A Catedral Luterana de Lund, na Suécia, pela primeira vez desde a Reforma voltará a celebrar uma missa católica.

Construída no século XI-XII, mas, em seguida, passada para os luteranos, é a igreja em que o Papa Francisco participou da oração ecumênica pelo 500º aniversário da Reforma, em 31 de outubro de 2016. Agora, como a Igreja Católica de São Thomas, em Lund, terá que passar por uma profunda restauração, as missas católicas dominicais a partir de domingo 21 de outubro serão celebradas na catedral.

Não se trata de uma “questão prática”, explica uma nota no sítio da Diocese Católica na Suécia, mas de um exemplo de “cooperação” que “expressa o espírito do documento ecumênico ‘Do conflito à comunhão’ que reflete 50 anos de conversações entre católicos e luteranos, que também deu o nome ao encontro de Lund em 2016”.

“Essa reunião tocou muitas pessoas,” não foi “um evento único, mas persiste e fortalece as relações” através de “medidas concretas e importantes para uma cooperação mais ecumênica” entre católicos e luteranos em Lund.

Um exemplo é a celebração das Vésperas, que em turnos são celebradas aos domingos na catedral luterana e na igreja católica de São Thomas. As diferenças “doutrinais sobre a Eucaristia fazem com que católicos e luteranos não celebrem juntos a missa na catedral”. No entanto, “em vez de se concentrar sobre o que diferencia” “escolheu-se “cooperar no que nos une, ou seja, a Palavra de Deus, o batismo, a oração e o cuidado diaconal”.

Servizio Informazione Religiosa – SIR,

Por exemplo, eu muitas vezes me pego a explicar, em aulas de catequese, que aprouve a Deus tornar-nos colaboradores d’Ele na ordem da Redenção. Isso se aplica em primeiríssimo lugar à nossa própria salvação (aqui, a frase de Santo Agostinho, tão antiga mas nunca gasta: “Deus, que te criou sem ti, não te salvará sem ti”); aplica-se, também, à Mediação Universal da Virgem Santíssima (e, aqui, o título d’Ela, justíssimo, de “Medianeira de todas as graças”), mas se aplica também a muitas outras coisas comuns e ordinárias. A intercessão mútua é o dia-a-dia dos cristãos. Somos todos, em alguma medida, co-responsáveis pela sorte eterna uns dos outros.

Deus tem duas obras: a Criação e a Redenção. Ora, Ele não determinou que a transmissão da vida natural se desse mediante o concurso do homem e da mulher, através da relação sexual? Sem dúvidas a alma é criada diretamente por Deus, mas o corpo é transmitido dos pais. Não é o homem corpo e alma? Sem corpo, pois, não há homem. A conclusão aqui é assombrosa, mas inelutável: sem o concurso humano cessa a obra criadora de Deus.

E assim como a transmissão da vida natural — a continuação da obra criadora de Deus — não se dá sem a colaboração humana, assim também, mutatis mutandis, a continuação da obra salvífica de Deus — a redenção das almas, a comunicação da vida sobrenatural — não ocorre sozinha, exigindo também ela a cooperação voluntária dos filhos de Deus. A conclusão aqui é ainda mais assombrosa, mas não é menos certa: sem que os homens cooperem, portanto, mesmo o Sacrifício da Cruz queda estéril.

(Veja-se, é possível admitir que, no reino das meras possibilidades metafísicas, as coisas até poderiam ser de outra maneira. No entanto, não cabe a nós discutir com o Altíssimo sobre a melhor maneira de estabelecer a ordem do Universo: sim, as coisas poderiam ser de outro modo, mas o fato é que elas são assim, e a nós não compete senão reconhecê-lo, a fim de agimos conforme o que as coisas são e não o que poderiam ser.)

É este o fundamento da intercessão dos santos, é isto que justifica o múnus santificador da Igreja encarnada, é à luz dessa verdade que fazem sentido as palavras de Nossa Senhora em Fátima: “Muitas almas vão para o inferno por não haver quem se sacrifique e reze por elas”. Sim, Deus poderia fazer sozinho todas as coisas; não o quis, no entanto, preferindo em tudo depender da liberdade de suas criaturas.

