Já imaginou um pastor e quase toda sua congregação se convertendo à fé católica?

Esta é a história de Alex C. Jones, um homem nascido em 1914 e que em um momento de sua vida decidiu congregar-se em uma igreja Pentecostal e posteriormente chegou a ser pastor de sua própria congregação em Detroit, a igreja Maranatha.

Naquele tempo, ele não se definia como um homem anticatólico; era apenas indiferente. O que lhe parecia era que os católicos amavam a Deus, mas que tinham práticas estranhas como fazer o sinal da cruz ou inclinar-se muitas vezes durante seus cultos.

O começo de sua conversão ao catolicismo

Mas tudo mudou no ano de 1998. Enquanto se encontrava pregando sobre a primeira carta de São Paulo à Timóteo, em sua Igreja em Detroit, teve uma ideia que mudaria sua vida completamente. Alex achou que seria genial se tivesse em sua igreja um culto ao estilo Novo Testamento. “Eu só queria ser criativo e inovador”, comentou Alex C. Jones.
Logo depois de ter a aprovação de sua congregação, ele fez a promessa de que estudaria com profundidade o culto do Novo Testamento e que o realizaria em um prazo de 30 dias: “Vamos fazer como faziam os primeiros cristãos!”.

Nesse tempo ele estudou os Padres da Igrejas e se chocou com um cristianismo muito diferente ao que conhecia e vivia. Aquela Igreja primitiva não era a mesma que ele tinha. Essa Igreja dos primeiros apóstolos era litúrgica, com um sistema de adoração prescrita e seguida de maneira uniforme. Descobriu que a pregação não era o aspecto central de suas reuniões e nem as experiências com o Espírito Santo, e sim a Eucaristia.

Imagine quão estranho foi para um pastor pentecostal descobrir isso?

Sua surpresa foi maior quando descobriu que aqueles primeiros cristãos também afirmavam que naquela Eucaristia estava realmente o Corpo e o Sangue de Jesus. O pastor Alex simplesmente não conseguia acreditar! Porque até então ele achava que tudo isso era uma invenção católica na Idade Média.

Junto a maravilhosa realidade da Eucaristia, naqueles 30 dias também descobriu que a Igreja do Novo Testamento também era hierárquica (formada por diáconos, presbíteros e bispos), que honravam a Tradição apostólica tanto quanto as Sagradas Escrituras e consideram o batismo como necessário para a salvação. Todas as verdades que não pregava em sua congregação. E isso o fez se sentir em “apuros”. O que fazer com tudo o que havia descoberto? Já tinha prometido um culto como o dos primeiros cristãos e o grande dia se aproximava!

A reação de seu rebanho

Chegado o dia do culto que havia prometido, tentou fazer algo parecido com o que havia aprendido, uma tentativa de Missa com “eucaristia” incluída. Dividiu assim o culto dominical em liturgia da palavra e liturgia Eucaristica. Como era esperado, muitos começaram a abandonar sua Igreja acusando-lhe de ser “muito católico”, embora naquele momento não pensasse em converter-se. Só estava aplicando o que tinha aprendido e estava tratando de “ressuscitar” a Igreja dos Apóstolos.

No entanto, outros membros de sua congregação achavam as explicações que Alex dava muito interessantes e logo a maioria se deu conta de que Deus as chamava para a Igreja Católica. E no ano de 2001 fizeram uma votação em que 39 pessoas votaram a favor e 19 contra a opção de converter-se ao catolicismo. Em 10 de setembro do mesmo ano, todos os que estiveram à favor , junto a Alex, começaram a receber catequese na Igreja Católica de Santa Susana, em Detroit, e foram aceitos todos formalmente como fiéis católicos.

Outro dado interessante é que Alex C. Jones sentiu em seu coração o desejo de ser sacerdote, mas em obediência as normas da Igreja, por já ser casado e ter filhos, aceitou o diaconato, trabalho que desenvolveu até seu falecimento em 14 de janeiro de 2017.

Fonte Original: Editor ChurchPOP

Quinhentos anos após a Reforma Protestante, o quadro religioso está mudando de maneira irreversível na América Latina. O Brasil e suas grandes regiões estão passando por uma acelerada transição religiosa que se manifesta em 4 aspectos:

1) Declínio nos números do catolicismo;

2) Aumento acelerado das filiações evangélicas (com diversificação das denominações e aumento dos evangélicos não institucionalizados);

3) Crescimento lento do percentual das religiões não cristãs;

4) Aumento absoluto e relativo das pessoas que se declaram sem religião (incluindo ateus e agnósticos);

O quadro que se desenha para um futuro próximo é de mudança de hegemonia entre católicos e evangélicos, com os segundos ultrapassando os primeiros e aumento da pluralidade de crenças e do processo de secularização (grande aumento da desafeição religiosa e da apostasia).

O censo demográfico de 1890, realizado logo após a Proclamação da República(1889), apontava que os católicos eram, praticamente, 100% da população brasileira. Mas esse número veio caindo e estava em praticamente 90% em 1980. Mas a partir daí a queda se acelerou e os católicos ficaram com 83,3% em 1991, 73,9% em 2000 e 64,6% em 2010.

Entre 1890 e 1970 os católicos perderam posição relativa na população total cerca de 1% por década. Entre 1991 e 2010 a perda passou a ser de 1% ao ano. Portanto, o ritmo de queda da presença católica no Brasil foi multiplicado por dez.

Todavia, esta queda não é uniforme e segue ritmos diferenciados nas regiões, nos Estados e nas cidades. A Unidade da Federação com menor proporção de católicos é o Rio de Janeiro e a com maior percentagem de evangélicos é Rondônia. O Rio de Janeiro também é a UF com maior pluralidade de crenças e com o maior percentual de pessoas que se declaram sem religião.

A região geográfica mais ‘avançada’ na transição religiosa é a Sudeste (com mais de 80 milhões de habitantes em 2010) onde os católicos caíram de 69,2% para 59,5% entre 2000 e 2010, os evangélicos passaram de 17,5% para 24,6%, as outras religiões passaram de 4,9% para 7% e os sem religião passaram de 8,4% para 9%, no mesmo período.

Nas regiões Centro-Oeste e Norte o percentual de católicos é bem parecido com o percentual da região Sudeste. Já o percentual de evangélicos é maior na região Norte, que, no entanto, tinha um percentual de sem religião menor do que em outras regiões, com exceção da região Sul. A região Nordeste tinha o maior percentual de católicos e o menor de evangélicos. Já a região Sul fica na transição religiosa um pouco à frente da região Nordeste, mas atrás das demais regiões.

Nota-se que a transição religiosa não tem uma relação determinística com o grau de desenvolvimento, pois enquanto o Sudeste lidera o quadro de transformações religiosas, juntamente com a região Norte, a região Sul está mais próxima da região Nordeste. O fato comum entre as regiões é que os quatro pontos indicados no início deste artigo seguem ao longo do tempo, apenas com velocidades diferentes de transições.

José Eustáquio Diniz Alves, doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE, em artigo publicado por EcoDebate

Referências:

ALVES, J. E. D; NOVELLINO, M. S. F. A dinâmica das filiações religiosas no Rio de Janeiro: 1991-2000. Um recorte por Educação, Cor, Geração e Gênero. In: Patarra, Neide; Ajara, Cesar; Souto, Jane. (Org.). A ENCE aos 50 anos, um olhar sobre o Rio de Janeiro. RJ, ENCE/IBGE, 2006, v. 1, p. 275-308

ALVES, JED, BARROS, LFW, CAVENAGHI, S. A dinâmica das filiações religiosas no brasil entre 2000 e 2010: diversificação e processo de mudança de hegemonia. REVER (PUC-SP), v. 12, p. 145-174, 2012.

ALVES, JED, CAVENGHI, S. BARROS, LFW. A transição religiosa brasileira e o processo de difusão das filiações evangélicas no Rio de Janeiro, PUC/MG, Belo Horizonte, Revista Horizonte – Dossiê: Religião e Demografia, v. 12, n. 36, out./dez. 2014, pp. 1055-1085

ALVES, JED. “A encíclica Laudato Si’: ecologia integral, gênero e ecologia profunda”, Belo Horizonte, Revista Horizonte, Dossiê: Relações de Gênero e Religião, Puc-MG, vol. 13, no. 39, Jul./Set. 2015

ALVES, JED et. al. Cambios en el perfil religioso de la población indígena del Brasil entre 1991 y 2010, CEPAL, CELADE, Notas de Población. N° 104, enero-junio de 2017, pp: 237-261

ALVES, JED, CAVENAGHI, S, BARROS, LFW, CARVALHO, A.A. Distribuição espacial da transição religiosa no Brasil, Tempo Social, revista de sociologia da USP, v. 29, n. 2, 2017, pp: 215-242

ALVES, JED. CAVENAGHI, S. Igreja Católica, Direitos Reprodutivos e Direitos Ambientais, Horizonte, Belo Horizonte, v. 15, n. 47, p. 736-769, jul./set. 2017

Chega de “Senhor” e “Ele”. A palavra “Deus” pode ser suficiente, até porque é a única que é neutra do ponto de vista do gênero sexual. A Igreja da Suécia baniu da linguagem da liturgia os termos masculinos referidos a Deus, porque Deus não tem sexo. Não é um “Ele”, nem mesmo uma “Ela”, obviamente.

A medida da Igreja Nacional Evangélica Luterana chega ao término de uma reunião de oito dias da qual participaram 251 membros. Uma espécie de pequeno ‘Concílio Vaticano II’ em nível nacional, que também se ocupou de atualizar a linguagem de um livro de 31 anos, do qual eram tiradas as frases da liturgia, dos hinos e outros aspectos linguísticos. Isso entrará em vigor a partir do dia 20 de maio, dia de Pentecostes.

A Igreja da Suécia é a referência religiosa para 6,1 milhões de batizados em um país de 10 milhões. E talvez, não por acaso, tem à sua frente uma mulher, a arcebispa Antje Jackelén (foto) que lembrou que o debate sobre a linguagem começou ainda em 1986. “Teologicamente”, explica, “Deus está além dos gêneros. Ele não é humano.”

Algumas críticas foram feitas à escolha. Christer Pahlmblad, professor de teologia da Universidade de Lund, declarou que, assim, “subestima-se a doutrina da Trindade. Não é uma medida inteligente. A Igreja da Suécia será conhecida como a Igreja que não respeita a herança teológica comum”.

La Repubblica, 25-11-2017.

O Departamento Filatélico e Numismático do Estado do Vaticano enviou para a impressão um selo comemorativo da Reforma Protestante representando a pintura do frontão da igreja de Wittenberg com o primeiro plano de Jesus crucificado e, no fundo, a cidade de Wittenberg (o lugar onde o reformador alemão e frade agostiniano, em 31 de outubro de 1517, afixou suas 96 teses na porta da igreja do castelo da cidade saxônica para combater o comércio de indulgências).

A representação “pictórica” do selo retrata, em postura de penitência e ajoelhados, respectivamente, a esquerda e direita da Cruz, Martin Luteroque segura a Bíblia, fonte e meta de sua doutrina, e Felipe Melanchton, teólogo e amigo de Martin Lutero – um dos maiores protagonistas da reforma – que, ao contrário, segura a primeira exposição oficial dos princípios do protestantismo por ele redigida: a Confissão de Augsburgo“Confessio Augustuana”.

“É a primeira vez – relata para Riforma.it o pastor Heiner Bludau decano da Igreja Evangélica Luterana na Itália (Celi) – que o Vaticano decide imprimir um selo comemorativo dedicado a Lutero e à Reforma Protestante. Justamente em Wittenberg comemoramos oficialmente em 31 de outubro, na presença das mais altas autoridades do Estado e religiosas, os 500 anos da reforma

Na cidade de Lutero chegou a notícia de reprodução em papel filigranado das imagens de Lutero e Melanchton retratados ao lado de Jesus com o pano de fundo da cidade saxônica. Uma notícia, para nós luteranos, agradável, inesperada e importante. Devo admitir que eu ainda não tive a oportunidade de ver o selo, mas considero essa iniciativa importante. Assim como foram as declarações conjuntas entre luteranos e católicos; neste caso, o Vaticano, ou melhor, seu departamento de filatelia e numismática, decidiu de forma autônoma lançar um importante sinal de proximidade, utilizando uma imagem muito clara, eloquente e abrangente, que bem explica e ilustra a importância, o sentido da Reforma iniciada por Lutero”. 

Em Wittenberg (a cidade de Lutero e fundo do selo), lembra ainda Bludau, foram realizadas as celebrações da “Festa da Reforma“, com um culto solene na Igreja do Castelo de Wittenberg celebrado pelo presidente da EKD, Heinrich Bedford-Strohm e também uma recepção oficial que contou com a presença, entre outros, da própria chanceler Angela Merkel ; todos eventos promovidos pela Igreja evangélica luterana alemã – Evangelische Kirche in Deutschland (EKD) na última terça-feira – “ocasiões importantes – continuou Bludau – em que surgiu, com força, a necessidade de continuar o trabalho ecumênico e interreligioso. Um tema decisivo é o da liberdade religiosa.

Bedford-Strohm em seu precioso sermão também falou sobre a atualidade da Reforma e a importância de olhar para o futuro, um futuro à insígnia da responsabilidade, seja coletiva ou pessoal; a chanceler Merkel, colocando lado a lado a liberdade religiosa com a Reforma Protestante reiterou que as liberdades não podem, no entanto, prescindir dos deveres; ressaltando também a importância da presença religiosa e interreligiosa no tecido institucional, social, político e comunitário da Alemanha”.

