente. Por um ato de fé em Jesus, cada um poderia ter acesso ao amor divino, uma mensagem igualitária que tornava menos relevante a figura aristocrática do intermediário. Pensar não era mais um privilégio da elite social, e passava a se associar não ao status, mas à humildade.

O cristianismo, segundo Spencer, trouxe a nova ideia revolucionária para a associação humana em que pessoas se uniam com base no desejo e no amor, não mais apenas pelo laço de sangue ou interesses materiais comuns. Pela primeira vez, os humanos – todos os humanos – tinham uma identidade pré-social, sendo alguém antes de ter algum papel relacional definido. A Igreja era inclusiva e universal como nada existente na Antiguidade.

Havia também o aspecto da interiorização do indivíduo, ilustrado pelos monastérios e na figura dos monges. O reconhecimento desse lado interior teve impacto nas leis. Ajudou a introduzir a ideia de intencionalidade no Direito Penal, julgando que o que a pessoa pretendia merecia atenção além do ato objetivamente praticado. Isso ajudou a criar vereditos com base em evidências.

Os direitos das mulheres, o cuidado dos pobres, a escravidão atenuada, a igualdade jurídica, a consciência: nada disso era uma realidade na época, e é altamente duvidoso que qualquer um deles fosse sequer desejado por aquelas pessoas. Mas as sementes que tinham sido semeadas pelo cristianismo não foram totalmente destruídas no caos social e político da Idade Média. E elas germinaram com o tempo, com suas raízes plantadas lá atrás.

O autor usa vários relatos, textos e leis que mostram como a tendência já apontava nessa direção. Quando, por exemplo, o Concílio de Narbona, em 1054, conclui que “Nenhum cristão deve matar outro cristão, pois quem mata outro cristão indubitavelmente derrama o sangue de Cristo”, isso era parte dessa ideia que foi se desenvolvendo até chegar ao código de conduta de cavaleiros, destacando a cortesia, a honra e o cavalheirismo. Poderia ser hipócrita até, mas sem dúvida era um tremendo avanço em relação ao ambiente de violência irrestrita que o precedeu.

Havia, nas guildas e cidades, a emergência de uma esfera legal de segurança que seria um dia chamada de “sociedade civil”. A lei passava a ser mais centralizada e estruturada. A influência cristã na linguagem, na literatura e na cultura ocidentais é evidente e inegável. Até mesmo Richard Dawkins, um dos “quatro cavaleiros” do neoateísmo militante, reconhece que é impossível apreciar a literatura inglesa sem mergulhar de alguma forma na Bíblia. Não conhecê-la, admitiu o cientista, é ser de certa forma um bárbaro.

O cristianismo e a Bíblia foram centrais na formação da Grã-Bretanha, que por sua vez foi o grande farol da civilização ocidental. Quando essa civilização esteve ameaçada durante a Segunda Guerra Mundial, Churchill e os ingleses em geral encararam a “cruzada” em defesa da civilização cristã como peça central da narrativa de mobilização no combate ao inimigo.

Há muito mais evidência da influência cristã e da Igreja nas principais instituições ocidentais. A Magna Carta, por exemplo, que completou 800 anos recentemente, teve participação direta da Igreja, e uma cláusula negociada com o rei João especificava o direito de a Igreja inglesa permanecer livre, com seus direitos garantidos. Não era, ainda, o império impessoal das leis, claro, pois os “livres” eram parte de uma elite. Mas era a semente do Bill of Rights, plantada com ajuda essencial do cristianismo.

Se, por um lado, a Igreja ajudou na ideia de direito divino do monarca, por outro lado ela foi fundamental para limitar tais direitos e impor um código de conduta mais justo. Em conjunto, as responsabilidades que o cristianismo colocou sobre o rei – justiça, paz, cuidado com os fracos, moral pessoal – apontam na direção de um monarca que foi colocado em uma ordem política cuja legitimidade de sua posição dependia, de alguma forma, do cumprimento desses deveres. Era uma realeza sob Deus, orientada, ainda que por esperança, para o bem comum do povo.

Há também um debate interessante sobre a participação cristã no próprio humanismo secular, ou ainda na formação do welfare State. Mas o ponto central já está claro: não dá para fingir que o Ocidente moderno não tem ligação umbilical com o cristianismo. E, se consideramos a civilização ocidental digna de admiração e do esforço de ser preservada, talvez seja interessante questionar se é mesmo viável mantê-la sem o arcabouço religioso e moral que lhe deu, desde sempre, sustentação.

Rodrigo Constantino, economista e jornalista, é presidente do Conselho do Instituto Liberal.

Historia-Europa

Minha avó paterna costumava soltar frases inteiras em italiano quando conversava entusiasmadamente. Seus filhos nascidos nos Estados Unidos lhe recordavam: “Mamãe, você está na América. Nós não falamos mais essa língua“.

No álbum de família, minha avó faz parte de uma narrativa que começa com imigrantes empobrecidos e avança rapidamente para a imagem de um dos seus filhos erguendo um carro, de tão forte que era. Sua irmã aparece em pose de estrela, num modesto maiô. Há fotos de um casamento e, de repente, o álbum revela uma forte mudança para o lado irlandês, à medida que as culturas iam se misturando.

A mobilidade ascendente faz uma breve aparição antes do baque financeiro. Uma breve recuperação permite belas cerimônias de batismos, casamentos e primeiras comunhões antes de um segundo desastre, quase aniquilador. Depois, o álbum perde o seu significado. Deixa de haver uma história porque não há mais coerência: apenas imagens formais, geralmente seguindo a tendência da época. Um carro aqui, um bolo ali, a próxima casa acolá.

A narrativa terminou porque a família, em sua essência, terminou. A própria palavra “família” deixou de ter significado para muitos de nós.

Nós não falamos mais essa língua”.

No entanto, aqueles que conseguiram se manter ligados a esta palavra e à linguagem do amor em que ela se enraíza construíram novas narrativas, sanaram-se e fortaleceram-se no paradoxo do sacrifício e do serviço a algo que é maior que nós e que nos torna plenos, livres e suficientemente destemidos para não desprezar o antigo dialeto, mas reaprendê-lo e reabraçá-lo.

Estes pensamentos me surgiram depois de ler esta descrição da Casa da História Européia, que me parece um álbum de família incoerente e morto:

“Os andares dedicados às atrocidades do século XX, a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais, são particularmente impressionantes. O visitante chega a essa parte da exposição no escuro, sentindo-se desorientado. É uma experiência física do estado mental de quem atravessa a impressionante exposição da Casa sobre o Holocausto.