Ocorre que Lutero não entende nada disso. Para Ele Deus faz tudo sozinho e o homem está sozinho diante de Deus, nem existe cooperação do homem com a graça divina e nem existem intermediários na relação do homem com Deus. O heresiarca simplesmente não compreende que Deus possa querer redimir os homens à força das boas obras de outros homens. Veja-se, para o ilustrar, esta reveladora passagem das 95 teses:

82. Por exemplo: por que o papa não evacua o purgatório por causa do santíssimo amor e da extrema necessidade das almas – o que seria a mais justa de todas as causas -, se redime um número infinito de almas por causa do funestíssimo dinheiro para a construção da basílica – que é uma causa tão insignificante?

Ora, a resposta a isso é bastante óbvia. Deus não esvazia o Purgatório sozinho pela exata mesma razão que Ele não salva sozinho as almas: porque Ele quer que os homens cooperem com a salvação uns dos outros. O dinheiro, em si, não tem nenhuma relevância nesta questão, o que está em jogo é a boa obra alheia. Esta pode ser uma obra indulgenciada (como, no caso do séc. XVI, era o auxílio material para a construção da Basílica de São Pedro) como pode ser qualquer outra coisa, uma oração ardente, uma tribulação suportada com paciência, um copo de água dado a um pobre, um ponto de costura dado na roupa: se por amor de Deus, se ordenada, é meritória e tem valor salvífico para nós e para o nosso próximo.

Veja-se, o problema de Lutero não é com o dinheiro. É com a “intromissão” de um terceiro na relação entre a alma e Deus. Não é que o monge atormentado achasse que o dinheiro era uma coisa suja ou que havia muita corrupção no clero da sua época, o que Lutero não aceitava era que alguém pudesse ser salvo graças a uma boa ação de uma outra pessoa. O que Lutero achava era que as pessoas deviam se salvar sozinhas. Um dos «erros de Martinho Lutero» condenados na Exsurge Domine é o seguinte:

As almas libertas do purgatório pelos sufrágios dos vivos são menos felizes do que se elas prestassem satisfação por elas mesm[as].

Não era, portanto, pelo dinheiro. Era pela noção de “boa obra”, cujo valor sobrenatural Lutero não admitia. Era por conta dos «sufrágios dos vivos» que, na concepção tortuosa de Martinho Lutero, apequenavam os mortos que os recebiam. Era, em suma, por conta do extremo individualismo do monge alemão, incapaz de aceitar que somente as mãos estendidas de outros homens (todos pecadores) poderiam resgatá-lo da danação eterna. Alegando ter acesso direto a Deus, o que Lutero desprezava era o auxílio dos seus irmãos; sob a rejeição da intercessão dos santos estava o orgulho de pretender se salvar sozinho.

Extremada loucura. É exatamente assim que acontece com todos nós: somos levados ao Céu graças somente ao trabalho incessante de uma miríade de pessoas desconhecidas, cujas orações e sacrifícios, cujas boas obras, cujos méritos aproveitam a nós e se não fosse por eles nós sem dúvidas pereceríamos miseravelmente. Esta é a realidade que Cristo nos revelou e Lutero não quis aceitar. Esta é a Fé Cristã, à qual o pai do Protestantismo tão desgraçadamente deu as costas — arrastando séculos afora uma multidão de almas à perdição atrás de si.

Autor: Jorge Ferraz

Já imaginou um pastor e quase toda sua congregação se convertendo à fé católica?

Esta é a história de Alex C. Jones, um homem nascido em 1914 e que em um momento de sua vida decidiu congregar-se em uma igreja Pentecostal e posteriormente chegou a ser pastor de sua própria congregação em Detroit, a igreja Maranatha.

Naquele tempo, ele não se definia como um homem anticatólico; era apenas indiferente. O que lhe parecia era que os católicos amavam a Deus, mas que tinham práticas estranhas como fazer o sinal da cruz ou inclinar-se muitas vezes durante seus cultos.

