Supremo Tribunal Federal, julgando uma polêmica em torno do Ensino Religioso nas escolas públicas, decidiu, em placar apertado (6X5), que deve haver aula de religião de matriz confessional nos estabelecimentos de educação de todo o País.

Há três principais modelos de aulas de Ensino Religioso no país. Tal variedade se dá, porque, embora a Lei que prevê o Ensino Religioso seja federal, os Estados e Municípios é que colocam a disciplina em prática.

Vejamos, de forma breve, as três modalidades: a mais disseminada é a chamada de interconfessional. Procura conciliação. Trata dos ensinamentos, valores e símbolos comuns às grandes religiões. Outra é a da neutralidade. Aborda o ensino da religião apenas como fenômeno social e/ou histórico. O terceiro modelo, que está em funcionamento no Rio de Janeiro, desde 2002, é o chamado de pluriconfessional, uma vez que institui a divisão dos alunos de acordo com as suas crenças e cada professor aí trabalha a sua religião. São contratados profissionais competentes indicados pelas próprias entidades religiosas. Este é o modelo preferido pela decisão do STF.

Em comentário, notamos que os dois primeiros modelos parecem despertadores de atenção à primeira vista, mas são falhos. Sim, pois o primeiro, chamado de interconfessional, vem a ser uma mescla de credos mal apresentados, dado que o professor sempre tratará da religião alheia segundo a sua concepção filosófico-religiosa.

O segundo modelo também não satisfaz. Reduz a religião, que supõe a revelação de Deus aos homens, a meras projeções humanas enquadradas nos moldes da história e da sociologia. Mais: não há modo totalmente neutro de ensinar, dado que neutralidade significaria isenção, imparcialidade. Isso é um absurdo lógico, pois o professor de ensino religioso parte de conceitos já formulados que ele tem em mente. Só por se considerar neutro (= nem um nem outro), já está tomando um partido, o dos neutros.

Restaria a terceira opção como louvável, pois oferece a cada um, em um país pluralista, a formação religiosa segundo o credo que o aluno professa. Esse modelo pluriconfessional é apoiado, por exemplo, pela Convenção Nacional das Assembleias de Deus do Brasil. O pastor Ciro Mello, secretário-geral da entidade, diz que é preciso separar uma turma para cada tipo de credo, porque, dificilmente, um professor de formação evangélica conseguirá esconder isso de seus alunos.

Por fim, algo importante, embora à margem do tema principal. Alguns órgãos de imprensa criticaram a decisão do STF, de modo particular a Ministra Carmem Lúcia por desempatar a votação em favor do ensino religioso de modelo confessional. Foi dito, inclusive, que ela leciona em uma Universidade Católica e também – não poderia faltar esse argumento – que a decisão cheira a retrocesso, dado vivermos em um “Estado laico”.

De modo breve, notemos que: 1) a vida da ministra Carmem Lúcia, com suas convicções e atividades, não está em jogo no caso. Ou o dito “Estado laico” livre se tornou, agora, ditador a querer retirar o direito de alguém lecionar, pensar e praticar a fé, de forma privada ou pública? 2) Na verdade – e há muito se vem denunciando essa ideologia –, sob capa de “Estado laico”, tem-se, não raras vezes, um “Estado laicista”, perseguidor da fé.

Quer ele tirar o nome de Deus da esfera pública com todas as consequências daí decorrentes. Na crítica à ministra, arautos do “Estado laico” parecem ter deixado cair a máscara da tolerância e da bonomia, que tanto apregoam, para revelar a face obscura, intolerante, agressiva e muito perigosa do “Estado laicista” que, a todo custo, tenta se implantar no Brasil.

Vanderlei de Lima é eremita na Diocese de Amparo e pós-graduado em Psicopedagogia (Unifia)

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Afirmar que a Revolução Francesa perseguiu a religião não é de todo correto. Muitos que fazem essa afirmação supõem ou tentam fazer pensar que os revolucionários tinham os nobres planos de construir uma sociedade laica na qual os segmentos religiosos não tivessem privilégios nem fossem relevantes na vida pública. Não é esta a verdade objetiva.

O que os revolucionários realmente tentaram foi substituir as religiões históricas por uma “religião de Estado”, com suas próprias pretensões teológicas, funcionários, elites e privilégios, visando assegurar que os cidadãos se submetessem à lei não apenas no comportamento externo, mas inclusive na consciência e no coração. A lei é que seria “deus”.

Os Estados Gerais convocados por Luís XVI em 1789 se dividiam em três ordens: o clero, a nobreza e o “terceiro estado”. Os dois primeiros tinham 561 representantes em total (291 e 270, respectivamente), enquanto o terceiro estado, cujos representantes eram eleitos pelos franceses do sexo masculino, maiores de 25 anos e que pagassem impostos, contava com 578. O número não era tão importante, em tese, porque o rei desejava manter o voto por segmento e não por indivíduo. O objetivo da convocação era ajudar a monarquia a realizar reformas que melhorassem a situação geral do país, afundado na pobreza.

O clero não era um obstáculo para a política inicial de reformas. Os padres apoiavam as medidas propostas pelo terceiro estado para implantar a separação de poderes, a reunião frequente dos Estados Gerais, a sua supremacia na determinação dos impostos, o reconhecimento das liberdades individuais etc. Mas esse apoio às reformas não era mediante ações radicais: só um quarto dos membros do clero queria a ruptura da ordem vigente e a revolução democrática, enquanto a maioria dos padres defendia uma reforma paulatina e sem ruptura traumática. Apesar dessa atitude de moderação, a tomada da Bastilha em 14 de julho em 1789 e a posterior abolição dos privilégios feudais não foram fatos particularmente alarmantes para os bispos e sacerdotes, que estavam mais preocupados com os resultados da reforma constitucional iniciada por uma nova assembleia. A “Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão” promulgou a liberdade religiosa, reservando ao Estado o poder de determinar quando as opiniões em matéria de credo eram incompatíveis com a lei.

Esta liberdade teórica, no entanto, teve escassa duração real. Em 12 de julho de 1790, estabeleceu-se a chamada “Igreja constitucional”, que, na prática, imposta por um rápido processo de fundamentalismo estatista, se tornou o único “credo” aceito pelas autoridades. Essa “igreja” tinha organização e funcionamento próprio, decidido pelo Estado. Os sacerdotes católicos foram pressionados a jurar fidelidade às novas normas estatais em matéria de religião e a se desligarem da obediência ao seu bispo e a Roma. Apesar da determinação do Papa Pio VI e da rebelião dos bispos perante a pressão estatal (só quatro cederam à nova ordem), muitos presbíteros, em especial no centro do país, se uniram à “igreja laica” e viraram comissários políticos do Estado em matéria religiosa. A criação desta “igreja” foi celebrada no Campo de Marte, com os oficiantes ataviados em vestes tricolores francesas.

A perseguição contra os católicos que não aceitaram esta situação foi brutal.

Os sacerdotes que se mantiveram católicos foram perseguidos, impedidos de celebrar sacramentos e de pregar e, a partir de 18 de março de 1793, se fossem presos em solo francês, deviam ser executados em menos de 24 horas. Muitos tiveram a pena de morte comutada por um destino tão pavoroso quanto, nas infectas e tristemente célebres prisões da Guiana Francesa.

Ao mesmo tempo, foi cortada a comunicação entre os católicos franceses e o Papa, cujas cartas e documentos não podiam ser divulgados no país sem a aprovação prévia dos órgãos legislativos. A Igreja católica sofreu uma das piores perseguições da história. As crianças não podiam receber o batismo, nem a comunidade podia celebrar a Eucaristia. Só se conseguia oficiar algum sacramento na clandestinidade. Na Bretanha, região que registrou o maior número de sacerdotes contrários à nova “igreja” cismática, os fiéis se reuniam em barcas, longe da costa, ou no interior dos bosques. Aqueles que participavam dessas “reuniões ilegais” corriam o risco ser condenados à morte como inimigos do Estado. Na região bretã foram assassinados cerca de 120.000 católicos por motivos estritamente religiosos: tratava-se de mais de 15% da população.

Enquanto isso, as autoridades revolucionárias determinavam por decreto, sob os impulsos de Robespierre, a existência do “Ser Supremo” e a imortalidade da alma, instaurando a celebração de “festivais do Ser Supremo” a partir de 1794. Antes disso já tinham sido criados templos à “deusa Razão”, usando-se para tanto as igrejas e sinagogas. Em todo momento, o povo era induzido a ligar a sua consciência a uma série de normas políticas e morais ao gosto do poder – um gosto altamente variável e volúvel, diga-se de passagem.

Não foi o caso, portanto, de tentar eliminar a religião pura e simplesmente, nem de desbaratar os privilégios que de fato existiam para alguns setores do clero (e que de fato chegavam a ser extravagantes em certos casos). Foi o caso, isto sim, de um esforço estatal impositivo para transformar o Estado não apenas no máximo ditador da consciência individual, mas em objeto, ele próprio, de devoção pública.