Após essas imagens agitadoras, o último andar é realmente decepcionante. Ele é reservado a uma visão geral das instituições da União Europeia, como o Parlamento Europeu, o Conselho Europeu e a Comissão Europeia (…) Mas o mais notável nessa Casa é que, para ela, é como se a religião não existisse na Europa – e não só na atualidade: é como se a religião nunca tivesse existido nem impactado a história do continente”.

Sem o reconhecimento da sua história espiritual, esse museu de Bruxelas está dizendo, em essência, “Nós não falamos mais essa língua. E não queremos nenhuma ligação com as nossas raízes”.

Se for isso mesmo, se a Europa estiver mesmo empenhada em eliminar a língua e a memória da fé, então a sua narrativa chegará a um final rápido, deliberado e sem glória. A Europa se sepultará no túmulo “sustentável” que ela própria já está cavando.

Elizabeth Scalia

O usuário do YouTube EmperorTigerstar é bem conhecido por fazer animações cartográficos que explicam os acontecimentos históricos mundiais.

Ele já fez animações sobre a Guerra Civil Americana, as guerras mundiais e a expansão do Império Romano. Agora decidiu mostrar as mudanças geopolíticas na Europa e na Ásia Menor, desde o tempo da civilização Minoica, passando pelos impérios romano, Selêucida, Bizantino e Romano-Germânico, incluindo o Califado de Córdoba, até os dias atuais. Confira:

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À medida que as comunidades monásticas católicas evoluíam, desenvolveram-se vários jeitos de cortar o cabelo de um monge recém-iniciado.

Pode parecer uma discussão fútil, mas o cabelo é muitas vezes visto como o bem mais precioso de uma pessoa. Por exemplo, o cabelo era (e ainda é) usado como um indicador do status de uma pessoa, revelando o quão alto ela estava na hierarquia social. As perucas foram desenvolvidas pelos romanos para que penteados particulares pudessem ser facilmente feitos pelos ricos.

Em muitas culturas, a calvície era vista como algum tipo de defeito. Geralmente, os escravos eram raspados para distingui-los do resto da sociedade.

Nesse contexto, os monges queriam mostrar externamente o sacrifício que eles faziam ao abraçar a vida religiosa. Depois que um novo monge era autorizado a se juntar à comunidade, um dos primeiros rituais de iniciação era raspar o cabelo. Isso simbolizava sua renúncia ao mundo e deixava clara sua dedicação à vida religiosa.

Além disso, uma vez que a cabeça raspada era frequentemente associada a escravos, o monge careca tornava-se, da mesma forma, um “escravo” de Cristo.

Durante os primeiros séculos do monaquismo surgiu uma discussão sobre o tipo de corte (“tonsura”) que deveria ser feito. De acordo com a Enciclopédia Católica existiam três tipos diferentes, cada um ligado a um apóstolo específico:

 (1) o romano, ou o de São Pedro, quando a parte de cima da cabeça é raspada deixando apenas um círculo de cabelo em baixo e na frente;

 (2) o grego, ou de São Paulo, quando toda a cabeça é raspada;

 (3) o celta, ou de São João, quando apenas uma parte de cabelo é raspada na frente da cabeça.

O estilo celta de tonsura gerou controvérsias e foi banido no Sínodo de Whitby em 664. A tonsura romana prevaleceu e foi definida como padrão para as comunidades monásticas.

Isso pode ter acontecido por causa do simbolismo da tonsura romana, que representava a coroa de espinhos colocada na cabeça de Jesus. Além disso, alguns dos adversários da tonsura celta a associavam a Simão, o mago encontrado nos Atos dos Apóstolos.

Os estilos romano e grego ainda existem nos dias atuais e são adotados por várias comunidades religiosas da Igreja Católica.

Aleteia

bastilha

Afirmar que a Revolução Francesa perseguiu a religião não é de todo correto. Muitos que fazem essa afirmação supõem ou tentam fazer pensar que os revolucionários tinham os nobres planos de construir uma sociedade laica na qual os segmentos religiosos não tivessem privilégios nem fossem relevantes na vida pública. Não é esta a verdade objetiva.

O que os revolucionários realmente tentaram foi substituir as religiões históricas por uma “religião de Estado”, com suas próprias pretensões teológicas, funcionários, elites e privilégios, visando assegurar que os cidadãos se submetessem à lei não apenas no comportamento externo, mas inclusive na consciência e no coração. A lei é que seria “deus”.

Os Estados Gerais convocados por Luís XVI em 1789 se dividiam em três ordens: o clero, a nobreza e o “terceiro estado”. Os dois primeiros tinham 561 representantes em total (291 e 270, respectivamente), enquanto o terceiro estado, cujos representantes eram eleitos pelos franceses do sexo masculino, maiores de 25 anos e que pagassem impostos, contava com 578. O número não era tão importante, em tese, porque o rei desejava manter o voto por segmento e não por indivíduo. O objetivo da convocação era ajudar a monarquia a realizar reformas que melhorassem a situação geral do país, afundado na pobreza.

O clero não era um obstáculo para a política inicial de reformas. Os padres apoiavam as medidas propostas pelo terceiro estado para implantar a separação de poderes, a reunião frequente dos Estados Gerais, a sua supremacia na determinação dos impostos, o reconhecimento das liberdades individuais etc. Mas esse apoio às reformas não era mediante ações radicais: só um quarto dos membros do clero queria a ruptura da ordem vigente e a revolução democrática, enquanto a maioria dos padres defendia uma reforma paulatina e sem ruptura traumática. Apesar dessa atitude de moderação, a tomada da Bastilha em 14 de julho em 1789 e a posterior abolição dos privilégios feudais não foram fatos particularmente alarmantes para os bispos e sacerdotes, que estavam mais preocupados com os resultados da reforma constitucional iniciada por uma nova assembleia. A “Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão” promulgou a liberdade religiosa, reservando ao Estado o poder de determinar quando as opiniões em matéria de credo eram incompatíveis com a lei.

Esta liberdade teórica, no entanto, teve escassa duração real. Em 12 de julho de 1790, estabeleceu-se a chamada “Igreja constitucional”, que, na prática, imposta por um rápido processo de fundamentalismo estatista, se tornou o único “credo” aceito pelas autoridades. Essa “igreja” tinha organização e funcionamento próprio, decidido pelo Estado. Os sacerdotes católicos foram pressionados a jurar fidelidade às novas normas estatais em matéria de religião e a se desligarem da obediência ao seu bispo e a Roma. Apesar da determinação do Papa Pio VI e da rebelião dos bispos perante a pressão estatal (só quatro cederam à nova ordem), muitos presbíteros, em especial no centro do país, se uniram à “igreja laica” e viraram comissários políticos do Estado em matéria religiosa. A criação desta “igreja” foi celebrada no Campo de Marte, com os oficiantes ataviados em vestes tricolores francesas.

