O arcebispo de Bolonha convidou muitos pobres e deficientes para almoçar com o Papa Francisco. Um grande refeitório foi montado dentro da Basílica de São Petrônio, diante do altar. Foi o suficiente para alguns católicos acusarem o pontífice de profanar um lugar santo.

O Catecismo diz (item 2120) que o sacrilégio consiste em tratar as coisas santas de forma indigna. A refeição dos pobres na basílica de Bolonha afrontou a sacralidade do lugar? Se estudarmos os costumes dos grandes papas e santos dos primeiros séculos da História da Igreja, veremos que não.

Em primeiro lugar, se tratou de um evento excepcional. Ninguém tem a intenção de usar o templo rotineiramente como refeitório para os pobres.

Em segundo lugar, na Igreja primitiva era comum que, ao fim da missa, as pessoas reorganizassem o local, de modo a permitir que todos os fiéis se sentassem à mesa e se alimentassem. É o que narra São João Crisóstomo:

“Nas igrejas havia um costume admirável: (…) Ao final da reunião, em vez de voltarem imediatamente para casa, os ricos, que haviam se preocupado em levar provisões abundantes, convidavam os pobres e todos se sentavam à mesma mesa, preparada na igreja, e todos sem distinção comiam e bebiam as mesmas coisas.”

Com o grande aumento do número de fiéis, esse costume se tornou inviável, e acabou deixando de existir. Em ocasiões excepcionais, porém, continuou a ser praticado.

Um dos mais admiráveis papas de todos os tempos, São Gregório Magno, abriu as portas da igreja para que doze pobres pudessem comer lá dentro, em um momento de calamidade em Roma (ao final do século IV). O refeitório, com uma grande mesa de mármore, foi preparado no oratório de Santa Bárbara, ao lado de sua residência.

Antes do atual prédio da Basílica de São Pedro, no Vaticano, havia um templo anterior, construído pelo Imperador Constantino. Nesse local, diante do altar, numerosos almoços foram servidos aos desamparados. São Paulino de Nola testemunhou um desses almoços, que foi oferecido pelo senador romano Pamaquio.

O senador ofereceu o almoço em honra à memória de sua amada esposa, que havia falecido.  São Paulino elogiou aquela atitude:

“Tu reuniste na basílica do Apóstolo uma multidão de pobres, patrões de nossas almas, que por toda cidade de Roma pedem esmola para viver…  Vi todas a multidões de gente miserável chegar como enxames em grandes filas, até o fundo da imensa basílica do glorioso Pedro… Que alegre espetáculo era tudo aquilo!”

Será que os católicos de língua venenosa que hoje acusam o Papa Francisco de profanação têm a mesma ousadia de levantar a voz para acusar São Gregório Magno? E quanto a São Paulino de Nola e São João Crisóstomo… Seriam eles insensatos, que apoiavam a realização de um ato indigno na casa de Deus?

(via O catequista)

Em livro, o Papa Francisco abre o seu coração em uma entrevista concedida a Dominique Wolton. O pesquisador francês ficou impressionado com a sua “incrível simplicidade”.

Crise dos migrantes, laicismo, pedofilia na Igreja, relações com o islã… O Papa Francisco abre o seu coração em um livro que chegou às livrarias francesas no dia 06 de setembro passsado. O Sumo Pontífice respondeu a Dominique Wolton em uma série de entrevistas, “não menos de 12 encontros em um ano”. O pesquisador francês destaca que “este homem, que é extremamente culto, fala com uma incrível simplicidade”.

Como você convenceu o Papa e por que ele aceitou a entrevista?

Eu propus a ele o projeto sem conhecê-lo inteiramente. Eu escrevi para ele dizendo: “Eis quem eu sou e o que fiz e eu quero propor-lhe um livro sobre a política”. Anexei o plano do livro que eu tinha preparado. O que o levou a aceitar, foi, em primeiro lugar, o fato de que eu sou cientista. Isso o tranquilizou em relação a um jornalista. Eu era um leigo francês, o que lhe interessava, porque ele gosta muito da França e do debate sobre a laicidade. A segunda coisa, que não estava prevista, é que quando nós nos encontramos, houve um verdadeiro encontro humano. Rolou uma química entre as nossas duas histórias, que não tem nada a ver uma com a outra; mas isso criou esse diálogo e esta comunicação.

Como isso aconteceu? Você conversou a sós com ele?

Sim. Na primeira vez, me fizeram esperar em um pequeno escritório e eu levei um intérprete para me ajudar, porque eu não sou nenhum gênio em italiano nem em espanhol. A porta se abriu e este homem chegou de branco. Em seguida, ficamos o tempo todo sozinhos. Não é fácil falar com um papa!

Que tipo de pessoa você teve na sua frente? Um excelente comunicador? Um jesuíta? O Papa?

O que me impressionou imediatamente foi a bondade, os olhos, a gentileza, uma espécie de ternura incrível, uma vontade muito grande, uma lucidez real e uma incrível simplicidade. Nós nos conectamos intelectualmente. Logo depois, tudo aconteceu num plano mais amigável, mas não havia nenhuma linguagem estereotipada ou em todo o caso o mínimo. Em relação aos inúmeros políticos que eu já vi, de presidentes da República, políticos pretensiosos com sua linguagem estereotipada, ele é de uma simplicidade! É a razão de seu sucesso mundial. Este homem, que é extremamente culto, fala com uma incrível simplicidade.

Ele lhe pareceu sozinho? Ele até fala de uma gaiola…

Sim, é a gaiola do Vaticano! Eu não percebi que estivesse enclausurado, embora seja, como ele mesmo disse, uma gaiola muito agradável. Eu penso que ele não está sozinho. Uma boa parte dos católicos está com ele e outra boa parte lhe é hostil, mas ele tem muito mais encontros humanos, políticos e culturais com ateus e agnósticos, porque ele fala de política. É por isso que isso me interessava. Ele é extremamente sensível à sociedade: como ele diz, “a Igreja deve fazer a grande política, não a pequena política”. Portanto, ele odeia a hipocrisia, a rigidez, as críticas sobre os costumes. Ele tem uma visão do humano extremamente cristã e, ao mesmo tempo, sem ilusões. Ele não é um homem de rupturas. O que me impressiona é que é realmente da grande política, no sentido de que sua obsessão é a de estender pontes e não construir muros, isto é, conectar e não excluir. Penso que isso seja de uma inteligência política extrema, no sentido mais amplo da palavra “política”.

Ele é agora um amigo para você?

Eu penso que o que eu posso representar para ele e o que eu posso lhe dizer é importante, e vice-versa. Você sabe, é sempre assim na minha vida. Eu tive uma relação muito forte com Raymond Aron, muito forte com Jean-Marie Lustiger, forte o suficiente com Jacques Delors e muito forte com ele. Em todo caso, é este encontro humano e esta espécie de lucidez, enfim, este otimismo, que eu guardo.

Fonte: Radio France

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Autor de um livro-entrevista com o Sumo Pontífice, o sociólogo conta os segredos dos seus 14 encontros.

Faça um resumo de Politique et Société (Editions de L’Observatoire), que foi publicado na quarta-feira, 06 de setembro.

É um encontro intelectual e humano. Uma janela para o mundo entre o sociólogo agnóstico, pesquisador em comunicação política, que eu sou, e um papa que mede a importância da laicidade e repensa o equilíbrio entre tradição e modernidade. Essas 411 páginas destacam sua luta contra as corrupções e nos mostram que o tempo da Igreja é diferente do nosso.

Como você trabalhou?

Na “clandestinidade”… Manter o segredo não era muito difícil, porque ninguém me conhecia. Por conseguinte, para mim foi fácil entrar no Vaticano anonimamente na companhia do padre Louis de Romanet, meu tradutor, que, tendo trabalhado na Secretaria de Estado, também serviu de peixe-piloto para mim. Eu desci do táxi atrás da Praça de São Pedro, passei pelas várias barreiras marcadas pelo secretário particular do Papa até a Casa Santa Marta, onde ele mora. No começo, eu não sabia quantos encontros eu teria, porque o livro foi sendo construído ao longo de meses. Finalmente, trabalhando sozinho, eu não arrisquei nenhuma fuga.

Descreva para nós este Papa, que você nunca tinha encontrado antes.

Sua inteligência, sua bondade, sua alegria, sua fé, sua misericórdia, seu amor pelo povo, a humanidade me impressionaram; mas também sua energia, sua cultura, sua abertura de espírito e mais ainda a sua firmeza na luta contra a rigidez.

Francisco admitiu ter consultado uma psicanalista...

Uma surpresa que veio naturalmente quando abordamos a questão das mulheres, suas amizades femininas; ele então “confessou” isso sem barreiras entre sua vida pública e sua vida privada. Este papa não esconde estar muito à vontade com elas; a prova: os seus olhos brilham quando fala delas.

Ele é um pessimista ou um otimista?

Ele é, antes, um cético ativo, otimista contracorrente, mas sem ilusões sobre nada. Seu credo é o Evangelho, onde o bem supera o mal, mas não tem um calendário preciso. Ele trava as batalhas essenciais para ele: a batalha contra a hipocrisia, pelo serviço dos pobres, dos excluídos, pela reforma da família, da cúria, com a ambição de colocar as mulheres na Igreja católica. É uma verdadeira batalha esperando dar-lhes um papel importante no futuro, talvez até mesmo que tenham acesso às ordens sagradas. Na verdade, consciente de que se João Paulo II libertou a Europa, seu desafio é enfrentar os desafios da globalização. Mas é “diabolicamente” difícil gerenciar as tensões internacionais.