Ainda hoje essas tentativas persistem, com outras estratégias e formatos – e é de extrema importância reconhecer as tentativas do Estado de ocupar o lugar da religião sob o disfarce abstrato e obscuro de uma indeterminada “cidadania” que se intromete no âmbito das consciências.

Marcelo López Cambronero

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Centenas de moradores do povoado de Callosa de Segura, na cidade de Alicante (Espanha), impediram a retirada da cruz localizada na praça da igreja local, uma medida tomada pelo governo de esquerda que não aguardou a decisão dos tribunais e que aplicou neste caso uma interpretação errada da Lei de Memória Histórica.

Trata-se de uma lei aprovada em 2007, através da qual estabelecem medidas em favor de quem sofreu perseguição ou violência durante os anos da Guerra Civil Espanhola e a ditadura de Francisco Franco.

É uma lei controversa, pois favorece uma ideologia e não a reconciliação dos espanhóis. A norma obriga a retirada de monumentos, símbolos ou nomes de lugares públicos estabelecidos depois da Guerra Civil.

Os monumentos relacionados à Igreja Católica permanecem fora desta lei, mas na verdade isso não foi respeitado, como é o caso desta cruz em Callosa de Segura.

Segundo informa a Associação ‘Abogados Cristianos’, o prefeito de Callosa de Segura, o socialista Fran Maciá, enviou um guindaste no dia 14 de dezembro para retirar a cruz que está na praça de Espanha, ao lado da igreja e em frente à câmara municipal.

No momento que estavam iniciando os trabalhos para retirá-la, tocaram os sinos do templo e centenas de habitantes de Callosa de Segura foram ao local a fim de impedir a sua retirada.

Um homem estacionou o seu carro ao lado do monumento para que o guindaste não pudesse trabalhar e outro grupo de pessoas se acorrentou à cruz a fim de que a Polícia e os Guardas Civis não pudessem desalojá-los. Tudo foi feito de maneira pacifica.

Conforme o prefeito, a cruz viola a Lei de Memória Histórica e, por essa razão, em um conselho do município, seu partido, com o apoio de ‘Esquerra Unida’ e ‘Podemos’ – partidos de esquerda –, aprovaram a sua retirada.

De acordo com informações dos manifestantes, o prefeito havia previsto uma reunião para discutir a retirada da cruz, mas como explicou Maciá, apenas pretendia perguntar ao pároco onde poderiam deixar a cruz após a sua remoção da praça.

A decisão de retirar esta cruz está no tribunal e o julgamento está previsto para novembro de 2017.

Um vereador do Partido Popular interpôs um recurso contencioso a fim de que a decisão do governo municipal fosse derrogada, mas embora solicitassem medidas cautelares para impedir o seu traslado, estas foram rechaçadas.

A associação ‘Abogados Cristianos’ (AEAC), junto com a Plataforma em Defesa da Cruz, fez uma petição em agosto no Change.org, somando mais de 28.500 pessoas e conseguiu impedir a retirada desta cruz.

A AEAC pediu “para que respeitem os cristãos e respeitem a liberdade religiosa, pois até então está bem clara que a única intenção da equipe do governo é retirar uma cruz que carece de qualquer símbolo político”.

ACI

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Publicamos em seguida a Entrevista de Francisco deu ao semanário católico belga “TERTIO”, por ocasião da conclusão do Jubileu Extraordinário da Misericórdia:

 

No nosso país estamos vivendo um período em que a política nacional quer separar a religião da vida pública, por exemplo, no currículo escolar. É a opinião de que, em tempos de secularização, a religião tem de ser reservada para a vida privada. Como podemos ser ao mesmo tempo Igreja missionária, em saída para a sociedade, e viver a tensão criada por esta  opinião pública?

PAPA – Bem, eu não quero ofender ninguém, mas esta posição é uma postura antiquada. Este é o legado que nos deixou a Ilustração – não é verdade? – onde todo o fato religioso é uma subcultura. É a diferença entre laicismo e laicidade. Falei disto com os franceses. O Vaticano II falou-nos da autonomia das coisas ou dos processos ou das instituições. Há uma laicidade saudável, por exemplo, a laicidade do Estado. Em geral, o Estado laico é bom. É melhor do que um Estado confessional, porque os Estados confessionais acabam mal.

Mas uma coisa é laicidade e outra coisa é laicismo. E o laicismo fecha as portas à transcendência: à dupla transcendência, tanto à transcendência para com os outros como, sobretudo, à transcendência para com Deus. Ou para o que está Mais Além. E a abertura à transcendência faz parte da essência humana. É parte do homem. Não estou falando de religião, estou falando de abertura à transcendência.

Então, uma cultura ou um sistema político que não respeite a abertura à transcendência da pessoa humana, poda, corta a pessoa humana. Ou seja, não respeita a pessoa humana. Isto é mais ou menos o que eu penso. Então, mandar para a sacristia qualquer ato de transcendência é uma assepsia. Ela não condiz com a natureza humana, corta-se à natureza humana boa parte da vida, que é a abertura.

O senhor preocupa-se com a relação inter-religiosa. No nosso tempo convivemos com o terrorismo, com a guerra. Às vezes comenta-se que a raiz das guerras atuais está na diferença entre religiões. O que dizer sobre isto?

PAPA  – Eu acho que, sim, o comentário existe. Mas nenhuma religião como tal pode fomentar a guerra. Porque está nesse caso proclamando um deus de destruição, um deus de ódio. Você não pode fazer a guerra em nome de Deus ou em nome de uma postura religiosa. Não se pode fazer a guerra. Em nenhuma religião. E, portanto, o terrorismo, a guerra, não estão relacionados com a religião. Usam-se deformações religiosas para justificá-la. Isso sim.

Vocês são testemunhas disso, viveram-no na vossa pátria. Mas são deformações religiosas que não constituem a essência do fato religioso. Que é ao contrário amor, unidade, respeito, diálogo, todas essas coisas, mas não nesse aspecto. Ou seja, nisto há que ser taxativos. Em outras palavras, nenhuma religião proclama a guerra pelo fato religioso. Deformações religiosas, sim. Por exemplo, todas as religiões têm grupos fundamentalistas. Todas. Nós também. E daí, elas destroem, a partir do seu fundamentalismo.

Mas esses grupelhos religiosos que deformaram, que “adoeceram” a própria religião, e daí lutam, ou fazem a guerra, ou criam a divisão na comunidade, que é uma forma de guerra. Mas esses são os grupos fundamentalistas que temos em todas as religiões. Há sempre um pequeno grupo…

Outra pergunta de guerra. Comemoramos os 100 anos da primeira Guerra Mundial. O que o senhor diria ao continente europeu do lema pós-guerra “Nunca mais a guerra”?

PAPA  – À Europa falei três vezes: duas em Estrasburgo e uma no ano passado ou neste ano, – não recordo – quando do prêmio Carlos Magno [06 de maio de 2016]. Acho que esse “Nunca mais a guerra” não foi levado a sério, porque depois da primeira veio a segunda, e depois da segunda há esta terceira que estamos vivendo agora, aos pedaços. Estamos em guerra. O mundo está fazendo a terceira guerra mundial: Ucrânia, Oriente Médio, África, Iêmen…

É muito sério. Então, “nunca mais a guerra” da boca para fora, mas ao mesmo tempo fabricamos armas e as vendemos, e as vendemos aos próprios beligerantes. Porque um mesmo fabricante de armas as vende para este e para aquele que estão em guerra um com o outro. É verdade. Há uma teoria econômica que eu nunca tentei verificar, mas eu a li em vários livros: que na história da humanidade, quando um Estado percebia que os seus balanços não fechavam, fazia uma guerra e reequilibrava os seus balanços. Quer dizer, é uma das maneiras de enriquecer mais facilmente. Claro, o preço é muito caro: sangue.

Esse “Nunca mais a guerra” acho que é algo que a Europa disse sinceramente, disse honestamente. Schumann, De Gasperi, Adenauer … disseram-no sinceramente. Mas depois… Hoje em dia há falta de líderes; a Europa precisa de líderes, líderes que sigam adiante… Bem, não vou repetir o que disse nos três discursos.

Existe alguma possibilidade de que o senhor venha à Bélgica para esta comemoração?

PAPA – Não, não está previsto, não. Não está previsto. À Bélgica eu ia a cada ano e meio, quando era provincial, porque lá havia uma associação de Amigos da Universidade Católica de Córdoba. Eu era chanceler [reitor]… Então eu ia lá falar com eles. Eles faziam os seus exercícios [espirituais]. Eu ia para agradecer-lhes. E tomei carinho pela Bélgica. Para mim a mais bela cidade da Bélgica não é a sua, mas Bruges … [ri]

[Entrevistador: Devo dizer-lhe que o meu irmão é jesuíta.

Papa: Ah, é? Não sabia!

Entrevistador: Por isso, apesar de ser jesuíta, é gente boa.

Papa: Eu ia perguntar se ele era católico… (ri e riem)]

Estamos terminando o Ano da Misericórdia. Pode dizer como viveu o ano e o que espera quando o ano tiver terminado?