A perseguição contra os católicos que não aceitaram esta situação foi brutal.

Os sacerdotes que se mantiveram católicos foram perseguidos, impedidos de celebrar sacramentos e de pregar e, a partir de 18 de março de 1793, se fossem presos em solo francês, deviam ser executados em menos de 24 horas. Muitos tiveram a pena de morte comutada por um destino tão pavoroso quanto, nas infectas e tristemente célebres prisões da Guiana Francesa.

Ao mesmo tempo, foi cortada a comunicação entre os católicos franceses e o Papa, cujas cartas e documentos não podiam ser divulgados no país sem a aprovação prévia dos órgãos legislativos. A Igreja católica sofreu uma das piores perseguições da história. As crianças não podiam receber o batismo, nem a comunidade podia celebrar a Eucaristia. Só se conseguia oficiar algum sacramento na clandestinidade. Na Bretanha, região que registrou o maior número de sacerdotes contrários à nova “igreja” cismática, os fiéis se reuniam em barcas, longe da costa, ou no interior dos bosques. Aqueles que participavam dessas “reuniões ilegais” corriam o risco ser condenados à morte como inimigos do Estado. Na região bretã foram assassinados cerca de 120.000 católicos por motivos estritamente religiosos: tratava-se de mais de 15% da população.

Enquanto isso, as autoridades revolucionárias determinavam por decreto, sob os impulsos de Robespierre, a existência do “Ser Supremo” e a imortalidade da alma, instaurando a celebração de “festivais do Ser Supremo” a partir de 1794. Antes disso já tinham sido criados templos à “deusa Razão”, usando-se para tanto as igrejas e sinagogas. Em todo momento, o povo era induzido a ligar a sua consciência a uma série de normas políticas e morais ao gosto do poder – um gosto altamente variável e volúvel, diga-se de passagem.

Não foi o caso, portanto, de tentar eliminar a religião pura e simplesmente, nem de desbaratar os privilégios que de fato existiam para alguns setores do clero (e que de fato chegavam a ser extravagantes em certos casos). Foi o caso, isto sim, de um esforço estatal impositivo para transformar o Estado não apenas no máximo ditador da consciência individual, mas em objeto, ele próprio, de devoção pública.

Ainda hoje essas tentativas persistem, com outras estratégias e formatos – e é de extrema importância reconhecer as tentativas do Estado de ocupar o lugar da religião sob o disfarce abstrato e obscuro de uma indeterminada “cidadania” que se intromete no âmbito das consciências.

Marcelo López Cambronero

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Os ‘progressistas’ sexuais alegam que estão a dar início a um “admirável mundo novo” repleto de liberdade, mas a sua “nova” moralidade é tão antiga como as montanhas.

Quantas vezes já ouviram os progressistas sexuais alegarem que aqueles de nós que defendem a moralidade sexual e o casamento tradicionais estão “do lado errado da história”? Mas como ressalva um livro recente, são os proponentes da revolução sexual que estão a abraçar uma moralidade sexual que a história deixou para trás há milênios – nas ruínas do Fórum Romano.

Sim, a civilização ocidental está a atravessar por uma mudança cultural dramática; no espaço de alguns anos, a nossa sociedade mudou de forma fundamental o entendimento do casamento, abraçou a noção de que os homens podem transformar-se em mulheres, e está agora a promover a ideia de que homens adultos podem-se sentir à vontade para partilhar instalações sanitárias com jovens mulheres. Sem surpresa alguma, estamos também a observar esforços rumo à normalização da poligamia, pedofilia e incesto.

É precisamente em tempos como estes que devemos de ter algum tipo de perspectiva histórica. E é precisamente por isso que o livro do pastor luterano Matthew Rueger com o título de “Sexual Morality in a Christless World,” (abaixo) é cronologicamente apropriado. Nele, Rueger mostra como a moralidade sexual cristã agitou o mundo pagão da Roma antiga. As noções do amor compassivo, da castidade sexual, e da fidelidade marital eram estranhos, e até chocantes para o povo dessa época.

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Citando estudiosos atuais, Rueger detalha a visão sexual do mundo romano que durou centenas de anos. As mulheres e as crianças eram vistas como objetos sexuais; os escravos – homens e mulheres – poderiam esperar serem abusados sexualmente; a prostituição estava amplamente difundida; e o homossexualismo predatório era comum. A moralidade sexual cristã (que limita a atividade sexual para o casamento entre um homem e uma mulher com idade para gerar filhos e filhas, cuidar do lar e ensinar os mandamentos bíblicos à descendência) pode ter sido vista como repressiva para os licenciosos, mas ela era um dom de Deus para as vítimas.

Rueger escreve que: as alegações atuais de progressismo e avanços por via da aceitação de “visões sexuais dominantes em torno da sexualidade e do casamento [sic] homossexual” estão totalmente desinformadas… A visão contemporânea em torno da sexualidade nada mais é que um renascimento duma visão do mundo antiga e muito menos compassiva.

Mas ela é também o renascimento duma visão antiga e mais pobre do homem. Imaginem a reação duma escrava pagã romana que aprendia pela primeira vez que ela tinha valor – e não valor monetário como um bem para ser usado e descartado pelo dono – mas valor eterno visto que ela havia sido criada à imagem de Deus.

Ou imaginem a dor de consciência sentida por um marido romano infiel mal ele viesse a saber que Deus havia incarnado, tomado a forma dUm Homem, e que a maneira como ele cuidava do seu próprio corpo e do corpo dos outros era importante para Deus. Sem dúvida, que isto havia de ser importante.

Não podemos desviar o olhar e ignorar este renascimento profano da sexualidade pagã e da sua visão humilhante do ser humano. Mas também não podemos agitar as mãos temerosamente, ou desistir derrotados. Tal como Rueger salienta, Cristo e a Sua Igreja transformaram de maneira radical uma sexualidade mais cruel e mais caótica que a nossa.

Olhem para os crentes antigos que vieram antes de nós: Em vez de sucumbirem ou se acomodarem ao espírito da época, os novos convertidos da Igreja primitiva vieram a entender, tal como escreve Rueger, que

“a moralidade cristã fundamentava-se na pureza abrangente de Cristo e no amor auto-esvaziante… Os cristãos já não poderiam viver como os gregos ou como os romanos. A sua visão do mundo e a visão que eles tinham deles mesmos eram totalmente distintas. Eles agora eram um com Cristo, de coração e alma.”