O presidente do Conselho da Igreja Evangélica Alemã, o bispo Heinrich Bedford-Strohm, diante do presidente alemão, Frank-Walter Steinmeier, da chanceler Angela Merkel, do presidente do Bundestag Wolfgang Schäuble, bem como numerosos outros convidados do mundo político e ecumênico e centenas de fiéis, quis lembrar: “Estamos sentados aqui, 500 anos depois” e depois enviou uma mensagem ao Papa Francisco: “Irmão em Cristo, agradecemos a Deus pelo seu testemunho de amor e misericórdia que para nós, protestantes, também significa testemunho de Cristo”.

Palavras importantes de reconhecimento endereçadas ao Papa, prosseguiu Bludau, “porque, embora seja verdade que o caminho de aproximação e aberturas ecumênicas começou com o Concílio Vaticano II, é igualmente verdade que o impulso mais significativo ao diálogo e à reconciliação nestes últimos anos vieram dos movimentos dos Papa Francisco. Uma aproximação com todas as igrejas protestantes e evangélicas.

Certamente, importantes são as declarações assinadas no passado, tais como a católico-luterana sobre a doutrina da justificação de 1999, ou a de 2103 “Do conflito à comunhão“, todos documentos dogmáticos importantes. Mas eu acredito que a visita do Papa Francisco em Lund – para abrir as comemorações dos Quinhentos anos da Reforma – tenha sido a verdadeira faísca que realmente modificou a atmosfera e a percepção geral, um movimento visível para todos, de maneira especial na Itália, onde a informação generalista e secular conta muitas vezes e espasmodicamente a vida do papa, as suas obras, as suas viagens e os seus pensamentos. O Papa abrindo as celebrações da Reforma mostrou a todos que não somos “seitas”, mas igrejas cristãs. Uma mensagem que soube penetrar nos interstícios mais inatingíveis da própria igreja católica”.

Após reuniões compartilhadas entre as igrejas protestantes e evangélicas e a cúpula da Igreja Católica, como a do início deste ano em Trento junto com o Departamento Nacional para o Ecumenismo e Diálogo (Unedi) da CEI, e intitulado “Católicos e protestantes 500 anos depois da reforma”, é possível ter um olhar comum, como aconteceu por ocasião da “Festa da reforma” em Roma no último dia 28 de outubro, graças à presença do Cardeal Ravasi e à transmissão da Rai Due ao vivo por mais de uma hora.

Juntamente com a CEI – Unedi, Bludau finalmente recordou “que nasceu a ideia de promover também a declaração conjunta divulgada em 31 de outubro. As relações entre a Igreja Luterana e a Igreja Católica são parte, certamente significativa, de um percurso ecumênico bem mais amplo.

Um percurso empreendido há muito tempo juntos com a Federação das Igrejas Evangélicas na Itália (FCEI) da qual somos federados, e com a qual, graças aos seus esforços, pudemos compartilhar em 28 de outubro último uma jornada realmente rica e importante que, amplificada pela Rai, permitiu-nos colocar à disposição o evento não como um fato “intraprotestante”, mas de todos e para todos os italianos. Essas relações ecumênicas e essas atenções são o sinal importante de um percurso em contínua evolução”.

Sitio da Igreja Valdense na Itália, Riforma.

Duas especialistas na relação católico-luterana, uma católica e outra luterana, dizem que as atuais celebrações conjuntas do 500º aniversário da Reforma Protestante refletem um forte anseio por unidade na base e podem representar uma nova “primavera” no ecumenismo, ou seja, a busca pela unidade cristã.

Quinhentos anos atrás, de acordo com a tradição, Martinho Lutero pregou suas 95 tesesna porta da Catedral de Wittenberg, na Alemanha, disparando, assim, a reforma protestante e dividindo o cristianismo ocidental.

Hoje, duas especialistas de cada lado da divisão católico-luterana dizem que o que detectam nas trincheiras é uma “surpreendente” sede por unidade.

Kathryn Johnson, diretora da Igreja Evangélica Luterana na América (Ecumenical and Interreligious Relations for the Evangelical Lutheran Church in America – ELCA), disse, recentemente, em uma assembleia da ELCA, que esse espírito era forte.

“A profundidade do desejo expresso pelas pessoas no nosso conselho diretivo, do qual 60% são leigos, nos surpreendeu”, disse. “As pessoas querem que avancemos nesse ponto, porque reflete no cotidiano.”

“Eu acho que a visibilidade deste aniversário nos oferece uma oportunidade de dizer ‘Não estamos onde estávamos, e não queremos ficar onde estamos. Queremos ir em frente'”, disse Johnson. “Acredito que a profundidade desse sentimento do nosso povo nos surpreendeu”, afirmou.

A Irmã Susan K. Wood, membro das Irmãs de Caridade de Leavenworth, no Kansas, professora de teologia na Universidade Marquette e líder veterana no diálogo entre católicos e luteranos, disse que as comemorações conjuntas do aniversário da reforma podem marcar um ponto de virada.

“Antes, as pessoas costumavam falar de um ‘inverno ecumênico’. Como se o ecumenismo estivesse desfalecendo”, disse. “Acho que o que aconteceu é que esta comemoração nos levou à primavera, em que as pessoas se preocupam com as relações entre luteranos e católicos.”

“Penso que está afetando as pessoas porque cada diocese está celebrando em conjunto, de alguma forma”, afirmou, “e isso está trazendo o ecumenismo de volta de uma forma diferente da antiga para as pessoas comuns”.

Ambas apontaram para a Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação da Federação Luterana Mundial e da Igreja Católica, de 1999, como um momento importante do caminho.

“Para os luteranos, foi algo gigantesco”, disse Johnson. “Na nossa questão-chave acerca da Reforma, dizíamos que já não tínhamos que condenar a doutrina e a prática católicas, e isso foi extremamente importante.”

Wood e Johnson concederam a entrevista abaixo, por vídeo, no final de outubro.

Na mente popular, a Reforma Protestante tratava basicamente da separação entre protestantes e católicos. Então por que é importante, 500 anos depois, celebrar este marco juntos?

Johnson: Acho que os luteranos gostariam de dizer, muito claramente, que o objetivo da Reforma Protestante não era a separação, mas a reforma, e a separação veio depois. É um efeito colateral com que convivemos e nos tornamos confortáveis em excesso nos últimos 500 anos.

Era importante para os luteranos garantir que não fosse mais uma oportunidade de colocar sal nas feridas da divisão. Acho que a frase usada no serviço de Lund [Suécia], em que o Papa Francisco e líderes luteranos iniciaram este ano de celebração no dia 31 de outubro do ano passado é um resumo importante de como nos sentimos. Diz que ‘Cristãos luteranos, ao lembrar os acontecimentos que levaram à formação específica de suas igrejas, não querem fazê-lo sem seus companheiros cristãos católicos’. Havia um desejo, ou seja, um anseio, de não perpetuar esta separação.

Wood: Cada celebração tem seu próprio contexto histórico. O fato é que os católicos envolveram-se no diálogo ecumênico com os luteranos por 50 anos, desde o encerramento do Concílio Vaticano II. O que muitos católicos não entendem é que um dos objetivos do Concílio Vaticano II era a unidade com outros cristãos. O primeiro documento do Concílio foi sobre a liturgia, e seu primeiro parágrafo menciona a unidade cristã.

É importante celebrar isso porque trabalhamos por 50 anos para atingir essa unidade e temos que curar as divisões do passado.

Há apenas 100 anos, é provável que a ideia de uma celebração conjunta da reforma pareceria quase impensável, ou, no mínimo, terrivelmente avant-garde. O que mudou em cada tradição para que isso fosse possível?

Wood: No mundo católico, antes do Concílio Vaticano II, tínhamos essa noção de ‘retornar’ ao ecumenismo, que nem era um ecumenismo verdadeiro. Era algo do tipo: ‘os protestantes estão errando e deveriam vir para casa, em Roma’. Foi isso que mudou com o Concílio Vaticano II, pois reconhecemos os elementos da Igreja de Cristo em nossos irmãos e irmãs que estavam separados.

Nos envolvemos num ‘ecumenismo espiritual’ de reconciliação. Aprendemos uma nova humildade como Igreja. Somos menos convencidos agora, espero, e acredito que por todas essas razões mudamos nosso posicionamento em relação a outros cristãos.

Johnson: Isso se refletiu no posicionamento luterano, porque o Vaticano II também foi um evento importante para os luteranos na mudança de tom da nossa relação com os católicos. Sem isso, não teríamos estes 50 anos de diálogo, que, a nível nacional, em locais como os Estados Unidos, a Alemanha, os países escandinavos e o Brasil, bem como em nível internacional, mudaram a maneira como nos apresentamos uns aos outros.

Acho que, além disso, tem havido um legado comum de conhecimento, que começou antes do Concílio Vaticano II. O movimento litúrgico, por exemplo, foi uma influência comum em nossas igrejas, o que nos aproximou muito em nossa experiência semanal da vida cristã. Tudo isso nos permitiu, como disse Susan, colher os frutos do ‘ecumenismo espiritual’ em nossas relações e nossas amizades.

Wood: Também não podemos esquecer o que aconteceu em 1999: a assinatura, por autoridades de ambas as igrejas, da Declaração Conjunta da Doutrina da Justificação. Para os católicos, foi a primeira vez que receberam oficialmente resultados do diálogo entre igrejas a partir da reforma. Para os luteranos, a justificação é a doutrina pela qual julgam-se todas as outras doutrinas.

Eu digo aos meus alunos que a palavra ‘justificação’ não sai da boca dos católicos com tanta frequência, porque para nós é um termo estrangeiro. Tendemos a falar mais de ‘santificação’ do que de ‘justificação’. No entanto, foi um avanço que os católicos, acho, não apreciam tanto em nossas relações.

Todos os outros acordos depois de 1999 baseiam-se nele, e isso afeta como celebramos este tempo juntos.

Johnson: A respeito do que disse Susan, acho que a Declaração Conjunta trouxe alguns avanços significativos.

Um deles foi que, para os luteranos, era algo gigantesco. Na nossa questão-chave acerca da Reforma, dizíamos que já não tínhamos que condenar a doutrina e a prática católicas, e isso foi extremamente importante.

Também nos forneceu um panorama pelo qual podíamos honrar e apreciar nossas diferenças em piedade e vocabulário, de que Susan falava. Não é preciso que a justificação seja o termo favorito dos católicos para que não seja mais um termo de divisão entre nós.

Wood: Acho que também temos de olhar para o que está acontecendo com o ecumenismo de base, não apenas em relação às igrejas oficiais, mas às pessoas.

No verão passado, tive o privilégio de assistir à assembleia geral da ELCA, onde confirmou-se a Declaração Conjunta, com enormes 99,4% de aprovação. Tivemos uma sessão de escuta na noite anterior e esperávamos todo tipo de questões doutrinárias.

Em vez disso, as pessoas fizeram fila junto ao microfone, dando testemunhos de como tinham trabalhado juntas em paróquias, em questões de justiça social ou sobre sua experiência em casamentos ecumênicos. As pessoas, as pessoas comuns nos bancos das igrejas, têm sede pela continuidade deste trabalho com o ecumenismo e por alcançar a unidade pela qual anseiam. Foi emocionante.

Vocês poderiam mencionar um resultado prático que esperam que possa advir deste ano de celebração que o católico ou luterano praticante realmente notaria?

Johnson: O que Susan mencionou sobre a nossa assembleia geral também foi uma surpresa para nós, luteranos. A profundidade do desejo expresso pelas pessoas no nosso conselho diretivo, do qual 60% são leigos, nos surpreendeu. As pessoas querem que avancemos nesse ponto, porque reflete no cotidiano.

O ano do aniversário elevou a relação entre católicos e luteranos de forma especialmente intensa. Não conheço um único sínodo dentro da Igreja Luterana que ainda não tinha uma comemoração local do aniversário com seus vizinhos católicos. Já aconteceu a nível paroquial, em que muitas pessoas escrevem para mim sobre seus novos amigos católicos, ou quando aprendem algo diferente. É uma prática que querem continuar no seu trabalho de bairro com imigrantes, para tornar um testemunho comum.

Eu acho que a visibilidade deste aniversário nos oferece uma oportunidade de dizer: ‘Não estamos onde estávamos, e não queremos ficar onde estamos. Queremos ir em frente’. A profundidade desse sentimento do nosso povo nos surpreendeu.

Wood: Antes dessa celebração, as pessoas costumavam falar de um ‘inverno ecumênico’. Como se o ecumenismo estivesse desfalecendo. Acho que o que aconteceu é que esta comemoração nos levou à primavera, em que as pessoas se preocupam com as relações entre luteranos e católicos.

Penso que está afetando as pessoas porque cada diocese está celebrando em conjunto, de alguma forma, como disse Kathryn, e isso está trazendo o ecumenismo de volta de uma forma diferente da antiga para as pessoas comuns.

A entrevista é de John L. Allen Jr-  Crux

 

“Pedimos perdão pelos nossos fracassos, pelas formas como os cristãos feriram o Corpo do Senhor e se ofenderam uns aos outros durante os 500 anos transcorridos desde o início da Reforma até hoje”, diz a Declaração Conjunta que a Federação Luterana Mundial e o Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos assinaram ontem, “31 de outubro de 2017, ano de comemoração comum da Reforma“.