Um papa muito jesuíta?

Mais franciscano na sua abordagem da pobreza, mas jesuíta na gestão da política e do poder, e argentino no seu cosmopolitismo, no seu humor, na sua forte desconfiança dos Estados Unidos. Para entender isso, é preciso mensurar o quanto a sua relação com a Argentina é visceral…

No entanto, a imprensa argentina ainda não falou sobre o livro.

De fato, os principais jornais argentinos, ao menos por enquanto, ainda não ecoaram o livro. Sem dúvida, eles ainda não perceberam que a eleição de Jorge Mario Bergoglio mudou as prioridades. Ele também está bravo com a Europa, que ele considera não estar à altura. O Papa Francisco está obcecado com as pontes que não devem ser quebradas. Construir muros lembra-lhe muito os muros do comunismo e das ditaduras.

Que lição você aprendeu com essa experiência única?

Nosso relacionamento manteve-se técnico, profissional. Francisco me fez poucas perguntas pessoais, nunca me ofereceu um café ou me convidou para almoçar na Casa Santa Marta. Eu gostaria de dizer que, desde o final do livro, formou-se entre nós uma cumplicidade respeitosa e calorosa que, confesso, me deixa muito orgulhoso. No começo, tive que superar a emoção criada pelo poder do seu olhar, a angústia de conseguir realizar bem este trabalho, cujo projeto eu tinha feito antes de entrar em contato com o Santo Padre. Eu falei em francês lentamente – o Papa compreende perfeitamente o nosso idioma, mas suas palavras são hesitantes, então ele me respondia em italiano. Quando ele releu o livro, ele não censurou nada, apenas fez alguns ajustes, e quando, na semana passada, eu lhe levei a primeira cópia, ele exclamou: “Ah! Que lindo que ficou”. Um momento inesquecível!

Fonte: Paris Match.

Na sequência da mais recente onda de violência na Europa, o Vaticano diz não estar tomando medidas extras de segurança, em parte porque a salvaguarda já era “muito forte”.

Normalmente os papas sentem um grau maior de calmaria com respeito à própria segurança do que outras figuras públicas, pois, do ponto de vista deles, os pontífices contam com a rede se segurança máxima que se pode ter.

A essa altura, um ataque com facas na Finlândia ocorrido sexta-feira deixou dois mortos. A polícia diz que passou a considerar o ato como terrorista e informou que prendeu um marroquino de 18 anos e outros cinco. Este incidente levou ao recrudescimento das medidas de segurança nos aeroportos e estações de metrô, além de uma maior presença policial em locais onde as pessoas se reúnem.

A Cidade do Vaticano, evidentemente, é também um alvo europeu, sendo um lugar onde muitas pessoas se reúnem. Na verdade, é provavelmente milagre que algo semelhantemente horrível não tenha ocorrido aí ainda. Afinal, para um jihadista esta cidade-Estado é o alvo perfeito: um símbolo imponente do cristianismo e da civilização ocidental, além de ser o lar do líder cristão mais conhecido do planeta.

Na sexta-feira, conversei com a porta-voz do Vaticano, Paloma García Ovejero, que me disse que o Vaticano não está tomando nenhuma precaução extra em se tratando de segurança à luz dos eventos recentes, em parte porque “não temos nenhum indício” de uma ameaça em específico.

“Não adotamos medidas extras de segurança, pois aqui o nível de vigilância já era muito forte”, disse García Ovejero. “A Basílica de São Pedro está sempre protegida, e a Via della Conciliazione [avenida que leva até a praça] permanece fechada para o tráfico”.

“Ou seja, estamos com o mesmo nível de alerta”, completou ela.

Então, resta saber se as ansiedades com a questão da segurança influirão em alguma atividade pública do papa, seja em Roma, seja quando ele pegar a estrada. (A sua próxima viagem está marcada para o começo de setembro, quando visitará a Colômbia.)

Na falta de indícios diretos de uma ameaça específica, a minha aposta é que o Papa Francisco não irá diminuir a sua exposição pública, e o mesmo eu diria quanto aos dois papas anteriores que cobri, Bento XVI e João Paulo II.

Em geral, os papas contam com uma preocupação com a questão da segurança muito menor em comparação com os outros líderes mundiais. Se olharmos o aparato de segurança em torno de um presidente americano ou do presidente da Rússia, as comparações com um papa sequer fazem sentido.

As equipes que trabalham para o papa são de alto nível, porém enfrentam limites no número de membros e no que podem fazer para manter o religioso longe de qualquer perigo.

Lembro certa vez de estar em uma viagem com João Paulo II na Grécia. Ele presidia uma missa em uma pequena avenida. Durante a procissão do ofertório, um homem não autorizado se juntou à fila e começou a se aproximar do papa. Ele estava talvez a meio passo do altar, a poucos metros de João Paulo, quando um segurança percebeu e o retirou.

As manchetes nos jornais do dia seguinte diziam: “Homem é atacado enquanto corria em direção ao papa!” Posso lhe garantir que ele “não corria”, pois usava muletas.

No final da missa, anunciou-se que o indivíduo era um sem-teto e estava doente, e que só queria dar a João Paulo uma amostra de seu trabalho. Por fim, foi trazido de volta, recebeu um abraço papal e posou para fotos. No entanto, é óbvio que essa história poderia ter acabado diferente.

Por que os papas se permitem correr perigos como este?

Além do aspecto pastoral de querer estar o mais próximo possível das pessoas, há uma outra dimensão que nem sempre entra nos cálculos para avaliar os níveis de segurança e que é, sem dúvida, real: os papas realmente acreditam que, no fim, o destino deles está nas mãos de um poder muito maior.

Eu não estava em Roma quando tentaram assassinar João Paulo, em 13-05-1981. Na verdade, eu cursava o ensino médio quando o fato ocorreu. No entanto, passei muito tempo ao longo dos anos conversando com quem estava lá, incluídos alguns dos assessores mais próximos do papa, os quais deixaram claro que João Paulo acreditava, com firmeza, que a Virgem Maria estendeu as mãos para ele naquele dia – era, lembremos, Dia de Nossa Senhora de Fátima – e o salvou.

Temos de concordar: João Paulo II era bem mais místico do que Bento XVI ou Francisco, mas todos estão convencidos de que o destino deles a Deus pertence.

Isso não quer dizer, é claro, que os papas são imprudentes ou que recusam medidas de segurança básicas. Mesmo o espontâneo Papa Francisco tornou-se um pouco mais disciplinado, geralmente permitindo que sua equipe de segurança faça barreiras à sua frente enquanto caminha entre as multidões.

Quando esteve na República Centro-Africana, Francisco quis parar próximo a uma igreja em que, diziam, cristãos haviam sido mortos recentemente. No entanto, ele acabou desistindo da ideia quando o núncio apostólico no país lhe explicou que era “perigoso demais”.

Da mesma forma, quando Francisco esteve nas Filipinas, um momento marcante aconteceu numa visita à ilha de Tacloban, local que tinha sido devastado por fortes tempestades. Mesmo assim, Francisco concordou em encurtar a sua programação quando os pilotos disseram que que uma tempestade tropical que se aproximava deixaria inseguro o seu retorno para casa.

Portanto, embora os papas não contem somente com a sorte – especialmente porque, onde quer que vão, a segurança de outras pessoas está em jogo também –, eles muitas vezes sentem uma calmaria maior quanto à própria segurança pessoal do que outras figuras públicas.

Novamente, temos de concordar: do ponto de vista deles, os papas contam com a rede de segurança máxima.

A reportagem é de John L. Allen Jr.- Crux

 

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O Cardeal Gerhard Ludwig Müller negou energicamente os boatos da imprensa que afirmam que o Papa Francisco lhe fez cinco perguntas antes de informar que não iria renovar o seu mandato como Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé.

Citando uma fonte alemã anônima, que por sua vez afirmou ter recebido a informação de outra pessoa, o site católico de notícias “One Peter Five” e o vaticanista italiano Marco Tosatti informaram que o Papa Francisco, ao se reunir com o Cardeal Müller no dia 30 de junho, fez cinco perguntas sobre alguns temas como a introdução de um diaconato feminino até a abolição do celibato, sua posição sobre “Amoris Laetitia”, sua posição sobre a decisão do Papa de demitir três membros do dicastério e a ordenação sacerdotal de mulheres.

De acordo com essas informações, depois de escutar as respostas do Cardeal alemão, Francisco lhe informou que o seu mandato havia terminado e saiu da sala, deixando para trás um paciente Müller que esperava do Santo Padre um sinal de gratidão, até que, envergonhado, o Arcebispo George Gänswein, Prefeito da Casa Pontifícia, disse ao Cardeal que a reunião havia terminado.

Entretanto, o Cardeal Müller assinalou ao veterano vaticanista Guido Horst que nenhuma dessas afirmações é verdadeira. Guido Horst, em um artigo de opinião publicado no site CNA Deucth – agência em alemão do Grupo ACI–, descreveu pessoalmente o encontro que teve com o purpurado alemão em Roma na manhã do dia 11 de julho.

