Quando o padre estendeu a mão e tocou com ternura o rosto do menino, não consegui me controlar. E isso só se intensificou. Quando o Papa Francisco chamou o relutante Emanuele para perguntar baixinho onde estava seu amado pai depois da morte, eu chorava tanto que as outras pessoas na fila do Starbucks tiraram os olhos do celular. Eu pedi desculpas pela exposição, murmurando, e continuei vendo o resto das incríveis filmagens do Papa Francisco sendo pastoral: um bom pastor, com o menor cordeiro no colo, perto do coração. Emanuele queria saber: será que seu pai estava mesmo no céu, mesmo sendo descrente?

Por que eu chorava? Por que este videozinho de um senhor sendo simpático com um garotinho me tocou e tocou muitas outras pessoas tão profundamente? Acho que foi porque Francisco nos mostrou como arriscar ao simplesmente abraçar o mundo que sofre. Sem explicação, apenas amor. Assim é o amor em ação, ele fala conosco de uma forma que as palavras não conseguem. Francisco corta a distância entre o Papa e a criança, entre o crente e o incrédulo, e chega ao núcleo: somos humanos.

Francisco se recusa a não estar presente para um coração ferido.

Quando o Papa Francisco diz que “Deus é o único que diz quem vai para o céu”, ele evita se colocar acima de Deus ou idolatrar as nossas regras humanas e nossa compreensão limitada de Deus. Ele escolhe agir com base no que ele sabe de Deus, em vez de limitá-lo conjecturando sobre a vida após a morte. Sim, continua sendo verdade — de acordo com nosso melhor palpite e nossa tradição cuidadosamente pensada, com base no Evangelho e no consagrado Catecismo da Igreja Católica — que “os que morrerem na graça e na amizade de Deus e estiverem perfeitamente purificados, viverão para sempre com Cristo” (Nº 1023). E isso colocaria o pai de Emanuele, um ateu, fora da possibilidade de ir para o céu.

Mas “Deus é o único que pode dizer quem vai para o céu”. Não é o Papa, nem eu, nem você, mas Deus.

Assegurar a Emanuele que um Deus amoroso aceitaria seu pai no céu diz mais sobre Deus do que sobre o céu. A realidade é que não sabemos muita coisa sobre o céu. Mas sabemos muito sobre Deus. E espero que possamos concordar que Deus é amor. Não apenas porque encontramos essa afirmação de forma clara nas Escrituras, mas porque é assim que vivenciamos Deus em nossas vidas. E quase todas as especulações sobre a vida após a morte é estruturada pelo que pensamos sobre Deus. 

Estamos dispostos a deixar Deus ser Deus? E se acreditamos que Deus é amor, podemos seguir em frente e acreditar que Ele vai fazer a coisa certa. É muito difícil que o amor não seja amável. Sabemos se nossos entes queridos estão no céu? Lembre-se de que dizemos que são nossos entes queridos não só porque nós os amamos, mas porque Deus os amou primeiro e continua a amá-los. Então podemos continuar confiando no amor de Deus.

Às vezes é possível contrastar a verdade técnica da doutrina da Igreja com sua aplicação pastoral. Mesmo que o povo de Deus não possa lidar com a verdade, sendo melhor alimentado com banalidades fracas em termos do amor de Deus. E eu não acho que o Papa Francisco tenha feito isso com o jovem Emanuele. Ele não estava apenas sendo simpático, evitando dizer a um menino a verdade nua e crua de que seu pai não estava no céu. Não é assim que funciona.

Uma resposta pastoral é articular a doutrina da Igreja diante da vulnerabilidade humana. É destacar da doutrina os ingredientes básicos do amor e do acolhimento — na forma do convite permanente para seguir a Cristo em uma relação radical com o mundo. E isso nos move. Vemos nosso líder amando de uma forma que queremos amar, sendo vulnerável e confiando assim como queremos confiar. E se o Papa consegue resistir a incorporar o Deus Todo-Poderoso, será que nós não podemos tentar?

Jack Bentz, S.J., em artigo publicado pela revista América.

O arcebispo emérito de Milão, Angelo Scola, participou da apresentação do livro de Massimo Borghesi intitulado Jorge Mario Bergoglio. Una biografia intellettuale (Ed. Jaca Book), (imagem acima) organizada pelo Centro Cultural de Milão.

Ao lado dele, além do autor do livro, estava o encarregado da vice-presidência da Pontifícia Comissão para a América Latina, Guzmán Carriquiry Lecour. Foi uma das primeiras saídas públicas do cardeal, depois de deixar a liderança da diocese. E foi também a oportunidade, graças ao livro de Borghesi, para desfazer aquelas que Scola chama de “lendas urbanas” sobre o Papa Bergoglio, seu pensamento, sua formação teológica.

Carriquiry – que teve um papel de interface entre Borghesi e o papa para com que o autor obtivesse as quatro preciosas gravações de áudio nas quais Bergoglio responde às perguntas do professor – começou lembrando “a abundância de publicações” que dizem respeito ao atual pontífice, uma abundância que muitas vezes dificulta distinguir e “hierarquizar” as várias contribuições.

Ele não poupou críticas à “superexposição midiática” do papa e à “autorreferencialidade” de muitas contribuições, que tendem “a separar a sua figura do povo de Deus”, tornando-o quase um super-herói. Tentativas de sinal diferente e às vezes oposto, que têm o efeito de olhar para o dedo que indica a lua, em vez da lua, isto é, para a pessoa e a personalidade do pontífice, em vez da sua mensagem.

“O livro de Borghesi – continuou – se separa claramente de toda essa superabundância de títulos e contribuições, e ajuda a conhecer melhor a sua personalidade, não apenas intelectual.” Carriquiry recordou que “o Papa Francisco não tem a pretensão de se definir como ‘teólogo’” e que a sua mensagem consegue passar graças à “gramática da simplicidade, que nunca é simplismo”, porque “se concentra no essencial”.

As raízes dessa abordagem, evidente no documento programático do pontificado, a exortação Evangelii gaudium, devem ser buscadas no documento final de Aparecida, redigido ao término do encontro do episcopado latino-americano no santuário mariano mais importante do Brasil, em 2007.

Por fim, o encarregado da vice-presidência da Pontifícia Comissão para a América Latina, de origem uruguaia, mas que passou a maior parte de sua vida trabalhando na Cúria Romana, lembrou a “tolice daqueles ambientes que olham de cima para baixo para o ‘papa latino-americano’”, com a mesma atitude daqueles que, no início do pontificado de João Paulo II, olhavam com arrogância para o “papa polonês”.

Tomando a palavra, o cardeal Scola sublinhou acima de tudo a importância do encorpado volume de Borghesi – embora lamentando com um sorriso o corpo tipográfico escolhido, “um pouco pequeno demais para quem tem a minha idade” – e o definiu como “um empreendimento difícil e complexo”, com “um resultado precioso para a Igreja universal”.

O papado de Francisco, explicou o arcebispo emérito de Milão, assumindo a imagem usada muitas vezes pelo pontífice, “é um papado poliédrico, e é um magistério poliédrico”. Scola disse que o livro de Borghesi ajuda “a superar certas lendas urbanas” e ressaltou que o pensamento de Francisco é “muito sólido”. “É preciso desfazer um preconceito – continuou –, aquele de acordo com o qual um pensador católico, especialmente um teólogo, deve necessariamente ser um acadêmico. Não é assim”.

Os papas teólogos são uma exceção na série dos sucessores do apóstolo Pedro e, em todo caso, explicou Scola, “não é necessário que um pensamento forte venha de um acadêmico”. Depois, o cardeal se deteve na novidade representada pelo primeiro papa latino-americano que, com seu modo de testemunhar a fé, envolve também os mais distantes com uma abertura de 360 graus, “que passa muito através dos gestos e das imagens, e não apenas através das palavras, como, ao contrário, nós, europeus, estamos acostumados”, herdeiros de visões intelectualistas.

E aqui Scola fez uma pergunta sobre a recepção do pontificado a cinco anos da eleição de Francisco, que representou “um soco no estômago ou, melhor, um despertador para nós”. “Eu não sei o quanto assumimos esse despertador, ou o quanto ainda estamos nos defendendo do desafio que ele representa.” Com atitudes que, em vez de levar a sério o testemunho do papa, a conversão pastoral que ele pediu a toda a Igreja, são de defesa e, às vezes, tentam reduzir o pontificado ou de enquadrá-lo nas cômodas categorias do latino-americano que não entende a Europa, em vez de se deixar pôr em discussão.

O cardeal recordou depois que, nos anos 1960 e 1970, os futuros membros da Companhia de Jesus eram educados durante ao estudo aprofundado de pensadores importantes, bem identificados no livro de Borghesi, como Erich Przywara, Henri de Lubac, Gaston Fessard e Romano Guardini. “A formação do Papa Francisco– explicou Scola – é uma formação não acadêmica, mas nem por isso menos sólida.”