Uma comemoração que, pela primeira vez, “compartilhamos juntos e com nossos parceiros ecumênicos do mundo inteiro”. No documento, luteranos e católicos mostram-se “muito agradecidos pelos dons espirituais e teológicos recebidos através da Reforma“.

“Nós, luteranos e católicos, estamos profundamente agradecidos pelo caminho ecumênico que percorremos juntos nos últimos 50 anos”, prossegue o texto, que reconhece como, ao longo deste tempo, se aprofundou a “nossa oração comum, o culto e o diálogo ecumênico”, o que representou “a eliminação de preconceitos, uma maior compreensão mútua e a identificação de acordos teológicos decisivos”.

O documento faz um balanço positivo deste ano da reforma, que começou com a oração comum luterano-católica em Lund, com a presença do Papa Francisco e a assinatura de uma declaração conjunta “que recolhe o compromisso de continuar percorrendo juntos o caminho ecumênico rumo à unidade pela qual rezava Cristo”.

“Muitos membros das nossas comunidades desejam receber a Eucaristia em uma mesa como expressão concreta da plena unidade. Sentimos a dor daqueles que compartilham toda a sua vida, mas não podem compartilhar a presença redentora de Deus na mesa da Eucaristia. Reconhecemos a nossa conjunta responsabilidade pastoral para responder à fome e à sede espirituais do nosso povo para ser um em Cristo. Desejamos que esta ferida no Corpo de Cristo seja curada. Este é o propósito dos nossos esforços ecumênicos, que desejamos que também avancem através da renovação do nosso compromisso com o diálogo teológico” , insiste o documento, com palavras da citada declaração.

“Pela primeira vez – ressalta a afirmação –, luteranos e católicos consideraram a Reforma desde uma perspectiva ecumênica, o que deu lugar a uma nova abordagem dos acontecimentos do século XVI que levaram à nossa separação”, o que pode redundar em “um estímulo para o crescimento da comunhão e um sinal de esperança para que o mundo vença a divisão e a fragmentação. Uma vez mais, ficou claro que o que temos em comum é muito mais do que o que nos divide”.

De frente para o futuro, conclui o documento, “nos comprometemos a seguir nosso caminho comum, guiados pelo Espírito de Deus, para a maior unidade de acordo com a vontade de Nosso Senhor Jesus Cristo” para “superar as diferenças remanescentes que existem entre nós”.

Eis a íntegra da declaração.

Declaração conjunta da Federação Luterana Mundial e do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos de 31 de outubro de 2017, ano da comemoração comum da Reforma

No dia 31 de outubro de 2017, último dia do ano da comemoração ecumênica comum da Reforma, estamos muito agradecidos pelos dons espirituais e teológicos recebidos através da Reforma, comemoração que compartilhamos juntos e com os nossos parceiros ecumênicos do mundo inteiro. Da mesma forma, pedimos perdão pelos nossos fracassos, pelas formas como os cristãos feriram o Corpo do Senhor e se ofenderam uns aos outros durante os 500 anos desde o início da Reforma até hoje.

Nós, luteranos e católicos, estamos profundamente agradecidos pelo caminho ecumênico que percorremos juntos nos últimos 50 anos. Essa peregrinação, apoiada pela nossa oração comum, pelo culto e pelo diálogo ecumênico, redundou na eliminação de preconceitos, em uma maior compreensão mútua e na identificação de acordos teológicos decisivos. Diante de tantas bênçãos recebidas ao longo do caminho, elevamos os nossos corações em louvor ao Deus Trino pela misericórdia recebida.

Neste dia, fizemos uma retrospectiva de um ano de notáveis eventos ecumênicos que começou em 31 de outubro de 2016 com a oração comum luterano-católica em Lund, na Suécia, na presença de nossos parceiros ecumênicos. Durante a presidência desse serviço, o Papa Francisco e o bispo Munib A. Younan, então presidente da Federação Luterana Mundial, assinaram uma declaração conjunta que recolhe o compromisso de continuar percorrendo juntos o caminho ecumênico rumo à unidade pela qual rezava Cristo (cf. João 17, 21). Nesse mesmo dia, nosso serviço conjunto àqueles que necessitam da nossa ajuda e solidariedade também foi fortalecido por uma declaração de intenção entre a Caritas Internationalis e a Federação Luterana Mundial – Serviço Mundial.

O Papa Francisco e o Presidente Younan declararam juntos: “Muitos membros das nossas comunidades desejam receber a Eucaristia em uma mesa como expressão concreta da plena unidade. Sentimos a dor daqueles que compartilham toda a sua vida, mas não podem compartilhar a presença redentora de Deus na mesa da Eucaristia. Reconhecemos a nossa conjunta responsabilidade pastoral para responder à fome e à sede espirituais do nosso povo para ser um em Cristo. Desejamos que esta ferida no Corpo de Cristo seja curada. Este é o propósito dos nossos esforços ecumênicos, que desejamos que também avancem através da renovação do nosso compromisso com o diálogo teológico”.

As bênçãos deste ano de comemoração incluem o fato de que, pela primeira vez, luteranos e católicos consideraram a Reforma a partir de uma perspectiva ecumênica, o que deu lugar a uma nova abordagem dos acontecimentos do século XVI que levaram à nossa separação. Reconhecemos que, embora o passado não possa ser alterado, sua influência sobre nós hoje pode ser transformada para servir de estímulo para o crescimento da comunhão e um sinal de esperança para o mundo para que supere a divisão e a fragmentação. Uma vez mais, ficou claro que o que temos em comum é muito mais do que o que nos divide.

Alegra-nos o fato de que a Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação, assinada em um ato solene pela Federação Luterana Mundial e pela Igreja Católica Romana em 1999, também foi assinada em 2006 pelo Conselho Metodista Mundial e pela Comunhão Mundial das Igrejas Reformadas neste ano de comemoração. Além disso, hoje mesmo será acolhida e recebida pela Comunhão Anglicana em uma cerimônia solene na Abadia de Westminster. Sobre esta base, nossas comunhões cristãs podem construir um vínculo mais estreito de consenso espiritual e testemunho comum a serviço do Evangelho.

Reconhecemos com gratidão os inúmeros eventos de oração e culto comuns que luteranos e católicos celebraram junto com seus parceiros ecumênicos em diferentes lugares do mundo, os encontros teológicos e as publicações significativas que deram substância a este ano de comemoração.

De frente para o futuro, nos comprometemos a seguir nosso caminho comum, guiados pelo Espírito de Deus, para a maior unidade de acordo com a vontade de Nosso Senhor Jesus Cristo. Com a ajuda de Deus, pretendemos discernir através da oração a nossa compreensão da Igreja, da Eucaristia e do Ministério, buscando um consenso substancial que permita superar as diferenças remanescentes que existem entre nós. Com profunda alegria e gratidão, confiamos em “que Aquele que começou em [nós] esse bom trabalho, vai continuá-lo até que seja concluído no dia de Jesus Cristo” (Filipenses 1, 6).

Religión Digital

É cada vez mais frequente que professores de grupos de escolas protestantes do norte da Europa, que visitam Roma, levem seus estudantes a uma missa católica, para que vejam como é e para que estes tomem tranquilamente a comunhão.

Segundo muitos protestantes e católicos da Europa e da América, esta é também uma das consequências de uma aproximação para baixo entre os dois credos, segundo confirmou uma ampla pesquisa realizada em uma quinzena de países pelo Pew Research Center, de Washington.

Quinhentos anos após fixar suas 95 teses em WittenbergMartinho Lutero já não é esse fomentador de discórdias que foi durante séculos.

Nos Estados Unidos, 65% dos católicos e 57% dos protestantes estão convencidos que entre seus respectivos credos há mais semelhanças que diferenças.

E na Europa ocidental mais da metade dos protestantes e católicos pensam o mesmo. Com índices que chegam a 78% entre os protestantes da Alemanha, 67% entre os católicos da Holanda e 64% entre os católicos da Áustria. Também entre os católicos da Itália já são mais os que consideram que há semelhanças: 47% frente a 41%.

Entre os católicos que continuam se sentindo mais distintos que iguais, em último lugar estão os católicos da Bélgica e Espanha, com 28%. Ao passo que entre os protestantes irredutíveis, os últimos são os da Suécia, com 18%.

A pesquisa também permitiu identificar uma importante faixa da população que não se identifica como católica, nem protestante, e que se considera sem religião. Na Europa ocidental, o índice mais elevado de ateus ou agnósticos é registrado na Holanda, com 48%. Seguem Noruega, com 43%; Suécia, com 41%; Bélgica, com 37%; Dinamarca e Espanha com 30%.

É interessante o dado da Alemanha, a pátria de Lutero. Aqui, o tradicional equilíbrio entre católicos e protestantes sofreu uma fratura. Os protestantes descenderam até chegar a ser só de 28%, os católicos são 42% e os ateus ou agnósticos são já um quarto da população, com 24%.

Também na Itália os ateus e agnósticos aumentaram e são 15%, frente aos 78% dos católicos e o 1% dos protestantes.

No que diz respeito à prática religiosa entre os protestantes europeus, os que vão à igreja uma vez por semana praticamente desapareceram. São 3% na Dinamarca, 7% na Alemanha e, de qualquer modo, em quase todas as partes são menos de 10%. A única exceção é a Holanda, onde entre os poucos protestantes ainda existentes – 18% da população -, 43% vão à igreja semanalmente.

Vice-versa, sempre na Holanda, os católicos estão em queda livre: são 20% da população e apenas 5% vão à igreja uma vez por semana. Números pequenos também na Bélgica, com 8%; no Reino Unido, com 9%; na Áustria, com 11%; na França, com 13%; na Alemanha, com 14%. Acima de 20% são os casos de Itália, Portugal, Espanha e Irlanda.

Curiosamente, no que durante séculos existiu um dos mais fortes fatores de divisão, a saber: a convicção dos protestantes de que a salvação se obtém sola fide, ao passo que para os católicos a fé deve ser acompanhada de obras, o pêndulo se deslocou em favor dos segundos. Praticamente em todas as partes, ou seja, também entre os protestantes, a maioria pensa que ambas, fé e obras, são necessárias. A única exceção são os protestantes noruegueses, entre os quais a sola fide prevalece para 51% frente aos 30%.

No entanto, é necessário ressaltar que a sola fide luterana também encontra um grande número de defensores entre os católicos: na Itália e na Alemanha, um quarto dos católicos a defendem; no Reino Unido, França e Suíça, um terço.

No que diz respeito à comunhão aos protestantes nas missas católicas – e vice-versa, aos católicos nos cultos evangélicos -, a pesquisa realizada por Pew Research Center não indica nada. Mas, bem se sabe que é um comportamento cada vez mais difundido, certamente não podado, ao contrário, estimulado pelo que o Papa Francisco e o cardeal Walter Kasper disseram acerca do assunto.

Sandro Magister- Settimo Cielo.

Na Suécia, a cúpula da Igreja também tem seu dia de eleições gerais. No domingo, 900 mil suecos foram às urnas para escolher os representantes da maior organização religiosa do país, a Igreja da Suécia, instituição protestante de confissão luterana. Foi o maior comparecimento na história das eleições da instituição desde 1950.

sistema eleitoral dessa instituição cristã é único no mundo. A cada quatro anos, os cidadãos filiados à igreja elegem uma espécie de Parlamento da Igreja Sueca(Svenska kyrkan), a que é a maior organização religiosa do país.

Esse Parlamento é composto tanto por representantes do clero como por leigos e tem o poder de decidir não só questões mundanas, como a reforma das paróquias e o valor de doações a países pobres, mas também assuntos de ordem teológica – a exemplo do casamento entre pessoas do mesmo sexo, aprovado pela Igreja Sueca em 2009.

“A Constituição sueca é clara: a Igreja deve ser democrática e aberta”, diz à BBC Brasil a pastora sueca Jenny Sjögren, chefe do Departamento de Teologia e Ecumenismo da Igreja da Suécia.

As eleições, contudo, estão atreladas à política tradicional. Representantes de três dos oito partidos políticos tradicionais do país disputaram o pleito, ao lado de grupos independentes. Os resultados preliminares indicam que o Partido Social-Democrata, nacionalista e anti-imigração, conquistou a maior parcela dos votos e aumentou sua participação na Igreja.

“Pode-se dizer que a Igreja da Suécia tem um sistema eleitoral único no mundo, no sentido de que todas as instâncias do poder decisório da instituição são eleitas de forma direta. Embora as igrejas protestantes de países como a Noruega realizem algum tipo de eleições, em geral os pleitos ocorrem apenas a nível paroquial. Já na Suécia, desde a virada do milênio o próprio Sínodo Geral, que pode ser definido como o Parlamento da Igreja Sueca, é eleito nas urnas”, acrescentou Sjögren, que se tornou padre há 17 anos: desde 1958, a Igreja da Suécia aceita a ordenação feminina.

Regras

Para participar das eleições – seja como eleitor, ou como candidato -, o cidadão deve ser membro da Igreja da Suécia. A idade mínima para votar é de 16 anos, e a partir de 18 anos é possível se candidatar ao pleito.

No total, 5,2 milhões de suecos têm direito a votar no país de cerca de 10 milhões de habitantes.

A eleição de bispos e arcebispos na Suécia também costuma ser realizada com a participação popular: 50 por cento do eleitorado deve ser composto por leigos.