PAPA  – O Ano da Misericórdia não foi uma ideia que me ocorreu a mim de repente. Vem desde o Beato Paulo VI. Paulo VI tinha feito alguns passos para redescobrir a misericórdia de Deus. Depois, São João Paulo II fundamentou muito isto com três fatos: a encíclica Dives in Misericordia, a canonização de Santa Faustina; e a Festa da Divina Misericórdia na Oitava de Páscoa; e ele morreu na véspera desta festa.

E já aí como que encaminhou a igreja nesse rumo. E eu senti que o Senhor queria isto. Foi, foi… Não sei como se formou a ideia no meu coração até que um belo dia eu disse a Monsenhor Fisichella, que tinha vindo por assuntos do seu dicastério. Eu disse-lhe: “Como eu gostaria de fazer um Jubileu, um Ano Jubilar da Misericórdia”. E ele disse-me: “E por que não?”.

E assim começou o Ano da Misericórdia. É a melhor garantia de que não foi uma ocorrência humana, mas que vem de cima. Creio que o Senhor a inspirou. E evidentemente fez-se muito bem. Por outro lado, o fato de que o Jubileu não era só em Roma, mas em todo o mundo, em todas as dioceses, e dentro de cada diocese, como que mobilizou, movimentou, e as pessoas se mobilizaram muito. Mobilizaram-se muito e sentiram-se chamadas reconciliar-se com Deus, a reencontrar o Senhor, a sentir a carícia do Pai.

O teólogo alemão Dietrich Bonhoeffer fez a distinção entre a graça barata e a preciosa. O que significa para o senhor a misericórdia barata ou preciosa?

PAPA – A misericórdia é preciosa e barata. Eu não conheço como é o texto de Bonhoeffer, não sei como explica isto. Mas… É barata, porque não se tem que pagar nada: não é preciso comprar indulgências, é puro presente, puro dom; e é preciosa porque é o dom mais precioso. Há um livro, escrito com base numa entrevista que fizeram comigo, cujo título é “O nome de Deus é Misericórdia” e é preciosa porque é o nome de Deus: Deus é misericórdia.

Faz-me lembrar um padre que eu tinha em Buenos Aires, – que ainda celebra missa e trabalha, e tem 92 anos! –  e no início da missa sempre dá alguns avisos. É muito enérgico. Com 92 anos, prega muito bem, as pessoas vão ouvi-lo.

– “Por favor, desliguem os telefones”… e durante a missa, quando começava o ofertório, … [toca] um telefone. Ele parou e disse:

– “Por favor, desliguem o telefone.” E o coroinha que estava ao lado, disse:

– “Padre, é o seu”. E então ele tirou o telefone do bolso e disse:

– “Alô”. (Riem)

Parece-nos que o senhor está indicando o Vaticano nos tempos de hoje. Vai-nos indicando caminhos de renovação na Igreja. A Igreja sinodal… No sínodo, o senhor  explicou a sua visão do futuro. Poderia explicá-lo para os nossos leitores?

PAPA – A “Igreja sinodal”. Tomo esta palavra. A Igreja nasce das comunidades, nasce da base, da comunidade, nasce do batismo, e organiza-se em torno de um bispo que a convoca, lhe dá força. O bispo que é o sucessor dos apóstolos. Esta é a Igreja. Mas em todo o mundo há muitos bispos, muitas igrejas organizadas, e há Pedro.

Então, ou existe uma Igreja piramidal, onde Pedro diz e o que ele diz se faz, ou há uma Igreja sinodal, onde Pedro é Pedro, mas acompanha a Igreja e a faz crescer, a escuta; mais ainda, ele aprende com isso, e vai como que harmonizando, discernindo o que vem das igrejas, e devolve-o. A experiência mais rica disto foram os dois últimos sínodos. Ali todos os bispos do mundo foram ouvidos, com a preparação; todas as igrejas do mundo: as dioceses, trabalharam.

Todo este material veio.  Depois voltou. E voltou uma segunda vez para o segundo sínodo para completar isto. De aí saiu Amoris Laetitia. É surpreendente a riqueza da diferença de matizes. É próprio da Igreja. É a unidade na diversidade. Isso é sinodalidade. Não descer de cima para baixo, mas ouvir as igrejas, harmonizá-las, discernir. Então, há uma exortação pós-sinodal, que é Amoris Laetitia, que é o resultado de dois sínodos, onde toda a Igreja trabalhou, e que o Papa fez sua. Expressa-o de uma forma harmoniosa.

É curioso: tudo o que está lá [na Amoris Laetitia] foi aprovado no sínodo por mais de dois terços dos padres. O que é uma garantia. Uma igreja sinodal significa que este movimento se dá de cima para baixo, de baixo para cima. Mesmo nas dioceses. Mas há uma fórmula latina que diz que as igrejas estão sempre cum Petro e sub Petro (com Pedro e sob Pedro). Pedro é o garante da unidade da Igreja, o garante. Então… esse é o ponto. E temos de fazer progressos na sinodalidade. Que é uma das coisas que os ortodoxos conservaram. E as igrejas católicas orientais também. É uma riqueza deles. Eu reconheço isso na encíclica.

A mim parecia-me que a passagem que fez o segundo sínodo [foi] do método de “ver, julgar e agir” para “ouvir, compreender e acompanhar”. É muito diferente. São as coisas que eu digo às pessoas constantemente. A passagem que dá o Sínodo é de “ver, julgar e agir”, para ouvir a realidade do povo, compreendê-la bem e, depois acompanhar as pessoas em seu caminho.

PAPA – Porque cada um disse o que pensava, sem medo de sentir-se julgado. E todos estavam em atitude de escutar, sem condenar. Depois discutia-se como irmãos nos grupos. Mas uma coisa é como irmãos e outra é condenar a priori. Lá houve uma liberdade de expressão muito grande. E isso é bonito.

Em Cracóvia o senhor ofereceu aos jovens estímulos preciosos. Qual seria uma mensagem particular para os jovens do nosso país?

PAPA –

  • Que não tenham medo,
  • que não tenham vergonha da fé,
  • que não tenham vergonha de buscar caminhos novos.

Há jovens que não são crentes: Não te preocupes, busca o sentido da vida. A um jovem eu daria dois conselhos: “buscar horizontes” e “não se aposentar aos 20 anos”. É muito triste ver um jovem aposentado aos 20-25 anos. Busca horizontes, segue em frente e continua trabalhando nesta tarefa humana.

 Uma última pergunta, Santo Padre, uma opinião sobre os meios de comunicação.

PAPA  – Os meios de comunicação têm uma responsabilidade muito grande. Hoje em dia, está em suas mãos a possibilidade e a capacidade de formar opinião. Podem formar uma boa ou má opinião. Os meios de comunicação são construtores de uma sociedade. Por si mesmos, eles são para construir. Para intercambiar. Para confraternizar, para fazer pensar, para educar.

Em si mesmos, eles são positivos. Claro que, como todos somos pecadores, a mídia também pode cair – nós que fazemos mídia, eu estou aqui usando um meio de comunicação – pode fazer mal. E os meios de comunicação têm suas tentações. Podem ser tentados à calúnia (então, usados para caluniar e enxovalhar as pessoas), especialmente no mundo da política; podem ser usado para difamação (todos têm direito à boa fama, mas talvez em sua vida anterior, ou em sua vida passada, ou dez anos atrás, teve um problema com a justiça, ou um problema na sua vida familiar … então, trazer isso à luz agora é grave, causa dano, anula-se uma pessoa).

Na calúnia diz-se uma mentira sobre uma pessoa. Na difamação solta-se uma ‘carpeta’ [notícia comprometedora],   – como dizemos na Argentina, faz-se um ‘carpetazo’ – e te assacam algo que é verdade mas que já passou. E que talvez já foi pago com a prisão ou com multa, ou qualquer outra coisa. Não se tem direito de fazer isso. Isso é pecado e faz mal. E uma coisa que pode fazer muito dano nos meios de comunicação é desinformação. Ou seja, diante de qualquer situação dizer uma parte da verdade e não a outra. Não! Isso é desinformar.

Porque você dá ao telespectador a metade da verdade. E ele, portanto, não pode fazer um julgamento sério sobre a verdade completa. A desinformação é provavelmente o maior dano que pode fazer um meio de comunicação. Porque orienta a opinião numa direção, escondendo a outra parte da verdade. E depois, eu acho que a mídia tem que ser muito limpa, muito limpa e muito transparente. E não cair – sem ofender, por favor – na doença da coprofilia: que é procurar comunicar sempre o escândalo, as coisas feias, mesmo que sejam verdadeiras. E como as pessoas têm a tendência a coprofagia, pode-se causar muito mal. Então, eu diria que há essas quatro tentações. Mas eles são construtores de opinião e podem edificar e fazer um bem enorme, imenso.

Terminando, só uma palavra para os sacerdotes. Não um discurso, porque estão dizendo que tenho de terminar… O que é o mais importante para um sacerdote?

PAPA  – É uma resposta um pouco salesiana. Sai do meu coração: “Lembra-te que tens uma mãe que te quer. Não deixes de amar a tua mãe, a Virgem”.

Em segundo lugar, deixa Jesus olhar para ti.