O arcebispo emérito de Milão concluiu dando alguns exemplos da influência desses autores, alguns dos mais citados no livro, lembrando também o tema da polaridade e do “pensamento tensionador” caro a Bergoglio, que o busca em Fessard e em Guardini, propondo a imagem de uma Igreja inclusiva, englobante e capaz de unir os polos opostos sem anulá-los. E lembrou também que, a partir dos anos 1990, o então arcebispo Bergoglio conhecera os textos do Pe. Luigi Giussani.

No seu agradecimento final, Borghesi contou brevemente alguns dos resultados da sua viagem através do pensamento dos mestres sobre os quais Bergoglio foi formado. A formação intelectual do futuro papa permite “compreender o olhar complexo e poliédrico que guia o atual pontificado. Tendo-se formado na escola dos jesuítas, dos franceses em particular, Bergoglio assimilou a mensagem de Santo Inácio através da leitura, ‘dialética e mística’ ao mesmo tempo, de um dos mais importantes filósofos do século XX: Gaston Fessard. Daí surge a ideia do catolicismo como ‘coincidentia oppositorum’que o leva ao encontro com a antropologia polar de Romano Guardini e com o pensamento do mais relevante intelectual católico latino-americano da segunda metade do século XX: Alberto Methol Ferré”.

Entre os exemplos citados no livro, está o que diz respeito à “relação entre graça e liberdade, entre ação divina e humana”, que “demonstra estar vivo apenas como pergunta e não como uma fórmula ‘perfeita’: trata-se de uma persuasão que estará no centro do pensamento de Bergoglio. Sua crítica ao ‘doutrinarismo’, ao dogmatismo abstrato, à petrificação da Revelação se originam a partir daqui: da ideia de que a fé, antes de ser uma resposta, é uma pergunta, uma abertura do coração a uma Presença de graça. Essa pergunta deve ser vivida, deve se tornar experiência, verificação de uma relação real, entre o ser humano e Deus, no cenário da história”.

Do encontro milanês, além do evidente convite à leitura do livro, surgiu principalmente uma modalidade autenticamente eclesial de se relacionar com o papa (com o atual, assim como com todos os outros), a partir não do preconceito ou do juízo pessoal sobre este ou aquele aspecto do pontificado, mas sim a partir do olhar de fé e, portanto, da pergunta sobre o passo que o Espírito Santo pede que cada um dê, levando a sério o testemunho e o magistério do sucessor de Pedro.

Fonte: Vatican Insider

Gaudete et Exsultate, sobre o chamado à santidade no mundo atual” é a terceira Exortação Apostólica do Papa Francisco – depois da Evangelii Gaudium e da Amoris laetitia – durante o seu Pontificado, que acaba de completar 5 anos.

Na introdução, o Papa explica: “O Senhor pede tudo e, em troca, oferece a vida verdadeira, a felicidade para a qual fomos criados”. “Quer-nos santos e espera que não nos resignemos com uma vida medíocre, superficial e indecisa. Com efeito, a chamada à santidade está patente, de várias maneiras, desde as primeiras páginas da Bíblia; a Abraão, o Senhor propô-la nestes termos: ‘anda na minha presença e sê perfeito’”.

Francisco explica que “não se deve esperar aqui um tratado sobre a santidade, com muitas definições e distinções que poderiam enriquecer este tema importante ou com análises que se poderiam fazer acerca dos meios de santificação”.

“O meu objetivo é humilde: fazer ressoar mais uma vez a chamada à santidade, procurando encarná-la no contexto atual, com os seus riscos, desafios e oportunidades, porque o Senhor escolheu cada um de nós ‘para ser santo e irrepreensível na sua presença, no amor’”, acrescentou.

A Exortação se dividida em 5 capítulos: O chamado à santidade; Dois inimigos sutis da santidade; À luz do Mestre; Algumas características da santidade no mundo atual; Luta, vigilância e discernimento, distribuídos em 177 parágrafos.

Além disso, trata-se do primeiro documento deste tipo que está dirigido em primeira pessoa ao leitor. O Papa inclusive pergunta: “És uma consagrada ou um consagrado? Sê santo, vivendo com alegria a tua doação. Estás casado? Sê santo, amando e cuidando do teu marido ou da tua esposa, como Cristo fez com a Igreja. És um trabalhador? Sê santo, cumprindo com honestidade e competência o teu trabalho ao serviço dos irmãos. És progenitor, avó ou avô? Sê santo, ensinando com paciência as crianças a seguirem Jesus. Estás investido em autoridade? Sê santo, lutando pelo bem comum e renunciando aos teus interesses pessoais”.

Os santos “ao pé da porta”

“Na Igreja, santa e formada por pecadores, encontrarás tudo o que precisas para crescer rumo à santidade”, acrescenta depois destas perguntas.

Francisco pede para pensar nos “santos ao pé da porta”, ou seja, não só nos que “já foram beatificados ou canonizados”. “Gosto de ver a santidade no povo paciente de Deus: nesta constância de continuar a caminhar dia após dia, vejo a santidade da Igreja militante. A santidade ‘ao pé da porta’, ‘a classe média da santidade’”.

O Pontífice destaca que “cada santo é uma missão; é um projeto do Pai que visa refletir e encarnar, num momento determinado da história, um aspeto do Evangelho”.

Neste exercício da santidade, “não é saudável amar o silêncio e esquivar o encontro com o outro, desejar o repouso e rejeitar a atividade, buscar a oração e menosprezar o serviço”, pois a relação com os outros é fundamental.

ACI

O jornalista italiano Eugenio Scalfari, do jornal ‘La Repubblica’, assegurou que, em um recente encontro, o Papa Francisco disse que “não existe um inferno” e que “é uma honra ser chamado de revolucionário”. Mas, o que realmente é verdade nesta publicação? O Vaticano se pronunciou.

Scalfari admitiu há algum tempo que as suas entrevistas são feitas sem um aparelho de gravação, mas “tento entender a pessoa que estou entrevistando”, e depois disso escrevo “suas respostas com minhas próprias palavras”.

Na entrevista publicada em 28 de março, Quarta-feira Santa, Scalfari assegurou que o Papa disse que as pessoas que se arrependem “obtêm o perdão de Deus, mas as pessoas que não se arrependem, e portanto, não podem ser perdoadas, desaparecem”. “Não existe um inferno, existe o desaparecimento das almas pecaminosas”, disse o Santo Padre, segundo o jornalista italiano.

Scalfari intitulou o seu artigo atribuindo ao Papa Francisco a frase: “É uma honra ser chamado de revolucionário”.

Entretanto, a Sala de Imprensa da Santa Sé explicou que a publicação de Scalfari “é o resultado de sua reconstrução” de uma reunião privada com o Papa, que não era uma entrevista, e que não se trata de “palavras textuais”.

Em seu comunicado divulgado 29 de março, a Sala de Imprensa do Vaticano indicou que “o Santo Padre recebeu recentemente, o fundador do jornal italiano ‘La Repubblica’, numa reunião privada por ocasião da Páscoa, mas sem lhe dar nenhuma entrevista”.

“O que é relatado pelo autor no artigo de hoje é o resultado de sua reconstrução, em que as palavras textuais pronunciadas pelo Papa não são citadas”, acrescenta.

“Portanto, nenhuma citação do artigo mencionado deve ser considerada como uma transcrição fiel das palavras do Santo Padre”, disse o Vaticano.

De fato, as supostas declarações citadas por Scalfari se contradizem com repetidas exortações do Papa Francisco a não cair nas mentiras do diabo, e até mesmo explicações do que é o inferno.

Em março de 2015, o Papa Francisco se reuniu com um grupo de fiéis italianos e indicou: “O inferno é querer afastar-se de Deus porque não quero o amor dele”.

Assim “vai ao inferno somente aquele que diz a Deus: ‘Não preciso de você, eu me arranjo sozinho’, assim como fez o diabo que é o único que temos certeza que está no inferno”, disse o Santo Padre na ocasião.

ACI Digital

Se um tal acordo muito comentado entre o Vaticano e a China para a nomeação episcopal for finalizado este ano, ele irá destacar a assertividade internacional que tem sido uma característica do pontificado do Papa Francisco. No entanto, irá também ser altamente polêmico, levantando uma dúvida sobre a distância em que Roma se encontra quanto a entender as dinâmicas contemporâneas de poder e até que ponto se pode confiar nelas.

Jonathan Luxmoore cobre notícias religiosas a partir de Oxford, na Inglaterra, e Varsóvia, na Polônia. “The God of the Gulag” (Gracewing, 2016) é um estudo seu publicado em dois volumes sobre os mártires da era comunista.