“Em várias partes do mundo protestante, as eleições de bispos e arcebispos se dão através do voto tanto de clérigos como de leigos. Isto se dá por razões históricas, diz Jenny Sjögren.

Em 2013, a Suécia elegeu pela primeira vez uma mulher como ‘arcebispa’ – a até então bispa da cidade de Lund, Antje Jackelén.

Campanha Eleitoral

Na mídia sueca, a cobertura da campanha para as eleições gerais da Igreja segue, ainda que em menor dimensão, o figurino dos pleitos políticos. Nesta reta final da corrida eleitoral, candidatos leigos e religiosos duelam na TV e no rádio, jornais debatem as diferentes propostas, e os “partidos” – chamados de “grupos” – apresentam filmes de campanha publicitária. Nas ruas, cartazes e panfletos reforçam o clima de eleição.

Todo o processo das eleições eclesiásticas é muito semelhante ao processo eleitoral para o Parlamento, assim como as regras democráticas que regem o funcionamento das assembleias eleitas pelos membros da Igreja”, diz à BBC Brasil o membro da Igreja David Axelson Fisk, que participou do comitê organizador das primeiras eleições gerais, na virada do milênio.

“Até o ano 2000, a Igreja da Suécia realizava apenas eleições a nível paroquial, como ocorre em outros países protestantes. Mas quando a separação entre Igreja e Estado entrou em vigor, naquele ano, entendeu-se que a forma mais democrática de gerir a instituição deveria ser através de eleições gerais e diretas para todas as instâncias do poder eclesiástico”, observa Fisk.

As eleições da Igreja da Suécia são organizadas em três níveis, num único dia de votação: a nível local, os membros de cada uma das 2.225 paróquias do país elegem uma Assembléia da Paróquia (Kyrkofullmäktige). A nível regional, os eleitores das 13 dioceses escolhem a Assembléia da Diocese (Stiftsfullmäktige), com 81 representantes. E a nível nacional, é eleito o Sínodo Geral da Igreja da Suécia(Kyrkomötet) – a mais alta instância da instituição, composta por 251 integrantes.

arcebispa sueca é a representante da Igreja para eventos ecumênicos e conferências internacionais, mas a autoridade máxima de poder decisório da instituição é o Sínodo Geral. E pelas regras suecas, os bispos não fazem parte do Sínodo, embora devam estar presentes nas sessões do órgão.

“Os 13 bispos do país podem se pronunciar ou apresentar propostas nas sessões do Sínodo, mas não estão autorizados a votar”, esclarece Ewa Almqvist, do departamento de Comunicação da Igreja da Suécia. Por outro lado, segundo Jenny Sjögren, os bispos detêm influência no poderoso Comitê Doutrinário do Sínodo.

Em sua composição atual, 187 dos 251 assentos do Sínodo Geral são ocupados por representantes leigos. Entre os 64 clérigos da assembleia, estão 61 pastora e três diáconos. Os valores suecos da igualdade de gênero também se refletem na formação da assembleia nacional eleita no último pleito: são 124 mulheres e 127 homens, segundo dados fornecidos à BBC Brasil pela Igreja da Suécia.

Os representantes eleitos não ganham salário: recebem apenas compensação pelas horas que deixam de trabalhar em seus empregos regulares, a fim de exercer suas atividades do Sínodo. E em cumprimento às práticas suecas de transparência, as atividades e finanças da Igreja da Suécia também são disponibilizadas para a fiscalização pública.

Críticas

Um dos principais temas do debate da campanha eleitoral deste ano foi o questionamento sobre a participação política nas eleições da Igreja.
Embora as agremiações que concorrem ao voto não tenham a denominação de “partido”, o fato é que três dos oito partidos políticos tradicionais do país disputam o pleito com suas próprias legendas, ao lado de grupos independentes – o Partido Social-Democrata, o Partido do Centro e o Democratas da Suécia, de extrema-direita.

“Há diferentes pontos de vista, e o tema é complexo”, diz a padre sueca Jenny Sjögren.

“Um eleitor pouco familiarizado com as questões da Igreja, por exemplo, pode sentir-se mais seguro ao votar no candidato de um partido político com o qual ele tem afinidade. Este seria um lado positivo de se ter representantes de partidos políticos tradicionais na disputa. Por outro lado, muitos começam a questionar esse envolvimento político na igreja. Mas cada vez mais, surgem novos grupos independentes que não possuem conexão com partidos. Portanto, este é um processo em evolução”, ela ressalta.

Êxodo

Apesar do caro e complexo aparato democrático para a realização de eleições diretas nos três níveis decisórios da Igreja, o comparecimento às urnas tem sido relativamente baixo. Especialmente nestes novos tempos, em que a Igreja da Suécia enfrenta uma perda considerável de seu rebanho.

Nas últimas eleições gerais da Igreja, em 2013, apenas 700 mil pessoas votaram. O índice de comparecimento às urnas não costuma ultrapassar 15% do eleitorado – em claro contraste com o percentual registrado nas eleições políticas para o Parlamento sueco, que costuma girar em torno de 86%.

O êxodo têm preocupado as autoridades eclesiásticas. Em 2016, mais de 90 mil pessoas deixaram de ser membros da Igreja – praticamente o dobro do índice registrado no ano anterior. Segundo pesquisa conduzida pelo instituto sueco Norstat, o principal argumento dos fiéis que decidiram abandonar a instituição é franco: eles não acreditam em Deus.

A Igreja da Suécia abandonou a Igreja Católica Romana no século 16, quando aderiu à Reforma Protestante.

Na virada do milênio, quando a Suécia se tornou oficialmente um Estado laico, 82% dos suecos eram membros da Igreja da Suécia – mais por tradição, segundo muitos comentam, do que por uma real afirmação de fé. Atualmente, segundo os números oficiais, a instituição possui 6,1 milhões de membros (cerca de 62% da população). Mas cada vez mais, a tradição religiosa perde força neste país de descrentes.

Até meados da década de 90, os filhos de membros da Igreja da Suécia se tornavam automaticamente, ao nascer, também membros da instituição. Na era do Estado laico, a nova geração tende a desfazer esses tênues laços religiosos: hoje, pelos cálculos da agência central de estatísticas da Suécia (Statistiska centralbyrån), somente cinco por cento dos suecos costumam frequentar algum tipo de igreja.

Apenas 29% da população afirma ter alguma crença religiosa. E na hora de casar, um em cada três casais optam por uma cerimônia civil.

Fonte: BBC Brasil.

O próximo 31 de outubro se completarão 500 anos desde que Lutero afixou suas 95 teses na porta da igreja do castelo de Wittenberg. Era o início da Reforma Protestante que mudou o curso da história ocidental: do ponto de vista religioso, social, cultural e político. Seguiram-se décadas de guerras e séculos de divisões dentro do mundo cristão. Hoje, um estudo duplo – um na América e outro na Europa – do Pew Research Center registra que católicos e protestantes veem as suas crenças mais semelhantes do que diferentes. Em um mundo onde as divisões religiosas voltaram a se manifestar com toda a ênfase, é interessante notar que cinco séculos depois do cisma de Martinho Lutero diferenças permanecem, mas a tendência é por uma visão da religião e da vida convergentes.

Nos Estados Unidos, entre os protestantes, 57% considera que os dois credos são semelhantes, contra 41% que os considera diferentes. Entre os católicos, as percentagens são, respectivamente, 65 e 32.

Na Europa, a situação é mais complexa, mas não se desvia da tendência. Entre os protestantes europeus, os alemães caracterizam-se por serem aqueles que menos percebem a diferença: para 78% as duas religiões são semelhantes e apenas 19% as considera claramente diferentes.

Na Holanda, as opiniões dividem-se em 65% contra 28%, na Grã-Bretanha, 58 contra 37 e assim por diante, com uma predominância em todo lugar de quem vê mais pontos de compartilhamento do que de discordância. O mesmo vale para os católicos do Velho Continente, com exceção dos britânicos, onde 45 contra 41 veem mais divisão do que unidade.

Na Holanda, Áustria, Suíça e Alemanha, entre os católicos a percepção de semelhança é bastante evidente.

Na Itália, menos: 47% veem mais proximidades contra 41% que ressalta as divergências.

Ainda mais interessante é observar as opiniões sobre como obter a salvação eterna. De acordo com Lutero, somente por meio da fé. A maioria dos protestantes de hoje (com exceção dos noruegueses) considera que é alcançada através da combinação de fé e boas ações, que é substancialmente a posição tradicional da Igreja Católica.

Mas deve-se notar que na Europa, tanto entre os protestantes como entre os católicos, as pessoas praticantes são uma minoria: apenas 14% dos primeiros e o 8% dos segundos afirmam participar dos serviços religiosos pelo menos uma vez por semana. Cinco séculos depois, podemos dizer que, no Ocidente, as guerras religiosas acabaram.

Fonte: Corriere della Sera.

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“Os Estados Unidos continuam sendo o maior país cristão do mundo e devem manter este posto ao longo das próximas décadas. Mas tende a ser um país cada vez mais secularizado, desencantado (na expressão de Max Weber) e com alto grau de pluralidade religiosa. Mas caminha para ter um percentual de população “descrente” semelhante a outros grandes países, como China, Japão, Suécia, Suíça e Reino Unidos – todos com elevado número de pessoas que se declaram sem religião”, escreve José Eustáquio Diniz Alves, doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE, em artigo publicado por EcoDebate, 12-06-2017.

Não apenas a América Latina e o Brasil estão passando por uma transição religiosa e por um processo de aumento da pluralidade. Os Estados Unidos (EUA), de maneira diferente dos seus vizinhos continentais do Sul, também estão passando por uma reconfiguração no seu panorama religioso.

Os EUA são o terceiro maior país do mundo em tamanho de população (estão atrás apenas da China e da Índia) e são o maior país cristão do mundo. De origem WASP (White, Anglo-Saxon and Protestant), os cristãos norte-americanos se dividem em três grandes ramos: protestantes tradicionais, protestantes pentecostais e católicos.

O gráfico do “The Public Religion Research Institute” (PRRI), (links abaixo) mostra que, em 1974, os protestantes (tradicionais e pentecostais) representavam 63% da população, os católicos 26%, os sem religião (unaffiliated) 7% e as outras religiões 4%.

Quarenta anos depois, em 2014, os protestantes caíram para 46%, os católicos caíram para 21% e os sem religião subiram para 23%. As outras religiões se mantiveram no mesmo patamar.

O mesmo gráfico do PRRI apresenta uma projeção linear para meados do atual século. A novidade seria a posição majoritária do grupo sem religião que ultrapassaria os protestantes em 2050 e seria o grupo majoritário (embora sem maioria absoluta).

Os católicos ficariam abaixo de 20% em 2050 e as outras religiões manteriam a mesma proporção de 4%. Ou seja, os EUA passariam por um forte processo de secularização e podendo chegar a mais de 40% de pessoas sem afiliação religiosa (aproximadamente o mesmo percentual que existe hoje no Uruguai).

Pesquisa do Instituto PEW mostra, com pequenas diferenças e maior desagregação, o quadro religioso nos EUA entre 2007 e 2014. Nota-se que a maior queda ocorreu entre os protestantes tradicionais que passaram de 18,1% para 14,7% entre 2007 e 2014. No mesmo período, a queda dos protestantes pentecostais foi de 26,3% para 25,4% e dos católicos de 23,9% para 20,8%. O maior aumento aconteceu entre os sem religião (unaffiliated) que passou de 16,1% em 2007 para 22,8% em 2014.

As outras religiões também subiram, passando de 4,7% para 5,9%, no mesmo período.

Pesquisa do Instituto Gallup mostra que o percentual de americanos que acreditam em Deus diminuiu de 90% no início do atual século para 79% em 2016. As pessoas que não estão certos da existência de Deus (aproximadamente equivalente a agnósticos) passou de algo em torno de 7% para 10% e os ateus passaram de2% para 11% no mesmo período.

O gráfico abaixo,no link, também do Instituto Gallup, mostra que o pertencimento a alguma igreja, sinagoga ou mesquita nos Estados Unidos tem diminuído desde a época da Segunda Guerra Mundial até 2016, passando de aproximadamente dois terços para pouco mais da metade.

Se o quadro geral é de aumento do percentual de pessoas sem religião e de redução da frequência religiosa, no caso dos jovens esta tendência é mais acirrada. O número de estudantes universitários sem afiliação religiosa triplicou nos últimos 30 anos, de 10% em 1986 para 31% em 2016, de acordo com dados do CIRP Freshman Survey, mostrado em matéria Scientific American (25/05/2017).

No mesmo período, o número de pessoas que frequentavam serviços religiosos caiu de 85% para 69%. O gráfico abaixo mostra como o número de alunos cuja preferência religiosa é “Nenhum” mudou ao longo do tempo. O recuo da religião começa por volta de 1990 e acelera, com uma média de quase 1 ponto percentual por ano. Essas tendências fornecem um retrato da atual geração de jovens adultos e fornecem um quadro da rápida secularização nos EUA.

Outro estudo do “The Public Religion Research Institute” (PRRI), denominado “EXODUS. Why Americans are Leaving Religion, and Why They’re Unlikely to Come Back” (2016) mostra que o crescimento no número de pessoas sem religião cresce em todas as idades, mas principalmente entre os jovens. Este estudo considera que o número de pessoas sem religião é maior do que o comumente mostrado nas pesquisas tradicionais.