Terceiro: busca a carne sofredora de Jesus nos irmãos. Neles vais te encontrar com Jesus. É como uma base. Daí sai tudo. Se és um padre órfão, que esqueceste que tens mãe; se és um padre que se afastou de quem te chamou, que é Jesus,  nunca vais poder levar o Evangelho.

Qual é o caminho? A ternura. Tenham ternura. Não tenham vergonha, os padres, de ter ternura. Acariciem o sangue sofredor de Jesus. Hoje faz falta uma revolução da ternura neste mundo que padece da doença da cardio-esclerose.

 A cardio …?

PAPA  – A cardio-esclerose.

[Texto original em espanhol]

http://press.vatican.va/content/salastampa/it/bollettino/pubblico/2016/12/07/0882/01951.html

1-1RH3Vsjao1Bd1dAjpkZfpAA “igreja dos bichinhos” e seu arquileigo

Em entrevista ao jornal “La Croix”, da frança, o Papa Francisco disse:

“A criticazinha que eu dirigiria à França neste tema [do laicismo] seria de exagerar a laicidade. Isso vem de um modo de considerar as religiões como uma sub-cultura e não como uma cultura integral. Eu temo que esta abordagem, compreensível como herança iluminista, não tenha mais lugar de ser.”

O caso da igreja de Santa Rita, desocupada à força pela polícia durante um culto religioso, é um excelente exemplo do que o Santo Padre condenou na França, e — como sempre — uma história muito mais complexa que o que querem fazer crer os horrorizados das redes sociais, sempre prontos a julgar sem conhecer.

O primeiro ponto crucial para que se entenda a situação é que as igrejas francesas foram todas “desapropriadas” (ou, antes, roubadas) pela Revolução Francesa (cuja data magna é o 14 de julho; guarde isto). Assim, quem distribui aquelas belíssimas construções, alugando-as, cedendo-as gratuitamente ou vendendo-as, é o governo ou algum proprietário particular. A Igreja Católica, na melhor das hipóteses, é inquilina nas próprias igrejas que construiu.

A igreja de Santa Rita foi construída no início do Século XX por uma associação privada anglicana, visando a princípio alugá-la como igreja. Isso funcionou durante algumas décadas, mas depois a edificação passou um bom tempo vazia por falta de interessados. O prédio, então, foi alugado a uma seita semelhante à nossa “Igreja Católica Apostólica Brasileira”, a “Igreja Católica Galicana de Paris”, com “padres” casados e ordens provavelmente inválidas. Os galicanos conseguiram atrair bastante público ao tornar-se a “igreja dos bichinhos”, com um dia de bênção dos animais, um discurso ecológico, cachorrinhos de colo bem vindos às celebrações, além de “missas” midiáticas de todo tipo (“Missa do Michael Jackson”, “Missa dos Motoqueiros”, etc.), ironicamente sempre celebradas na Forma Extraordinária.

Mas mesmo assim o aluguel que eles pagavam não estava valendo a pena para a associação dona da igreja, que pediu aos órgãos de Estado encarregados da proteção ao patrimônio histórico autorização para vender e demolir a igreja. A autorização foi dada em 2010, e em 2011 a “igreja dos bichinhos” foi vendida para um empreendedor interessado em fazer um estacionamento e habitações populares.

Os galicanos fingiram que não ouviram e continuaram lá, com políticos de todos os partidos discutindo se a igreja poderia ou não ser demolida, até que um grupo político (o “Movimento 14 de Julho”) resolveu comprar a briga, ou talvez fazer da igreja um símbolo seu. Trata-se de um movimento no mínimo bizarro, que tentou reunir gente suficiente nas ruas em 14 de julho de 2015 para fazer um golpe de Estado, mas não conseguiu reunir mais que 500 pessoas. É um grupo antissionista, que diz defender os palestinos e nega ser antissemita, mas há controvérsias a este respeito. Além disso, eles propõem a proibição das vacinas, denunciam a “poluição cerebral” causada pelo wifi e pelos micro-ondas, pedem o retorno do franco (moeda nacional, substituída há tempos pelo Euro), propõem uma renda universal de 1500 euros por mês (porque “o estresse permanente do fim de mês não é favorável a uma reflexão serena”; faz sentido, e o Suplão adoraria), denunciam a dívida externa, que seria um complô maligno, e querem que os jovens participem na política a partir dos 14 anos de idade. Eu disse que era bizarro.

Os galicanos fizeram a besteira de deixar os malucos entrarem, e eles foram aos poucos expulsando os galicanos da igreja, até que quando chegou uma ordem judicial de evacuação, no final de 2014, os galicanos saíram de vez e os deixaram sozinhos lá. Em 2015 as portas da igreja foram muradas, mas os maluquinhos, a essa altura já apoiados por vários movimentos populistas de vários tipos, derrubaram as paredes e entraram novamente na igreja. Com o fracasso do golpe de Estado deles em 2015, contudo, eles passaram adiante a igreja (sempre ocupada ilegalmente para o direito civil e inexistente para o direito canônico) a uma associação preservacionista servida pelo padre Tanoüarn (o “abbé de Tanoüarn”, uma figura interessantíssima: era lefebvrista, e foi durante anos “vigário” (de quem, não se sabe) da igreja de São Nicolau, que o governo francês, para ira das autoridades eclesiásticas católicas, deu para uso aos lefebvristas. Brigou com os lefebvristas, voltou à plena comunhão com a Santa Sé, fundou o IBP, teve o comando do IBP puxado de debaixo de suas pernas num processo canônico curiosíssimo, e hoje em dia dedica-se mais à política, ao ensino e à escrita.

A luta legal, enquanto isso, era para tentar impedir a demolição por conta de algum detalhe no desenho dos arcos da igreja, que seria único o bastante para garantir tombamento. Outro argumento era a presença de amianto no prédio, que poderia tornar perigosa a demolição. É um prédio do começo do século passado, afinal, o que em Paris quer dizer um prédio novíssimo. Ambas as alegações não deram em nada, e a associação que vendera a igreja para demolição conseguiu, finalmente, outra ordem judicial de desocupação. Sabendo que ela viria, os ocupantes — a essa altura ajudados por vários grupos políticos interessados em fazer a caveira do governo — cuidaram de fazer o espetáculo de mídia que está rolando pelas redes sociais, cuidando (literalmente) que não houvesse “gente suficiente para que a Prefeitura volte atrás e desista da evacuação”. Sabendo da hora em que a polícia tinha ordens de entrar, eles começaram uma Missa para que ela fosse interrompida pela polícia, e quando perceberam que a polícia estava esperando acabar começaram outra, e outra ainda, quando finalmente fez-se a reintegração de posse. Não se sabe ainda sequer se as tais Missas sacrílegas (pois começar a celebrar a Santa Missa para ser interrompido e aparecer em filmagens é sacrilégio) estavam sendo celebradas por padres de verdade ou por galicanos sem ordens válidas.

Ou seja: a situação não é em absoluto simples como se quer pintar. Não se trata de uma igreja católica subitamente invadida durante a Missa, mas da Missa sendo usada para fazer um espetáculo de mídia, numa versão sacrílega do Eduardo Suplicy deitando no chão para obrigar os policiais a carregá-lo defronte às câmeras. Nem se trata, canonicamente, de uma igreja ou capela católica, sim duma tentativa de pseudo-catolicização puramente instrumental e política de um prédio conhecido como a “igreja dos bichinhos” galicana. O que se está fazendo é política, é — como condenou o Papa —fazer da religião subcultura. O que aconteceu ali não muito diferente do que acontece no Brasil com as “ocupações” de escolas e prédios públicos, com o agravante não de ser uma igreja (porque canonicamente não é), sim de se usar a Santa Missa para fazer política.

Autor: Carlos Ramalhete

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Eu acredito sinceramente que os católicos podem e devem abraçar o que existe de bom na cultura atual e servir-se dela de maneira construtiva para agir no mundo a fim de produzir nele um impacto positivo.

Mas a necessidade de “servir-se dela de maneira construtiva” não poderia ser mais urgente, assim como as consequências da falta de ação positiva no mundo atual não poderiam ser mais terríveis. Vários traços da nossa moderna sociedade ocidental serão julgados com severidade pela história, e, com visão imparcial, podemos identificá-los desde já. Cito cinco deles.

1. O abandono da família por parte dos homens

A família foi a maior ‘invenção’ da história para trazer a paz, a estabilidade e a prosperidade aos seres humanos. Antes do surgimento do cristianismo, o modelo de pai e mãe fiéis um ao outro e aos filhos estava muito longe de ser o padrão. Foi o cristianismo que definiu o mais elevado conceito de família, e foi o conceito de família que nos permitiu garantir os direitos das crianças e das mulheres, além de embasar uma unidade estável e amorosa na qual a civilização pudesse desenvolver-se e florescer.

O desprezo pelo modelo de família tradicional é um fator de crucial importância no aumento da pobreza. As famílias tendem a ficar presas num círculo vicioso em que os homens abandonam suas responsabilidades e, agindo assim, “convencem” a próxima geração a seguir os mesmos passos. Quando os homens abandonam suas famílias, os filhos acabam recebendo menos educação e ficando mais expostos ao crime e à violência.