O jornalista, correspondente do jornal “Tagespost”, mostrou ao Cardeal uma cópia dessas informações: o próprio Müller, de 69 anos, não havia visto a reportagem na internet.

O Cardeal ficou “perplexo ao ler esta descrição do seu encontro com o Papa”, escreveu Horst. “Isso é mentira”, disse-lhe o Cardeal Müller. De fato, indicou o Purpurado, todo o encontro ocorreu de maneira muito diferente e as afirmações da “fonte alemã anônima” são completamente falsas.

Os comentários do Cardeal coincidem com um breve e-mail enviado ontem pelo Diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, Greg Burke, ao site “One Peter Five” e a Marco Tosatti. Neste e-mail, Burke afirma que “a reconstrução (do encontro) é totalmente falsa” e solicita que a matéria seja atualizada.

Fratres In Unum

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Dois dias depois de o papa Francisco ter feito um apelo em defesa da vida no Twitter, o porta-voz do Vaticano, Greg Burke, afirmou neste domingo (2) que o líder católico acompanha “com afeto e comoção” o caso do bebê britânico Charlie Gard.   

O menino de apenas 10 meses sofre de miopatia mitocondrial, doença rara e incurável que provoca perda progressiva da força muscular, e terá os aparelhos que o mantêm vivo desligados por decisão da Corte Europeia dos Direitos Humanos, contra a vontade dos pais.   

“O Santo Padre acompanha com afeto e comoção o caso do pequeno Charlie Gard e expressa sua proximidade aos pais. Ele reza por eles, desejando que não se negligencie seu desejo de acompanhar e tratar o próprio bebê até o fim”, declarou Burke.   

Na sexta-feira passada (30), Francisco já havia escrito no Twitter, sem citar Charlie, que “defender a vida humana quando ela está ferida pela doença é um compromisso de amor que Deus confia a cada homem”.   

Os genitores de Charlie, Connie Yates e Chris Gard, pretendiam submetê-lo a um tratamento experimental nos Estados Unidos e conseguiram até arrecadar 1,4 milhão de libras esterlinas em doações. No entanto a Justiça do Reino Unido ordenou que os aparelhos do menino fossem desligados, atendendo a um pedido de seus médicos, que alegam que não há cura para a doença e que a criança tem o direito de morrer com dignidade.   

O casal ainda tentou recorrer à Corte Europeia dos Direitos Humanos, mas sem sucesso. Charlie nasceu saudável, em agosto de 2016, porém logo começou a perder peso e força. Hoje o bebê só sobrevive com a ajuda de aparelhos. (ANSA)

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O Papa Francisco exprimiu dor e tristeza pela Diocese de Ahiara, na Nigéria, cujo bispo, D. Okpaleke, regularmente nomeado há dois anos, não ter ainda sido reconhecido na Diocese. A notícia foi dada pelo Presidente da Conferência dos Bispos da Nigéria, D. Ignatius Kaigama, na sua página web, e retomada pela agencia Fides.Quinta-feira passada, o Papa recebeu em audiência (foto) uma delegação da Igreja na Nigéria, ocasião em que solicitou explicitamente os eclesiásticos da Diocese de Ahiara a manifestarem obediência, sob pena de suspensão a divinis. “Quem se opõe à tomada de posse de D. Okpaleke quer destruir a Igreja e comete pecado mortal” – disse o Papa. Francisco acrescentou que a Diocese de Ahiara  “está desde há anos num estado de viuvez por o bispo ter sido impedido de tomar posse”.A delegação recebida pelo Papa era formada pelo Cardeal Onaiyeken, arcebispo de Abuja e Administrador Apostólico da Diocese de Ahiara, por D. Kaigama, Presidente da Conferência Episcopal da Nigéria, e pelo próprio D. Okpaleke, Bispo nomeado para Ahiara.Evocando a parábola dos vinhateiros assassinos, o Papa comparou essa Diocese à mulher “sem esposo, que perdeu a sua fecundidade e não pode dar fruto”.  Quem se opôs à tomada de posse do bispo – continuou Francisco – quer destruir a Igreja. “Isto não é permitido. O Papa não pode ficar indiferente”.

Francisco louvou a paciência mostrada pelo bispo e confessou ter mesmo pensado em suprimir essa diocese, mas “a Igreja é mãe e não pode abandonar tantos filhos” – afirmou. O Papa declarou-se triste por os sacerdotes serem “manipulados”, talvez mesmo do estrangeiro e de fora da Diocese: “não se trata de um acaso de tribalismo – precisou – mas de apropriação da vinha do Senhor”.

“Quem ofende a Igreja comete pecado mortal” – daí a solicitaão a cada eclesiástico incardinado na Diocese de Ahiara, mesmo se residente no estrangeiro, a pedir perdão por escrito ao Papa no prazo de 30 dias sob pena de suspensão a divinis e a exclusão definitiva do múnus sacerdotal. Cada um deve escrever singularmente e pessoalmente – precisou o Papa – e manifestar total obediência” ao sucessor de Pedro”. Na missiva os eclesiásticos devem exprimir a própria disposição em aceitar o bispo nomeado.

Consciente de poder parecer “muito duro”, Francisco explicou, todavia, que o povo está escandalizado e que “Jesus recorda que quem escandaliza, deve assumir as consequências”. “Talvez – conclui o Papa – alguém foi manobrado sem um pleno conhecimento da ferida infligida à comunidade eclesial”. O Papa aceitou o pedido de conceder audiência no Vaticano com os eclesiásticos da Diocese e ao bispo de Ahiara quando a questão for resolvida.

Fonte: Rádio Vaticano

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Poucas figuras públicas no planeta, atualmente, são tão carismáticas quanto o papa Francisco e poucas tão “indigestas” quanto o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
O encontro dos dois, esta semana, no Vaticano, acabou servindo para amenizar o tédio que as mazelas políticas vêm produzindo nas redes sociais, transformadas em campo livre para bate-bocas desairosos. Pelas profundas diferenças filosóficas que separam o pontífice do magnata de Nova York, as interpretações só poderiam ser as mais divertidas possíveis, embora fontes e veículos oficiais tenham se empenhado em traduzir o clima durante a conversa como cordial e leve, marcas do relacionamento do papa com o mundo extramuros que se estende além do Vaticano.
Verdade seja dita, há hoje uma tendência a ridicularizar tudo o que vem dos Trump e a aplaudir tudo o que se refere ao santo padre, sobretudo pela espontaneidade. Ela já rendeu imagens memoráveis durante o papado, mas não leva o chefe da Igreja a perder o bom senso e a pisar em falso no escorregadio caminho da diplomacia. O dono da casa pode até discordar frontalmente deste ou daquele comportamento, mas não esquece da importância da instituição que dirige nem da de quem é recebido por ele – do mais humilde ao ocupante da mais alta posição na pirâmide social, o tratamento segue o preceito da fraternidade.
Afinal, Francisco chegou mesmo a dar um tapa nada discreto na mão de Trump durante a foto onde também estavam a mulher, Melania, a filha Ivanka e o genro (Jared Kushner)? Ainda hoje o meme é compartilhado e arranca sonoras gargalhadas quando aparece nas timelines dos usuários de redes sociais e, pela perfeição (inclusive usando o selo da CNN), chega a quase convencer, exceto por um detalhe: a imagem falsa no GIF mostra o presidente com paletó sob o qual aparece o punho branco da camisa, enquanto a verdadeira, apenas a manga do paletó preto indo até metade da mão. Mas, imagina se o desagrado de Francisco com as visitas chegaria a tanto, embora o mundo intua a absoluta falta de empatia entre as partes. A expressão séria do pontífice a um dado momento, classificada de stone-face (rosto de pedra) pelos patrícios de Trump, logo foi vista como sinal de antipatia, porque, como dito anteriormente, o que o mundo quer mesmo é mostrar a própria má vontade com a família mais poderosa dos Estados Unidos.
Nenhum dos interessados em aproveitar o encontro como mote para uma série de piadas se deu ao trabalho de concluir que o papa simplesmente não pode rir o tempo inteiro. Que graça haveria em se buscar a verdade? Sim, porque por esta ótica as imagens do rosto sombrio na chegada a Fátima (Portugal) dariam a entender que Francisco poderia não estar apenas cansado ou pensativo, mas já ter perdido a fé na santa ou mesmo a vontade de propagá-la. Os nada simpáticos a qualquer movimento feito por Trump e seus descendentes são implacáveis. Riram muito, por exemplo, da roupa totalmente preta e dos vistosos arranjos da mesma cor na cabeça da mulher e da filha do presidente, mas não foram tão espirituosos na ocasião em que Elizabeth II da Inglaterra visitou João Paulo II vestida de negro quando a regra do Vaticano, para rainhas em visita aos papas, é vestir branco.
Na cor e na elegância, as norte-americanas acertaram. O problema é que é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha, como diz certa parábola, do que aquela família agradar em alguma coisa.
Alheio a todas essas convenções e críticas, a verdade é que Francisco tratou os Trump sem a distância imaginada. E se houve “puxão de orelha” foi na forma dos presentes que deu ao inquilino da Casa Branca: um exemplar do seu elogiado ensaio sobre a importância de se salvar o meio ambiente – assunto para o qual o presidente torce o nariz – e medalhão com a imagem de uma oliveira, símbolo da paz. O papa disse que ela é necessária e o presidente, que “é bom”. Talvez estivesse nessa resposta o verdadeiro mote para um bom meme.
Fonte: Diário de Pernambuco.