Os Estados Unidos continuam sendo o maior país cristão do mundo e devem manter este posto ao longo das próximas décadas. Mas tende a ser um país cada vez mais secularizado, desencantado (na expressão de Max Weber) e com alto grau de pluralidade religiosa. Mas caminha para ter um percentual de população “descrente” semelhante a outros grandes países, como China, Japão, Suécia, Suíça e Reino Unidos – todos com elevado número de pessoas que se declaram sem religião.

Provavelmente, o crescimento da parcela da população sem religião deve ter influência sobre o conjunto da América Latina e do Brasil. O debate sobre “desencantamento”, “reencantamento” “ressacralização e secularização deve ganhar volume, especialmente se consideramos que todo o continente americano está ficando mais diverso e plural.

Referências:

– Robert P. Jones THE CHANGING AMERICAN LANDSCAPE, PRRI, 2015

Pew Research Center’s new Religious Landscape Study, 2015

– GALLUP. Most Americans Still Believe in God Gallup, Social Issues, June 29, 2016

– GALLUP. Five Key Findings on Religion in the US Gallup, December 23, 2016

– Allen Downey. Data from a nationwide survey shows students who list their affiliation as “none” has skyrocketed, May 25, 2017

– Robert P. Jones, Daniel Cox, Betsy Cooper, and Rachel Lienesch, EXODUS. “Why Americans are Leaving Religion, and Why They’re Unlikely to Come Back,The Public Religion Research Institute” (PRRI), September 22, 2016

Reborn

Sexta-feira à noite. Divididos em vestiários de um ginásio em São Paulo, lutadores se recuperam de combates enquanto outros se aquecem, colocam luvas e se preparam para as lutas seguintes.

Do lado de fora das portas, quem domina o centro do octógono montado para a quinta edição do Ultimate Reborn Fight (URF) é o bispo Leandro Miglioli, de 41 anos, da Igreja Apostólica Renascer em Cristo.

Sob as luzes da Arena Renascer — ginásio à beira do rio Tietê arrendado à igreja em 2015 pela Portuguesa —, o bispo Lê, como é conhecido, usa o microfone para um testemunho de fé em que cita a história de Davi e Golias, uma das histórias mais conhecidas da Bíblia.

“Davi partiu para cima de Golias e a vitória mais improvável aconteceu. Davi atirou uma pedra e Golias foi nocauteado imediatamente. Fui nocauteado pela cocaína dos 15 aos 20 anos, quando conheci o que dava a Davi o poder de vitória. (…) O dia em que coloquei meus pés nesta igreja nunca mais usei drogas”, diz o bispo.

“Você não entrou aqui hoje por acaso, apenas para assistir a essas lutas que adoro, mas porque Deus tem um propósito em sua vida. Se tiver a atitude que tive, que Davi teve, Jesus vai entrar em tua vida, e nunca mais esse gigante que te assola irá te vencer.”

Com as mãos ao alto e cabeças curvadas, o público, estimado pela organização em 3 mil pessoas, consente e repete as palavras da oração puxada pelo bispo.

A interrupção dura cerca de dez minutos e evidencia a principal diferença entre o URF e outros eventos profissionais de MMA (Mixed Martial Arts, ou artes marciais mistas).

Nos torneios da Renascer não há mulheres com placas entre os rounds nem álcool na plateia, e a disputa atlética serve de cenário para atrair jovens que não necessariamente dedicariam uma noite de sexta-feira à religião.

“O MMA é um esporte que exige muita dedicação e trabalho. Na igreja ele é praticado com a mesma qualidade: respeitando regras, com ordem e decência. Então não é manifestação de violência”, afirmou à BBC Brasil o apóstolo Estevam Hernandes Filho, de 63 anos, fundador da Renascer, para quem a igreja é “pioneira na realização de eventos esportivos como estratégia de evangelismo”.

A igreja evangélica, diz Hernandes, inicialmente abriu as portas para treinos, de olho em “atrair mais jovens para o esporte”. A grande procura motivou a realização, em 2013, do primeiro grande torneio de MMA profissional da Renascer, que também tem seu time de atletas, o Reborn Team (time renascer, em tradução livre).

Caminho ao octógono

No segundo andar de uma igreja da Renascer em São Mateus, extremo leste de São Paulo, uma sala usada para encontros comunitários faz às vezes de academia. Há espelhos na parede, luvas, troféus e tatames que os próprios alunos montam antes dos treinos gratuitos.

Boa parte dos pupilos passou pelas mãos de Roberto Pedroso, de 38 anos, o pastor Giraia. Praticante de artes marciais desde 1989, Giraia se converteu à Renascer em 2001 e está à frente do Reborn Team desde o começo dos torneios. “Muitas vezes você convida as pessoas a uma igreja e elas não vão, mas a uma noite de lutas elas vão”, diz.

O pastor rebate as críticas à ligação entre MMA e religião – que, segundo ele, vêm sobretudo de outros cristãos. “Já disseram que a igreja era ridícula, ironizando os torneios com a frase de Jesus sobre ‘oferecer a outra face’. Cada um pensa o que quer. Estou salvando vidas e fazendo o que Deus me chamou a fazer.”

Na conversa com a reportagem, o pastor-treinador enfatiza o que vê como receptividade da igreja. “Dizem que a Renascer é a igreja das portas largas. Glória a Deus. Porque é onde mais se abre a porta para gente se converter. Esse é o nosso foco e essência.”

Renato Silva, um dos novos alunos de Jiraya, deixa escapar, durante uma brincadeira, que os treinos o ajudam a enfrentar o vício em drogas.

“Tem um tempinho que estou ‘firmão’, mas estava envolvido com drogas, bebidas. O treinamento ajuda muito, você não têm noção. Você conhece pessoas novas, enquanto na ‘vida louca’ o pessoal com quem você anda não está enxergando. Um ditado diz que um cego não guia outro cego”, afirma ele, que treina na igreja às segundas e quintas-feiras, das 20h às 23h.

“Ontem eu fui, treinei, cheguei em casa moído. Não fiquei na rua”, conta.

Saindo das cordas

O MMA da Renascer não deixa de ser uma estratégia da igreja para se fortalecer após uma série de golpes na última década. Fundada em 1986 e apontada como promessa entre as denominações neopentecostais brasileiras nos anos 1990, a igreja diz ter hoje cerca de 550 igrejas – o que seria menos da metade do que já teria tido.

Em 2007, o casal fundador (Estevam e Sônia Hernandes) foi detido e condenado por contrabando nos EUA após entrar no país com US$ 56 mil não declarados – cumpriram aproximadamente dez meses de prisão em regime fechado e domiciliar. Dois anos depois, o teto da sede da igreja em São Paulo desabou, matando nove pessoas e ferindo mais de cem. Em 2011, a Igreja perdeu seu mais famoso fiel, o jogador de futebol Kaká.

A Renascer nega que haja relação entre os problemas recentes e a aposta nas lutas. “O objetivo do incentivo ao esporte é realmente alcançar vidas, ajudá-las, levar as pessoas a ter uma vida mais saudável e a conhecer Jesus. Não só esta como todas as atividades da igreja Renascer têm apenas este objetivo”, afirmou a assessoria.

Hernandes diz que o próximo passo da igreja no mundo do MMA é criar uma escola na favela de Heliópolis, em São Paulo, e promover um a dois eventos profissionais por ano. “Nosso objetivo é investir mais nestes eventos, não apenas em São Paulo, mas em outras regiões do país.”

Vale-tudo gospel

De volta ao ginásio paulistano, boa parte do público é formada por fieis da Renascer e fãs dos lutadores – alguns usam até camisetas com estampas de atletas. Os ingressos custam de R$ 30 a R$ 50 e tudo é transmitido pela Rede Gospel de Televisão, a rede VHF e UHF da Renascer.

Durante as lutas, é possível ouvir gritos tradicionais do público de MMA – como o “Uh, vai morrer!” -, mas nada que domine a arena. O sermão do bispo Lê promove engajamento: pessoas ficam de pé, erguem as mãos, fecham ou olhos ou repetem parte das frases. Mas há também gente aparentemente indiferente à pregação.

Com exceção da ausência de mulheres em trajes mínimos e de cerveja na arquibancada, o ritual é o mesmo de outros torneios de MMA: apresentador com tom dramático, três juízes, nada de cabeçadas, golpes nos genitais ou na nuca.

No octógono os atletas são todos profissionais, ainda que em início de carreira. Não é preciso treinar na igreja e nem ser ligado à Renascer para participar do evento, que vale registro no Sherdog, o banco de dados que é referência no MMA. O pagamento costuma ser em ingressos para os próprios torneios, de acordo com o nível do atleta.

Quem mais se destacou até hoje nos treinos da Renascer é um alagoano radicado em São Paulo, de 29 anos. José Alexandre, ou Zé Reborn, como é conhecido, foi convidado à equipe depois que um vizinho testemunhou o dia em que ele nocauteou um colega com apenas um soco durante uma brincadeira.

Hoje, cinco anos depois, o peso-mosca ostenta um cartel de 21 vitórias em 31 lutas profissionais.

“Comecei a treinar na igreja, mas ficava naquela: ‘Caramba, treinar um esporte violento na igreja’. Mas quando a pessoa conhece não é nada daquilo que se pensa. Pessoas de fora criticam e acabam se entregando, aceitando, se reconciliando com Deus e tudo mais”, afirma.

A família, também evangélica, resistiu à novidade no começo. A mulher ficava ressabiada e irmãos diziam: “Sai disso, volta para a igreja”, ao que Zé respondia: “Mas eu estou na igreja, mano!”.

Saudado pelo público e pelo narrador como grande atração da noite — ainda que sua luta não fosse a principal —, Zé Reborn demonstrou no octógono a concentração que exibia ao receber, ainda no vestiário, a benção do pastor Giraia.

Disparou um chute de direita que fez o adversário segurar-lhe a perna, mas permaneceu calmo após ser lançado ao chão. Levantou-se e levou a luta ao solo novamente,

invertendo a guarda. Buscou uma finalização até encaixar a guilhotina que encerrou o combate aos 4’27” do primeiro round.

Só então abriu um sorriso e gritou. Escalou as grades do octógono, sob abraços de Giraia. Ao receber o prêmio pela vitória, foi carregado nos ombros e posou para fotos com o pastor e o apóstolo Hernandes.

Apesar da celebração, o lutador ainda não consegue viver de seus socos e chutes. Pai de três crianças, trabalha como auxiliar de limpeza de condomínio por pouco menos de dois salários mínimos e treina à noite, até três vezes por semana.

As bolsas por luta variam de R$ 800 a R$ 2.000, mas ele diz já ter atuado em troca de ingressos e até de graça para melhorar o currículo. “As pessoas falam sobre sair do emprego e me dedicar apenas aos treinos. Viver só de luta é um sonho, claro. Mas como faço se sair do trabalho? Tenhos filhos”, questiona.

Apesar de saber que um eventual patrocínio poderia ajudá-lo a se dedicar ao MMA em tempo integral — aproximando-o do objetivo de lutar com atletas de ponta e até fora do país —, ele não demonstra ansiedade e diz que a parte financeira não é prioridade. “É uma honra lutar pela igreja. Não é sobre dinheiro. É conversão.”

Fonte: BBC Brasil.

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“Durante anos, olhamos para o processo em curso como observadores externos, pensando que fosse uma conversa entre a Igreja Luterana e a Católica. Mas os contínuos convites recebidos pelo mundo luterano e a vontade de diálogo, a partir do qual emerge a consciência de que são muitas mais as afinidades que nos unem do que aquelas que nos dividem, encorajaram-nos a reconsiderar a nossa posição. E eu estou aqui em Windhoek, na 12ª Assembleia Luterana Mundial, para compartilhar com os delegados a alegria do anúncio da assinatura, por parte da Comunhão Mundial das Igrejas Reformadas (WCRC), da Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação.” ( Veja abaixo a declaração)

***

Nos sofás que adornam os imensos corredores do hotel que hospeda, na capital da Namíbia, os trabalhos das 145 Igrejas-membro da Federação Luterana Mundial (FLM), Chris Ferguson, o secretário-geral da WCRC – que reúne, por sua vez, 225 Igrejas reformadas, incluindo a Igreja Valdense – ajuda-nos a repassar as principais etapas dessa escolha: “O texto da declaração se baseia no princípio do ‘consenso diferenciado’, que conta com uma longa tradição ecumênica e que enfatiza como as diversas linguagens teológicas utilizadas para expressar, neste caso, a doutrina da justificação à luz dessa compreensão comum não devem ser mais matéria divisiva. Este é um ponto decisivo: as diferenças permanecem como um aspecto fundamental das nossas Igrejas e do nosso modo de ser cristãos, a justificação; mas prevalece o desejo de explorar novos caminhos, novas relações. Dizemos que é uma declaração de intenções”.

Em 2010, o Conselho Geral da WCRC tinha aberto as consultas com as suas Igrejas-membro. Houve mesas de trabalho, chegaram opiniões, debateu-se, não foi uma escolha óbvia. “Em 2016, em Havana – continua Ferguson – o Comitê Executivo também recomendou que se aceitasse o convite de se juntar à declaração, em conformidade com o princípio ‘Ecclesia reformata, semper reformanda secundum verbum dei’, e, ao mesmo tempo, pediu que o documento oficial de associação à declaração trouxesse uma referência à ligação entre justificação e justiça, como contribuição reformada para o futuro diálogo ecumênico sobre a compreensão da própria justificação.”