Será que a história vai nos marcar como a cultura que conseguiu extinguir a instituição da família?

2. O extermínio dos mais frágeis

“Toda sociedade será julgada com base no seu modo de tratar os membros mais fracos”, declarou o papa João Paulo II, numa afirmação absolutamente certa. Ficamos horrorizados com os pecados das sociedades do passado: torturas, punições assustadoras e perseguições raciais. As culturas do passado eram muito mais brutais do que a nossa, desde que não levemos em conta o aborto.

E por quê? Os historiadores do futuro ficarão horrorizados ao documentar que a mesma civilização que conseguiu tantos avanços na compreensão e no tratamento da vida humana ainda no útero também matava um milhão de crianças não nascidas por ano.

Graças aos esforços incansáveis de católicos e de outros cristãos, temos trabalhado com perseverança para superar esta mancha em nossa evolução, mas ainda não conseguimos eliminá-la.

3. A epidemia de suicídios

Os índices de suicídio têm aumentado ao longo do século XXI. Hoje, o gesto de acabar com a própria vida é a terceira principal causa de morte de jovens nos Estados Unidos. Em 2012, ainda nos EUA, o suicídio ultrapassou os acidentes de carro como a principal causa de morte por lesão e se tornou também a principal causa de morte entre os militares da ativa.

Há muitas teorias sobre o porquê deste fenômeno. Uma delas aponta para o crescente isolamento social: é cada vez menos comum as pessoas terem um confidente ou um grupo regular de amigos ou vizinhos com quem possam contar. E a solidão leva ao desespero.

As palavras de São Pedro têm sido, há muito tempo, uma espécie de declaração de missão da apologética cristã: “Sabei dar razão da esperança que habita em vós”. O mundo está precisando dessas razões mais do que nunca.

4. A sexualização infantil

Quanto mais as crianças usam as mídias modernas, mais elas são convencidas de que a sexualidade é a coisa mais importante que existe. As meninas, em especial, recebem esta mensagem desde muito jovens, através de peças de vestuário, bonecas e programas de televisão carregados de sensualidade, sem falar no conteúdo online disponível 24 horas por dia.

O abuso sexual cometido contra crianças tem muito a ver com a sexualização infantil. Ironicamente, os escândalos de abuso sexual na Igreja católica ajudaram a desacelerar a tendência da aceitação do sexo com crianças.

A história reconhecerá que a Igreja admitiu e encarou os seus escândalos, enquanto o escândalo maior em nossas instituições formadoras de opinião, desde as escolas públicas até a indústria do entretenimento, permanece, comparativamente, desatendido.

5. A coisificação da mulher

As gerações futuras vão se perguntar como, numa época de ênfase nos direitos e nas oportunidades para as mulheres, a nossa cultura definiu as mulheres tão disseminadamente como objetos de prazer.

Uma das maiores máquinas de fazer dinheiro dentro da indústria do entretenimento é a pornografia. Nossa cultura está quase o tempo todo olhando para imagens sexuais, a maioria delas tendo as mulheres como objeto. As mulheres estão cada vez mais coisificadas, da “cultura do estupro” às imagens que nos rodeiam em quase todos os meios de comunicação. A epidemia de tráfico de seres humanos é o resultado triste, mas nem um pouco surpreendente, desta armadilha disfarçada de “liberdade”.

A Igreja, que enxerga muito além das dimensões sexuais e econômicas da mulher, é uma guardiã intransigente da dignidade feminina.

É inegável a realidade: o grande experimento da democracia ocidental nos trouxe mais oportunidades e mais liberdade do que qualquer outro momento da história. Mas as fraquezas da nossa cultura atual são fatais. Sem Deus, ruiremos completa e estrondosamente.

Tom Hoops

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Muito do que acontece nos Estados Unidos em pouco tempo passa a ser a “norma” nos outros países do mundo. Sob o governo liberal de Obama, os movimentos LGBT conseguiram grandes avanços em sua “agenda”, que foram eventualmente adotados também pela ONU. Depois do reconhecimento do casamento homoafetivo, a grande luta vem sendo pela imposição dos banheiros chamados “neutros”, onde não há mais distinção entre homem e mulher.

O episódio mais recente deste embate foi o processo contra o site de namoro ChristianMingle.com, o maior do mundo no segmento Cristão

O proprietário do site está sendo obrigado a permitir que pessoas LGBT se cadastrem e busquem pessoas do mesmo sexo para relacionamentos, mesmo que já existam sites somente para este público. Desde 2013 havia uma batalha jurídica sobre o assunto.

Dois homens gays abriram um processo alegando discriminação num tribunal da Califórnia. Eles afirmavam que sites cristãos impediam usuários à procura de relacionamentos homoafetivos.

O argumento dos advogados é que “as opções limitadas violam a lei anti-discriminação” em vigor no estado. Como a legislação vigente obriga “estabelecimentos comerciais” a oferecer “acomodações plenas e iguais” para todas pessoas, independentemente da sua orientação sexual, o debate centrou-se na interpretação de que a lei se aplicava a um serviço online.

No início deste mês, a Spark Networks, controladora do ChristianMingle, perdeu o caso. Além de pagar uma indenização de 9 mil dólares para cada um dos homens, foi obrigada a cobrir as despesas jurídicas, num total de 450 mil dólares.

A página inicial foi modificada e não possui mais a opção “homem procurando mulher” e “mulher procurando homem”. A empresa terá dois anos para ajustar suas ferramentas de busca para que gays e lésbicas tenham “uma experiência mais personalizada”.

Sendo assim, os termos do acordo agora obrigarão outros sites que pertencem a Spark: incluindo CatholicMingle.com, AdventistSinglesConnection.com e LDSSingles.com. Como o nome indica, os dois primeiros são voltados para o público cristão, católicos e adventistas, respectivamente.

O último é para mórmons, considerada uma seita do cristianismo, mas cuja doutrina também não aprova o estilo de vida gay. Só ficou fora do acordo o JDate.com, focado no público judeu, por que não foi mencionado no litígio.

A empresa nega que tenha cometido qualquer irregularidade, mas cumprirá os termos do acordo judicial para evitar ser obrigado a fechar.

Fobte Christian News via Gospel Prime

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Um relatório recente da Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos está causando grande debate na Europa. Segundo a avaliação do grupo de observadores da ONU que visitou o Reino Unido, há preocupação com o fato de crianças serem obrigadas a participar de serviços religiosos e de cultos.

Frequentar a igreja poderia ser uma “violação dos direitos humanos”, afirmam os responsáveis pelo Comitê das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança. Portanto, recomendaram que o governo “revogue as disposições legais sobre frequência obrigatória a encontros de adoração coletiva”.

Seguindo uma tradição histórica, a maior parte do sistema educacional do Reino Unido está nas mãos de igrejas. Até o quinto ano, a participação em cultos religiosos faz parte das atividades, como aulas de ensino religioso. Só estão dispensadas caso os pais não autorizem ou pertençam a outra fé.

O material compila 150 recomendações, apontando que a Grã-Bretanha pode estar violando a Carta da ONU sobre os Direitos da Criança em vários aspectos. No relatório não existe qualquer menção de violação de direitos humanos por parte da comunidade islâmica, que administra várias escolas.

Possivelmente por que o alto comissário da ONU para os Direitos Humanos é Zeid Ra’ad Al Hussein, um príncipe jordaniano, que professa a fé muçulmana. Também foi ignorado o artigo 18 da Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU, que garante a todo ser humano a “liberdade de manifestar sua religião ou crença”, em público ou em particular.

David Burrowes, um parlamentar conservador, afirma que esse relatório, deve ser jogado no lixo, que é o seu lugar devido. “O ato coletivo de adoração não é um exercício de doutrinação. É reconhecer e respeitar a herança cristã do país e dar às pessoas uma oportunidade para refletirem”, disparou.

Burrowes aproveitou para fazer uma cobrança séria: “A ONU deveria passar mais tempo fazendo o seu principal trabalho, de prevenção das guerras e do genocídio, em vez de meter o nariz nas salas de aula de outros países”.

Ele se referia ao fato da Organização se negar a reconhecer que existe um genocídio contra os cristãos em andamento no Oriente Médio.

Fonte: CBN

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Milhares de pessoas atendem ao chamado do Arcebispo local, Dom Antonio Cardeal Cañizares Llovera, e participam de ato de desagravo à Santíssima Virgem na plaza de la Virgen de Valencia.

O Cardeal convocou o ato em reação ao que chamou de “grave profanação” promovida pela organização do “Dia do Orgulho LGBT”, que divulgou um pérfido cartaz em que duas virgens aparecem se beijando. O Arcebispo fez constar sua “rejeição enérgica e plena” ao que qualificou como profanação “injusta e gratuita”.

O laicismo na Espanha cada vez mais toma posições extremas diante de uma Igreja fragilizada e temerosa. O Cardeal Cañizares, ao se posicionar publicamente contra a corrente, tem sido alvo da ira de muitos.

Fonte: Fratres in Unum

***

Quem promoveu o ataque foi a organização socialista Endavant. Veja detalhe da estrela vermelha no cartaz. Alguma surpresa?