RV24530_ArticoloDois sinais recentes sugerem que a viagem do Papa Francisco, nos dias 28 e 29 de abril ao Egito, quando proferiu o seu discurso mais forte contra a violência e o extremismo religioso, pode servir como indicativos de que ela fez a diferença. Um é a construção de uma nova igreja cristã com ajuda muçulmana, o outro são as acusações de juristas contra um clérigo islâmico poderoso que chamou os cristãos e judeus de “infiéis”.

Desde que o Beato Paulo VI foi chamado de “o Papa Peregrino” por se tornar o primeiro pontífice a deixar a Itália desde 1809, e o primeiro na história a visitar o hemisfério ocidental, a África e a Ásia, os papas até agora já fizeram 157 idas ao estrangeiro – 104 delas, vale dizer, pertencendo a São João Paulo II..

Exemplos de viagens papais “de sucesso”  incluem a primeira ida de João Paulo II à Polônia, em 1979, momento que muitos analistas creem ser o começo do fim do comunismo soviético; a inesquecível viagem de 2000 à Terra Santa, com a parada num Muro das Lamentações, onde deixou uma nota comovente condenando o antissemitismo; e a visita de Bento XVI em 2006 a Regensburg, na Alemanha que atiçou protestos, mas também iniciou um processo de reflexão no mundo islâmico sobre a necessidade de confrontar a violência religiosa.

É cedo demais ainda para julgar em que categoria se encontra a breve viagem de Francisco ao Egito este ano, mas estes últimos dias apresentaram sinais que podem nos ajudar a interpretar o seu significado.

A viagem dos dias 28 e 29 de abril desdobrou-se à sombra dos bombardeios no Domingo de Ramos a duas igrejas coptas no país e que deixou 45 mortos, um lembrete do extremismo e da violência religiosa que se tornou parte da paisagem em muitas regiões do Oriente Médio. Nesse contexto, Francisco fez um forte chamado aos líderes políticos e religiosos para “desmascarem a violência maquiada como suposta santidade”.”.

Francisco também fez uma defesa robusta da minoria cristã no Oriente Médio, chamando-a de a “luz e sal desta sociedade”.

A última vez que um pontífice proferiu uma repreensão ao Egito sobre a situação de seus cristãos, o que veio com Bento XVI em 2011, o establishment político e religioso local expressou indignação, suspendendo as relações diplomáticas e o diálogo inter-religioso com o Vaticano. Dessa vez, no entanto, Francisco foi celebrado como um herói moral, dando entender que algo pode ter mudado.

Pelo menos, dois desdobramentos recentes no Egito sustentam essa percepção.

O primeiro é a construção de uma nova igreja cristã copta na localidade de Ismailia, localizada na província de Minya, dedicada a São Jorge e a Virgem Maria. Uma coisa que torna este caso marcante é como a igreja foi construída.

O bairro de Ismailia compõe-se de um terço de cristãos, dois terços de muçulmanos, e no passado esteve marcado pela mesma luta sectária que têm engolido outras partes do país. De acordo com o costume egípcio, ele tem um “comitê de reconciliação” que arbitra disputas, embora em muitos casos os cristãos venham se queixando de que estão sendo desfavorecidos em seus interesses.

Dessa vez, porém, o comitê não só aprovou esmagadoramente a construção de uma nova igreja, mas também a população muçulmana local contribuiu com uma parcela significativa para o seu financiamento.

Falando numa cerimônia para a inauguração da igreja, o prefeito apresentou o resultado como um exemplo de “concórdia nacional” e de uma ajuda bem-vinda decorrente de cooperação estrangeira para construir locais de culto.

Este desdobramento igualmente marca um rompimento com uma norma altamente restritiva no Egito sobre a construção de novas igrejas. Eis como a Solidariedade Copta, grupo formado por cristãos egípcios, caracterizou a situação: “Nos últimos 60 anos, uma média de duas igrejas por ano foram aprovadas. O Egito tem um total de menos de 2.600 igrejas, o que significa cerca de 1 para cada 5.5000 cristãos do país. (Em comparação, há cerca de 1 mesquita para cada 620 muçulmanos no Egito.)”

Em outro fronte, um clérigo islâmico famoso, o Xeque Salem Abdul Jalil, também subsecretário no ministério egípcio para as “alocações religiosas”, recentemente foi para a televisão denunciar os cristãos e judeus como “infiéis” e declarar suas doutrinas como “corruptas”. No passado, este tipo de retórica poderia passar sem ser notada ou mesmo poderia ser aplaudida. Mas não desta vez.

Diferentemente, o ministro para quem Jalil trabalha, Mohamed Mokhtar Gomaa, rapidamente emitiu uma nota negando as declarações e afirmando que Jalil estava proibido de pregar em mesquitas. Vários juristas no país acusaram de “ultraje contra a religião”, crime segundo o direito egípcio, e ele agora deverá se apresentar diante de um tribunal no dia 25 de junho.

A agência noticiosa católica Fides citou Boutros Fahim Awad Hanna, bispo católico copta de Minya, que disse: “Aqui no Egito, têm ocorridos processos contra cristãos e muçulmanos por ofensas ao Islã, mas este poderá ser o primeiro processo contra um muçulmano acusado de ofender o cristianismo e o judaísmo”.

Jalil desculpou-se pela escolha das palavras, embora não tenha se retratado do conteúdo delas.

Certamente podemos debater a sabedoria por trás da criminalização de declarações contra crenças religiosas, mas a disposição em processar a fundo um poderoso clérigo muçulmano por desrespeitar os sentimentos de grupos minoritários é, não obstante, um sinal admirável de uma mudança de ares.

Em outras palavras, não é que a visita de Francisco ao país tenha causado tudo isso. Na verdade, a força básica em jogo provavelmente é que a maior parte dos egípcios estão simplesmente fartos com os conflitos armados.

No entanto, a ida do pontífice ao país captou este clima e, com razão, o encorajou ainda mais. Se o Egito realmente tiver uma reviravolta na luta contra a violência e o extremismo religioso, a viagem de Francisco e a mensagem que ele deixou poderão ser lembradas como uma parte importante desta transição.

É uma enorme incógnita saber se algo assim irá acontecer, mas se ocorrer, então o Egito claramente vai entrar para a história como uma outra visita papal que realmente fez a diferença.

John L. Allen Jr., publicada por Crux.

Pope Francis meets with Rabbi Edgar Gluck, Chief Rabbi of Galicia, center, during a private audience at the Vatican on May 8, 2017. Photo courtesy of L'Osservatore Romano

O Pontífice teve uma audiência de 45 minutos no Vaticano como o grupo, dirigido pelo rabino Edgar Gluck.

Um vídeo na página web de Yeshiva World News, e também publicado no YouTube, mostra que o Papa se mexe ao som da música, enquanto os membros da delegação dançam com a canção Largos años lhe saciarán.

Yeshiva World News citou o filho de Gluck, Zvi, que fazia parte da delegação, dizendo que o Pontífice se comprometeu em trabalhar para que sejam promulgadas “normas mais rigorosas contra a destruição de cemitérios judeus para construir ruas ou casas”.

Zvi Gluck, fundador e diretor de Amudim, uma organização dedicada a ajudar as vítimas judias do abuso e o vício, também tuitou que o Pontífice prometeu “tolerância zero” ao abuso sexual contra crianças e manifestou: “Temos que manter as crianças seguras”.

Nascido na Alemanha, Edgar Gluck, de 80 anos, divide seu tempo entre o Brooklyn e a Polônia, onde tem o título de rabino-chefe da Galícia. Nos Estados Unidos, onde há muito tempo foi politicamente ativo, foi cofundador de Hatzolah, um dos mais importantes corpos de ambulâncias voluntárias da comunidade judaica e em Israel.

Aurora Israel, 09-05-2017.

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Único muçulmano a participar de dois Sínodos (sobre o Líbano, convocado por João Paulo II, e sobre o Oriente Médio, por Bento XVI), o professor libanês Mohammad Sammak, secretário-geral do Spiritual Islam Summit, que também participou do encontro sobre a paz no Cairo, acredita que o encontro na capital egípcia é também o ponto de chegada do trabalho realizado no passado por cristãos e muçulmanos..

” Sim, é verdade, porque este encontro do Cairo foi possível justamente por tudo o que foi feito antes. Desde o Sínodo de 2010 sobre o Oriente Médio surgiram duas urgências muito claras: a primeira, sobre os direitos de cidadania, iguais para todos; e, a segunda, sobre a liberdade religiosa, ou, mais simplesmente, sobre a liberdade. Pois bem, a Universidade al Azhar, durante os anos que passaram, trabalhou e produziu dois documentos de grande importância precisamente sobre o caráter indispensável da liberdade religiosa e da igualdade da cidadania, este último graças ao encontro que aconteceu no Cairo no final do mês de fevereiro deste ano. É por isso que este encontro sobre a paz pôde ser realizado sem a necessidade de discussões ou esclarecimentos sobre estes dois aspectos fundamentais.