Agora, escreve Rueger, a sua natureza distinta “não iria poupá-los do sofrimento, mas, sim convidar o sofrimento”. É totalmente claro que o mesmo se aplica a nós cristãos nos dias de hoje. Será que iremos dobrar os nossos joelhos a esta renascida sexualidade pagã, ou será que iremos disponibilizar a liberdade e o plano de Deus para a sexualidade humana para um mundo que desesperadamente necessita dele?

***

Os limites que a civilização cristã colocou no comportamento sexual (colocando de lado a sexualidade pagã), resultaram em liberdade, enquanto que os comportamentos sexuais que a civilização pós-cristã está a promover sob a bandeira da “liberdade sexual”, irão ter como consequência a perda da liberdade.

“Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que todo aquele que comete pecado é servo do pecado. Ora o servo não fica para sempre em casa; o Filho fica para sempre. Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres.” – João 8:34-36

Publicado originalmente em CNS News – http://www.cnsnews.com

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O poderoso general francês Napoleão Bonaparte, que se tornou imperador da França, via em Nossa Senhora uma espécie de “rival” por causa da… sua data de nascimento!

Napoleão nasceu no dia 15 de agosto de 1769, dia em que a Igreja celebra a Assunção de Nossa Senhora. Mesmo quando adulto, o general se incomodava por ter que “dividir” a sua festa de aniversário com a celebração do dia em que Nossa Senhora foi levada ao céu.

E a irritação do general ainda piorava: é que, no dia da Assunção de Maria, também se celebra, na França, o “voto de Luís XIII”: este rei tinha emitido, em 15 de agosto de 1637, um decreto solene que colocava a nação francesa sob a explícita proteção da Mãe de Deus!

O que muito bem poderia lhe dar orgulho e serenidade o incomodava. Para Napoleão, a França talvez devesse contar apenas com ele, o invencível, o genial, o poderoso imperador…

Para completar, a Igreja lia, no dia 15 de agosto, a célebre passagem bíblica do Magnificat:

[Deus] Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes”.

Todo aniversário de Napoleão era “arruinado”, assim, pela lembrança exposta por Nossa Senhora de que “Deus dispersa os soberbos nos pensamentos dos seus corações”!

Foi então que Napoleão teve a ideia de lançar um decreto, em 19 de fevereiro de 1806, abolindo a festa da Assunção e substituindo-a pela festa de… São Napoleão!

O Papa Pio VII protestou, é claro, declarando que é “inadmissível que o poder civil substitua o culto a Nossa Senhora Assunta ao Céu pelo culto de um santo inexistente, com intolerável interferência do poder temporal no espiritual”.

Napoleão, porém, não ouviu ninguém.

E como acabou Napoleão? Todos sabemos.

“Deus derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes”.

E quanto a Maria? Depois da abdicação do imperador, em março de 1814, a França lhe devolveu a solenidade da Assunção.

Afinal,

“Deus olhou para a humildade da sua serva. Desde agora e para sempre, todas as gerações me chamarão bem-aventurada, pois o Poderoso fez em mim grandes coisas. Santo é o Seu nome”.

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A partir de texto de Maria Corvo no site italiano intemirifugio.it

Via Aleteia

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Evidentemente é verdadeiro que aconteceram as Cruzadas, a Inquisição e centenas de casos hediondos de pedofilia por parte de membros da Igreja católica.

E também é verdade, lamentavelmente, que os fatos concretos a respeito dessas e outras polêmicas têm sido tergiversados, manipulados e inflados de modo grosseiro por pessoas que não estão dispostas a debatê-los com base na verdade, mas sim na sua conveniência ideológica.

Para quem quiser de fato debater com mais objetividade a “trindade” Cruzadas-Inquisição-Pedofilia, sugiro os seguintes textos:

SOBRE AS CRUZADAS

O horror do Estado Islâmico desmascara 4 mitos sobre as cruzadas – LER

Cruzadas, inquisição e guerra contra as mulheres: é hora de derrubar mitos – LER

SOBRE A INQUISIÇÃO

Inquisição, uma breve história – LER

Inquisição espanhola, uma lenda negra passada a limpo pela BBC de Londres – LER

Em defesa da Igreja? Não: em defesa da história! – LER

A perseguição religiosa mais terrível da história: não, não é a Inquisição espanhola – LER

Terror vermelho na Espanha: seu professor de História não lhe contou sobre a perseguição sangrenta contra padres e freiras? – LER

SOBRE PEDOFILIA NA IGREJA

Onde é que foram parar todos aqueles padres pedófilos? – LER

4 casos de padres presos injustamente por crimes que não cometeram – LER

A verdade inteira sobre o abuso sexual contra menores – LER

SOBRE NAZISMO E PIO XII

O plano de Hitler para sequestrar o Papa Pio XII – LER

Por que Hitler odiava tanto Pio XII? – LER

Pio XII conseguiu salvar 63,04% dos judeus de Roma durante a perseguição nazista – LER

“Presidente de Hitler” não, mas “Papa de Hitler” sim? – LER

A Igreja realmente apoiou o nazismo? – LER

Existe o risco, e é alto, de que a maioria dos detratores da Igreja não se dê ao trabalho de ler nenhum desses artigos e mesmo assim continue a criticá-la, mas também existe a chance de que alguns tenham um gesto elementar de honestidade intelectual e se informem sobre todos os pontos de vista antes de formarem a sua opinião. Meus votos são de que, cada vez mais, prevaleça a segunda possibilidade.

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“No décimo quinto ano do reinado de Tibério César, sendo Pôncio Pilatos governador da Judéia, Herodes tetrarca da Galiléia, seu irmão Filipe tetrarca da região da Ituréia e Traconites, e Lisânias tetrarca de Abilene…” (Lc 3,1)

Algumas pessoas afirmam que Jesus Cristo nunca existiu. Alegam que a vida de Jesus e os evangelhos são mitos criados pela Igreja. Essa lamentável afirmação se baseia, principalmente, na crença de que não existem registros históricos de Jesus.

Tal carência de registros seculares (isto é, não ligados à esfera religiosa) não deve surpreender os cristãos de hoje. Primeiro, porque apenas uma pequena fração dos registros escritos sobreviveram ao tempo (nada, nada, são 20 séculos!). Segundo, porque existiam poucos – se é que de fato realmente existiam – “jornalistas” na Palestina do tempo de Jesus. Terceiro, porque os romanos viam o povo judeu como apenas mais um dos grupos étnicas que precisavam tolerar; os romanos tinham pouquíssima consideração para com o povo judeu. Finalmente, porque os líderes judeus também ansiavam esquecer Jesus. Assim, os escritores seculares somente começaram a se referir sobre o Cristianismo quando este movimento religioso tornou-se popular e começou a incomodar o estilo de vida que tinham.