Embora nenhuma ideologia tenha o apoio da Igreja, o socialismo prima pela desconstrução da Fé e dos valores cristãos, já que sua matriz ideológica é o marxismo. Não se trata apenas de pessoas socialistas que agem mas de uma linha de pensamento e de percepção do mundo, onde a fé não faz parte por supostamente “idiotizar o povo, amansando-o e não o deixando lutar pelos seus direitos”. Não são apenas manifestações individuais de ojeriza a fé, mas de algo planejado e pensado.

Talvez de todas, seja a pior, de mãos dadas com o feminismo radical, de onde nasceu a famigerada ideologia de gênero.

Fotos: El Mundo

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Em decisão recente, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) anulou um ato administrativo praticado em 2012 pelo Conselho Superior da Magistratura do Estado do Rio Grande do Sul. Através do referido ato administrativo, a cúpula do poder judiciário gaúcho havia determinado a retirada dos crucifixos das dependências dos fóruns.

Quem reclamou dos crucifixos? Constam do voto do relator do processo, conselheiro  Emmanoel Campelo, as seguintes entidades reclamantes: Rede de Saúde Feminista,  Comunicação Saúde e Sexualidade, Marcha Mundial de Mulheres, Grupo pela Livre Orientação Sexual e Liga Brasileira de Lésbicas.  

Quem lutou pela anulação do ato e, consequente recolocação dos crucifixos nos prédios forenses, que deverá ocorrer dentro em breve (assim esperamos)? A Arquidiocese de Passo Fundo. Portanto, cumprimentemos o povo de Deus dessa Igreja particular, na pessoa do administrador apostólico, dom Paulo de Conto!

Na decisão monocrática que anulou a ordem de recolhimento dos crucifixos, o conselheiro Campelo não se fundamentou em razões religiosas, mas em motivos culturais. Vejamos alguns excertos do brilhante voto:

“(…) entendo que os símbolos religiosos são também símbolos culturais, que corporificam as tradições e valores de uma cultura ou civilização, sintetizando-os. Nesse sentido, o crucifixo é um símbolo simultaneamente religioso e cultural, consubstanciando um dos pilares – o mais transcendente – de nossa civilização ocidental.”

“Evidencio, assim, que para acolher a pretensão de retirada de símbolos religiosos sob o argumento de ser o Estado laico, seria necessário, também, extinguir feriados nacionais religiosos, abolir símbolos nacionais, modificar nomes de cidades e até alterar o preâmbulo da constituição federal.” De fato, os constituintes erigiram um novo Estado sob a proteção de Deus, conforme está grafado no preâmbulo da constituição em vigor (cf. Edson Luiz Sampel in “Católico até debaixo d’água”, editora LTR, 2016, p. 77).

“(…) resta claro que a presença do crucifixo não significa uma mistura de religião e Estado, mas remete a uma questão histórico-cultural, sem ferir a liberdade religiosa ou privilegiar apenas uma crença.”

“O ato de retirar um crucifixo de espaço público, que tradicionalmente e historicamente o ostentava, é ato eivado de agressividade, intolerância religiosa e discriminatório, já que atende a uma minoria, que professa outras crenças, ignorando o caráter histórico do símbolo no judiciário brasileiro.”

 O conselheiro Campelo também transcreveu um artigo jornalístico escrito por Paulo Brossard (ex-juiz do Supremo Tribunal Federal – STF), à época da supressão dos crucifixos. Reproduzo abaixo um trecho dessa análise lapidar:

“A meu juízo, os crucifixos existentes nas salas de julgamento do tribunal lá não se encontram em reverência a uma das Pessoas da Santíssima Trindade, segundo a teologia cristã, mas a alguém que foi acusado, processado, julgado, condenado e executado, enfim justiçado até sua crucificação, com ofensa às regras legais históricas, e, por fim, ainda vítima de pusilanimidade de Pilatos, que, tendo consciência da inocência do perseguido, preferiu lavar as mãos e, com isso, passar à história.”

E diz, ainda, o mestre Brossard, citado pelo conselheiro do CNJ:

 “Em todas as salas onde existe a figura de Cristo, é sempre como o injustiçado que aparece, e nunca em outra postura, fosse nas bodas de Caná, entre os sacerdotes do templo, ou com seus discípulos na ceia que Leonardo Da Vinci imortalizou.”

Toda vez que um magistrado olha para um crucifico, precisa se conscientizar do perigo de uma injustiça. Deus encarnado padeceu a maior das injustiças perpetradas num processo judicial, lembra-nos o crucifixo afixado na parede.

Zenit

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Antes de obter o consentimento do Papa Francisco para uma entrevista com o La Croix, o nosso enviado especial permanente em Roma, Sébastien Maillard, teve que renovar várias vezes o seu pedido, mas, de acordo com o próprio papa, soube fazer isso de maneira “humilde”.

Antes, houve um acordo de princípio por parte do papa. Depois, em um domingo, um e-mail do padre Federico Lombardi, diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, marcou o encontro para a segunda-feira, 9 de maio, às 16h30. Uma lista de perguntas tinha sido previamente transmitida ao papa, a seu pedido.

Naquele dia, Sébastien Maillard e Guillaume Goubert, diretor de redação, acompanhados pelo padre Lombardi, dirigiram-se à Casa Santa Marta, onde reside o papa no Vaticano. Esperaram-no em uma sala no piso térreo. O papa chegou sozinho, com alguns minutos de antecedência.

Depois das fotos, a conversa ocorreu em italiano, mas, de vez em quando, o papa introduzia alguma expressão francesa: “Ah, la laïcité française!”, exclamou, arrastando maliciosamente a penúltima sílaba.

A conversa durou pouco mais de uma hora, em um clima descontraído. Concordou-se que o texto tirado da entrevista seria relido pelo papa antes da publicação. O papa, depois, foi embora, como tinha vindo, simples e sorridente, privadamente, assim como aparece em público.

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“É preciso integrar os migrantes”

Nos seus discursos sobre a Europa, o senhor fala das “raízes” do continente, mas sem jamais defini-las como cristãs. Em vez disso, define a identidade europeia como “dinâmica e multicultural”. Na sua opinião, a expressão “raízes cristãs” não é apropriada para a Europa?

É preciso falar de raízes no plural, porque há muitas. Nesse sentido, quando ouço falar de raízes cristãs da Europa, eu temo às vezes o tom, que pode ser triunfalista ou vingativo. E, então, torna-se colonialismo. João Paulo II falava disso com um tom tranquilo. A Europa, sim, tem raízes cristãs. O cristianismo tem o dever de “borrifá-las”, mas em um espírito de serviço, como no lava-pés. O dever do cristianismo, para a Europa, é o serviço. Erich Przywara, grande mestre de Romano Guardini e de Hans Urs von Balthasar, nos ensina: a contribuição do cristianismo a uma cultura é a de Cristo com o lava-pés, ou seja, o serviço e o dom da vida. Não deve ser uma contribuição colonialista.

O senhor fez um gesto forte, trazendo consigo refugiados de Lesbos para Roma, no dia 16 de abril. Mas a Europa pode acolher tantos migrantes?

É uma pergunta justa e responsável, porque não se pode escancarar as portas de forma irracional. Mas a pergunta de fundo a se fazer é por que há tantos migrantes hoje em dia. Quando eu fui para Lampedusa, há três anos, esse fenômeno já estava começando. O problema inicial são as guerras no Oriente Médio e na África, e o subdesenvolvimento do continente africano, que provoca a fome. Se há guerras, é porque existem fabricantes de armas – que se justificar pela defesa – e, sobretudo, traficantes de armas. Se há tanto desemprego, é por causa da falta de investimentos que possam gerar empregos, dos quais a África tanto precisa.

Isso levanta, de modo mais geral, a questão de um sistema econômico mundial que caiu na idolatria do dinheiro. Mais de 80% das riquezas da humanidade estão nas mãos de cerca de 16% da população. Um mercado completamente livre não funciona. O mercado, em si mesmo, é uma coisa boa, mas deve haver, como ponto de apoio, um terceiro, o Estado, para controlá-lo e equilibrá-lo. É o que se chama de economia social de mercado.

Voltemos aos migrantes. A pior acolhida é a de “guetizá-los”, enquanto, ao contrário, é preciso integrá-los. EmBruxelas, os terroristas eram belgas, filhos de migrantes, mas vinham de um gueto. Em Londres, o novo prefeito [Sadiq Khan, filho de paquistaneses muçulmanos] prestou juramento em uma catedral e, sem dúvida, será recebido pela rainha. Isso demonstra para a Europa a importância de reencontrar a sua capacidade de integrar. Eu penso em Gregório Magno [papa de 590 a 604], que negociou com aqueles que eram chamados de bárbaros, que, depois, se integraram. Essa integração é ainda mais necessária hoje em dia, quando a Europa conhece um grave problema de desnatalidade, em razão de uma busca egoísta de bem-estar. Instala-se um vácuo demográfico. Na França, no entanto, graças à política familiar, essa tendência é atenuada.

O medo de acolher os migrantes se alimenta, em parte, do medo do Islã. Na sua opinião, o medo causado por essa religião na Europa é justificado?