O começo de sua conversão ao catolicismo

Mas tudo mudou no ano de 1998. Enquanto se encontrava pregando sobre a primeira carta de São Paulo à Timóteo, em sua Igreja em Detroit, teve uma ideia que mudaria sua vida completamente. Alex achou que seria genial se tivesse em sua igreja um culto ao estilo Novo Testamento. “Eu só queria ser criativo e inovador”, comentou Alex C. Jones.
Logo depois de ter a aprovação de sua congregação, ele fez a promessa de que estudaria com profundidade o culto do Novo Testamento e que o realizaria em um prazo de 30 dias: “Vamos fazer como faziam os primeiros cristãos!”.

Nesse tempo ele estudou os Padres da Igrejas e se chocou com um cristianismo muito diferente ao que conhecia e vivia. Aquela Igreja primitiva não era a mesma que ele tinha. Essa Igreja dos primeiros apóstolos era litúrgica, com um sistema de adoração prescrita e seguida de maneira uniforme. Descobriu que a pregação não era o aspecto central de suas reuniões e nem as experiências com o Espírito Santo, e sim a Eucaristia.

Imagine quão estranho foi para um pastor pentecostal descobrir isso?

Sua surpresa foi maior quando descobriu que aqueles primeiros cristãos também afirmavam que naquela Eucaristia estava realmente o Corpo e o Sangue de Jesus. O pastor Alex simplesmente não conseguia acreditar! Porque até então ele achava que tudo isso era uma invenção católica na Idade Média.

Junto a maravilhosa realidade da Eucaristia, naqueles 30 dias também descobriu que a Igreja do Novo Testamento também era hierárquica (formada por diáconos, presbíteros e bispos), que honravam a Tradição apostólica tanto quanto as Sagradas Escrituras e consideram o batismo como necessário para a salvação. Todas as verdades que não pregava em sua congregação. E isso o fez se sentir em “apuros”. O que fazer com tudo o que havia descoberto? Já tinha prometido um culto como o dos primeiros cristãos e o grande dia se aproximava!

A reação de seu rebanho

Chegado o dia do culto que havia prometido, tentou fazer algo parecido com o que havia aprendido, uma tentativa de Missa com “eucaristia” incluída. Dividiu assim o culto dominical em liturgia da palavra e liturgia Eucaristica. Como era esperado, muitos começaram a abandonar sua Igreja acusando-lhe de ser “muito católico”, embora naquele momento não pensasse em converter-se. Só estava aplicando o que tinha aprendido e estava tratando de “ressuscitar” a Igreja dos Apóstolos.

No entanto, outros membros de sua congregação achavam as explicações que Alex dava muito interessantes e logo a maioria se deu conta de que Deus as chamava para a Igreja Católica. E no ano de 2001 fizeram uma votação em que 39 pessoas votaram a favor e 19 contra a opção de converter-se ao catolicismo. Em 10 de setembro do mesmo ano, todos os que estiveram à favor , junto a Alex, começaram a receber catequese na Igreja Católica de Santa Susana, em Detroit, e foram aceitos todos formalmente como fiéis católicos.

Outro dado interessante é que Alex C. Jones sentiu em seu coração o desejo de ser sacerdote, mas em obediência as normas da Igreja, por já ser casado e ter filhos, aceitou o diaconato, trabalho que desenvolveu até seu falecimento em 14 de janeiro de 2017.

Fonte Original: Editor ChurchPOP

Quinhentos anos após a Reforma Protestante, o quadro religioso está mudando de maneira irreversível na América Latina. O Brasil e suas grandes regiões estão passando por uma acelerada transição religiosa que se manifesta em 4 aspectos:

1) Declínio nos números do catolicismo;

2) Aumento acelerado das filiações evangélicas (com diversificação das denominações e aumento dos evangélicos não institucionalizados);

3) Crescimento lento do percentual das religiões não cristãs;

4) Aumento absoluto e relativo das pessoas que se declaram sem religião (incluindo ateus e agnósticos);

O quadro que se desenha para um futuro próximo é de mudança de hegemonia entre católicos e evangélicos, com os segundos ultrapassando os primeiros e aumento da pluralidade de crenças e do processo de secularização (grande aumento da desafeição religiosa e da apostasia).