Nos cinco anos desde a eleição em março de 2013, como o primeiro papa do sul global Francisco deixou o mundo com uma pequena dúvida sobre onde a sua Igreja se posiciona em relação a temas contemporâneos fundamentais. Grande parte da cobertura da imprensa vem focando as divisões internas da Igreja, com os tradicionalistas católicos resistindo às reformas pastorais, mas a presença internacional do Vaticano viu um crescimento constante sob seu comando, naquilo que uns analistas chamam de a nova “diplomacia da misericórdia”.

Na mensagem para o Dia Mundial da Paz no começo de 2018, o papa recordou um dos grandes temas de seu pontificado ao pedir por compaixão para com os mais de 250 milhões de migrantes e refugiados no mundo. Mas o seu pedido por uma ação coordenada e por uma “gestão responsável de novas situações complexas” pareceu mudar o foco da defesa puramente moral para algo mais concreto. 

Observações semelhantes foram feitas quando o pontífice visitou o Chile e o Peru em meados de janeiro deste ano, quando defendeu os povos indígenas contra “interesses econômicos poderosos” e, em 2017, quando foi a Myanmar e Bangladesh. Em cada caso, embora tenha ganho elogios por defender os direitos humanos por princípio, aspectos práticos sobre o posicionamento de Francisco foram também questionados – como aconteceu ao não defender os Rohingya perseguidos em Myanmar citando-os pelo nome enquanto esteve no país.

A influência política da Igreja

Espera-se que um acordo com a China comunista deva ser igualmente contestado, com uns acolhendo-o como uma oportunidade de restauração da unidade com a Igreja chinesa e outros rejeitando-o como uma traição às comunidades católicas há tempos sofredoras.

Roma enfrentou dilemas parecidos na Europa Oriental comunista, quando esteve sob pressão constante para conceder aos regimes locais o prestígio e os benefícios dos laços diplomáticos em troca da promessa de eles pararem com as perseguições e normalizarem o status da Igreja em seus territórios.

Nestes casos, será que o Vaticano realmente compreendia a mentalidade comunista, os pontos fortes e fracos do regime? Ainda que o polonês São João Paulo II o entendia, sem dúvida alguma fica aberta a questão sobre se isso pode ser dito de Francisco.
Independentemente do que uns podem achar aqui, Roma tem certos ativos poderosos para acionar na busca de suas iniciativas.

A Santa Sé tem hoje uma presença permanente em aproximadamente 40 organizações internacionais, desde as Nações Unidas e suas agências até o Conselho da Europa, a Liga Árabe e a Organização dos Estados Americanos, no momento em que a Rádio Vaticano faz as suas transmissões em 47 idiomas – mais do que o Voice of America ou a BBC.

O próprio papa tem 40 milhões de seguidores no Twitter, e eles aumentam cerca de 25% ao ano; só a Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma tem alunos de, no mínimo, 150 países.

Enquanto isso, a população católica mundial dobrou nas últimas três décadas para perto do 1.3 bilhão de fiéis. No final de 2015, havia 5.304 bispos, 415.656 padres e 670.320 religiosas, segundo informou o Vaticano.

Mesmo em países com minorias católicas a Igreja exerce uma influência considerável. Em nível mundial, ela continua sendo um dos maiores provedores de educação e assistência à saúde não governamental. É também um dos maiores doadores de ajuda humanitária, com a Caritas Internationalis coordenando, de Roma, organizações católicas em uns 200 países.

Como um centro nervoso desta rede altamente organizada, o Vaticano está igualmente expandindo a sua presença diplomática. Quando Myanmar estabeleceu relações em maio passado, ele foi o 193º país a assim fazer e o 111º a hospedar uma nunciatura apostólica permanente.

Acadêmicos e jornalistas rotineiramente ignoram o papel do Vaticano, visto que ele não pode ser quantificado por critérios políticos, econômicos ou militares; não pode ser mensurado segundo a interação usual dos interesses de Estado. Afinal, é o menor Estado do mundo: apenas 110 acres com uma população oficial de 1.000.

Mesmo assim, há inúmeras evidências para sugerir que a sua influência e o seu trabalho social não devem ser subestimados.

O Tratado de Latrão, de 1929, que definiu o status moderno do Vaticano, veio após seis décadas de marginalização desde a perda dos Estados Papais, em 1870 – evento que acabou com 1.000 anos de poder temporal sobre a península italiana.

Os papas demoraram muito para responder aos problemas do mundo contemporâneo e testemunharam o desmantelamento do poder da Igreja na Alemanha de Bismarck e na Terceira República anticlerical da França, seguido por ataques brutais contra o clero e fiéis em novos Estados revolucionários como a Espanha e a Rússia.

O papel do Vaticano, porém, reafirmou-se quando se tornou parte do sistema internacional nos anos posteriores à Guerra Mundial. E na época do Concílio Vaticano II (1962-1965), Roma esteve inundada de agentes e espiões dos governos desejosos por antecipar onde a Igreja poria em prática a sua influência sob a política do aggiornamento, ou abertura, do Papa João XXIII.

Eles estavam certos em se manterem interessados.

Tendo se tornado o primeiro papa a deixar a Itália desde 1809, o Papa Paulo VI visitou 20 países, enquanto o seu sucessor, João Paulo II, visitou 129 – alguns, como os EUA, a França e a Polônia, seu país natal, foram visitados em múltiplas ocasiões.

Independentemente do que venham a pensar os críticos da ‘postura conservadora’ de João Paulo II no tocante à doutrina e no comando da Igreja, dificilmente se pode pôr em dúvida a importância dele no cenário mundial.

O pontífice polonês foi fundamental para a queda de ditaduras como as das Filipinas e do Paraguai. Ele interveio em numerosas disputas, opondo-se à doutrina da preempção na “guerra contra o terror” pós-11 de setembro, e se tornando uma força motriz nos contatos inter-religiosos, em particular com o Islã.

A maior façanha política de João Paulo II, ajudando a derrubar o regime comunista na Europa Oriental e na União Soviética, é amplamente ignorada pelos indispostos ou incapazes de reconhecer o lugar da religião nos eventos mundiais.

Mas ele foi reconhecido com fundamental pelos próprios chefes comunistas, entre eles o poderoso Gen. Wojciech Jaruzelski, que, tendo acionado o poder do Estado contra a Igreja, mais tarde confessou que os ensinamentos espirituosos do papa haviam “redespertado as esperanças e expectativas de mudança”.

Em 1997, o último governante do Partido Comunista da União Soviética, Mikhail Gorbachev, saudou João Paulo II como “o maior líder de esquerda do mundo”, citando a oposição deste à pobreza e à injustiça e reconhecendo que o fim do regime comunista teria sido “impossível” sem o papa.

Embora todo desafio político deva ser abordado em seus méritos, o papel do papa polonês na derrocada do comunismo europeu serviu como um modelo para ações de paz coordenadas pela Igreja em outros lugares.

Os precedentes de João Paulo II

João Paulo II viu mais claramente do que seus antecessores que a fidelidade espiritual poderia ter consequências políticas. Mas também ele concluiu que a violência não era a resposta certa, visto que regimes autoritários e totalitários emergiam mais fortes quando desafiados pela força.

Usando noções simples da tradição cristã, lembrou pessoas confusas e desmoralizadas sobre as verdades e os valores que sabiam mas que tinham esquecido. O que as fez decisivas foi a forma como foram faladas – não nos ambientes sedados das igrejas e conventos, mas sim no pleno funcionamento das praças das cidades, nos parques industriais e urbanos.

Isso tudo era uma reviravolta total às humilhações do século XIX, quando Marx e Engels denunciaram o papado no “Manifesto Comunista”, de 1848, como uma das “potências da velha Europa”, e o Papa Pio IX, no “Syllabus dos Erros”, de 1864, furiosamente se recusou a reconciliar-se “com o progresso, com o liberalismo e com a sociedade civil”.

Enquanto os pontífices anteriores, fascinados pelas imagens de destruição da Revolução Francesa ou da Comuna de Paris, temeram os movimentos sociais espontâneos, João Paulo II viu-os como aliados – uma energia criativa que a Igreja poderia aproveitar para finalidades divinas.

A Igreja precisava achar a sua própria solução para os problemas que o comunismo tinha salientado: as relações entre mão de obra e capital, trabalho e propriedade, exploração e alienação. E tinha de encontrar um estímulo positivo, libertador para contrapor os ressentimentos negativos e cativantes que os governantes comunistas usavam como ferramentas de poder.

“Os movimentos de solidariedade”, frase usada na encíclica de 1981, Laborem Exercens, poderiam ser amigos, não inimigos, do cristianismo – ao alcançar uma vitória moral contra o medo e o ódio que, em última instância, tornou-se uma vitória política.

O papa conhecia o poder das palavras, dos símbolos e das imagens. Numa era de globalização econômica e comunicação em massa, percebeu que o poder dos governos estava diminuindo.

Os caças, tanques e mísseis das superpotências poderiam destruir o mundo muitas vezes. Mas sem pessoas para voá-los, dirigi-los ou lançá-los, eram pedaços de metal sem serventia. Era com as pessoas e com a opinião pública onde o poder real da Igreja se encontrava.