Este encontro sobre a paz, além da presença importantíssima do Papa Francisco, também contou com a presença do Patriarca Ecumênico de Constantinopla, de outros líderes cristãos mundiais, rabinos, expoentes de primeira categoria do hinduísmo, do budismo… E tudo isso se verificou precisamente no Cairo, no Cairo de hoje. Era preciso imaginar um evento como este, hoje, no Cairo. Isto é realmente importante, como também foi extremamente importante que o Papa Francisco tenha desejado dizer: ‘Salam aleikum’, isto é, “que a paz esteja com vocês”, a todos os presentes ao seu discurso. Durante um encontro deste tipo, estas palavras são para nós um dever religioso: desejar a paz ao outro… E o Papa quis também dizê-lo, a todos nós, em nossa língua. Isto tocou realmente o coração e as mentes de todos, realmente penso que de todos os participantes”

O Papa Francisco utilizou, durante o seu discurso no Palácio Presidencial, também uma frase que, se não me engano, é da época pós-colonial árabe: “A fé é para Deus, a pátria para todos”. Também este referência chegou aos corações?

Sim, esta frase, que creio que é inclusive de antes da independência do Egito e que foi usada em todos os países árabes, surpreendeu, porque se refere às incompreensões que se podem gerar e com o desejo de superá-las. É uma referência constante aos perigos de cair em contraposições e a vontade de superá-las. Por isso, também foi muito importante.

Depois deste tipo de encontro, sempre se adverte o perigo de que se tenha tratado apenas de uma ocasião para fazer uma foto; outros esperam que realmente aconteça uma mudança. Que impressão você teve?

Quero ser muito transparente. A mudança que necessitamos ainda está na nossa frente; os problemas que devemos enfrentar são enormes. Mas, justamente por isso, creio que o encontro foi um ponto de partida, um bom ponto de partida, que nos anima para seguir em frente com determinação.

Um último ponto: tem havido algumas polêmicas envolvendo a al Azhar e uma espécie de duplo discurso: abertura nos documentos oficiais, e fechamento quando se trata dos currículos da al Azhar…

Devo dizer, por experiência própria, que nos últimos tempos a Universidade de al Azhar investiu fortemente na renovação dos seus currículos e com a abertura. E depois que houve, no Egito, o duplo e tremendo massacre dos fiéis coptas, o Grão-Imã al Tayyeb disse sobre estes crimes: “Qual dos terroristas ou dos seus mentores graduou-se conosco?” Penso que é justo registrar o que foi feito.

Vatican Insider

REUTERS2115976_ArticoloAo retornar a Roma vindo do Egito, o Papa Francisco encontrou os jornalistas presentes no voo A331 da Alitália, a quem respondeu às perguntas, tendo como moderador o Diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, Greg Burke. Eis a íntegra de sua entrevista:

Greg Burke:

Obrigado, Santo Padre. Há alguns jornalistas que fazem a viagem pela primeira vez e outros que já fizeram quase uma centena de viagens, mais de uma centena! Não sei se o Santo Padre sabe quantas viagens internacionais fez…

Papa Francisco:

Dezoito.

Greg Burke:

Dezoito. E a décima nona está à porta, pelo que também o Santo Padre já tem um bom número de viagens papais. Obrigado por este momento, que é sempre um momento importante para nós.

Começamos pelo grupo italiano: Paolo Rodari. Mas não sei se o Santo Padre quer dizer alguma coisa antes.

Papa Francisco:

Sim. Boa tarde! Agradeço o vosso trabalho, porque foram 27 horas – creio eu – de muito trabalho. Muito obrigado pelo que fizestes. Obrigado. E estou à vossa disposição.

Greg Burke:

Obrigado, Santo Padre.

Paolo Rodari, de «República»:

Santo Padre, obrigado. Queria fazer-lhe uma pergunta a propósito do seu encontro de ontem com o Presidente Al Sisi: De que falaram? Acenou-se ao tema dos direitos humanos e, concretamente, houve oportunidade de falar do caso de Giulio Regeni? Na sua opinião, chegar-se-á à verdade sobre isso?

Papa Francisco:

A propósito disto, darei uma resposta geral para, depois, chegar ao caso particular. Geralmente, quando estou com um Chefe de Estado, em diálogo privado, este permanece privado. A não ser que, de comum acordo, se diga: «Tudo o que dissermos sobre este ponto, torná-lo-emos público». Nesta viagem, tive quatro diálogos privados: com o Grande Imã de Al-Azhar, com o Presidente Al Sisi, com o Patriarca Tawadros e com o Patriarca Ibrahim; e acho que, se o diálogo é privado, por respeito se deve manter a confidencialidade. É reservado. Depois, há a pergunta sobre Regeni. Estou preocupado. Por parte da Santa Sé, eu intervim sobre este assunto, porque os próprios pais mo pediram; a Santa Sé interveio. Não direi como nem onde, mas interviemos.

Greg Burke:

Darío Torres Menor, «El Correo» espanhol:

Darío Torres Menor, “El Correo”:

Obrigado, Santidade. O Santo Padre disse ontem que a paz, a prosperidade e o desenvolvimento merecem todo o sacrifício e, depois, sublinhou a importância do respeito pelos direitos inalienáveis do homem. Significa isto um apoio ao governo egípcio, um reconhecimento pelo seu papel no Médio Oriente, pelo modo como tenta defender os cristãos, apesar de serem insuficientes as garantias democráticas?

Papa Francisco:

Não. Devem-se interpretar literalmente como valores em si mesmos. Eu disse isto: defender a paz, defender a harmonia dos povos, defender a igualdade dos cidadãos, seja qual for a religião que professem, são valores. Falei dos valores. Se um governante defende este valor ou aquele, é outro problema. Fiz dezoito visitas a vários países. Às vezes ouvi dizer: «O Papa, indo lá, dá apoio àquele governo». Porque um governo tem sempre as suas fraquezas ou os seus adversários, cada qual diz a sua… Não me intrometo. Falo dos valores e cada um veja e julgue se este governo ou este Estado, este ou aquele, promove tais valores.

Darío Menor Torres:

Ficou com o desejo de visitar as Pirâmides?

Papa Francisco:

Mas queres saber que hoje, às seis horas da manhã, os meus dois assistentes foram visitar as Pirâmides?

Darío Torres Menor:

Ai sim? Gostaria de ter ido com eles?

Papa Francisco:

Sim, verdadeiramente sim…

Darío Torres Menor:

Muito obrigado.

Greg Burke:

Procuremos cingir-nos aos temas da viagem… Virginie Riva, do grupo francês, «Radio Europe 1»:

Virginie Riva, «Radio Europe 1»:

Santo Padre, uma pergunta que parte da viagem, mas – se o Santo Padre aceitar – para envolver a França. Na Universidade de Al-Azhar, falou dos populismos demagógicos. Os católicos franceses, neste período, sentem-se tentados pelo voto populista ou nos extremos: estão divididos e desorientados. Que elementos de discernimento poderia dar a estes eleitores católicos?

Papa Francisco:

Bem, há uma dimensão de «populismo» entre aspas, porque esta palavra, como sabeis, tive de a reaprender na Europa, pois na América Latina tem outro significado. Há o problema da Europa e há o problema da União Europeia. O que disse sobre a Europa, não o repetirei aqui. Já falei quatro vezes: duas em Estrasburgo, uma no Prémio Carlos Magno e outra no início da comemoração do sexagésimo aniversário [dos Tratados de Roma]. Lá está tudo aquilo que disse sobre a Europa. Cada país é livre de fazer as escolhas, sobre isso, que julgue convenientes; não posso julgar se faz esta escolha por este motivo ou por outro, porque não conheço a política interna. É verdade que a Europa está em perigo de desintegrar-se; isto é verdade. Disse-o suavemente em Estrasburgo, disse-o mais forte no Prémio Carlos Magno e, ultimamente, sem nuances. Sobre isto, devemos apenas meditar: a Europa vai do Atlântico aos Urais… Há um problema que assusta a Europa e, talvez, alimente os populismos: o problema das migrações. Isto é verdade. Mas não esqueçamos que a Europa foi feita por migrantes: séculos e séculos de migrantes… somos nós! Mas é um problema que se deve estudar bem, e é preciso também respeitar as opiniões; as opiniões honestas dum debate Político com maiúscula, em grande: uma Política grande, não com a pequena política do país que no fim acaba por cair. Quanto à França, eu – digo a verdade – não estou a par da política interna francesa. Procurei ter boas relações, mesmo com o Presidente atual, com quem houve uma vez um conflito, mas depois pude falar claramente sobre o assunto, respeitando a sua opinião… Dos dois candidatos políticos [Le Pen e Macron], não conheço a história, não sei donde vêm… Sei, sim, que um é representante da direita forte, mas o outro verdadeiramente não sei donde vem. Por isso, não posso formular uma opinião clara sobre a França. Falando dos católicos, aqui no Egito, num dos encontros, ao saudar as pessoas, disse-me alguém: «Porque não pensa na política em grande?» – «Que quer dizer?». Respondeu-me, como que pedindo ajuda: «Fazer um partido para os católicos». Este senhor é bom, mas vive no século passado! Relativamente aos populismos, há uma relação com os migrantes, mas isto não faz parte da viagem. Se houver tempo, posso voltar ao tema. Se houver tempo, voltarei.