A assinatura no texto da declaração ocorrerá durante uma cerimônia no próximo dia 5 de julho, em Wittenberg, na presença de representantes do mundo luterano, católico e também metodista e anglicano, que, por sua vez, assinaram o texto em 2006 e em 2016.

No mesmo dia, será assinado outro documento, desta vez nascido ad hoc em âmbito reformado e luterano, intitulado “O testemunho de Wittenberg”, que, a partir das celebrações conjuntas ligadas aos 500 anos do início da Reforma protestante, confessa, por um lado, a tragédia de uma Igreja dividida, mas reivindica, por outro, o fruto de décadas de diálogo entre as duas organizações e festeja os novos passos rumo à unidade iniciados pelas respectivas Igrejas-membro em todo o mundo.

“É a aposta dos próximos 500 anos – conclui o secretário Ferguson –, diante das tragédias do mundo, Deus nos quer unidos. As Igrejas podem desempenhar um papel-chave para levar as pessoas à paz nesta terra. E, unidas, são mais fortes. Deus nos chama a isso, a superar as divisões, diante do valor mais alto do bem comum para todos.”

O conceito de consenso diferenciado

Sobre o conceito de “consenso diferenciado”, pode ser útil ler o livro datado de 1999, Il consenso cattolico-luterano sulla dottrina della Giustificazione [O consenso católico-luterano sobre a doutrina da Justificação], editado por Fulvio Ferrario e Paolo Ricca, e publicado pela editora Claudiana.

Na introdução escrita pelo então decano da Igreja Luterana na Itália, o pastor Jürgen Astfalk, afirma-se: “Um consenso não significa pleno acordo. Em um consenso, as diferenças são vistas e não escondidas. As diferenças são elencadas, mas não são mais consideradas como tais a ponto de dividir a Igreja. O método do consenso possibilitou a Concórdia de Leuenberg. As diferentes compreensões dos luteranos e dos reformados – por exemplo – na doutrina da Santa Ceia continuando existindo. Os responsáveis pelas Igrejas, porém, estabeleceram que elas não são tão importantes a ponto de determinar uma divisão entre as Igrejas evangélicas interessadas”.

Site: Riforma

DECLARAÇÃO CONJUNTA SOBRE A
DOUTRINA DA JUSTIFICAÇÃO

Preâmbulo

1. A doutrina da justificação teve importância central para a Reforma luterana do século XVI. Era considerada o “primeiro e principal artigo” [1] e simultaneamente “regente e juiz sobre todas as partes da doutrina cristã” [2]. A doutrina da justificação foi particularmente sustentada e defendida em sua expressão reformatória e sua relevância especial face à teologia e à Igreja católica romana de então as quais, por sua vez, sustentavam e defendiam uma doutrina da justificação com características diferentes. Aqui, segundo a prospectiva reformatória, residia o cerne de todas as confrontações. Elas resultaram em condenações doutrinais nos escritos confessionais luteranos [3] e no Concílio de Trento da Igreja católica romana. Essas condenações vigoram até hoje e têm efeito divisor entre as Igrejas.

2. Para a tradição luterana a doutrina da justificação conservou essa relevância especial. Por isso, desde o início, ela também ocupou um lugar importante no diálogo oficial luterano-católico.

3. Remetemos em especial aos relatórios “O evangelho e a Igreja” (1972) [4] e “Igreja e justificação” (1994) [5], da Comissão Mista católica romana/evangélica luterana internacional, ao relatório “Justificação pela fé” (1983) [6], do diálogo católico-luterano nos Estados Unidos, e ao estudo “Condenações doutrinais – divisoras das Igrejas?” (1986) [7], do Grupo de Trabalho Ecumênico de teólogos evangélicos e católicos na Alemanha. Alguns destes relatórios de diálogo obtiveram recepção oficial. Exemplo importante constitui o posicionamento compromissivo emitido pela Igreja Evangélico-Luterana Unida da Alemanha, juntamente com as outras Igrejas pertencentes à Igreja Evangélica na Alemanha, com o máximo grau possível de reconhecimento eclesiástico do estudo sobre as condenações doutrinais (1994) [8].

4. Todos os relatórios de diálogo citados, bem como os posicionamentos a seu respeito, revelam em seu tratamento da doutrina da justificação, alto grau de orientação e juízos comuns. Por isso está na hora de fazer um balanço e de resumir os resultados dos diálogos sobre a justificação, de modo a informar nossas Igrejas, com a devida precisão e brevidade, sobre o resultado geral desse diálogo e de dar-lhes, ao mesmo tempo, condições de se posicionarem de modo compromissivo a respeito.

5. É isso o que pretende a presente Declaração Conjunta. Ela quer mostrar que, com base no diálogo, as Igrejas luteranas signatárias e a Igreja católica romana [9] estão agora em condições de articular uma compreensão comum de nossa justificação pela graça de Deus na fé em Cristo. Esta Declaração Comum (DC) não contém tudo o que é ensinado sobre justificação em cada uma das Igrejas, mas abarca um consenso em verdades básicas da doutrina da justificação e mostra que os desdobramentos distintos ainda existentes não constituem mais motivo de condenações doutrinais.

6. Nossa DC não é uma exposição nova e independente, ao lado dos relatórios de diálogo e documentos já existentes, nem pretende, muito menos, substitui-los. Ela se reporta, antes, a esses textos e sua argumentação.

7. Assim como os próprios diálogos, também esta DC se baseia na convicção de que uma superação de questões controversas e de condenações doutrinárias até agora vigentes não minimiza as divisões e condenações nem desautoriza o passado da própria Igreja. Repousa, porém, sobre a convicção de que no decorrer da história nossas Igrejas chegam a novas percepções e de que ocorrem desdobramentos que não só lhes permitem, mas ao mesmo tempo também exigem, que as questões e condenações divisoras sejam examinadas e vistas sob uma nova luz.

1. A mensagem bíblica da justificação


8. Fomos levados a essas novas percepções por nossa maneira conjunta de escutar a palavra de Deus nas Escrituras Sagradas. Juntos ouvimos o evangelho de que “Deus amou o mundo de tal maneira que deu Seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3, 16). Esta Boa Nova é exposta de diferentes maneiras nas Escrituras Sagradas. No Antigo Testamento ouvimos a palavra de Deus sobre a pecaminosidade humana (cf. Sl 51, 1-5; Dn 9, 5 s.; Ecl 8, 9 s.; Esd 9, 6 s.) e sobre a desobediência humana (cf. Gn 3, 1-19; Ne 9, 16 s.26), bem como sobre a justiça (cf. Is 46, 13; 51, 5-8; 56, 1 [cf. 53, 11]; Jr 9, 24) e o juízo de Deus (cf. Ecl 12, 14; Sl 9, 5 s.; 76, 7-9).

9. No Novo Testamento os temas “justiça” e “justificação” são abordados de maneira diferenciada em Mateus (cf. 5, 10; 6, 33; 21, 32), em João (cf. 16, 8-11), na Epístola aos Hebreus (cf. 5, 13; 10, 37 s.) e na Epístola de Tiago (cf. 2, 14-26). [10] Também nas cartas paulinas o dom da salvação é descrito de diferentes modos, entre outros como “libertação para a liberdade” (Gl 5, 1-13; cf. Rm 6, 7), como “reconciliação com Deus” (2 Cor 5, 18-21; cf. Rm5, 11), como “paz com Deus” (Rm 5, 1), como “nova criação” (2 Cor 5, 17), como “vida para Deus em Cristo Jesus” (Rm 6, 11-23) ou como “santificação  em  Cristo Jesus”  (cf.  1  Cor  1, 2; 1, 30; 2 Cor 1, 1). Salienta-se entre esses conceitos a descrição como “justificação” do pecador pela graça de Deus na fé (cf. Rm 3, 23-25), que foi destacada de maneira especial no tempo da Reforma.

10. Paulo descreve o evangelho como poder de Deus para a salvação do ser humano caído sob o poder do pecado:  como mensagem que proclama a “justiça de Deus de fé em fé” (Rm 1, 16 s.) e que presenteia a “justificação” (Rm 3, 21-31). Ele anuncia Cristo como “nossa justiça” (1 Cor 1, 30) ao aplicar ao Senhor ressuscitado o que Jeremias disse acerca do próprio Deus (cf. 23, 6). Na morte e na ressurreição de Cristo estão enraizadas todas as dimensões de sua obra redentora, porque “nosso Senhor foi entregue por causa de nossas transgressões e ressuscitou por causa de nossa justificação” (Rm 4, 25). Todos os seres humanos necessitam da justiça de Deus, “pois todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Rm 3, 23; cf. Rm 1, 18-3.22; 11, 32; Gl 3, 22). Nas cartas aos Gálatas (cf. 3, 6) e aos Romanos (cf. 4, 3-9) Paulo entende a fé de Abraão (cf. Gn 15, 6) como fé no Deus que justifica o pecador (cf. Rm 4, 5) e invoca o testemunho do Antigo Testamento para sublinhar seu evangelho de que aquela justiça será imputada a todos os que, como Abraão, confiam na promessa de Deus. “O justo viverá pela fé” (Hab 2, 4; cf. Gl 3, 11; Rm 1, 17). Nas cartas paulinas a justiça de Deus é simultaneamente o poder de Deus para cada crente (cf. Rm 1, 16 s.). Em Cristo ele faz com que ela seja nossa justiça (cf. 2 Cor 5, 21). Recebemos a justificação por Cristo Jesus, “a quem Deus propôs, em seu sangue, como propiciação [eficaz] mediante a fé” (Rm 3, 25; cf. 3, 21-28). “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus; não de obras” (Ef 2, 8 s.).

11. Justificação é perdão dos pecados (cf. Rm 3, 23-25; At 13, 39; Lc 18, 14), libertação do poder dominante do pecado e da morte (cf. Rm 5, 12-21) e da maldição da lei (cf. Gl 3, 10-14). Ela significa acolhida na comunhão com Deus, já agora, mas de forma plena no reino vindouro de Deus (cf. Rm 5, 1 s.). Une com Cristo e sua morte e ressurreição (cf. Rm 6, 5). Acontece no recebimento do Espírito Santo no batismo como incorporação no corpo uno (cf. Rm 8, 1 s., 9 s.; 1 Cor 12, 12 s.). Tudo isso provém somente de Deus, por amor de Cristo, por graça, pela fé no “evangelho de Deus com respeito a seu Filho” (cf. Rm 1, 1-3).

12. As pessoas justificadas vivem a partir da fé que provém da palavra de Cristo (cf. Rm 10, 17) e que atua no amor (cf. Gl 5, 6), o qual é fruto do Espírito (cf. Gl 5, 22 s.). Mas, visto que poderes e ambições atribulam as pessoas crentes por fora e por dentro (cf. Rm 8, 35-39; Gl 5, 16-21) e elas caem em pecado (cf. 1 Jo 1, 8.10), precisam repetidamente ouvir as promissões de Deus, confessar seus pecados (cf. 1 Jo 1, 9), participar do corpo e do sangue de Cristo e ser exortadas a viver uma vida justa em conformidade com a vontade de Deus. Por isso o apóstolo diz às pessoas justificadas:  “Desenvolvei vossa salvação com temor e tremor; porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer quanto o realizar, segundo a sua vontade” (Fl 2, 12 s.). Permanece, porém, a Boa Nova:  “Já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Rm 8, 1) e nos quais Cristo vive (cf. Gl 2, 20). Por intermédio da obra justa de Cristo haverá justificação que dá vida para todos os seres humanos (cf. Rm 5, 18).

2. A doutrina da justificação como problema ecumênico


13. No século XVI, a interpretação e aplicação contrastantes da mensagem bíblica da justificação constituíram uma das causas principais da divisão da Igreja ocidental, o que também se expressou em condenações doutrinais. Por isso, para superar a divisão na Igreja, uma compreensão comum da justificação é fundamental e indispensável. Acolhendo resultados da pesquisa bíblica e percepções da história da teologia e dos dogmas, desenvolveu-se no diálogo ecumênico desde o Concílio Vaticano II uma nítida aproximação no que diz respeito à doutrina da justificação, de modo que a presente DC pode formular um consenso em verdades básicas da doutrina da justificação a cuja luz as correspondentes condenações doutrinais do século XVI não mais se aplicam ao parceiro de hoje.

3. A compreensão comum da justificação


14. O ouvir comum da Boa Nova proclamada nas Sagradas Escrituras e, não por último, os diálogos teológicos de anos recentes entre as Igrejas luteranas e a Igreja católica romana levaram a uma concordância na compreensão da justificação. Ela abarca um consenso nas verdades básicas; os desdobramentos distintos nas afirmações específicas são compatíveis com ela.

15. É nossa fé comum que a justificação é obra do Deus uno e trino. O Pai enviou seu Filho ao mundo para a salvação dos pecadores. A encarnação, a morte e a ressurreição de Cristo são fundamento e pressuposto da justificação. Por isso justificação significa que o próprio Cristo é nossa justiça, da qual nos tornamos participantes através do Espírito Santo segundo a vontade do Pai. Confessamos juntos:  somente por graça, na fé na obra salvífica de Cristo, e não por causa de nosso mérito, somos aceitos por Deus e recebemos o Espírito Santo, que nos renova os corações e nos capacita e chama para as boas obras [11].