O reconhecimento deste estender a mão sem precedentes à opinião pública, e a prontidão a mobilizá-la, refletiu-se nos líderes políticos que agora faziam do Vaticano um porto seguro.

Enquanto nenhum presidente americano se importou em encontrar-se com o papa durante 40 anos depois da visita a Roma do presidente Woodrow Wilson em 1919, João Paulo II teve duas reuniões com Jimmy Carter no espaço de meio ano, seguido de quatro com Ronald Reagan e quatro com Bill Clinton; o presidente George W. Bush visitou o Vaticano cinco vezes.

Uma tradição de diplomacia silenciosa

Quando o papa polonês morreu em abril de 2005, estiveram em seu funeral 7 mil jornalistas creditados e, pelo menos, quatro milhões de pessoas, a maior reunião de chefes de Estado e de governo da história fora da ONU. Era um sinal da importância atribuída ao Vaticano pelos tomadores de decisão e demais pessoas poderosas do mundo.

A influência vaticana está, agora, de pé e a todo vapor, quando Francisco se pronuncia contra a pena de morte, as guerras, as armas nucleares, a pobreza, a discriminação, a corrupção e o crime organizado. Ele exige uma ação mais firme, junto com a ONU, em nome dos oprimidos e excluídos do mundo.

Depois de expandir a composição global do Colégio Cardinalício, Francisco levou a sua mensagem a 30 países, inclusive a Israel e à Palestina, Turquia, Cuba, Egito e a República Centro-Africana; tem convites para visitar outros, incluindo o Sudão do Sul.

Enquanto isso, diplomatas vaticanos têm se envolvido pesadamente em negociações de paz em países como a Venezuela e a Colômbia e vêm tendo presença marcante em iniciativas internacionais como o Fórum Pacto Global 2018, da ONU.

Em Myanmar, no mês de novembro do ano passado, Francisco sabia que decepcionaria alguns ao não chamar pelo nome o povo Rohingya, duramente oprimido no país, dizendo aos jornalistas, no voo de volta para Roma, que “a porta teria se fechado” se tivesse agido de maneira diferente da que fez. A sua mensagem, porém, foi transmitida – e foi ouvida claramente.

Embora tenha negado o “prazer” de uma denúncia pública, explicou, o papa falou “tudo” nos encontros com autoridades do governo. E instruiu os bispos de Myanmar a se pronunciarem pela “dignidade e pelos direitos de todos, especialmente dos mais pobres e mais vulneráveis”.

Quando as feridas são “tanto visíveis quanto invisíveis”, uma busca austera por um denominador comum às vezes ajuda mais que condenações que saem bem nas manchetes. Eis uma área onde as tradições diplomáticas do Vaticano podem ainda se mostrar altamente efetivas.

O mesmo irá valer com a China?

Analistas experientes concordam que é essencial diferenciar claramente entre as circunstâncias locais, precisando-se estudar minuciosamente todas e entendê-las intimamente. No mundo onde é complexo a administração da Igreja, não pode haver uma abordagem do tipo “o que vale para um vale para todos”.

Parte do trabalho de Francisco já sofreu uma oposição amarga.

O encontro em fevereiro de 2016 em Cuba que teve com o Patriarca Ortodoxo Kirill, da Rússia, provocou dúvidas entre os católicos ucranianos e da Europa Oriental, que temeram ele que servisse de propaganda política em benefício do Kremlin – acusação também feita ao secretário de Estado do Vaticano, o Cardeal Pietro Parolin, quando visitou Moscou em agosto passado.

Se for para a “diplomacia da misericórdia” trabalhar, ela deve ir além da ajuda humanitária digna e também ter um fundamento firme na realidade.

Apesar de todos os ricos e perigos, no entanto, os esforços para a construção da paz feitos pelo Papa Francisco devem ser apreciados e seguidos atentamente. Eles demonstram como a religião pode fornecer uma base e uma orientação à ação efetiva e inovadora.

Também mostram que líderes católicos influentes e autoconfiantes podem desempenhar um papel importante na promoção da participação, cidadania, diálogo e reconciliação – também na oposição aos “Herodes de [hoje]”, como Francisco os descreveu na homilia de Natal de 24 de dezembro de 2017, que são os líderes que meramente buscam “impor o seu poder e aumentar as suas riquezas”.

Se o regime chinês se pôr a explorar isso, poderá esperar um retorno no futuro.

O artigo é de Jonathan Luxmoore- National Catholic Reporter.

 A cinco anos da eleição do Papa Francisco, Vatican Insider entrevistou o arcebispo Víctor Manuel Fernández, reitor da Universidade Católica da Argentina, teólogo muito próximo do Pontífice.

Qual é o balanço destes primeiros cinco anos de Pontificado? Quais foram suas maiores características?

Não gostaria de me distrair mencionando algumas realizações na política internacional, nem sequer os êxitos que possa ter conseguido na reforma da Cúria ou das finanças vaticanas. Porque isso implicaria uma visão um tanto mundana. Deixemos que os meios de comunicação se dediquem a essas análises. Nós, católicos, acreditamos no mistério do Espírito que desata os nós e transforma a realidade ao seu modo e em seus tempos. Se me perguntar o que fez Gandhi, posso lhe dizer que já não recordo exatamente as ações e os êxitos que teve. Mas, sem dúvida, sei que deixou uma marca importantíssima na história e que provocou mudanças que não deixaram a humanidade do mesmo modo.

Qual é a mensagem que mais passou, tanto dentro como fora da Igreja?

No caso de Francisco, acredito que não se esquecerá seu convite constante, com palavras e gestos, a voltar à frescura do Evangelho e seu coração feito de misericórdia e de justiça para com os mais fracos. Ao mesmo tempo, não deixará de ressoar a reivindicação por uma Igreja mais despojada, alegre e capaz de sair de si no diálogo e o serviço. Mesmo que alguns, no futuro, pretendam retroceder a esse respeito, acredito que a grande reforma irreversível de Francisco, já conquistada, consiste em que isso dificilmente será aceito. 

Qual é a reforma mais importante que o Papa Francisco espera para a Igreja?

O aprofundamento disto que já mencionei. Ainda há muitos membros da Igreja que falam pouco de Jesus Cristo, que não vibram de afeto e admiração quando o mencionam, que preferem julgar os defeitos alheios e baixar normas éticas como rochas, com o propósito de não aceitar a dinâmica de anunciar o amor incondicional de Deus a cada pessoa, de transmitir o amor próximo e salvador de Jesus Cristo. Ao mesmo tempo, ainda há muitas resistências para se deixar as comodidades das estruturas que nos dão segurança, mas que cada vez atraem menos quantidade de fiéis.

Não lhe parece que existe o risco de se reduzir as mensagens do Papa a “slogans”, que, como todos os “slogans”, acabam vazios, ou seja, utilizados segundo conveniências, mas sem uma mudança verdadeira?

Os grandes santos e reformadores, aqueles que provocaram mudanças reais na Igreja e na história, não foram amigos de slogans, mas, sim, de gestos e entregas. Contudo, há tempo que na Igreja vivemos de slogan. Por exemplo, há aqueles que dizem ser “a favor da vida”, mas preferem que não se fale dos imigrantes, do compromisso com os mais pobres, da luta pela justiça para que menos gente morra por desnutrição ou por doenças que poderiam ser curadas. Esse é um slogan. Igualmente, outros repetem frases de Francisco como slogan, e até falam da “primavera da Igreja”, talvez para não parecer opositores ou para se assegurar algum posto na Igreja, mas caso se olhe para os seus hábitos, suas ações, suas insistências e suas opções, parecem não responder ao espírito deste Papa. É um modo de se fechar ao vento transformador do Espírito, sendo “politicamente correto”.

Os meios de comunicação (e não só) enfatizaram muito características humanas e simpáticas do Papa Francisco, que o tornaram um personagem popular e amado. Não existe o perigo de que se torne muito “personagem” e que se concentre muita atenção em sua pessoa?

É verdade. No entanto, ele nunca foi amante do culto às personalidades. Quando ele aprecia muito alguém, diz-lhe: “Humilhe-se”. Entrega-se muito à proximidade com o povo porque isso tem a ver com sua valorização da religiosidade popular, e ele quer que seu papado seja um sinal encarnado da proximidade terna e misericordiosa de Jesus. Mas, quem não vê isto a partir da mais autêntica fé católica, acaba esquecendo o fim de tudo, que é Jesus, e fica no personagem. É como “ficar no dedo que aponta a lua”. Isto tem um grave risco, porque produz o efeito contrário: se veem um erro ou um ponto frágil, ou se um dia o Papa não sorri porque está fraco ou doente, para eles, o personagem é rompido. 

Alguns falam muito (às vezes, exagerando sua importância) das chamadas “resistências” internas, fenômenos que também viveram seus predecessores. De que modo contam e incidem na vida cotidiana da Igreja?