Ainda que os testemunhos seculares sobre Jesus sejam raros, existem alguns poucos que sobreviveram ao tempo e faz referências a Ele. Não é de se surpreender que os registros não cristãos mais antigos tenham sido feitos por judeus. Flávio Josefo, que viveu até 98 dC, era um historiador judeu romanizado. Ele escreveu livros sobre a História dos Judeus para o povo romano. Em seu livro, “Antiguidades Judaicas”, ele faz algumas referências a Jesus. Em uma delas, ele escreve:

Por esse tempo apareceu Jesus, um homem sábio, que praticou boas obras e cujas virtudes eram reconhecidas. Muitos judeis e pessoas de outras nações tornaram-se seus discípulos. Pilatos o condenou a ser crucificado e morto. Porém, aqueles que se tornaram seus discípulos pregaram sua doutrina. Eles afirmam que Jesus apareceu a eles três dias após a sua crucificação e que está vivo. Talvez ele fosse o Messias previsto pelos maravilhosos prognósticos dos profetas” (Josefo, “Antiguidades Judaicas” XVIII,3,2).

Muito embora diversas formas deste texto em particular tenham sobrevivido nestes vinte séculos, todas elas concordam com a versão citada acima. Tal versão é considerada a mais próxima do original – reduzindo as suspeitas de adulteração do texto por mãos cristãs. Em outros lugares de sua obra, Josefo também registra a execução de São João Batista (XVIII,5,2) e o martírio de São Tiago o Justo (XX,9,1), referindo-se a este como “o irmão de Jesus que era chamado Cristo”. Deve-se notar que o emprego do verbo “ser” no passado, na expressão “Jesus que ERA chamado Cristo” testemunha contra uma possível adulteração cristã já que um cristão certamente escreveria “Jesus que É chamado Cristo”.

Uma outra fonte judaica, o Talmude, faz algumas referência históricas a Jesus. De acordo com o Dicionário da American Heritage, o Talmude é “a coleção de antigos escritos rabínicos que consiste da Mishná e da Gemara, e que constitui a base da autoridade religiosa para o Judaísmo tradicional”. Ainda que não faça referência explícita ao nome de Jesus, os rabinos identificam a pessoa em questão com Jesus. Essas referências a Jesus não são simpáticas nem a Ele nem à sua Igreja. Esses escritos também foram preservados através dos séculos pelos judeus, de maneira que os cristão não podem ser acusados de terem adulterado o texto.

O Talmude registra os milagres de Jesus; não é feita nenhuma tentativa de negá-los, mas relaciona-os como frutos de artes mágicas do Egito. Também sua crucificação é datada como tendo “ocorrido na véspera da Festa da Páscoa”, em concordância com os evangelhos (Lc 22,1ss; Jo 19,31ss). Também de forma semelhante ao evangelho (Mt 27,51), o Talmude registra a ocorrência do terremoto e o véu do templo que se dividiu em dois durante a morte de Jesus. Josefo, em sua obra “A Guerra Judaica” também confirma esses eventos.

No início do séc. II, os romanos começaram a escrever sobre os cristãos e Jesus. Plínio o Moço, procônsul na Ásia Menor, em 111 dC escreveu em uma carta dirigida ao imperador Trajano:

…[os cristãos] têm como hábito reunir-se em uma dia fixo, antes do nascer do sol, e dirigir palavras a Cristo como se este fosse um deus; eles mesmos fazem um juramento, de não cometer qualquer crime, nem cometer roubo ou saque, ou adultério, nem quebrar sua palavra, e nem negar um depósito quando exigido. Após fazerem isto, despedem-se e se encontram novamente para a refeição…” (Plínio, Epístola 97).

Uma atenção especial deve ser dada à frase “a Cristo como se este fosse um deus”; trata-se de um testemunho secular primitivo atestando a crença na divindade de Cristo (Jo 20,28; Fil 2,6). Também é interessante comparar esta passagem com At 20,7-11, que é uma narração bíblica sobre a primitiva celebração cristã do domingo.

Um outro historiador romano, Tácito, respeitado pelos modernos pesquisadores por causa de sua precisão histórica, escreveu em 115 dC sobre Cristo e sua Igreja:

“O fundador da seita foi Crestus, executado no tempo de Tibério pelo procurador Pôncio Pilatos. Essa superstição perniciosa, controlada por certo tempo, brotou novamente, não apenas em toda a Judéia… mas também em toda a cidade de Roma…” (Tácito, “Anais” XV,44).

Mesmo desprezando a fé cristã, Tácito tratou a execução de Cristo como fato histórico, fazendo relação com eventos e líderes romanos (cf. Lc 3,1ss).

Outros testemunhos seculares ao Jesus histórico incluem Suetônio em sua “Biografia de Cláudio”, Phlegan (que registrou o eclipse do sol durante a morte de Jesus) e até mesmo Celso, um filósofo pagão. Precisamos manter em mente que a maioria dessas fontes não eram apenas seculares mas também anti-cristãs. Esses autores seculares, inclusive os escritores judeus, não desejavam ou intencionavam promover o Cristianismo. Eles não tinham motivação alguma para distorcer seus registros em favor do Cristianismo. Plínio realmente punia os cristãos pela sua fé. Se Jesus fosse um simples mito ou sua execução uma mentira, Tácito teria relatado tal fato; certamente, ele não teria ligado a execução de Jesus com líderes romanos. Esses escritos, portanto, apresentam Jesus como um personagem real e histórico. Negar a confiabilidade dessas fontes que citam Jesus seria negar todo o resto da história antiga.

Não é intenção deste artigo provar que esses antigos escritos seculares testemunham que Jesus seja o Filho de Deus ou o Cristo. Porém, esses registros mostram que um homem virtuoso chamado Jesus viveu nesta Terra no início do séc. I dC e fundou um movimento religioso que perdura até os nossos dias. Esse Homem foi chamado de Cristo – o Messias. Os cristãos do primeiro século também O consideravam como Deus. Por fim, esses escritos suportam outros fatos encontrados na Bíblia a respeito da vida de Jesus. Logo, afirmar que Jesus nunca existiu e que sua vida é um mero mito compromete a confiabilidade de toda a história antiga.

Carlos Martins Nabeto.