Vera Shcherbakova, Itar-Tass:

Santo Padre, antes de mais nada agradeço-lhe a bênção que me deu: o Santo Padre abençoou-me, quando, há poucos minutos, me ajoelhei aqui na frente. Sou ortodoxa, e não vejo nisso qualquer contradição… Queria perguntar: Quais são as perspetivas [de desenvolvimento] nas relações com os ortodoxos – claro – russos? Mesmo ontem se referia, na Declaração Comum com o Patriarca Copta Ortodoxo, a data da Páscoa em comum e falava-se também do reconhecimento do Batismo… Com os ortodoxos russos, a que ponto se está? E outra coisa: Como avalia, Santo Padre, as relações entre o Vaticano e a Rússia enquanto Estado, inclusive à luz da defesa dos valores dos cristãos do Médio Oriente, sobretudo na Síria?

Greg Burke:

Esta é Vera Shcherbakova, da agência russa Itar-Tass.

Papa Francisco:

Christòs anèsti [Cristo ressuscitou]! Sempre mantive uma grande amizade com os ortodoxos, já desde Buenos Aires. Por exemplo, anualmente no dia 6 de janeiro, ia às Vésperas na vossa catedral, presidia o Patriarca Platon (agora está na área da Ucrânia, é arcebispo): 2 horas e 40 minutos de oração numa língua que eu não compreendia, mas podia-se rezar bem! E depois a ceia com a comunidade, trezentas pessoas, a ceia da vigília de Natal – não a ceia de Natal, mas a da vigília – em que ainda não se podia comer laticínios nem carne, mas era uma ceia boa… E depois o sorteio, a lotaria… amizade. O mesmo com os outros ortodoxos. Às vezes, precisavam de ajuda legal: vinham à Cúria Católica, porque são comunidades pequenas e iam aos advogados… Tive sempre uma relação fraterna: somos Igrejas irmãs. Com Tawadros, tenho uma amizade especial: para mim, é um grande homem de Deus. Tawadros é um Patriarca, um Papa que fará avançar a Igreja, fará avançar o nome de Jesus… Possui um grande zelo apostólico. Ele é um dos mais – deixai-me usar a palavra, mas entre aspas – «fanáticos» [propugnadores] de se encontrar a data fixa da Páscoa. Eu também, mas… procuremos o modo. Ele diz: «Lutemos, lutemos!» É um homem de Deus. É um homem que, quando era bispo longe do Egito, ia dar de comer às pessoas com deficiência; é um homem que foi enviado numa diocese com cinco igrejas e, com o seu zelo apostólico, deixou vinte e cinco, não sei quantas famílias cristãs. Sabes como se faz entre eles a eleição? Procuram-se, escolhem-se três; depois colocam-se os seus nomes numa saca, chama-se uma criança, vendam-se-lhe os olhos e a criança escolhe o nome… E ali está o Senhor! Ele é claramente um grande Patriarca. Na unidade do Batismo, vai-se avançando. A culpa a propósito do batismo deve-se a um facto histórico, porque, na época dos primeiros Concílios, estávamos em comum. Depois, como os cristãos coptas batizavam as crianças nos santuários, quando queriam casar-se com uma católica vinham ter connosco; pedia-se-lhes a prova [do Batismo] e não a tinham… então fazia-se o Batismo sob condição. Assim quem começou fomos nós, não eles. Mas agora abriu-se a porta e estamos na boa estrada para [resolver] este problema, para o podermos superar. Na Declaração Comum, fala-se disto no penúltimo parágrafo.

Os ortodoxos russos reconhecem o nosso batismo, e nós reconhecemos o deles. Dava-me muito bem com o bispo em Buenos Aires, com os russos. E também, por exemplo, com os georgianos. O Patriarca dos georgianos, Elias II, é um homem de Deus, é um místico! E nós, católicos, devemos aprender também desta tradição mística das Igrejas Ortodoxas. Nesta viagem, fizemos o encontro ecuménico: estava presente também o Patriarca Bartolomeu, estava o Patriarca greco-ortodoxo, e participavam outros cristãos: os anglicanos, inclusive o Secretário do Conselho Ecuménico das Igrejas de Genebra… No ecumenismo, tudo se faz em caminho. O ecumenismo é feito em caminho, com as obras de caridade, com as iniciativas de entreajuda… fazer as coisas juntos, quando se podem fazer juntos. Não existe um ecumenismo estático. É verdade que os teólogos devem estudar e porem-se de acordo, mas isto não poderá ser bem-sucedido, se não se caminha. «Que podemos fazer agora?» Façamos aquilo que podemos fazer: orar juntos, trabalhar juntos, praticar juntos as obras de caridade… Mas juntos! E isto é avançar. As relações com o Patriarca Kirill são boas. O Arcebispo Metropolita Hilarion veio também várias vezes falar comigo, e temos um bom relacionamento.

Vera Shcherbakova:

E quanto ao Estado russo? Os cristãos, os valores comuns?

Papa Francisco:

Sim, eu sei que o Estado russo fala disto, da defesa dos cristãos do Médio Oriente. Sei disto e creio que é uma coisa boa falar, lutar contra a perseguição. Hoje há mais mártires do que nos primeiros séculos, sobretudo no Médio Oriente.

Greg Burke:

Phil Pullella.

Phil Pullella, agência Reuters:

O Santo Padre falou ontem, no primeiro discurso, do perigo de ações unilaterais e que todos devem ser construtores de paz. No primeiro discurso de ontem, falou muito da «terceira guerra mundial aos pedaços». Mas parece que hoje este medo e esta ansiedade estejam concentradas em torno da Coreia do Norte, naquilo que lá está a acontecer.

Papa Francisco:

Sim, é o ponto de concentração.

Phil Pullella:

Precisamente: é o ponto de concentração. O Presidente Trump posicionou um esquadrão de navios militares ao largo da costa da Coreia do Norte; o líder da Coreia do Norte ameaçou bombardear a Coreia do Sul, o Japão e até os Estados Unidos, caso eles consigam construir mísseis de longo alcance; as pessoas têm medo, ao verem falar da possibilidade duma guerra nuclear, como se nada fosse. Santidade, se vir o Presidente Trump, mas também outras pessoas, que gostava de dizer a estes líderes que têm a responsabilidade pelo futuro da humanidade? É que estamos num momento bastante crítico…

Papa Francisco:

Convido-os – e continuarei a fazê-lo, como aliás tenho convidado os líderes de diferentes lugares – a trabalhar para resolver os problemas pelo caminho da diplomacia. E temos os facilitadores – muitos no mundo -, temos mediadores que se oferecem: há países, como a Noruega, por exemplo. Ninguém pode acusar a Noruega de ser um país ditatorial. Está sempre pronta a ajudar… Isto, para citar um exemplo, mas há muitos… Entretanto o caminho é o das negociações: o caminho da solução diplomática. Esta «guerra mundial aos pedaços», de que tenho falado desde há dois anos mais ou menos, é «aos pedaços», mas os pedaços têm-se ora alargado, ora concentrado. Concentraram-se em pontos que já eram «quentes»; com efeito, há um ano que se vem desenrolando este caso dos mísseis da Coreia, mas agora parece que o problema se esteja a exacerbar demais. Convido sempre a resolver os problemas pelo caminho diplomático, através de negociações… Porque está em jogo o futuro da humanidade. Hoje uma guerra alargada destruirá, não digo metade, mas certamente uma boa parte da humanidade e da cultura… tudo, tudo. Seria terrível. Creio que hoje a humanidade não seria capaz de suportar. Mas debrucemo-nos sobre os países que padecem uma guerra interna, no seu seio, onde há focos de guerra: o Médio Oriente, por exemplo; mas também, na África, o Iémen… Paremos [com a guerra]! Procuremos uma solução diplomática. E creio que as Nações Unidas tenham o dever de reafirmar um pouco mais a sua liderança nisto, porque está diluída, aguada: um pouco aguada.

Phil Pullella:

O Santo Padre quer encontrar o presidente Trump quando vier à Europa? Houve algum pedido em ordem a este encontro?

Papa Francisco:

Ainda não fui informado pela Secretaria de Estado que tenha havido um pedido; mas eu recebo todo o Chefe de Estado que peça audiência.

Greg Burke:

Penso que acabaram as perguntas sobre a viagem. Será possível aceitar ainda uma? Depois temos de jantar, às seis e meia… Temos Antonio Pelayo, de Antena 3, que o Santo Padre conhece…

Antonio Pelayo:

Santo Padre, ultimamente a situação na Venezuela tem degenerado gravemente, havendo já muitas mortes. Queria perguntar-lhe se a Santa Sé e o Santo Padre, pessoalmente, pensam relançar uma ação, uma intervenção pacificadora? E que formas poderia assumir esta ação.