Incidem mais que antes, em razão do enorme peso dos meios de comunicação e das redes sociais. Antes, poucas pessoas liam um jornal. Hoje, são muitos os que seguem as notícias pela Internet, e os meios de comunicação em geral destacam o que faz muito barulho, o negativo, as críticas. Anos atrás, um senhor muito conservador e negativo só falava com sua esposa, porque nem os vizinhos suportavam ouvi-lo. Agora, essas pessoas podem abrir um blog e também difundir mentiras e calúnias, ou suspeitas infundadas, e sempre terá leitores. Também pode dedicar todo o dia a opinar nos fóruns de Internet e sua voz se expande. As personagens mais moderadas e serenas, que são a maioria, parecem atuar menos neste sentido. Na Argentina, onde houve nos últimos dois anos uma forte e persistente campanha de desprestígio nos meios de comunicação e nas redes, o Papa, no entanto, mantém 80% de aprovação, segundo as pesquisas mais sérias. Mas, esses 80% fazem pouco ruído. 

É correto que, após a publicação da “Amoris Laetitia”, há “confusão” na Igreja de hoje?

Amoris Laetitia implica uma mudança paradigmática no modo de tratar situações complexas, ainda que isso não implique que abra todas as portas. Certamente, vai além da possibilidade de que alguns divorciados em segunda união possam comungar. Esta mudança, que nos impede de ser muito duros e matemáticos em nossos juízos, é muito incômoda para alguns. Porém, é impossível dizer que há “confusão” depois que o Papa fez publicar uma nota nas Acta Apostolicae Sedis como “magistério autêntico”. Só o Papa pode tomar uma decisão desse tipo e Francisco a tomou. Portanto, não há confusão. Já sabemos o que o Papa pede. Outra coisa é você gostar ou não, considerar adequada ou não. Mas, então, não se deve dizer: “é confuso”. É preciso dizer: “não gosto”. Ou então: “Eu prefiro uma Igreja com normas mais rígidas”.

As diferentes reformas nos organismos da Cúria romana ainda estão sendo realizadas. Em que medida são importantes as reformas estruturais?

É dada muita importância a estas reformas, mas são as mais “reversíveis”. Poderá vir outro Papa e criar uma Cúria enorme. Além disso, as pessoas que existirem nessas estruturas serão determinantes. Contudo, acredito que Francisco também conseguiu “desmistificar” para sempre a Cúria vaticana, que só poderá ser compreendida como um organismo de serviço ao Papa, que não o substitui, nem aos bispos.

Como o Papa vivencia os casos relacionados aos escândalos dos abusos? As normas para combater o fenômeno existem, mas também será possível mudar a mentalidade?

Sei que sofre muito por este assunto, porque neste caso se destrói o sentido profundo do ministério sacerdotal, chamado a “cuidar”. Em espanhol este sentido está destacado, porque se chama o sacerdote de “cura”. O “cuidado” é uma característica do sacerdócio que Francisco carrega muito no coração. Acredito que a mentalidade está mudando nesta linha, ainda que às vezes os processos necessitem de seus tempos para evitar injustiças.

Vatican Insider

No encontro privado há alguns dias com os párocos romanos, Francisco falou de sua década de “desorientação”, até 1992. Ele disse ter vivido “o tempo de uma grande desolação, um tempo obscuro”.

“Eu pensava – continuou – que já era o fim da minha vida”, porque, “sim, eu era confessor, mas com um espírito de derrota”. E ainda: “Eu rezei muito, nesse tempo, mas estava seco como uma madeira”, porque “eu acreditava que a plenitude da minha vocação estava em fazer coisas”. No entanto, “não abandonei a oração, e isso me ajudou”.

O Papa Francisco não tem medo de falar de si, entrando até nos momentos mais reservados e, ao mesmo tempo, obscuros da sua vida. As palavras que ele mesmo diz de improviso, ao se encontrar, na semana passada, com os párocos de Roma na Basílica de São João de Latrão, são a parte mais íntima de sua vida e vão desvendar, com simplicidade, o tempo de uma espécie de noite escura vivida pelo futuro papa na Argentina, entre o início dos anos 1980 e 1992, ano em que João Paulo II o nomeou bispo auxiliar de Buenos Aires.

Depois de um telefonema do núncio vaticano na Argentina, Ubaldo Calabresi, “eu abri, depois, outra porta”, contou. Bergoglio, que completou 45 anos em 1981, vivia um momento de difícil passagem da sua vida. Depois de ter se tornado, com apenas 37 anos, o superior da província argentina da Companhia de Jesus e, depois, reitor do Colégio Máximo de San Miguel, tornou-se confessor, cargo no qual não se achou completamente.

Passou um período na Alemanha, dedicado a terminar uma tese de doutorado sobre Romano Guardini, que, porém, nunca chegaria a defender, e depois partiu para Córdoba, onde, “como trabalho”, foi diretor espiritual e confessor da Igreja da Companhia de Jesus.

Foram anos duros para ele, de escuridão, até mesmo de incompreensões dentro da Companhia, um período que os biógrafos definem como “exílio”. E nos quais Bergoglio muitas vezes teve que repetir para si mesmo: “Agora eu não sei o que fazer”.

Ele nunca imaginaria o que aconteceria depois: a nomeação a bispo auxiliar, a liderança de toda a diocese de Buenos Aires, a eleição ao sólio de Pedro em 13 de março de 2013, exatamente há cinco anos.

É verdade, como ele mesmo revela em um livro-entrevista escrito com o sociólogo francês Dominique Wolton, ainda em 1978, ele viveu um período de inquietação – “o demônio do meio-dia”, como é chamada na Argentina a crise da meia-idade – enfrentado, “durante seis meses, uma vez por semana”, com uma psicanalista judia que o ajudou muito.

Mas aqui parece que ele teve que enfrentar algo mais profundo, uma crise na vocação, resolvida apenas graças à oração e, em particular, a uma relação “face a face com o Senhor, falando, conversando, dialogando com Ele”.

A noite escura é de muitas mulheres e homens de fé, “um espinho na carne”, diz São Paulo. João da Cruz escreve sobre isso e fala da noite dos sentidos e do espírito, momento de labuta, sofrimento, dúvida, sensação de solidão e de abandono por parte de Deus. Uma escuridão, explica o carmelita espanhol, desejada por Deus para purificar o alma da ignorância e libertá-la dos apegos a afetos, pessoas e coisas, que as impedem de ter o ímpeto para o alto e para a união amorosa com Ele.

Ela foi vivida, entre muitos, também por Teresa de Calcutá, que se sentiu por muito tempo “abandonada por Deus”. Ela sorria para todos, mas dentro de si não tinha nada mais do que escuridão.

Bergoglio não chegou a dizer que se sentiu abandonado por Deus. No entanto, sua desorientação é real. Mas, confidenciou aos padres romanos, para muitos sacerdotes pode ser assim: “É um momento áspero, mas libertador. O que passou, passou”. Depois “há outra idade, outro seguir em frente”.

E, de fato, tudo mudou posteriormente. O jesuíta que, em 1978, ouviu, enquanto estava no carro, que haviam eleito Karol Wojtyla ao sólio de Pedro, um homem cujo nome ele custa a repetir, partiu para Roma em 2013, convencido de voltar para casa logo.

As coisas ocorreram de forma diferente. Bergoglio se tornou Francisco e ficou longe da sua Argentina. Mas a crise dos anos de Córdoba passou, hoje. Aos seus colaboradores, ele repete que não sente saudade alguma do seu país. Ele escolheu morar em Santa Marta não por rejeitar o luxo do apartamento apostólico, mas porque aqueles quartos lhe parecem um funil ao contrário, uma porta pequena na entrada de espaços grandes demais.

Em Santa Marta, ele vê as pessoas, reza, trabalha, não se sente sozinho. A estrada é plana. A noite escura já parece ter desaparecido.

La Repubblica

Depois do pequeno acidente na Colômbia, que lhe custou uma ferida no olho e na bochecha esquerda, e do de Dhaka, Bangladesh, onde um poste de luz quase caiu sobre ele, mais uma desventura ocorreu com o Papa Francisco no papamóvel, desta vez no Chile.

Enquanto passava a bordo do carro descoberto entre as dezenas de milhares de fiéis pelas ruas do Parque O’Higgins, em Santiago do Chile, onde celebrou a sua primeira missa em terras chilenas, o pontífice foi atingido na cabeça por um jornal jogado por alguém presente na grande multidão.

Francisco, que nunca parou de sorrir, simplesmente se virou, olhando para seus pés para ver do que se tratava.

Nada de grave, mas os homens de segurança logo levantaram o nível de guarda, considerando-se também os protestos que acompanharam esse primeiro dia da viagem do papa ao país sul-americano.

Um grupo de manifestantes queria se aproximar justamente do Parque O’Higgins e foi disperso pelas unidades antimotim da polícia chilena, com alguns confrontos isolados.