16. Todas as pessoas são chamadas por Deus para a salvação em Cristo. Somos justificados somente por Cristo ao recebermos essa salvação na fé. A própria fé, por sua vez, é presente de Deus através do Espírito Santo, que atua na palavra e nos sacramentos na comunhão dos crentes e que, ao mesmo tempo, conduz os crentes àquela renovação de sua vida que Deus consuma na vida eterna.

17. Compartilhamos a convicção de que a mensagem da justificação nos remete de forma especial ao centro de testemunho neotestamentário da ação salvífica de Deus em Cristo:  ela nos diz que como pecadores devemos nossa vida nova unicamente à misericórdia perdoadora e renovadora de Deus, misericórdia esta com a qual só podemos ser presenteados e que só podemos receber na fé, mas que nunca – de qualquer forma que seja – podemos fazer por merecer.

18. Por isso a doutrina da justificação, que assume e desdobra essa mensagem, não é apenas um aspecto parcial da doutrina cristã. Ela se encontra numa relação essencial com todas as verdades da fé, as quais devem ser vistas numa conexão interna entre si. Ela é um critério indispensável que visa orientar toda a doutrina e prática da Igreja incessantemente para Cristo. Quando luteranos acentuam a importância singular desse critério, não negam a conexão e a importância de todas as verdades da fé. Quando católicos se sentem comprometidos com vários critérios, não negam a função especial da mensagem da justificação. Luteranos e católicos compartilham o alvo comum de confessar em tudo a Cristo, ao qual unicamente importa confiar, acima de todas as coisas, como mediador uno (cf. 1 Tm 2, 5 s.) pelo qual Deus, no Espírito Santo, dá a si mesmo e derrama seus dons renovadores.

4. O desdobramento da compreensão comum da justificação

4.1. Incapacidade e pecado humanos face à justificação


19. Confessamos juntos que o ser humano, no concernente à sua salvação, depende completamente da graça salvadora de Deus. A liberdade que ele possui para com as pessoas e coisas do mundo não é liberdade com relação à salvação. Isto quer dizer que, como pecador, ele se encontra sob o juízo de Deus, sendo por si só incapaz de se voltar a Deus em busca de salvamento, ou de merecer sua justificação perante Deus, ou de alcançar a salvação pela própria força. Justificação acontece somente por graça. Porque católicos e luteranos confessam isso conjuntamente, deve-se dizer:

20. Quando católicos dizem que o ser humano “coopera” no preparo e na aceitação da justificação por assentir à ação justificadora de Deus, eles vêem mesmo nesse assentimento pessoal um efeito da graça, e não uma ação humana a partir de forças próprias.

21. Segundo a concepção luterana o ser humano é incapaz de cooperar em sua salvação, porque como pecador ele resiste ativamente a Deus e à sua ação salvadora. Luteranos não negam que o ser humano possa rejeitar a atuação da graça. Quando sublinham que o ser humano pode tão-somente receber (mere passive) a justificação, rejeitam com isso qualquer possibilidade de uma contribuição própria do ser humano para sua justificação, mas não negam sua plena participação pessoal na fé, que é operada pela própria palavra de Deus.

4.2. Justificação como perdão de pecados e ato de tornar justo


22. Confessamos juntos que Deus, por graça, perdoa ao ser humano o pecado, e o liberta ao mesmo tempo do poder escravizador do pecado em sua vida e lhe presenteia a nova vida em Cristo. Quando o ser humano tem parte em Cristo na fé, Deus não lhe imputa seu pecado e, pelo Espírito Santo, opera nele um amor ativo. Ambos os aspectos da ação graciosa de Deus não devem ser separados. Eles estão correlacionados de tal maneira que o ser humano, na fé, é unido com Cristo que em sua pessoa é nossa justiça (cf. 1 Cor 1, 30):  tanto o perdão dos pecados quanto a presença santificadora de Deus. Porque católicos e luteranos confessam isso conjuntamente, deve-se dizer:

23. Quando luteranos enfatizam que a justiça de Cristo é nossa justiça, querem sobretudo assegurar que ao pecador, pelo anúncio do perdão, é representada a justiça perante Deus em Cristo e que sua vida é renovada somente em união com Cristo. Quando dizem que a graça de Deus é amor que perdoa (“favor de Deus”) [12], não negam com isso a renovação da vida do cristão, mas querem expressar que a justificação permanece livre de cooperação humana, tampouco dependendo do efeito renovador de vida que a graça produz no ser humano.

24. Quando católicos enfatizam que ao crente é presenteada a renovação da pessoa interior pelo recebimento da graça, [13] querem assegurar que a graça perdoadora de Deus sempre está ligada ao presente de uma nova vida, que no Espírito Santo se torna efetiva em amor ativo; mas não negam com isso que o dom da graça divina na justificação permanece independente de cooperação humana.

4.3. Justificação por fé e por graça


25. Confessamos juntos que o pecador é justificado pela fé na ação salvífica de Deus em Cristo; essa salvação lhe é presenteada pelo Espírito Santo no batismo como fundamento de toda a sua vida cristã. Na fé justificadora o ser humano confia na promessa graciosa de Deus; nessa fé estão compreendidos a esperança em Deus e o amor a Ele. Essa fé atua pelo amor; por isso o cristão não pode e não deve ficar sem obras. Mas tudo o que, no ser humano, precede ou se segue ao livre presente da fé não é fundamento da justificação nem a faz merecer.

26. Segundo a compreensão luterana, Deus justifica o pecador somente na fé (sola fide). Na fé o ser humano confia inteiramente em seu Criador e Redentor e está assim em comunhão com ele. Deus mesmo é quem opera a fé ao produzir tal confiança por sua palavra criadora. Porque essa ação divina constitui uma nova criação, afeta todas as dimensões da pessoa e conduz a uma vida em esperança e amor. Assim, na doutrina da “justificação somente pela fé”, a renovação da conduta de vida que necessariamente se segue à justificação, e sem a qual não pode haver fé, é distinguida da justificação, mas não é separada dela. Com isso é indicado, antes, o fundamento do qual provém tal renovação. Do amor de Deus, que é presenteado ao ser humano na justificação, provém a renovação da vida. A justificação e a renovação estão ligadas pelo Cristo presente na fé.

27. Também segundo a compreensão católica a fé é fundamental para a justificação, pois sem fé não pode haver justificação. Como ouvinte da palavra e crente o ser humano é justificado por meio do batismo. A justificação do pecador é perdão dos pecados e ato que torna justo através da graça justificadora, que nos torna filhos e filhas de Deus. Na justificação as pessoas justificadas recebem de Cristo fé, esperança e amor e são assim acolhidas na comunhão com Ele. [14] Essa nova relação pessoal com Deus se baseia inteiramente na graciosidade divina e fica sempre dependente da atuação criadora de salvação do Deus gracioso, que permanece fiel a si mesmo e no qual o ser humano pode por isso confiar. Por esta razão a graça justificadora nunca se converte em posse do ser humano, à qual ele pudesse apelar diante de Deus. Quando, segundo a compreensão católica, se acentua a renovação da vida através da graça justificadora, essa renovação em fé, esperança e amor sempre depende da graça inescrutável de Deus e não representa qualquer contribuição para a justificação da qual pudéssemos orgulhar-nos diante de Deus (cf. Rm 3, 27).

4.4. A  pessoa  justificada  como  pecadora

28. Confessamos juntos que no batismo o Espírito Santo une a pessoa com Cristo, a justifica e realmente a renova. Não obstante, a pessoa justificada durante toda a vida permanece incessantemente dependente da graça de Deus que justifica de modo incondicional. Também ela está continuamente exposta ao poder do pecado e suas investidas (cf. Rm 6, 12-14), não estando isenta da luta vitalícia contra a oposição a Deus em termos de cobiça egoísta do velho Adão (cf. Gl 5, 16; Rm 7, 7.10). Também a pessoa justificada precisa pedir, como no Pai Nosso, a cada dia, o perdão de Deus (cf. Mt 6, 12; 1 Jo 1, 9), é chamada constantemente à conversão e ao arrependimento e recebe continuamente o perdão.

29. Luteranos entendem isso no sentido de que a pessoa cristã é “ao mesmo tempo justa e pecadora”:  ela é totalmente justa porque Deus, por palavra e sacramento, lhe perdoa o pecado e lhe concede a justiça de Cristo, da qual ela se apropria pela fé e a qual em Cristo a torna justa diante de Deus. Olhando, porém, para si mesma através da lei, ela reconhece que continua ao mesmo tempo totalmente pecadora, que o pecado ainda habita nela (cf. 1 Jo 1, 8; Rm 7, 17.20):  porque reiteradamente confia em falsos deuses e não ama a Deus com aquele amor indiviso que Deus como seu criador dela exige (cf. Dt 6, 5; Mt 22, 36-40). Essa oposição a Deus é, como tal, verdadeiramente pecado. Não obstante, graças ao mérito de Cristo, o poder escravizante do pecado está rompido:  já não é pecado que “domina” a pessoa cristã por estar “dominado” por Cristo, com o qual a pessoa justificada está unida na fé; assim a pessoa cristã, enquanto vive na terra, pode ao menos em parte viver uma vida em justiça. E, a despeito do pecado, não está mais separada de Deus, porque no retorno diário ao batismo ela, que renasceu pelo batismo e pelo Espírito Santo, tem seu pecado perdoado, de sorte que seu pecado já não lhe acarreta condenação e morte eterna. [15] Portanto, quando luteranos dizem que a pessoa justificada é também pecadora e que sua oposição a Deus é verdadeiramente pecado, não negam que, a despeito do pecado, ela está inseparada de Deus em Cristo e que seu pecado é pecado dominado. Neste último aspecto estão em concordância com os católicos romanos, apesar das diferenças na compreensão do pecado da pessoa justificada.

30. Segundo a concepção católica, a graça de Jesus Cristo concedida no batismo apaga tudo o que é “realmente” pecado, o que é “digno de condenação” (Rm 8, 1),[16] mas que permanece na pessoa uma inclinação (concupiscência) proveniente do pecado e tendente ao pecado. Uma vez que, conforme a convicção católica, o surgimento dos pecados humanos sempre implica um elemento pessoal, e como este elemento falta naquela inclinação contrária a Deus, católicos não vêem nela pecado em sentido autêntico. Com isso não querem negar que essa inclinação não corresponde ao desígnio original de Deus para a humanidade nem que é objetivamente oposição a Deus e que permanece objeto de luta vitalícia; em gratidão pela redenção por intermédio de Cristo querem destacar que a inclinação contrária a Deus não merece o castigo de morte eterna [17] e não separa a pessoa justificada de Deus. Quando, porém, a pessoa justificada se separa voluntariamente de Deus, não basta voltar a observar os mandamentos, mas ela precisa receber, no sacramento da reconciliação, perdão e paz pela palavra do perdão que lhe é conferida por força da obra reconciliadora de Deus em Cristo.

4.5. Lei e evangelho

31. Confessamos juntos que o ser humano é justificado na fé no evangelho “independentemente de obras da lei” (Rm 3, 28). Cristo cumpriu a lei e, por sua morte e ressurreição, a superou como caminho para a salvação. Confessamos ao mesmo tempo que os mandamentos de Deus permanecem em vigor para a pessoa justificada e que Cristo, em sua palavra e sua vida, expressa a vontade de Deus, que constitui padrão de conduta também para a pessoa justificada.

32. Os luteranos sustentam que a distinção e a correta correlação de lei e evangelho é essencial para a compreensão da justificação. A lei, em seu uso teológico, é exigência e acusação às quais está sujeita durante a vida inteira toda pessoa, também pessoa cristã, na medida em que é pecadora; e a lei põe a descoberto seu pecado para que na fé no evangelho, ela se volte inteiramente para a misericórdia de Deus em Cristo, a qual unicamente a justifica.

33. Uma vez que a lei como caminho de salvação foi cumprida e superada pelo evangelho, católicos podem dizer que Cristo não é um legislador à maneira de Moisés. Quando católicos acentuam que a pessoa justificada é obrigada a observar os mandamentos de Deus, não negam com isso que a graça da vida eterna é misericordiosamente prometida aos filhos e filhas de Deus por Jesus Cristo [18].

4.6. Certeza de salvação


34. Confessamos  juntos  que  as pessoas  crentes  podem  confiar  na  misericórdia e nas promissões de Deus. Também em face de sua própria fraqueza e de muitas ameaças para sua fé, podem basear-se – graças à morte e ressurreição de Cristo – na promessa eficaz da graça de Deus em palavra e sacramento e, assim, ter certeza desta graça.

35. Isto foi acentuado de maneira especial pelos reformadores:  em meio à tribulação a pessoa crente não deve olhar para si mesma, mas inteiramente para Cristo e confiar somente nele. Assim, na confiança na promissão de Deus, ela tem certeza de sua salvação, mesmo que, olhando para si mesma, nunca esteja segura.

36. Católicos podem compartilhar da preocupação dos reformadores de basear a fé na realidade objetiva da promessa de Cristo, desconsiderando a própria experiência e confiando somente na palavra promitente de Cristo (cf. Mt 16, 19; 18, 18). Com o Concílio Vaticano II os católicos sustentam:  crer significa confiar-se inteiramente a Deus, [19] que nos liberta das trevas do pecado e da morte e nos desperta para a vida eterna. [20] Neste sentido não se pode crer em Deus e, ao mesmo tempo, não considerar confiável a promessa divina. Ninguém deve duvidar da misericórdia de Deus e do mérito de Cristo. Mas toda pessoa pode estar preocupada com sua salvação quando olha para suas próprias fraquezas e insuficiências. Mesmo inteiramente consciente de seu próprio fracasso, contudo, a pessoa crente pode ter certeza de que Deus quer sua salvação.