Papa Francisco:

Houve uma intervenção da Santa Sé a pedido insistente dos quatro Presidentes que estavam a trabalhar como facilitadores, e… não resultou. Ficou-se por aí. Não resultou, porque as propostas não eram aceites: ou se esbatiam ou havia um «sim, sim» que depois era um «não, não»… Todos conhecemos a situação difícil da Venezuela, um país que muito amo. E sei que agora estão a insistir – não sei bem donde [vem], mas creio que dos quatro Presidentes – para se relançar esta facilitação; andam à procura dum lugar bom. Eu creio que tem de partir já com condições; condições muito claras. Parte da oposição não quer isto: é curioso, que a própria oposição está dividida. E, por outro lado, parece que os conflitos se intensificam cada vez mais. Mas algo se move; fui informado que algo está em movimento, mas ainda muito no ar. Entretanto tudo o que se possa fazer pela Venezuela, há que fazê-lo. Com as garantias necessárias. Senão estamos a jogar ao tintin piruleiro, e não resulta. Obrigado.

Greg Burke:

Obrigado, Santo Padre. E agora temos que ir…

Papa Francisco:

Mais uma.

Greg Burke:

Mais uma. Temos um alemão… Jörg Bremer, de Frankfurter Allgemeine:

Jörg Bremer, de Frankfurter Allgemeine:

Há poucos dias, o Santo Padre falou do tema dos refugiados na Grécia, em Lesbos, e usou a expressão «campo de concentração», porque superlotado de pessoas. Claro, para nós, alemães, trata-se duma designação muito, mas muito séria e muito próxima à de «campo de extermínio». Há quem diga que se tratou de um seu lapsus linguae… que pretendia dizer?

Papa Francisco:

Primeiro, deveis ler bem tudo o que eu disse. Disse que os mais generosos da Europa eram a Itália e a Grécia: e têm sido… É verdade que são os mais próximos da Líbia e da Síria. Quanto à Alemanha, sempre admirei a capacidade de integração. Quando eu lá estudava, havia muitos turcos, integrados, em Francoforte. Muitos… integrados, e faziam uma vida normal. Não foi um lapsus linguae: há campos de refugiados que são verdadeiros campos de concentração. Talvez haja algum na Itália, há-os noutros lados… Na Alemanha não, de certeza. Tu pensa: Que fazem as pessoas que estão fechadas num campo e não podem sair? Pensa naquilo que aconteceu no Norte da Europa, quando queriam atravessar o mar para ir para a Inglaterra: fecharam-nos dentro! Deu-me vontade de rir – mas a cultura italiana é um pouco assim – deu-me vontade de rir ao ouvir o que sucedeu num campo de refugiados na Sicília (contou-mo o delegado da Ação Católica da diocese de Agrigento; naquela área, existem dois ou três de tais campos). Não sei em qual diocese, mas as autoridades daquela terra, onde está o campo, falaram às pessoas do campo de refugiados dizendo-lhes: «A vós, o facto de permanecerdes aqui dentro prejudicar-vos-á a saúde mental; deveis sair. Mas, por favor, não façais asneiras. Não vos podemos abrir a porta, mas fazemos um buraco, nas traseiras. E vós saí, fazei um belo passeio…» E, deste modo, se criaram relações com os habitantes daquela aldeia, relações boas… Estes não praticam delinquência, não praticam criminalidade. Mas o simples facto de estarem fechados, sem fazer nada, isto é um lagher, não? Mas não tem nada a ver com a Alemanha; isso não. Obrigado!

Greg Burke:

Obrigado ao Santo Padre…

Papa Francisco:

Obrigado a todos vós pelo trabalho que fazeis e que ajuda tantas pessoas. Não imaginais o bem que podeis fazer com as vossas crónicas, os vossos artigos, as vossas ideias… Devemos ajudar as pessoas e ajudar também a comunicação, para que a comunicação e a própria imprensa nos levem para coisas boas e não para despistes que não nos ajudam. Muito obrigado! E bom jantar. E rezai por mim!

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A mediação no conflito entre os Estados Unidos e Cuba, que permitiu a reconciliação após meio século de tensões, é uma das principais ações diplomáticas do papa Francisco, que também tem acompanhado conversações na Colômbia ou na Venezuela.

No final de 2014, Washington e Havana anunciaram o restabelecimento das relações diplomáticas, num processo que contou com a mediação do Vaticano.

Francisco saudou o fim do “silêncio recíproco” entre os Estados Unidos e Cuba, dois países que citou como exemplo das “pontes construídas” pelo diálogo.

O então Presidente norte-americano, Barack Obama, saudou o “papel precioso” do papa neste processo, apesar de Francisco ter garantido que a aproximação se deveu à boa vontade dos dois países e não por causa da mediação.

Quanto ao conflito na Colômbia, o líder da Igreja Católica promoveu um diálogo no Vaticano entre o Presidente, Juan Manuel Santos, e o seu antecessor, Álvaro Uribe, que contesta o acordo de paz com a guerrilha das FARC, mas sem conseguir sanar as divergências.

O Vaticano acompanhou as conversações na Venezuela, no final do ano passado, entre a Mesa de Unidade Democrática (MUD, aliança opositora) e o Governo de Nicolás Maduro, mas que foram interrompidas, sem acordo.

Sobre o conflito no Médio Oriente, Francisco tem feito reiterados apelos para que israelitas e palestinianos retomem o diálogo e alcancem “uma solução estável e duradoura que garanta a convivência pacífica de dois Estados dentro de fronteiras reconhecidas internacionalmente”.

Em 2014, juntou-se ao presidente de Israel, Shimon Peres, e ao presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmoud Abbas, numa oração pela paz no Médio Oriente, dias depois da sua primeira viagem à Terra Santa.

Em novembro de 2015, deslocou-se à República Centro-Africana, país onde milícias de inspiração cristã e muçulmana se opõem num conflito sangrento. Na ocasião, visitou a mesquita na capital, Bangui, onde recordou que cristãos e muçulmanos são “irmãos” e pediu que acabem com a violência no país.

A guerra na Síria tem merecido várias referências de Francisco, que repete apelos ao cessar-fogo e pedidos à comunidade internacional para que trabalhe no sentido de avançar com “negociações sérias, que ponham definitivamente fim a um conflito que está a provocar um verdadeiro desastre”.

Principais marcas do pontificado de Francisco

Principais marcas do pontificado de Francisco, eleito a 13 de março de 2014:

Reforma da Cúria

A reforma da Cúria Romana (o governo da Igreja Católica), implicando a sua modernização, fusão de serviços e transparência, era uma das questões mais prementes do conclave que elegeu Jorge Bergoglio, mas algumas medidas têm encontrado resistência interna. A reforma, avisou, “não tem fins estéticos”.

O papa tem nomeado cardeais de países que nunca tinham tido representação no colégio cardinalício, alargando assim a diversidade, além de terem menos de 80 anos, o que lhes permite eleger um novo papa e participar no conclave.

Além disso, criou comissões para reformar a organização econômica do Vaticano ou para rever o funcionamento do Instituto para as Obras de Religião, conhecido como Banco do Vaticano.

O papa também tem criticado a atuação de membros do clero, quando recorda que a Igreja deve servir os outros e não servir-se a si própria.

“Como eu gostaria de uma Igreja pobre, para os pobres”, desabafou. Noutro momento, disse: “Os padres e as freiras têm de ser coerentes com a pobreza. Quando vemos que o primeiro interesse de uma instituição paroquial ou educativa é o dinheiro, isto é de uma grande incoerência”.

“Esta economia mata”

É uma das ideias mais fortes do seu pontificado, que referiu na sua exortação apostólica ‘Evangelii Gaudium’, em 2013, e que tem servido para ilustrar as suas críticas aos efeitos da crise econômica.

“A crise que estamos a viver é a crise da pessoa, que já não conta; só o dinheiro conta”, disse, numa ocasião, e, noutro momento, comentou: “O [sem-abrigo] que morre não é notícia, mas se as bolsas caem 10 pontos é uma tragédia. Assim, as pessoas são descartadas”.

Repetidamente, o papa manifesta a sua preocupação com os pobres, os desempregados, enquanto condena a acumulação do lucro e o culto do dinheiro.

Clima

É uma das principais preocupações assumidas pelo papa, que dedicou a sua primeira encíclica, ‘Laudato Si’ (‘Louvado Sejas’), ao tema.

Francisco já avisou que o mundo está “à beira do suicídio” devido às alterações climáticas.

Pedofilia

O papa reforçou as normas de expulsão dos bispos que sejam negligentes em relação aos abusos sexuais de menores ou adultos vulneráveis, e pediu “tolerância zero”.

Francisco condenou a traição dos padres pedófilos, que “roubam os inocentes da sua dignidade”.

“Devemos ser muito duros [com crimes de pedofilia praticados por alguns padres]! Com as crianças não se brinca”, declarou.

No entanto, o trabalho da Comissão Pontifícia para a Proteção dos Menores voltou a ser criticado, com a irlandesa Marie Collins, ela própria vítima, enquanto criança, de abusos sexuais cometidos por um padre, a demitir-se com acusações de “falta de cooperação ” do Vaticano.

Refugiados e migrantes

Em diversas ocasiões, Francisco criticou duramente a falta de atenção que a Europa presta aos migrantes e refugiados, acusando os europeus de terem uma “consciência insensível e anestesiada”, quando os mares Mediterrâneo e Egeu se transformaram “num cemitério insaciável”.

O papa lamentou que sejam destinadas “somas escandalosas” de dinheiro para salvar bancos em dificuldades, mas que não se invista “nem uma milésima parte” na ajuda a refugiados e migrantes.