O vídeo do jornal jogado contra o papa, enquanto isso, viralizou na web.

Vatican Insider via IHU

Em 28 de julho de 2013, último dia da viagem apostólica do Papa Francisco ao Brasil, foi celebrada a Missa de encerramento da XXVIII Jornada Mundial da Juventude (JMJ).

Participaram daquela celebração eucarística, também chamada de “Missa de Envio“, cerca de 3,7 milhões de peregrinos.

Número histórico

De todas as edições da JMJ já realizadas no mundo, foi a segunda com mais fiéis reunidos, atrás apenas da edição de 1995 na capital filipina, Manila, com 4 milhões de peregrinos.

A prefeitura do Rio de Janeiro afirmou que a Missa de Envio da JMJ 2013 foi o maior evento já realizado em toda a história da Cidade Maravilhosa do ponto de vista da quantidade de pessoas presentes. E isso considerando grandes shows e festivais internacionais de música ocorridos na cidade, um carnaval que é apelidado de “maior espetáculo da Terra” e um réveillon que é reconhecido entre os mais concorridos do planeta.

O próprio Ministério do Turismo do Brasil informou que a JMJ 2013 trouxe a maior movimentação de turistas da história do país até então.

Quem pagou a conta?

O custo estimado do evento católico foi de R$ 118 milhões. Quem pagou foi a própria Igreja, mediante o seu Comitê Organizador Local da Jornada Mundial da Juventude Rio 2013. A participação do governo do Estado e da Prefeitura do Rio de Janeiro se concentrou no que já é sua obrigação: a segurança e o atendimento médico das pessoas. O prefeito carioca da época, Eduardo Paesconfirmou este fato em entrevista à Rádio Globo:

“Quem paga pelas despesas da JMJ é o Comitê Organizador Local (COL), criado pela Igreja Católica. Não pagamos pelo palco, pelos shows, pela hospedagem do Papa. Tudo o que tem a ver com a infraestrutura do evento é pago pelo COL da JMJ”.

Paes reafirmou que os governos federal, estadual e municipal devem colocar à disposição da população serviços como saúde e segurança, da mesma forma que o fazem em quaisquer grandes aglomerações de pessoas, como o carnaval, o réveillon e, para citar outro exemplo de evento religioso, a “Marcha para Jesus”, organizada anualmente por denominações evangélicas.

Mesmo assim, houve protestos enviesados: já no primeiro dia de visita do Papa Francisco ao Rio de Janeiro, manifestantes contrários ao que chamavam de “gastos públicos com um evento religioso particular” entraram em conflito com a polícia.

2017-2018: na maior crise da história do Rio, o maior show de fogos da história do Rio

Neste réveillon que deu as boas-vindas a 2018, um Rio de Janeiro onipresente nos noticiários graças ao ápice da crise econômica, política, social e moral que o assola há anos realizou a sua maior queima de fogos de artifício de todos os tempos.

Ao contrário do ano anterior, em que, devido à crise, houve apenas um palco para os shows e 12 minutos de queima de fogos, o réveillon de Copacabana nesta virada de 2017 para 2018, apesar da crise que não apenas prosseguiu como ainda piorou, contou com mais shows que se estenderam pela madrugada: DJ Tucho, Alex Cohen, Ana Petkovic, Belo, Cidade Negra, Frejat, Anitta, DJ Luis Henrique e as escolas de samba Portela e Mocidade Independente de Padre Miguel, vencedoras do carnaval 2017. 12 telões gigantes espalhados pela praia destacavam cenas tanto dos shows quanto da queima de nada menos que 25 toneladas de fogos de artifício, disparados a partir de 11 balsas na baía da Guanabara e que adornaram os céus de Copacabana durante 17 minutos, diante de um público de 2,4 milhões de pessoas, conforme dados divulgados pela Riotur.

Para organizar os shows pirotécnicos de réveillon no Rio de Janeiro, são necessários em média 90 dias de preparação e uma equipe de 1.500 pessoas.

Segundo o presidente da Riotur, Marcelo Alves, o investimento para este réveillon foi de R$ 25 milhões, sendo 82% captados junto à iniciativa privada. Entre os gastos, foram estimados pelo menos 8 milhões de reais com estruturas de palco a serem bancadas pela prefeitura. O BNDES(Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social) foi um dos “patrocinadores” do evento, com 2 milhões de reais – dinheiro que também é público. Este patrocínio foi dado mediante a Lei Rouanet, criada em 1991 para incentivar projetos culturais e fomentar novos talentos, mas que está continuamente na berlinda por bancar projetos de grandes artistas já consagrados, bem como por acusações de favorecimentos, falta de transparência e adoção de critérios ideológicos favoráveis a projetos alinhados com a assim chamada “agenda da esquerda”.

Vida real

Enquanto isso, o Rio de Janeiro registra hospitais municipais com superlotação, falta de insumos, equipamentos danificados e cidadãos que morrem na fila à espera de um atendimento que não é prestado. Servidores públicos dependem de esmolas de amigos e familiares para sobreviver aos atrasos contínuos no pagamento dos seus salários. Pelo menos duas empresas de ônibus que atendiam ao município deixaram de operar e outras estão em litígio com a prefeitura, aumentando a crise no transporte público da cidade. Os números da violência equivalem aos de países em guerra, com casos frequentes de balas perdidas que matam civis dentro de suas próprias casas e crianças dentro de suas próprias escolas, além de um número recorde de policiais executados. Regiões da cidade são controladas quase inteiramente pelo crime organizado, diante da impotência do Estado e do fracasso das suas políticas de segurança.

Já no primeiro dia deste novo ano, a página inicial dos principais sites de notícias do país estampam: “Rocinha, no Rio, tem intenso tiroteio nas primeiras horas de 2018“.

O atual prefeito, Marcelo Crivella, da Igreja Universal do Reino de Deus, remete a culpa pela falta de recursos, na maior medida, à Olimpíada de 2016. Já o ex-prefeito Eduardo Paes rebate dizendo que “não se contraiu um real de dívida para se construir qualquer estádio para a Olimpíada. Todos já estão pagos”.

Um mês antes de resolver conceder seu “patrocínio” ao réveillon, o BNDES chegou a dizer, pela boca de seu presidente Paulo Rabello de Castro, que “o Rio de Janeiro está em estágio terminal“.

O remédio terá sido queimar fogos durante 17 minutos?

Sabedoria e esperança. Alegria e coragem. Diálogo com os jovens de outras religiões e com os idosos, e discernimento para “reconhecer e rejeitar falsas promessas de felicidade”. O tão aguardado encontro com jovens na Universidade Notre Dame de Daca, capital de Bangladesh, começou com um pequeno atraso em relação ao horário previsto, 15h20 (hora local).

A viagem asiática do Papa termina com este encontro com jovens de diferentes religiões. Muitos deles são estudantes de escolas católicas de Bangladesh. Francisco foi recebido com entusiasmo, cantos e danças tradicionais em uma festa cheia de cores e alegria. Após a saudação, feita por dom Gervas Rozario, o Pontífice argentino ouviu atentamente o testemunho de dois jovens estudantes da universidade, Upasana Ruth Gomes e Anthony Toranga Norek, e depois respondeu às suas perguntas lendo o documento que tinha preparado para a ocasião.

“Santo Padre, você compreende as nossas fadigas”, disse a jovem. “Nós nos entusiasmamos facilmente, mas, ao mesmo tempo, nos sentimos confusos, desanimados, frustrados, não sabemos qual direção tomar e, às vezes, nos perdemos. Muitas vezes, somos tão instáveis e emocionalmente vulneráveis que a nossa vida parece não ter sentido. Vendo as injustiças do mundo, a falta de respeito pela Criação, a divisão nas famílias, os maus tratos e os perigos a que as mulheres e as crianças estão expostas, sentimo-nos realmente desanimados e impotentes”.

Anthony, por sua vez, disse: “Estamos empenhados em viver. Tentamos agir de diferentes maneiras de acordo com a justiça, amar com ternura e caminhar humildemente, deixando que Deus guie os nossos passos. Mas a mensagem de paz e de cura, da cura que desejamos ouvir, nem sempre chega aos nossos ouvidos”.

“Vocês, jovens – disse o Papa Francisco ao tomar a palavra –, têm algo de único: vocês estão sempre cheios de entusiasmo, e sinto-me rejuvenescer toda vez que encontro vocês”, e precisamente “esse entusiasmo juvenil está relacionado ao espírito aventureiro. Um dos seus poetas nacionais, Kazi Nazrul Islam, expressou isso definindo a juventude do país como ‘arrojada’, ‘habituada a arrancar a luz do ventre das trevas’”.

“Os jovens – continuou Francisco – estão sempre prontos para avançar, fazer tudo acontecer e arriscar. Eu animo vocês a avançar com esse entusiasmo em boas e más circunstâncias. Avançar, especialmente naqueles momentos em que vocês se sentem oprimidos por problemas e tristezas e, olhando ao redor, parece que Deus não se faz ver no horizonte”.