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Pesquisar o Sudário de Turim do ponto de vista científico é importante, mas não se pode perder de vista a mensagem desse objeto tão particular e que desperta tantas paixões. O químico Enrico Simonato, secretário do Centro Internacional de Sindonologia, em Turim, e codiretor-adjunto do Museu do Sudário, na mesma cidade. Ele conversou com o Tubo de Ensaio por telefone e e-mail, explicou por que mesmo os defensores do Sudário não podem se deixar obcecar pela questão da autenticidade, contestou algumas das tentativas de provar que o pano é uma falsificação medieval e tratou da possibilidade de se fazer novos testes no tecido.

Quais são os elementos que apontam mais fortemente para a autenticidade do Sudário?

Eu teria muito cuidado com essa palavra, “autenticidade”, porque ela tem significados diferentes. O que sabemos de certo é que o Sudário é uma peça antiga, feita de linho, que envolveu o corpo de um homem que foi flagelado e crucificado, ferido no lado com uma lança e na cabeça com vários pequenos instrumentos pontiagudos. Isso é científico, um tipo de “autenticidade”. Podemos avançar e perguntar quem era esse homem. Aí entram a história, a arqueologia, que nos dão uma enorme, quase irrefutável possibilidade de que se trate daquele homem historicamente conhecido por Jesus de Nazaré. Considerando tudo que sabemos, a possibilidade de o Homem do Sudário ser outra pessoa é ínfima. Até aí estamos em terreno científico.

Mas uma coisa que a ciência não pode fazer é atestar que o Sudário é evidência da ressurreição de Cristo, até porque a ressurreição é um evento que não segue as leis da natureza. Você não pode repeti-la, e a repetição é parte essencial do método científico. Essa seria umaoutra acepção de “autenticidade”. Podemos aceitá-la usando as regras da religião? Podemos. Mas não pelas regras da ciência. Ambas são aplicáveis a aspectos diferentes do Sudário, o que não podemos é misturá-las. Do ponto de vista científico, sabemos, por exemplo, que a imagem não é uma pintura e que há manchas de sangue humano tipo AB. Mas não sabemos a idade do pano, nem a maneira como a imagem foi formada.

De qualquer modo, vejo que existe hoje uma obsessão pela autenticidade, que corre o risco de desviar a atenção da mensagem do Sudário. Ele é, acima de tudo, uma imagem referente a algo específico que só ocorreu uma vez na história. Quando se expõe o Sudário, as pessoas que o veem não ficam ali pensando nos aspectos científicos da imagem, se é tridimensional, se funciona melhor no negativo, se a trama do linho é em espinha de peixe; elas veem a mensagem sobre o homem cuja figura está ali. Vamos pesquisar o Sudário cientificamente? Vamos, mas não percamos de vista que o mais importante é a mensagem.

Mas não faltam tentativas de provar que o Sudário é falso…

Claro. O curioso disso é que, se formos jogar o jogo do “falso ou verdadeiro”, quem alega que o Sudário é falso está em uma posição bem mais complicada. Se o Sudário for falso, nem por isso um cristão vai mudar de religião. Pensará que é um belo ícone, que sua história daria um bom filme, mas isso não vai destruir sua fé. Agora, para um ateu ou agnóstico, se o Sudário se mostrar verdadeiro, seu mundo desaba. Ele será forçado a rever tudo em que acreditava.

Fato é que as polêmicas existem desde o século 14, quando o bispo Pierre d’Arcis escreveu a famosa carta alegando que o Sudário era uma pintura e que um seu antecessor teria até mesmo conhecido o autor. Mais recentemente, tivemos a alegação de Walter McCrone sobre o uso de pigmentos conhecidos na era medieval, mas os trabalhos de John Heller e Alan Adler, além do exame do Sudário sob ultravioleta e fluorescência, mostraram que a quantidade de pigmento encontrada era inexpressiva e insuficiente para formar a imagem.

Temos também as tentativas de criar réplicas do Sudário. Mesmo as que a olho nu parecem bastante fiéis se mostram falhas no exame microscópico. As de Luigi Garlaschelli, por exemplo, afetam o tecido de forma muito mais profunda que a imagem do Sudário real, que é bem superficial. Quem chegou mais perto de reproduzir a superficialidade da imagem foi Paolo Di Lazzaro. Ele não estava tentando provar que o Sudário é falso, só queria entender como se formou a imagem. Ele usou um pedaço pequeno de pano submetido a laser ultravioleta e concluiu que, para se formar uma imagem com o tamanho do Sudário, não haveria ultravioleta suficiente nas fontes conhecidas. Nem preciso dizer que é algo que não está nem à nossa disposição, quanto mais de um falsário medieval.

E, obviamente, há o famoso teste de carbono-14, que deu como resultado para o “ano de fabricação” do Sudário um intervalo entre 1260 e 1390.

Na sua opinião, o que houve naquele teste? Fraude, erro não intencional, contaminação da amostra?

A acusação de fraude é muito grave e me parece fantasiosa. Não há provas de que algo assim tenha ocorrido. Eram três laboratórios renomados, com pesquisadores que não arriscariam sua reputação dessa forma.

Já a possibilidade de contaminação é muito grande. Qualquer acréscimo de carbono à amostra, por causas naturais ou artificiais, já modifica o resultado, e isso é muito fácil de ocorrer com tecidos. Tanto que uma das empresas mais confiáveis em datação por carbono-14, a Beta Analytic, não faz datação de tecidos a não ser como parte de uma pesquisa multidisciplinar e tomando uma série de precauções. Agora, veja: se eles têm essa atitude com qualquer tecido, imagine no caso do Sudário, que foi manipulado várias vezes durante suas exibições públicas, passou por incêndios e foi molhado (a área usada para a amostragem do carbono-14 tinha água usada para apagar o incêndio de 1532).

E o Sudário não é o único caso de divergência entre a datação por carbono-14 e as evidências apresentadas por outras pesquisas. Isso já ocorreu com outros objetos. O carbono-14 é um bom método, mas que tem seus limites.

Coletiva para o anúncio dos resultados do teste de carbono-14 no Sudário, em 1988

Coletiva para o anúncio dos resultados do teste de carbono-14 no Sudário, em 1988: resultados muito contestados. (Imagem: Reprodução)

Deveria haver uma nova tentativa de datação do Sudário?

Não, mas não digo isso porque sou avesso à análise científica do Sudário, e sim porque mesmo hoje a datação por carbono-14 ainda não é confiável o suficiente para avaliar tecidos. Basta ver o que acabamos de dizer: mesmo empresas renomadas se recusam a fazer esses testes e mostram que o risco de resultados errôneos é grande.

Há aspectos do Sudário que não foram analisados em testes anteriores e que valeria a pena pesquisar com a tecnologia atual?