Questões morais e de família

O papa tem acentuado a necessidade de observar “as condições” da vida de cada um e de a Igreja ter “misericórdia”, mais do que pôr a tônica somente nas doutrinas.

“A Igreja não pode insistir apenas sobre as questões relacionadas com o aborto, o casamento homossexual e o uso de métodos contraceptivos”, defendeu.

O último ano do seu pontificado ficou marcado pela polêmica em torno da exortação apostólica ‘Amoris Laetitia’ (‘A Alegria no Amor’), na qual ‘abre a porta’ à comunhão para os católicos divorciados e numa segunda união. 

O cardeal norte-americano Burke, uma proeminente figura conservadora, atuou como ligação do Vaticano com a Ordem de Malta, desde que foi marginalizado de papéis mais importantes pelo papa em 2014, mas Francisco afastou-o recentemente dessa posição depois de ter estado envolvido na problemática saída de um membro desta organização internacional católica.

Jorge Bergoglio também reafirmou  a não condenação dos homossexuais: “Se uma pessoa é homossexual e procura Deus, quem sou eu para julgá-la?”.

Quanto ao aborto, o papa autorizou todos os sacerdotes a manterem definitivamente a capacidade de absolverem as mulheres que fizeram um aborto, disposição que devia vigorar apenas durante o ano jubilar da misericórdia, que terminou em novembro de 2016.

Maior abertura da Igreja Católica

O papa tem insistido na necessidade de atribuir postos-chave a mulheres e leigos, no âmbito da reforma do Governo da Igreja de Roma, e anunciou a intenção de criar uma comissão para estudar a possibilidade de as mulheres acederem ao diaconado.

Além disso, Francisco sugeriu recentemente a possibilidade de ordenar homens casados, em particular em locais onde há escassez de padres.

Ecumenismo e diálogo inter-religioso

O diálogo inter-religioso tem sido outra marca do pontificado de Francisco.

No início do ano passado, pediu aos crentes que rezem por um diálogo inter-religioso, que leve à paz e justiça no mundo.

“Muitos pensam de forma diferente, sentem diferente, procuram Deus e encontram Deus de outra forma. Nesta multitude, neste leque de religiões há uma única certeza: todos somos filhos de Deus”, declarou.

Em fevereiro de 2016, o papa Francisco e o patriarca ortodoxo russo Kiril deram um abraço, naquele que foi o primeiro encontro dos líderes das duas Igrejas após o cisma de 1054, e assinaram uma declaração conjunta por causa da perseguição aos cristãos no Médio Oriente e África do Norte.

Francisco também já se reuniu com Ahmed Al Tayeb, o imã da universidade islâmica do Cairo Al Azhar, um importante centro sunita, para abordar o compromisso das autoridades e fiéis das grandes religiões na “rejeição da violência e do terrorismo”.

Com os muçulmanos, Francisco teve já muitos gestos de aproximação. Logo na primeira Quinta-Feira Santa do seu pontificado, lavou os pés a mulheres muçulmanas presas numa prisão nos arredores de Roma.

Na sua primeira viagem, à ilha italiana de Lampedusa, local de chegada de milhares de refugiados e migrantes, fez uma alusão ao Ramadão.

Em 2016, quando visitou a ilha de Lesbos (Grécia), levou para o Vaticano três famílias muçulmanas. E, ainda no final de março, visitou a casa de uma família muçulmana em Milão.

Dias depois da sua primeira viagem à Terra Santa, em 2014, juntou-se ao presidente de Israel, Shimon Peres, e ao presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmoud Abbas, numa oração pela paz no Médio Oriente.

Em julho do ano passado, o papa visitou o campo de concentração de Auschwitz, na Polónia, a pé, sozinho e em silêncio, onde rezou durante cerca de dez minutos. No final, escreveu no livro de honra: “Senhor, tende piedade do teu povo, Senhor, perdoa tanta crueldade”.

Terrorismo

Francisco condenou, em várias ocasiões, o terrorismo, que recusa associar ao Islão: o fundamentalismo é “uma doença de todas as religiões”, incluindo da Igreja Católica Romana, que tem “alguns, até muitos, fundamentalistas”.

“Muitos [muçulmanos] dizem-me: não somos assim, o Alcorão é um livro de paz, é um livro profético de paz, isto não é o Islamismo. Ouço isso e sinceramente não posso dizer que todos os muçulmanos são terroristas”.

Francisco condena a “loucura homicida” do terrorismo e apela ao diálogo inter-religioso.

A guerra na Síria mereceu vários lamentos do papa, que apelou ao “cessar-fogo imediato” para permitir a saída dos civis das zonas atingidas.

Pope Francis is framed in a smartphone as he greets journalists on board the flight to Nairobi, Kenya, Wednesday, Nov. 25, 2015. Pope Francis is traveling to Africa for a six-day visit that is taking him to Kenya, Uganda and the Central African Republic. (AP Photo/Andrew Medichini)

O Vaticano vê com “serenidade” a segurança do Papa no Egito. Assim falou o porta-voz da Santa Sé, Greg Burke, que também revelou que Francisco vai transitar em um veículo “normal, coberto, mas não blindado” – na verdade, um Volkswagen Golf – durante sua viagem, a ser realizada entre 28 e 29 de abril.

Durante as quase 27 horas em que o Papa estará no Egito, que entrou em estado de emergência após os ataques contra igrejas coptas que causaram 46 mortes, em 11 de abril, Francisco vai transitar em veículos sem blindagem, informou o porta-voz papal.

Greg Burke evitou falar de “preocupação” da Santa Sé em relação às medidas de segurança que rodeiam o Papa e as contextualizou como “coisas que devem ser levadas em consideração”.

Por isso, ele ilustrou a atitude do Papa perante a visita pelo exemplo do tipo de veículo que Jorge Bergoglio utilizará em seus deslocamentos.

“O Papa quer ir adiante e nós estamos indo adiante com serenidade”,disse o porta-voz.

Burke declarou que por parte do Vaticano as medidas de segurança aplicadas serão “as mesmas” de outras viagens papais.
E sobre o respeito aos direitos humanos no Egito, ele respondeu com um lacônico “Vamos ver o que o Papa tem a dizer” quando foi perguntado se Francisco vai abordar o assunto com as autoridades egípcias.

“É um momento importante para o diálogo inter-religioso”, disse Burke, resumindo o significado desta viagem ao Egito, que será o vigésimo sétimo país visitado por Francisco durante o seu pontificado.

O deslocamento para o Cairo, disse o porta-voz, tem um significado triplo: pastoral, pelo encontro com a comunidade católica local, ecumênico,pelas reuniões com os cristãos coptas, e inter-religioso, pelo contato com representantes muçulmanos.

Durante sua visita à cidade, o Papa argentino pronunciará um total de cinco discursos: na conferência internacional de paz da qual participa na sexta-feira, em sua reunião com as autoridades, durante sua visita ao Papa Copta ortodoxo Tawadros II, na homilia da missa de sábado e diante do clero e de religiosos católicos.

A partida do Papa do aeroporto Fiumicino de Roma está prevista para a sexta-feira, 28 de abril, às 10:45 horário local (08:45 GMT), e sua chegada no Cairo para as 14:00 horário local (00:00 GMT). Depois, ele irá ao palácio presidencial, onde o chefe de Estado Abdel Fattah El-Sisi dará as boas-vindas oficiais.

Após, o Papa vai à instituição egípcia al Azhar, o centro de referência do islamismo sunita, onde vai visitar o Sheikh Ahmad al Tayeb, seu líder máximo, com quem participará, em seguida, da conferência internacional de paz.

Nesse encontro, o Papa pronunciará o primeiro de seus discursos, depois da fala de Al Tayeb, especificou o porta-voz do Vaticano, que disse que a Santa Sé ainda não tem a programação detalhada do evento.

A sessão de sexta-feira continuará com uma reunião com as autoridades – membros do governo, representantes do corpo diplomático, da Universidade e da cultura-, onde acontecerá o segundo discurso do Papa, depois do presidente Al Sisi.

O dia terminará com a visita cordial de Francisco ao papa copto ortodoxo, Tawadros II. Ele discursará e Francisco responderá a ele em seu terceiro discurso da viagem.

Com o papa Tawadros II, Francisco irá até a Igreja de São Pedro, onde ambos farão uma oração ecumênica pelas vítimas dos atentados contra os cristãos dos últimos meses.

O Papa Francisco ficará hospedado na nunciatura do Vaticano no Cairo, onde ele irá jantar e, em seguida, cumprimentar cerca de trezentos jovens que vão ao Cairo em peregrinação pela visita do pontífice, disse Burke.

No dia seguinte, o Papa celebrará uma missa na Estádio da Aeronáutica Egípcia, lugar escolhido há alguns dias, destacou o porta-voz do Vaticano.

O Papa, em seguida, almoçará com bispos e religiosos egípcios e mais tarde deve fazer seu último discurso, durante um encontro de oração do qual também participarão religiosos e seminaristas católicos.

A partida do Papa está prevista para às 17:00, horário local (15:00 GMT), em um voo da Alitalia que chegará ao aeroporto Ciampino de Roma cerca de três horas e meia depois.

Fonte: Religión Digital