Mas também recomendou: ao avançar, “certifiquem-se de escolher o caminho certo. O que significa isto? Isso significa saber ‘viajar’ na vida, e não ‘vagar’ sem rumo”, orientando-se por esse ‘software’ que está naturalmente dentro de cada um de nós, que “nos ajuda a discernir seu programa divino e a responder-lhe com liberdade. Mas, como qualquer software, também este precisa ser constantemente atualizado. Mantenham atualizado o seu programa, ouvindo o Senhor e aceitando o desafio de fazer a sua vontade”, pediu Bergoglio.

E também falou sobre a “sabedoria”, que é “a única coisa que nos orienta e nos faz avançar no caminho certo”, “a sabedoria que nasce da fé”, e não “a falsa sabedoria deste mundo. É a sabedoria que se vislumbra nos olhos dos pais e avós que depositaram sua confiança em Deus. Como cristãos, podemos ver em seus olhos a luz da presença de Deus, a luz que descobriram em Jesus, que é a mesma sabedoria de Deus. Para receber essa sabedoria, devemos ver o mundo, a nossa situação, os nossos problemas, tudo, com os olhos de Deus”.

“Essa sabedoria nos ajuda a identificar e rejeitar as falsas promessas de felicidade”, explicou o Papa, “uma cultura que promete falsas promessas não pode libertar; conduz apenas a um egoísmo que enche os nossos corações de escuridão e amargura. A sabedoria de Deus, pelo contrário, nos ajuda a saber como acolher e aceitar aqueles que agem e pensam de maneira diferente de nós. É triste quando começamos a fechar-nos em nosso pequeno mundo e a nos retrair sobre nós mesmos. Então adotamos o princípio ‘ou é como eu digo ou não se faz nada’, acabando enredados, fechados em nós mesmos. Quando um povo, uma religião ou uma sociedade se tornam um ‘pequeno mundo’, perdem o melhor que têm e se precipitam em uma mentalidade presunçosa, que faz dizer: ‘eu sou bom, você é mau’”.

Por isso, o Papa convidou os jovens a abrir-se aos outros e a “olhar para além das nossas comodidades pessoais e das falsas garantias que nos deixam cegos perante os grandes ideais que tornam a vida mais bonita e digna de ser vivida”. Nesse sentido, Francisco disse que estava feliz porque, junto com os católicos, havia também muitos jovens muçulmanos e de outras religiões no campo esportivo da universidade. “Com o fato de se encontrarem aqui hoje – disse – mostram a sua determinação de promover um clima de harmonia, onde se estende a mão aos outros, apesar das suas diferenças religiosas”.

Ele recordou, dessa maneira, uma experiência que teve em Buenos Aires, em uma nova paróquia de uma área extremamente pobre, cujos equipamentos foram construídos por um grupo de estudantes. “Fui e, quando cheguei à paróquia, o padre apresentou-os um a um, dizendo: ‘Este é o arquiteto, é judeu, este é comunista, este é católico praticante’. Aqueles estudantes eram todos diferentes, mas estavam todos trabalhando pelo bem comum. Estavam abertos à amizade social e decididos a dizer ‘não’ a qualquer coisa que pudesse afastá-los do propósito de estarem juntos e se ajudarem uns aos outros”.

O Papa concluiu com este desejo para as novas gerações desta porção da Ásia: “Que a sabedoria de Deus continue a inspirar o seu compromisso de crescer no amor, na fraternidade e na bondade”. “Isshór Bangladeshké ashirbád korún!” (Que Deus abençoe Bangladesh!), exclamou o Papa ao se despedir. Após o encontro, o Papa Bergoglio dirigiu-se ao aeroporto internacional para a despedida oficial.

Fonte: Vatican Insider

Uma dezena de perguntas. Por expressa vontade do papa, todas concentradas na viagem a Myanmar e Bangladesh. Apesar do cansaço da visita dupla, também nesta ocasião Francisco não se isentou da já tradicional coletiva de imprensa no avião, entretendo-se com os jornalistas por quase uma hora.

Ele disse que, por enquanto, uma viagem à China não está em preparação, enquanto gostaria de ir à Índia no ano que vem. Ele contou como nasceu o seu pedido de perdão aos Rohingya e explicou por que usou essa palavra apenas na sexta-feira à noite (“O que me interessava era que chegasse a mensagem”, em síntese, não queria que esse uso obstaculizasse o diálogo com as autoridades que, ao contrário, ocorreu e, de sua parte, foi muito claro: “Eu não negociei a verdade”, afirmou).

Além disso, ele também apontou que, mesmo com o general birmanês Hlaing, a mensagem chegou claramente (não se pode voltar atrás) e que, hoje, no Myanmar, antes de fazer julgamentos sobre o governo democrático, é preciso se perguntar o que ele pode fazer e o que ele não pode fazer naquela situação.

O papa também enfatizou que sempre preferiu o diálogo às denúncias, porque, com o diálogo, a mensagem pode chegar mais facilmente.

Sobre a posse das armas atômicas, por fim, o papa reiterou o seu pensamento: estamos no limite da legalidade moral, porque são armas capazes de destruir a humanidade.

Palavras pronunciadas no voo de volta, que concluiu no aeroporto romano de Fiumicino às 21h40 (hora local) desse sábado à noite, com uma antecedência de uma hora em relação ao programa oficial.

Eis, aqui, um resumo das suas respostas mais significativas.

Sobre o encontro com os Rohingya e o uso da palavra

Francisco lembrou que não foi a primeira vez que a pronunciou em público, mas especificou que escolheu “comunicar passo a passo”, porque, para ele, “o mais importante é que a mensagem chegue”.

“Estou muito satisfeito com as conversas que pude ter, porque tive a satisfação de dialogar, de fazer o outro falar, de dizer a minha opinião, e, assim, a mensagem chegou. E chegou a tal ponto que continuou e terminou ontem, com aquele encontro”, razão pela qual se disse agradecido ao governo de Bangladesh, que acolheu 700 mil refugiados, enquanto há países mais ricos que fecham as portas.

Quanto ao pedido de perdão, ele se deixou guiar pela inspiração e também ficou um pouco com raiva, porque queriam logo mandar embora os 16 Rohingya presentes.

“Depois de ouvi-los um por um com o intérprete, comecei a sentir algo dentro de mim e me disse: não posso deixá-los ir embora sem uma palavra. Pedi o microfone, mas não lembro o que eu disse. Eu sei que, em certo ponto, pedi perdão. Naquele momento, eu chorava, tentava que não se visse. Eles também choravam.”

A ideia do envolvimento na oração dos outros líderes religiosos também lhe veio de repente. “No entanto – concluiu – a mensagem chegou”, e “ninguém fez críticas”. Francisco também especificou que gostaria de ter visitado os campos de refugiados, mas que não foi possível por várias razões.

Por fim, um golpe contra o pequeno grupo de fundamentalistas em um povo que, ao contrário, é pacífico: eles desencadearam a reação do Exército, que não fez distinção entre bons e maus.

Sobre o encontro com o general Hlaing, chefe do Exército birmanês

Foi ele quem pediu o encontro, disse Francisco. “E eu consenti, porque, com o diálogo, sempre se ganha”. “Foi uma boa conversa”, acrescentou. “Não posso entrar em detalhes, porque foi uma conversa privada. Mas eu não negociei a verdade. Mas fiz com que ele entendesse que um caminho como era nos maus tempos [isto é, no tempo da ditadura militar], renovada, hoje, não é mais viável. Foi um belo encontro, civil, e também lá a mensagem chegou.”

À pergunta se a antecipação do encontro escondia, por parte do general, a vontade de dizer: “Aqui quem manda sou eu”, Francisco respondeu que, mais do que a intenção, importava para ele o diálogo.

Também lhe perguntaram se, na conversa, ele usou a palavra Rohingya, e ele respondeu assim: “Eu usei as palavras para chegar à mensagem e, quando vi que a mensagem era aceita, ousei dizer tudo o que queria dizer. Intelligenti pauca”.

Sobre as críticas internacionais a San Suu Kyi e sobre a situação em Myanmar

Para julgar, é preciso considerar que a situação está em um ponto de viragem. “Não será fácil seguir em frente, mas não será fácil voltar atrás”, disse o papa. E a defesa contra os retornos ao passado é justamente uma renovada consciência internacional, além do fato de que a ONU disse que os Rohingya são os mais perseguidos no mundo.

Quanto ao governo democrático, o Myanmar “é uma nação politicamente em crescimento, em transição. Por isso, as possibilidades devem ser avaliadas também nessa ótica. Neste momento de transição, teria sido possível fazer isto ou aquilo? Em Myanmar, deve-se olhar para a construção do país. Dois passos para a frente, um para trás: a história nos ensina isso”.