Algo que não foi estudado ainda é a concentração de lignina e vanilina no pano, e que poderia dar uma pista sobre a idade do Sudário. Mas esse indicador também é sujeito a mudanças devido a contaminação; a lignina é afetada pelo calor, e temos de lembrar do incêndio de Chambery, em 1532. Assim, não creio que um eventual teste seria tão mais confiável que a datação por carbono-14. Além disso, cada novo exame afeta o Sudário do ponto de vista físico-químico, então há as questões ligadas aos procedimentos e ao cuidado que se deve ter para preservar o pano.

Qual é o status atual da discussão sobre a história do Sudário anterior ao século 14? Há quem defenda, como Ian Wilson, que o Sudário e a Imagem de Edessa, ou Mandylion, são o mesmo objeto; outros, como Andrea Nicolotti, negam essa associação.

A maioria dos historiadores está em uma posição intermediária entre essas duas: não é possível afirmar com certeza, mas há indícios. Eu digo que a história do Sudário é um enorme quebra-cabeças: de sua aparição na França em diante, nós já montamos tudo. O problema é o que vem antes. Ali nós ainda estamos separando as peças pela cor, juntando os marrons, os verdes, os azuis. Não estamos totalmente no escuro porque temos as peças, mas não conseguimos encaixá-las ainda. Existem algumas pistas, como a mudança radical na iconografia a partir da descoberta da Imagem de Edessa: Jesus passa a ser representado com traços que são semelhantes aos da imagem do Sudário, barba e tudo o mais. Não é evidência definitiva, pelo menos não de um ponto de vista científico, mas é um indicador.

Se o Sudário e o Mandylion não forem o mesmo objeto, voltaríamos à estaca zero sobre esse período da história do Sudário…

Sem dúvida, mas isso é realmente um problema tão grande? O fato de não haver registro histórico do Sudário nesse intervalo de 13, 14 séculos não significa que o Sudário não existisse. Por acaso, antes de 1922 alguém duvidava da existência do faraó Tutancâmon só porque sua tumba ainda não tinha sido encontrada? Se a hipótese do Mandylion não se confirmar, os historiadores e arqueólogos só terão um desafio a mais.

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Em julho de 2016, o Papa Francisco autorizava a Congregação vaticana para as Causas dos Santos a promulgar o decreto de beatificação relativo ao “martírio do Servo de Deus José Mayr-Nusser; leigo; morto por ódio à fé no dia 24 de fevereiro de 1945”. Neste sábado, na catedral de Bolzano, Josef Mayr-Nusser será beatificado.

O católico de Bolzano, desde 1934 dirigente dos jovens da Ação Católica para a parte alemã da diocese de Trento, no momento das Opções de 1939 tinha escolhido permanecer na Heimat. E, na sua Heimat, havia se casado, em 1942, com a sua colega Hildegard Straub.

Depois da ocupação nazista do Alto Adige (setembro de 1943), quando há pouco tempo tinha nascido o seu filho Albert, Mayr-Nusser e muitos outros Dableiber (assim se definiram aqueles que, como ele, decidiram permanecer na sua terra), foram forçados a se alistar no exército ocupante.

Para Josef, foi previsto o alistamento nas SS, com a sua relativa transferência para Konitz (hoje Polônia). No dia 4 de outubro de 1944, Mayr-Nusser se recusou a prestar juramento ao Führer e, por causa desse ato, foi condenado à morte. A condenação deveria ser executada em Dachau, mas Josef morreu de fome e de exaustão durante a deportação, aos 35 anos de idade.

Quais são as motivações que o induziram a uma escolha tão radical? É possível, mesmo que neste curto espaço, refletir historicamente sobre seu testemunho cristão? Ajudam-nos os seus escritos dos anos 1930, reunidos nos volumes de Josef Innerhofer, Francesco Comina, Giuseppe Rizzi e Paolo Valente.

Nesses textos, Mayr-Nusser se deparava com as duas faces da modernidade, a liberal e a totalitário. Na sua reflexão, emerge uma estreita consonância com o magistério de Pio XI (1922-1939). Pode-se notar isso, por exemplo, em um discurso dirigido ao bispo auxiliar de Trento, Montalbetti, em visita pastoral a Bolzano em novembro de 1936. No discurso de saudação, o dirigente dos jovens católicos condenava aqueles que exaltavam “o sangue e a pátria como as suas novas divindades”, falando de uma “juventude profundamente enojada com a superficialidade e o espírito materialista da nossa cultura moderna, corrupta e afogada na avidez”. Ele concluía esperando que a “paz de Cristo se realize no reino de Cristo”, citando, assim, as palavras que Pio XI tinha escolhido para caracterizar o pontificado na sua primeira encíclica (Ubi Arcano, 1922).

Para o Papa Ratti, era necessário promover o reino social do Cristo, que deveria conter os inimigos da Igreja, com a “peste do laicismo” em primeiro lugar. Em 1931, Pio XI havia falado de “estadolatria pagã” para condenar a aspiração do Estado ao monopólio educativo sobre a juventude, afirmando que havia direitos “nativos” que pertenciam às pessoas e às famílias. A única guardiã da “lei natural” sobre a qual apoiavam direitos inalienáveis era a Igreja, à qual cabia a definição das leis civis.

Para Mayr-Nusser, que, em uma carta de 1934 aos grupos paroquiais da Ação Católica, tinha destacado como o catolicismo estava “gravemente ameaçado pelos diversos internacionalismos, como o liberalismo, o bolchevismo, o capitalismo, o hipernacionalismo”, tratava-se de reagir à “degeneração de grande parte da população ocidental”.

No mesmo ano, ele defendia que a política dos Estados europeus era “conduzida com critérios totalmente anticristãos e materialistas”. A visão do jovem de Bolzano parece refletir o pessimismo de Pio XI, que, fora do caminho indicado pela Igreja, via cenários funestos.

São as cartas escritas para a esposa durante a guerra que nos revelam um pensamento capaz de superar o próprio magistério da Igreja do tempo. Se, em setembro de 1940, o Papa Pio XII (1939-1958) tinha recordado que os cristãos eram obrigados a “uma leal e consciente obediência às autoridades civis e às suas legítimas prescrições”, Josef, em vez disso, desenvolvia as suas reflexões sobre a incompatibilidade absoluta entre cristianismo e nazismo .

No dia 27 de setembro de 1944, ele dirigia à esposa palavras muito claras: “São dois mundos que se chocam um com o outro. Os meus chefes mostraram muito claramente que rejeitam e odeiam aquilo que, para nós, católicos, é sagrado e irrenunciável. Reze por mim, Hildegard, para que, na hora da provação, eu aja sem medo ou hesitação, de acordo com os ditames de Deus e da minha consciência”.