Eu não acho que agora haja um medo do Islã como tal, mas do Daesh e da sua guerra de conquista, tirada em parte do Islã. A ideia de conquista é inerente à alma do Islã, é verdade. Mas ela poderia ser interpretada com a mesma ideia de conquista, no fim do Evangelho de Mateus, em que Jesus envia os seus discípulos a todas as nações. Diante do atual terrorismo islamista, seria oportuno nos interrogarmos sobre a maneira pela qual foi exportado um modelo de democracia, ocidental demais, para países em que havia um poder forte, como no Iraque. Ou na Líbia, que tem uma estrutura tribal. Como dizia um líbio há algum tempo: “Antigamente, nós tínhamos Gaddafi. Agora temos 50!”. No fundo, a coexistência entre cristãos e muçulmanos é possível. Eu venho de um país onde eles convivem em boa familiaridade. Lá, os muçulmanos veneram a Virgem Maria e São Jorge. Em um país da África, me disseram, para o Jubileu da Misericórdia, os muçulmanos fazem uma longa fila na catedral para passar pela porta santa e rezar para a Virgem Maria. Na África Central, antes da guerra, cristãos e muçulmanos viviam juntos e devem reaprender a fazer isso hoje. O Líbano também demonstra que isso é possível.

O peso que o Islã tem hoje na França, assim como o vínculo histórico do país com o cristianismo, levantam problemas recorrentes sobre o lugar das religiões no espaço público. Qual é, na sua opinião, uma boa laicidade?

Um Estado deve ser laico. Os Estados confessionais acabam mal. Isso vai contra a história. Eu acho que uma laicidade acompanhada por uma lei sólida que garanta a liberdade religiosa oferece um quadro para se seguir em frente. Nós somos todos iguais, como filhos de Deus ou com a nossa dignidade de pessoa. Mas cada um deve ter a liberdade de exteriorizar sua própria fé. Se uma mulher muçulmana quer usar o véu, ela deve poder fazer isso. Assim também se um católico quer portar uma cruz. Deve-se poder professar a própria fé, não ao lado, mas dentro da cultura. Uma pequena crítica que eu dirigiria para a França a esse respeito é de exagerar a laicidade. Isso provém de uma maneira de considerar as religiões como uma subcultura e não como uma cultura, para todos os efeitos. Eu temo que essa abordagem, que se compreende como a herança do Iluminismo, ainda esteja presente. A França deveria dar um passo a mais nesse assunto, para aceitar que a abertura à transcendência é um direito de todos.

Em um quadro laico, como os católicos deveriam se posicionar para defender as suas posições sobre questões éticas, como a eutanásia ou o casamento entre pessoas do mesmo sexo?

É no Parlamento que se deve discutir, argumentar, explicar, raciocinar. Desse modo, uma sociedade cresce. Assim que a lei for votada, o Estado deve respeitar as consciências. Em toda estrutura jurídica, a objeção de consciência deve estar presente, porque é um direito humano, incluindo para um funcionário do governo, que é uma pessoa humana. O Estado também deve respeitar as críticas. Essa é uma verdadeira laicidade. Não podemos deixar de levar em conta os argumentos dos católicos, dizendo-lhes: “Você fala como um padre”. Não, eles se apoiam no pensamento cristão, que a França desenvolveu de forma notável.

O que a França representa para o senhor?

La fille aînée de l’Église… mais pas la plus fidèle! [A filha mais velha da Igreja… mas não a mais fiel!] (risos). Nos anos 1950, também se dizia: “França, país de missão”. Nesse sentido, é uma periferia a ser evangelizada. Mas precisamos ser justos com a França. A Igreja lá possui uma capacidade criativa. A França também é uma terra de grandes santos, de grandes pensadores: Jean Guitton, Maurice Blondel, Emmanuel Levinas – que não era católico –, Jacques Maritain. Penso igualmente na profundidade da sua literatura. Eu também aprecio como a cultura francesa impregnou a espiritualidade jesuíta em relação à corrente espanhola, mais ascética. A corrente francesa, que começou com Pedro Fabro, embora sempre insistindo no discernimento do espírito, dá outro sabor. Com os grandes espirituais franceses:Louis Lallemand, Jean-Pierre de Caussade. E com os grandes teólogos franceses, que tanto ajudaram a Companhia de Jesus: Henri de Lubac e Michel de Certeau. Eu gosto muito destes dois últimos: dois jesuítas que são criativos. Em suma, é isso que me fascina da França. Por um lado, essa laicidade exagerada, a herança da Revolução Francesa e, por outro, tantos grandes santos.

Qual é o santo ou a santa que o senhor prefere?

Santa Teresa de Lisieux.

O senhor prometeu ir para a França. Quando imagina que poderá fazer essa viagem?

Recentemente, eu recebi uma carta de convite do presidente François Hollande. A Conferência Episcopal também me convidou. Não sei quando vai acontecer essa viagem, porque o ano que vem é eleitoral na França, e, em geral, a prática da Santa Sé é de não fazer tal deslocamento nesse período. No ano passado, tínhamos começado a levantar hipóteses em vista dessa viagem, incluindo uma passagem por Paris e pela sua periferia, por Lourdes e por uma cidade aonde nenhum papa se dirigiu, Marselha, por exemplo, que representa uma porta aberta para o mundo.

A Igreja na França vive uma grave crise de vocações sacerdotais. Como fazer hoje com tão poucos padres?

A Coreia oferece um exemplo histórico. Esse país foi evangelizado por missionários vindos da China que, depois, voltaram para a China. Mais tarde, durante dois séculos, a Coreia foi evangelizada por leigos. É uma terra de santos e de mártires que hoje tem uma Igreja forte. Para evangelizar, não é preciso de padres necessariamente.

O batismo dá a força para evangelizar. E o Espírito Santo, recebido no batismo, impulsiona a sair, a levar a mensagem cristã, com coragem e paciência. É o Espírito Santo o protagonista daquilo que a Igreja faz, o seu motor. Muitos cristãos ignoram isso. Ao contrário, um perigo para a Igreja é o clericalismo. É um pecado que se comete a dois, como o tango!

Os padres querem clericalizar os leigos, e os leigos pedem para ser clericalizados, por facilidade. Em Buenos Aires, eu conheci inúmeros bons párocos que, vendo um leigo capaz, logo exclamavam: “Façamos dele um diácono!”. Não, é preciso deixá-lo como leigo. O clericalismo é particularmente importante na América Latina. Se a devoção popular lá é forte, é justamente porque é a única iniciativa dos leigos que não é clerical. E continua sendo mal compreendida pelo clero.

A Igreja na França, particularmente em Lyon, está sendo atualmente atingida por escândalos de pedofilia que remontam ao passado. O que se deve fazer nessa situação?

É verdade que não é fácil julgar determinados fatos depois de décadas, em outro contexto. A realidade nem sempre é clara. Mas, para a Igreja, nesse âmbito, não pode haver prescrição. Para aqueles abusos, um padre que tem vocação de levar uma criança para Deus a destrói. Dissemina o mal, o ressentimento, a dor. Como disse Bento XVI, a tolerância deve ser zero. Com base nos elementos de que eu disponho, eu acredito que, em Lyon, o cardeal Barbarin tomou as medidas necessárias, tomou as coisas bem em mãos. É corajoso, criativo, missionário. Agora, devemos esperar pelo prosseguimento do processo perante a justiça civil.

Portanto, o cardeal Barbarin não deve renunciar?

Não, seria um contrassenso, uma imprudência. Depois da conclusão do processo, isso será visto. Mas, agora, seria como se declarar culpado.

No dia 1º de abril, o senhor recebeu Dom Bernard Fellay, superior-geral da Fraternidade Sacerdotal São Pio X. Está novamente prevista a reintegração dos lefebvrianos na Igreja?

Em Buenos Aires, eu sempre falei com eles. Eles me cumprimentavam, me pediam uma bênção de joelhos. Eles amam a Igreja. Dom Fellay é um homem com quem se pode dialogar. Não é assim com outros elementos um pouco estranhos, como Dom Williamson, ou outros que se radicalizaram. Eu acho que, como já disse na Argentina, eles são de católicos a caminho da plena comunhão. Durante um Ano da Misericórdia, pareceu-me que eu devia autorizar os seus confessores a perdoar o pecado do aborto. Eles me agradeceram por esse gesto. Antes, Bento XVI, que eles respeitam muito, tinha liberado a missa segundo o rito tridentino. Dialoga-se bem, faz-se um bom trabalho.

O senhor estaria disposto a lhes conceder um status de prelazia pessoal?

Seria uma solução possível, mas, em primeiro lugar, é preciso estabelecer um acordo de fundo com eles. O Concílio Vaticano II tem o seu valor. Prossegue-se lentamente, com paciência.

O senhor convocou dois sínodos sobre a família. Esse longo processo, na sua opinião, mudou a Igreja?