Sobre a China

A esperança é sempre a de ir até lá, mas uma viagem não está em preparação, que também “faria bem a todos”. Enquanto isso, porém, intensificam-se os contatos em nível cultural, político e no que se refere à situação da Igreja.

“É preciso ir passo a passo com delicadeza, como está sendo feito, lentamente. Eu acredito que, nestes dias, começará em Pequim uma sessão da comissão mista. É preciso paciência, mas as portas do coração estão abertas.”

Sobre a Índia

À Índia, por sua vez, a viagem poderia se concretizar no ano que vem. Neste ano não foi possível, embora, inicialmente, a visita devia ser à Índia e Bangladesh. “Mas foi providencial – disse Francisco –, porque a Índia requer uma viagem para si mesma”, dando a entender que quer visitar diversas regiões do país.

Sobre a posse de armas nucleares

“Estamos no limite da legalidade da sua posse, porque, hoje, elas podem destruir toda a humanidade”, lembrou o papa. Devemos aprender a lição de Hiroshima e Nagasaki.

Por isso, existem fortes dúvidas sobre a legalidade moral da sua posse. Na verdade, Francisco deu a entender que essa posse não é mais justificável de modo algum, nem mesmo com o equilíbrio da dissuasão, como era nos tempos do magistério de João Paulo II.

Jornal Avvenire, 03-12-2017. 

Uma refeição no Vaticano com Francisco para 1.500 necessitados, no Dia Mundial dos Pobres, instituído pelo próprio Bergoglio. E outros 2.000 convidados nos refeitórios da capital.

Depois de cumprimentar o papa, houve também aqueles que quiseram uma foto com ele e, sem problemas de “cerimonial” ou de “autoridade”, passaram o celular a Dom Fisichella para que tirasse a foto. Depois, houve aqueles que, após o abraço com Francisco, estouraram em lágrimas. Isso também aconteceu no almoço de Jorge Mario Bergoglio com os necessitados no primeiro Dia Mundial dos Pobres.

O pontífice acolheu 1.500 indigentes, enquanto outros 2.000 almoçaram em outros refeitórios de Roma, que “hoje está cheia” disso, exclama o pontífice com alegria.

A Sala Paulo VI, o grande salão projetado por Pier Luigi Nervi, utilizado para as audiências papais ou, no máximo, para concertos, foi transformada em uma sala de jantar com 150 mesas, cada uma com dez assentos. As mesas eram redondas, preparadas de forma elegante, mas sóbria.

O Papa Francisco – que chegou com Dom Rino Fisichella, presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização – cumprimentou os presentes e depois disse: “Bem-vindo a todos. Vamos nos preparar para este momento juntos. Cada um de nós com o coração cheio de boa vontade, de amizade”.

Todos os presentes foram convidados a “compartilhar o almoço desejando-nos o melhor uns aos outros”. Depois da oração, ele cumprimentou os convidados espalhados pela capital italiana: “Uma benção também a todos aqueles (2.000, lembrou Fisichella) que estão nos outros refeitórios em Roma. Roma está cheia hoje” desses almoços. Uma saudação “e um aplauso daqui”.

Francisco compartilhou o almoço sentando-se em uma das mesas, um pouco maior do que as outras, com cerca de 20 pessoas.

Todas as pessoas necessitadas presentes – 1.500 entre as cerca de 7.000 pessoas que participaram da missa celebrada em São Pedro na manhã desse domingo, para o Dia Mundial dos Pobres – foram acompanhadas pelo pessoal das associações de voluntariado provenientes não só de Roma e do Lácio, mas também de diversas dioceses do mundo (por exemplo, Paris, Lyon, Nantes, Angers, Beauvais, Varsóvia, Cracóvia, Solsona, Malines-Bruxelas e Luxemburgo).

Os pobres foram servidos por 40 diáconos da diocese de Roma e por cerca de 150 voluntários provenientes das paróquias de outras dioceses. O menu, preparado pelo restaurante Al Pioppeto, de Sergio Dussin, previa nhoques da Sardenha servidos com tomate, azeitonas e queijo Collina Veneta, escalopes de vitela com legumes, polenta e brócolis de Bassano, tiramisu veneziano, água, suco de laranja e café. Quem animou o almoço foi a Banda da Gendarmeria vaticana e coro Le Dolci Note, composto por crianças e adolescentes de 5 a 14 anos.

Os outros convidados romanos do papa reuniram-se em refeitórios, seminários e colégios católicos de Roma (Pontifício Colégio Norte-Americano, Colégio Apostólico Leoniano, refeitório do Círculo São Pedro, refeitório da Cáritas Roma, Comunidade de Santo Egídio, Pontifício Seminário Romano Menor, Pontifício Ateneu Regina Apostolorum) para participar também de um almoço festivo.

No domingo, Francisco também publicou um tuíte: “Neste dia, convido toda a Igreja a manter o olhar fixo sobre aqueles que estendem suas mãos pedindo a nossa solidariedade”.

Bergoglio instituiu o Dia Mundial dos Pobres ao término do Jubileu Extraordinário da Misericórdia.

Vatican Insider

Os últimos, os frágeis, os homens e as mulheres dos quais a dignidade é pisoteada todos os dias. Para eles, será celebrado, no próximo domingo, 19 de novembro, o 1º Dia Mundial dos Pobres no Vaticano. Um evento fortemente desejado pelo Papa Francisco na conclusão do Jubileu da Misericórdia e organizado pelo Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização, que reunirá 4.000 pessoas necessitadas, carentes e pobres na Basílica de São Pedro para a missa com o pontífice às 10h (hora de Roma).

Todos serão acompanhados pelos membros das associações de voluntariado provenientes não só de Roma e do Lácio, mas também de diversas dioceses do mundo (como Paris, Lyon, Nantes, Angers, Beauvais, Varsóvia, Cracóvia, Solsona, Malines-Bruxelas e Luxemburgo).

Após a missa com o papa, 1.500 pobres serão acolhidos na Sala Paulo VI, para participar de um almoço festivo com o Papa Bergoglio. O momento será animado pela Banda da Gendarmeria Vaticana e pelo coro Le Dolci Note, composto por crianças de 5 a 14 anos.

Os outros 2.500, por sua vez, serão transferidos para refeitórios, seminários e colégios católicos em Roma (Pontifício Colégio Americano do Norte, Colégio Apostólico Leoniano, refeitórios do Círculo de São Pedro, refeitório da Cáritas Roma, Comunidade de Santo Egídio, Pontifício Seminário Romano Menor, Pontifício Ateneu Regina Apostolorum) para também participar de um almoço festivo.

Os pobres serão servidos por 40 diáconos da diocese de Roma e por cerca de 150 voluntários provenientes das paróquias de outras dioceses. O menu que o restaurante Al Pioppeto, de Sergio Dussin, servirá na Sala Paulo VI será composto por nhoques da Sardenha com tomates, azeitonas e queijo Collina Veneta, costeletas de vitela com legumes, polenta e brócolis de Bassano, tiramisú veneziano, água, suco de laranja e café.

O Dicastério para a Nova Evangelização, de acordo com um comunicado, dirigiu-se a algumas associações de voluntariado, como a Cáritas, Comunidade de Santo Egídio, Ordem de Malta, Nuovi Orizzonti, Comunidade João XXIII, Associação Fratello 2016, Obras Antonianas de Roma, ACLI, Grupos Vincentinos de Voluntariado.

E também foram envolvidas as realidades próximas das pessoas marginalizadas e das paróquias, para que conseguissem envolver todos os necessitados nesse dia. Foi generosa a resposta de todos esses institutos, que ofereceram um apoio valioso na organização.

Entre as iniciativas em preparação ao evento, deve-se ressaltar o Presidio Sanitario Solidale, ativo – de segunda-feira, 13, a domingo, 19 de novembro, das 9h às 16h – na Praça Pio XII. Nessa área médica, serão realizadas, gratuitamente, para todos aqueles que pedirem, análises clínicas, consultas médicas especializadas de cardiologia, dermatologia, infectologia, ginecologia e andrologia.

Na véspera do evento, sábado, 18, às 20h (hora de Roma), na Basílica de São Lourenço Fora dos Muros – deliberadamente escolhida pela referência ao santo diácono de Roma, que, ao imperador que lhe pediu as riquezas da Igreja, apresentou os pobres, dizendo: “Estes são os verdadeiros tesouros da Igreja” – será celebrada uma vigília de oração pelo mundo do voluntariado, que, todos os dias, no silêncio do seu compromisso, oferecem alívio e alegria a tantos pobres.

Na preparação do 1º Dia dos Pobres, foi preparado um subsídio pastoral, intitulado “Não amemos com palavras, mas com obras”, traduzido para seis idiomas. Na Itália e no restante do mundo, as dioceses e as paróquias acolheram com entusiasmo o convite do Papa Francisco, com muitas iniciativas em favor das pessoas menos favorecidas.

Fonte: Vatican Insider