Essas frases aproximam a experiência de Josef Mayr-Nusser à do agricultor austríaco Franz Jägerstätter (beatificado em 2007). Em 1943, ele tinha sido condenado à morte porque tinha se recusado ao alistamento na Wehrmacht. Franz também tinha se referido ao primado da consciência.

Em conclusão, podemos dizer, com certeza, que ambos, com o seu corajoso testemunho, anteciparam orientações que, só mais tarde, encontrariam espaço na cultura católica.

O comentário é do historiador italiano Andrea Sarri, publicado no jornal Trentino

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1 – Em 13 de Janeiro de 1435, através da bula Sicut Dudum, o papa Eugénio IV mandou RESTITUIR À LIBERDADE os cativos das ilhas Canárias.

2- Em 7 de setembro de 1462, o papa Pio II (1458-1464) deu instruções aos bispos contra os tratamentos dos negros proveniente da Etiópia condenando o comércio de escravos como magnum scelus (grande crime)

3- Em 1537, o papa Paulo III (1534-1549), através da bula Sublimus Dei (23 de Maio) e da encíclica Veritas ipsa (9 de Junho), lembrava aos cristãos que os índios “das partes ocidentais, e os do meio-dia, e DEMAIS GENTES”, eram SERES LIVRES POR NATUREZA.

4- Em 1571 Tomás de Mercado, TEÓLOGO DE SEVILHA, declarava DESUMANA E ILÍCITA A TRAFICÂNCIA DE ESCRAVOS. Em sua Summa de TRATOS Y CONTRATOS, este autor afirmava não haver justificativa para negócio tão infame.

5- O papa Gregório XIV (1590-1591) publicou a CUM SICUTI (1591) condenando a escravidão.

6- O papa Urbano VIII (1623-1644), também se pronunciou contra a escravidão na COMMISSUM NOBIS (1639).

7- O papa Bento XIV (1740-1758) na Bula IMMENSA PASTORUM escreveu:
…recebemos certas notícias não sem gravíssima tristeza de nosso ânimo paterno, depois de tantos conselhos dados pelos mesmos Romanos Pontífices, nossos Predecessores, depois de Constituições publicadas prescrevendo que aos infiéis do melhor -modo possível dever-se-ia prestar trabalho, auxílio, amparo, não descarregar injúrias, não flagelos, não ligames, NÃO ESCRAVIDÃO, não morte violenta, sob gravíssimas penas e censuras
eclesiásticas…

8- O papa Gregório XVI (1831-1846) ao publicar a bula IN SUPREMO (1839) condenou a escravidão da seguinte forma:

Admoestamos os fiéis para que se abstenham do desumano tráfico dos negros ou de quaisquer outros homens que sejam...”

9- Em 1888, o Papa Leão XIII, na encíclica IN PLURIMIS, dirigida aos bispos do Brasil, pediu-lhes apoio ao Imperador (Dom Pedro II) e a sua filha (Princesa Isabel), na luta que estavam a travar pela abolição definitiva da escravidão.

Detalhe: Houve três papas africanos que vieram de uma região do norte da África, onde os povos eram predominantemente negros. Embora não haja nenhum retrato autêntico destes papas, há desenhos e referências na Enciclopédia Católica a respeito de serem africanos. Os nomes dos três papas africanos são Vencedor ou Victor, Gelasius , e Melquiades ou Miltiades.

PARA CITAR


VIANA, Marina. Documentos Oficiais da Igreja contra a escravidão. Disponível em: <http://www.apologistascatolicos.com/index.php/magisterio/documentos-eclesiasticos/decretos-e-bulas/506-documentos-oficiais-da-igreja-contra-a-escravidao>. 

REUTERS2002736_ArticoloA última vez que a Capela Sistina foi fotografada integralmente para a posteridade, foi em tempos em que a fotografia digital estava em sua infância e palavras como “pixel” eram cogitados principalmente por nerds de computador e cientistas da NASA.

Agora, depois de décadas de avanços tecnológicos na arte de fotografar, salas escuras digitais e técnicas de impressão, um projeto que durou cinco anos  –  num total de 270.000 frames que mostram os afrescos de Michelangelo e outros mestres, em detalhes impressionantes – vai ajudar nas restaurações futuras.

O mestre renascentista terminou de pintar o teto em 1512 e o enorme painel do “Juízo Final” por trás do altar entre 1535 e 1541.

“No futuro, isso vai nos permitir conhecer o estado de cada centímetro da capela, como é hoje, em 2017”, disse Antonio Paolucci, ex-Diretor dos Museus Vaticanos e especialista de renome mundial.

A última vez que todos os afrescos da Capela Sistina foram fotografados foi entre 1980 e 1994, durante um projeto de restauração, que limpou-os pela primeira vez em séculos.

As fotos tiradas foram incluídas em um novo conjunto de três volumes, de 870 páginas, limitado a 1.999 cópias e comercializado para bibliotecas e colecionadores.

O conjunto, que custa cerca de 12.000 euros (US$ 12.700), foi uma produção conjunta dos Museus do Vaticano e Scripta Maneant editores, da Itália.

Na pós-produção foram usadas técnicas de computador, incluindo “stitching” de frames. Os fotógrafos que fotógrafos trabalharam durante 65 noites, das 19 horas às 2 da manhã, período em que a Sistina estava fechada aos visitantes.

O projeto era conhecido por poucas pessoas, até ter sido revelado na noite de sexta-feira  (24/02).

O trabalho contemplou toda a Capela, incluindo o mosaico do piso e os afrescos do século XV.

Mais de 220 páginas foram impressas em escala 1: 1, incluindo “A Criação de Adão” e o rosto de Jesus no Juízo Final.

Cada volume pesa cerca de 9 kg e páginas desdobráveis medem 60 por 130 cm.

As antigas fotos, tiradas durante a última restauração, ainda faziam uso de rolos de filme.

“Nós usamos um software especial de pós-produção para obter a profundidade, intensidade, calor e nuance de cores com uma precisão de 99,9 por cento”, revelou Giorgio Armaroli, chefe de Scripta Maneant.

“Futuros restauradores usarão estas como padrão”, disse ele, acrescentando que cada página foi impressa seis vezes.

Pinceladas são claramente visíveis como são as “bordas” que delineiam seções, conhecidas como “giornate”, ou dias.

Os fotógrafos utilizaram andaimes portáteis a 10 metros de altura e lente telescópica especial. Os resultados foram armazenados nos servidores do Vaticano, ocupando 30 terabytes de informação.

Rádio Vaticano