4.7. As boas obras da pessoa justificada

37. Confessamos juntos que boas obras – uma vida cristã em fé, esperança e amor – se seguem à justificação e são frutos da justificação. Quando a pessoa justificada vive em Cristo e atua na graça recebida produz, biblicamente falando, bom fruto. Essa conseqüência da justificação é ao mesmo tempo uma obrigação a ser cumprida pelo cristão, na medida em que luta contra o pecado durante a vida toda; por isso Jesus e os escritos apostólicos admoestam os cristãos a realizar obras de amor.

38. De acordo com a concepção católica, as boas obras, tornadas possíveis pela graça e pela ação do Espírito Santo, contribuem para um crescimento na graça de tal modo que a justiça recebida de Deus é conservada e a comunhão com Cristo, aprofundada. Quando católicos sustentam o caráter “meritório” das boas obras, querem dizer que, segundo o testemunho bíblico, essas obras têm a promessa de recompensa no céu. Querem destacar a responsabilidade do ser humano por seus atos, mas não contestar com isso o caráter de presente das boas obras nem, muito menos, negar que a justificação como tal permanece sendo sempre presente imerecido da graça.

39. Também entre os luteranos existe a idéia de uma preservação da graça e de um crescimento em graça e fé. Acentuam, contudo, que a justiça como aceitação da parte de Deus e participação na justiça de Cristo, sempre é perfeita; mas dizem ao mesmo tempo que seu efeito na vida cristã pode crescer. Quando vêem as boas obras da pessoa cristã como “frutos” e “sinais” da justificação, não como “méritos” próprios, não deixam, no entanto, de entender a vida eterna, conforme o Novo Testamento, como “galardão” imerecido no sentido do cumprimento da promessa divina aos crentes.

5. O significado e o alcance do consenso obtido


40. A compreensão da doutrina da justificação exposta nesta DC mostra que entre luteranos e católicos existe um consenso em verdades básicas da doutrina da justificação. À luz desse consenso as diferenças remanescentes na terminologia, na articulação teológica e na ênfase da compreensão da justificação descritas nos parágrafos 18 a 39 são aceitáveis. Por isso as formas distintas pelas quais luteranos e católicos articulam a fé na justificação estão abertas uma para a outra e não anulam o consenso nas verdades básicas.

41. Com isso também as condenações doutrinais do século XVI, na medida em que dizem respeito à doutrina da justificação, aparecem sob uma nova luz:  a doutrina das Igrejas luteranas apresentada nesta Declaração não é atingida pelas condenações do Concílio de Trento. As condenações contidas nos escritos confessionais luteranos não atingem a doutrina da Igreja católica romana exposta nesta Declaração.

42. Com isso não se tira nada da seriedade das condenações doutrinais referentes à doutrina da justificação. Algumas delas não eram simplesmente infundadas; elas conservam para nós “o significado de advertências salutares”, que devemos observar na doutrina e na prática [21].

43. Nosso consenso em verdades básicas da doutrina da justificação precisa surtir efeitos e comprovar-se na vida e na doutrina das Igrejas. A respeito existem ainda questões de importância diversificada que exigem ulteriores esclarecimentos. Entre outras, por exemplo, a relação entre a palavra de Deus e doutrina eclesiástica, bem como a doutrina a respeito da Igreja, da autoridade na Igreja, de sua unidade, do ministério e dos sacramentos, e finalmente a doutrina da relação entre justificação e ética social. Temos a convicção de que a compreensão comum obtida oferece uma base sólida para esse esclarecimento. As Igrejas luteranas e a Igreja católica romana continuarão se empenhando por aprofundar a compreensão comum e fazê-la frutificar na doutrina e na vida eclesiais.

44. Damos graças ao Senhor por este passo decisivo rumo à superação da divisão da Igreja. Rogamos ao Espírito Santo que nos conduza adiante para aquela unidade visível que é a vontade de Cristo.


Notas

 1) Os artigos de Esmalcalde II, 1 (Livro de concórdia:  as confissões da Igreja Evangélica Luterana, 3ª ed., São Leopoldo, Sinodal, Porto Alegre:  Concórdia, 1983, pág. 312).

 2) “Rector et iudex omnia genera doctrinarum” (Edição de Weimar das obras de Lutero, 39/I, 205).

 3) Note-se que uma série de Igrejas luteranas adotaram como base doutrinária compromissiva somente a Confissão de Ausburgo e o Catecismo Menor de Lutero. Estes escritos confessionais não contêm condenações doutrinais referentes à doutrina da justificação em relação à Igreja católica romana.

 4) COMISSÃO MISTA NACIONAL CATÓLICO-LUTERANA, O evangelho e a Igreja, s.d.

 5) GEMEINSAME RÖMISCH-KATHOLISCHE/EVANGELISCH-LUTHERISCHE KOMMISSION (ed.), Kirche und rechtfertigung:  Das Verständnis der Kirche im Licht der Rechtfertigungslehre, Paderborn/Frankfurt, 1994.

 6) Lutherish/Römisch-Katholischer Dialog in den USA:  Rechtfertigung durch den Glauben (1983), in:  Harding MEYER, Günther GASSMAN (eds.), Rechtfertigung im ökumenischen Dialog:  Dokumente und Einführung, Frankfurt, 1987, pp. 107-200. Em ingles:  Lutherans and Catholics in Dialogue, Minneapolis, 1985, vol. VIII.

 7) Lehrverurteilungen – Kirchentrennend?:  vol. I:  Karl LEHMANN, Wolfhart PANNENBERG (eds.), Rechtfertigung, Sakramente und Amt im Zeitalter der Reformation und heute, Friburgo/Göttingen, 1986.

 8) Gemeinsame Stellungnahme der Arnolshainer Konferenz, der Vereinigten Kirche und des Deutschen Nationalkomitees des Lutherischen Weltbundes zum Dokument “Lehrverteilungen – kirchentrennend?”, Ökumenische Rundschau, v. 44, pp. 99-102, 1995; incluindo os posicionamentos que servem de base a essa resoluçao, cf. Lehrveruteilungen im Gespräch: Die ersten ofiziellen Stellungnahmen aus den evangelischen Kirchen in Deustschland, Göttingen, 1983.

 9) Na presente DC a palavra “Igreja” reproduz a respectiva autocompreensao das Igrejas participantes, sem que com isso se queira considerar resolvidas todas as questoes eclesiológicas a ela associadas.

10) Cf. Relatório de Malta nn. 26-30; Rechtfertigung durch den Glauben, nn. 122-147. Por incumbencia do diálogo sobre a justificaçao nos EUA, os testemunhos neotestamentários nao-paulinos foram examinados por John REUMANN, Righteousness in the New Testament, com reaçoes de Joseph A. FITZMEYER e Jerome D. QUINN (Filadélfia/Nova Iorque, 1982), pp. 124-180. Os resultados deste estudo estao compilados no relatório de diálogo Justification by Faith [em alemao:  Rechtfertigung durch den Glauben], nos nn. 139-142.

11) Cf. “Alle unter einem Christus”, n. 14, in:  Dokumente wachsender Übereinstimmung, vol. I, pp. 323-328.

12) Cf. WA 8, 106.

13) Cf. DS 1528.

14) Cf. DS 1530.

15) Cf. Apologia da Confissao de Ausburgo II, 38-45.

16) Cf. DS 1515.

17) Cf. DS 1515.

18) Cf. DS 1545.

19) Cf. DV 5.

20) Cf. DV 4.

21) Lehrverurteilungen – Kirchentrennend?, 32.

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http://www.vatican.va/roman_curia/pontifical_councils/chrstuni/documents/rc_pc_chrstuni_doc_31101999_cath-luth-joint-declaration_po.html

ac rio branco centro administrativo

“Se há quem duvide da transição religiosa no Brasil, a capital do Acre é um exemplo de cidade que já promoveu a mudança de hegemonia entre católicos e evangélicos (especialmente para a população feminina e jovens). Impressiona o ritmo ocorrido nas últimas duas décadas, pois os católicos caíram cerca de 2% ao ano, enquanto para o Brasil a queda foi de 1% ao ano”, escreve José Eustáquio Diniz Alves, doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE, em artigo publicado por EcoDebate.

Depois de 500 anos de predominância católica, o Brasil está passando por uma transição religiosa, com declínio das filiações católicas e aumento das filiações evangélicas, além do aumento do percentual de outras religiões e do percentual de pessoas que se declaram sem religião.

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Esse fenômeno acontece em todo o território nacional, mas com ritmos diferentes nas regiões, nos estados e nos municípios. A Unidade da Federação com menor percentual de católicos era o Rio de Janeiro, com somente 45,8%, segundo o censo demográfico de 2010. A Unidade da Federação com maior percentual de evangélicos era Rondônia, com 33,8%.

Estes dois estados são os mais avançados na transição religiosa, segundo os últimos dados do IBGE. A razão entre evangélicos e católicos (REC) era de 71,1% em Rondônia e de 64,1% no Rio de Janeiro. Para o Brasil a REC era de 34,3% em 2010, significando que existia 34,3 evangélicos para cada 100 católicos.

Mas em termos das capitais, a cidade de Rio Branco, no Acre, é a mais adiantada na transição religiosa no Brasil, com uma REC de 100%, ou seja, o número de católicos e evangélicos estava praticamente empatado, em 2010.

O percentual de católicos na capital do Acre, em 1991, era de 82,4% e o percentual de evangélicos era de 10%. Mas tudo mudou rapidamente em menos de 20 anos. A tabela acima mostra que, para a população total do município, o percentual de católicos caiu para 61,5% em 2000 e declinou ainda mais para 39,9% em 2010, uma queda impressionante (de 42,5% em 19 anos e de 21,6% em 10 anos). O percentual de evangélicos passou de 23,3%, em 2000, para 39,8% em 2010, subindo 30% em 19 anos e 16,5% na última década. Outras religiões e sem religião somavam 20,3% em 2010.

Quando se analisa a população de 0 a 14 anos o percentual de católicos é ainda menor (34,1% em 2010) e o percentual de evangélicos é ainda maior (44,7%). Este padrão que se repete no país como um todo, mostra que existe um fator intergeracional na transição religiosa, pois as gerações mais jovens estão mais avançadas na transição religiosa e os idosos são os menos afeitos às mudanças de hegemonia.

Quando se considera apenas a população feminina, a capital do Acre já completou a transição religiosa, pois as filiações católicas representavam 38,6% entre as mulheres e as filiações evangélicas representavam 43,4%, em 2010. Outras religiões e sem religião somavam 18% em 2010. Entre as mulheres jovens a mudança de hegemonia é ainda mais visível.

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Artigo do Portal G1 (24/01/2014) mostra que a transição religiosa em Rio Branco foi acompanhada pela multiplicação dos templos evangélicos. Somente nas ruas Valdomiro Lopes e Rua da Conquista, no Bairro da Paz, há mais de sete igrejas evangélicas ao longo de pouco mais de 1 km. O número de templos pode ser decisivo na conquista de fiéis, pois as pessoas tendem a frequentar as igrejas próximas de suas residências.

Se há quem duvide da transição religiosa no Brasil, a capital do Acre é um exemplo de cidade que já promoveu a mudança de hegemonia entre católicos e evangélicos (especialmente para a população feminina e jovens). Impressiona o ritmo ocorrido nas últimas duas décadas, pois os católicos caíram cerca de 2% ao ano, enquanto para o Brasil a queda foi de 1% ao ano. Resta saber se a cidade de Rio Branco é uma exceção ou se as demais capitais também vão seguir este mesmo processo. A resposta deve ser dada no censo demográfico de 2020, quando teremos um panorama atualizado das filiações religiosas em todos os municípios brasileiros.

Referências:

ALVES, J. E. D; NOVELLINO, M. S. F. A dinâmica das filiações religiosas no Rio de Janeiro: 1991-2000. Um recorte por Educação, Cor, Geração e Gênero. In: Patarra, Neide; Ajara, Cesar; Souto, Jane. (Org.). A ENCE aos 50 anos, um olhar sobre o Rio de Janeiro. RJ, ENCE/IBGE, 2006, v. 1, p. 275-308
https://pt.scribd.com/doc/249670739/A-dinamica-das-filiacoes-religiosas-no-Rio-de-Janeiro-1991-2000-Um-recorte-por-educacao-cor-geracao-e-genero

ALVES, JED, CAVENGHI, S. BARROS, LFW. A transição religiosa brasileira e o processo de difusão das filiações evangélicas no Rio de Janeiro, PUC/MG, Belo Horizonte, Revista Horizonte – Dossiê: Religião e Demografia, v. 12, n. 36, out./dez. 2014, pp. 1055-1085

ALVES, JED, BARROS, LFW, CAVENAGHI, S. A dinâmica das filiações religiosas no brasil entre 2000 e 2010: diversificação e processo de mudança de hegemonia. REVER (PUC-SP), v. 12, p. 145-174, 2012.

ALVES, JED. “A encíclica Laudato Si’: ecologia integral, gênero e ecologia profunda”, Belo Horizonte, Revista Horizonte, Dossiê: Relações de Gênero e Religião, Puc-MG, vol. 13, no. 39, Jul./Set. 2015