O censo demográfico de 1890, realizado logo após a Proclamação da República(1889), apontava que os católicos eram, praticamente, 100% da população brasileira. Mas esse número veio caindo e estava em praticamente 90% em 1980. Mas a partir daí a queda se acelerou e os católicos ficaram com 83,3% em 1991, 73,9% em 2000 e 64,6% em 2010.

Entre 1890 e 1970 os católicos perderam posição relativa na população total cerca de 1% por década. Entre 1991 e 2010 a perda passou a ser de 1% ao ano. Portanto, o ritmo de queda da presença católica no Brasil foi multiplicado por dez.

Todavia, esta queda não é uniforme e segue ritmos diferenciados nas regiões, nos Estados e nas cidades. A Unidade da Federação com menor proporção de católicos é o Rio de Janeiro e a com maior percentagem de evangélicos é Rondônia. O Rio de Janeiro também é a UF com maior pluralidade de crenças e com o maior percentual de pessoas que se declaram sem religião.

A região geográfica mais ‘avançada’ na transição religiosa é a Sudeste (com mais de 80 milhões de habitantes em 2010) onde os católicos caíram de 69,2% para 59,5% entre 2000 e 2010, os evangélicos passaram de 17,5% para 24,6%, as outras religiões passaram de 4,9% para 7% e os sem religião passaram de 8,4% para 9%, no mesmo período.

Nas regiões Centro-Oeste e Norte o percentual de católicos é bem parecido com o percentual da região Sudeste. Já o percentual de evangélicos é maior na região Norte, que, no entanto, tinha um percentual de sem religião menor do que em outras regiões, com exceção da região Sul. A região Nordeste tinha o maior percentual de católicos e o menor de evangélicos. Já a região Sul fica na transição religiosa um pouco à frente da região Nordeste, mas atrás das demais regiões.

Nota-se que a transição religiosa não tem uma relação determinística com o grau de desenvolvimento, pois enquanto o Sudeste lidera o quadro de transformações religiosas, juntamente com a região Norte, a região Sul está mais próxima da região Nordeste. O fato comum entre as regiões é que os quatro pontos indicados no início deste artigo seguem ao longo do tempo, apenas com velocidades diferentes de transições.

José Eustáquio Diniz Alves, doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE, em artigo publicado por EcoDebate

Referências:

ALVES, J. E. D; NOVELLINO, M. S. F. A dinâmica das filiações religiosas no Rio de Janeiro: 1991-2000. Um recorte por Educação, Cor, Geração e Gênero. In: Patarra, Neide; Ajara, Cesar; Souto, Jane. (Org.). A ENCE aos 50 anos, um olhar sobre o Rio de Janeiro. RJ, ENCE/IBGE, 2006, v. 1, p. 275-308

ALVES, JED, BARROS, LFW, CAVENAGHI, S. A dinâmica das filiações religiosas no brasil entre 2000 e 2010: diversificação e processo de mudança de hegemonia. REVER (PUC-SP), v. 12, p. 145-174, 2012.

ALVES, JED, CAVENGHI, S. BARROS, LFW. A transição religiosa brasileira e o processo de difusão das filiações evangélicas no Rio de Janeiro, PUC/MG, Belo Horizonte, Revista Horizonte – Dossiê: Religião e Demografia, v. 12, n. 36, out./dez. 2014, pp. 1055-1085

ALVES, JED. “A encíclica Laudato Si’: ecologia integral, gênero e ecologia profunda”, Belo Horizonte, Revista Horizonte, Dossiê: Relações de Gênero e Religião, Puc-MG, vol. 13, no. 39, Jul./Set. 2015

ALVES, JED et. al. Cambios en el perfil religioso de la población indígena del Brasil entre 1991 y 2010, CEPAL, CELADE, Notas de Población. N° 104, enero-junio de 2017, pp: 237-261