É um processo que começou com o consistório [de fevereiro de 2014], introduzido pelo cardeal Kasper, antes de um Sínodo extraordinário em outubro do mesmo ano, seguido por um ano de reflexão e por um Sínodo ordinário. Acho que todos saímos diferentes desse processo em relação a como entramos. Eu também. Na exortação pós-sinodal [Amoris laetitia, de abril de 2016], eu tentei respeitar ao máximo o Sínodo. Vocês não vão encontrar detalhes canônicos sobre o que se pode ou se deve fazer ou não fazer. É uma reflexão serena, pacífica, sobre a beleza do amor, sobre como educar os filhos, como se preparar para o matrimônio… Ela valoriza as responsabilidades que poderiam ser acompanhadas pelo Pontifício Conselho para os Leigos, sob a forma de orientações de fundo.

Além desse processo, devemos pensar na verdadeira sinodalidade, ao menos naquilo que significa a sinodalidade católica. Os bispos estão cum Petro, sub Petro [com o sucessor de Pedro e sob o sucessor de Pedro]. Isso difere da sinodalidade ortodoxa e da sinodalidade das Igrejas greco-católicas, em que o patriarca conta como um único voto. OConcílio Vaticano II dá um ideal de comunhão sinodal e episcopal. Ainda é preciso fazê-lo crescer, mesmo em nível paroquial, levando-se em conta do que está prescrito. Existem paróquias que não estão dotadas nem de um conselho pastoral, nem um conselho para assuntos econômicos, enquanto o Código de Direito Canônico exige isso expressamente. A sinodalidade também se joga nesse nível.

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Os ataques laicistas se multiplicam a cada dia na Espanha e cada vez mais comunidades autônomas os sofrem. O partido ‘Podemos’ (Esquerdista / Socialista) é um dos principais impulsionadores de todas as iniciativas contra a religião católica, embora não sejam os únicos.

Se for analisar os últimos seis meses, encontram-se diferentes assaltos e ofensivas a igrejas, desprezos aos católicos e suas tradições… mas todas elas têm um fim comum: que a Igreja Católica deixe de estar presente na vida pública da Espanha.

A seguir, alguns dos casos mais conhecidos de ataques laicistas:

Semana Santa de Ferrol

O prefeito do Partido ‘Podemos’, Jorge Suárez, decidiu reduzir os subsídios municipais e a grande afetada destes recortes foi a Semana Santa. O prefeito pretendia reduzir o valor das procissões e acabar com uma celebração histórica, declarada de Interesse Turístico Internacional.

Fechamento de capelas universitárias em Oviedo

Por um lado, a capital asturiana viu como a associação ‘Europa Laica’ (Europa Leiga) pediu o fechamento de capelas em universidades públicas. Além disso, Pedro Sánchez em seu programa pretendia retirar os símbolos religiosos dos lugares públicos, entre elas estava Cruz da Vitória da bandeira asturiana.

Exposição sacrílega em Pamplona

A Prefeitura permitiu a exposição sacrílega de Abel Azcona, uma montagem realizada com mais de 200 hóstias consagradas roubadas durante as Missas, com as quais o “artista” formou a palavra pederastia.

Tentativa de expropriação da Catedral de Jaca

Foi uma nova tentativa de expropriar a Catedral de Jaca e que recorda a ofensiva feita pela esquerda para realizar o mesmo com a mesquita-catedral de Córdoba há um ano. A campanha procurava a expropriação e que a Catedral deixasse de estar nas mãos da Igreja.

Foi uma iniciativa de Pablo Echenique, presidente de ‘Podemos Aragón’, e do Movimento para um Estado Leigo, associação aragonesa que persegue a devolução do patrimônio artístico/cultural eclesiástico ao povo e a lei de eutanásia, entre outros fins.

Pichações em uma Igreja em Lérida

“Pretendemos atacar aberta e diretamente a direita ultracatólica e a ofensiva conservadora”, afirmou a organização Arran, pertencente às juventudes da CUP, em um comunicado no qual reivindicam a autoria das pichações nas paredes da fachada da igreja. A organização Arran promove a luta feminista e a desobediência.

Proibição de uma procissão em Palafolls e Hospitalet

Uma multidão decidiu apoiar os legionários enquanto escoltava um Cristo crucificado nas cidades catalãs. A prefeita havia proibido a procissão pela presença de legionários na comitiva, mas as procissões se converteram em um ato pela liberdade religiosa.

“Pai Nosso blasfemo” em Barcelona

O Pai Nosso blasfemo que a poetisa Dolors Miquel leu ao receber o prêmio Ciutat de Barcelona no último dia 15 de fevereiro chegou aos tribunais. Mas não é o único ataque que receberam os cristãos na cidade catalã.

Ada Colau pretendia expropriar e derrubar a Igreja da Santa María de Gracia, pois considerava que o templo estava inutilizado.

Zombaram dos cristãos de Nules

O humorista Xavi Castilla foi contratado para atuar no município de Nules com um monólogo humorístico, organizado pela companhia Pot de Plom. Entretanto, os vizinhos reclamaram que “o próprio pôster anunciador é uma provocação e Xavi Castilla já demostrou várias vezes que costuma zombar dos católicos, como parte importante de sua ironia e de seu humor”.

Insultaram a Igreja em Palma

Um estudante decidiu apresentar como trabalho para a disciplina de desenho um videoclipe através do qual não somente insultava a Igreja Católica, mas também fazia comentários ofensivos contra os cristãos. A professora, ao invés de frear o ataque laicista, decidiu premiar o jovem com uma qualificação excelente.

Fechamento de capelas nos cemitérios de Valência

O município de Valência, governado pelos esquerdistas de ‘Compromís’, fez várias proibições nos cemitérios da cidade. Por um lado, querem mudar os nomes das capelas pelo nome de “salas de cerimônia”. Além disso, querem retirar os crucifixos dos locais públicos e ocultar as imagens da Virgem dos Desamparados (padroeira de Valência), assim como os vitrais da Mãe de Deus.

Sem presença institucional na Semana Santa de Murcia

O município de Murcia chegou a debater uma moção apresentada por ‘Cambiemos Murcia’ para que nesta Semana Santa não existisse “simbologia religiosa nos locais públicos que dependam do município”.

Ataques contra a liberdade religiosa em Ursina e Sevilha

O Guarda Civil de Ursina prendeu duas mulheres por supostamente cometer um delito contra o patrimônio histórico e outro contra a liberdade religiosa depois dos danos causados à imagem de Jesus Nazareno de Ursina. Uma das presas subiu em uma mesa situada junto ao altar e, com um objeto de pequenas dimensões, destruiu o rosto da imagem e fugiu.

Por outro lado, a cidade sevilhana enfrentou uma iniciativa promovida pelo IU-CA e apoiada por ‘Podemos’ a fim de separar “plenamente” a instituição municipal da religião. Além disso, teve que imputar por um delito contra os sentimentos religiosos três mulheres que participaram de uma procissão blasfema.

Os hospitais em Castilla La Mancha sem capelães

O socialista Emiliano García-Page decidiu impor o laicismo em Castilla La Mancha. Primeiro fez um acordo com ‘Podemos’, partido com o qual governa, para reduzir o financiamento da educação concertada (centros de natureza privada, mas subvencionados pelo governo), e agora aprovou uma Proposição a fim de eliminar os capelães dos hospitais. Esta medida afetaria os 19 hospitais e deixaria sem assistência espiritual milhares de doentes católicos.

Madri, a capital do laicismo

O vereador de ‘Ahora Madri’, Guillermo Zapata, decidiu trocar o nome das festas de um bairro madrileno. Por isso, já não são chamadas festas da Virgem do Pilar, mas festas do bairro do Pilar.

Rita Maestre, porta-voz do município de Madri, invadiu a capela da Universidade Complutense, em 2011, e agora se agarra ao cargo, apesar de ter sido multada e condenada como autora de um delito contra os sentimentos religiosos.

E a prefeita Manuela Carmena também realizou ataques laicistas. Decidiu retirar os presépios da capital e substituiu a tradicional Cavalgata de Reis, além de patrocinar uma apresentação de bonecos que zombavam da religião católica, nos quais batiam nas religiosas.

ACI

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O colégio Reina de la Paz, na localidade de Brunete, em Madri (Espanha), sofreu uma série de atos de vandalismo. Durante a madrugada do último sábado, 9, desconhecidos realizaram pichações ofensivas contra a fé.

A direção do colégio enviou um comunicado no qual assegura que atos como este “nos levam a pensar que hoje, mais do que nunca, vale a pena dedicar-se à causa de Cristo”.

“Denunciamos estes acontecimentos e, a partir de agora, trabalharemos ainda mais em impulsionar o colégio, pois vemos a necessidade de evitar que estes tipos de atos ocorram novamente e a melhor forma é promover a educação enraizada na Verdade, Jesus Cristo”, afirmam.

O Colégio Reina da Paz “promove a educação em virtudes, virtudes que orientam nossa personalidade e nossos atos para o bem” e indicam que “esse é o fim da pessoa: fazer sempre o bem, apesar das circunstâncias”.

Também agradeceram o apoio do prefeito da cidade de Brunete, Borja Gutiérrez Iglesias, o primeiro a denunciar publicamente os fatos nas redes sociais, e um grande número de vizinhos que manifestaram seu apoio e afeto.