ALVES, JED, CAVENAGHI, S, BARROS, LFW, CARVALHO, A.A. Distribuição espacial da transição religiosa no Brasil, Tempo Social, revista de sociologia da USP, v. 29, n. 2, 2017, pp: 215-242

ALVES, JED. CAVENAGHI, S. Igreja Católica, Direitos Reprodutivos e Direitos Ambientais, Horizonte, Belo Horizonte, v. 15, n. 47, p. 736-769, jul./set. 2017

Chega de “Senhor” e “Ele”. A palavra “Deus” pode ser suficiente, até porque é a única que é neutra do ponto de vista do gênero sexual. A Igreja da Suécia baniu da linguagem da liturgia os termos masculinos referidos a Deus, porque Deus não tem sexo. Não é um “Ele”, nem mesmo uma “Ela”, obviamente.

A medida da Igreja Nacional Evangélica Luterana chega ao término de uma reunião de oito dias da qual participaram 251 membros. Uma espécie de pequeno ‘Concílio Vaticano II’ em nível nacional, que também se ocupou de atualizar a linguagem de um livro de 31 anos, do qual eram tiradas as frases da liturgia, dos hinos e outros aspectos linguísticos. Isso entrará em vigor a partir do dia 20 de maio, dia de Pentecostes.

A Igreja da Suécia é a referência religiosa para 6,1 milhões de batizados em um país de 10 milhões. E talvez, não por acaso, tem à sua frente uma mulher, a arcebispa Antje Jackelén (foto) que lembrou que o debate sobre a linguagem começou ainda em 1986. “Teologicamente”, explica, “Deus está além dos gêneros. Ele não é humano.”

Algumas críticas foram feitas à escolha. Christer Pahlmblad, professor de teologia da Universidade de Lund, declarou que, assim, “subestima-se a doutrina da Trindade. Não é uma medida inteligente. A Igreja da Suécia será conhecida como a Igreja que não respeita a herança teológica comum”.

La Repubblica, 25-11-2017.

O Departamento Filatélico e Numismático do Estado do Vaticano enviou para a impressão um selo comemorativo da Reforma Protestante representando a pintura do frontão da igreja de Wittenberg com o primeiro plano de Jesus crucificado e, no fundo, a cidade de Wittenberg (o lugar onde o reformador alemão e frade agostiniano, em 31 de outubro de 1517, afixou suas 96 teses na porta da igreja do castelo da cidade saxônica para combater o comércio de indulgências).

A representação “pictórica” do selo retrata, em postura de penitência e ajoelhados, respectivamente, a esquerda e direita da Cruz, Martin Luteroque segura a Bíblia, fonte e meta de sua doutrina, e Felipe Melanchton, teólogo e amigo de Martin Lutero – um dos maiores protagonistas da reforma – que, ao contrário, segura a primeira exposição oficial dos princípios do protestantismo por ele redigida: a Confissão de Augsburgo“Confessio Augustuana”.

“É a primeira vez – relata para Riforma.it o pastor Heiner Bludau decano da Igreja Evangélica Luterana na Itália (Celi) – que o Vaticano decide imprimir um selo comemorativo dedicado a Lutero e à Reforma Protestante. Justamente em Wittenberg comemoramos oficialmente em 31 de outubro, na presença das mais altas autoridades do Estado e religiosas, os 500 anos da reforma

Na cidade de Lutero chegou a notícia de reprodução em papel filigranado das imagens de Lutero e Melanchton retratados ao lado de Jesus com o pano de fundo da cidade saxônica. Uma notícia, para nós luteranos, agradável, inesperada e importante. Devo admitir que eu ainda não tive a oportunidade de ver o selo, mas considero essa iniciativa importante. Assim como foram as declarações conjuntas entre luteranos e católicos; neste caso, o Vaticano, ou melhor, seu departamento de filatelia e numismática, decidiu de forma autônoma lançar um importante sinal de proximidade, utilizando uma imagem muito clara, eloquente e abrangente, que bem explica e ilustra a importância, o sentido da Reforma iniciada por Lutero”. 

Em Wittenberg (a cidade de Lutero e fundo do selo), lembra ainda Bludau, foram realizadas as celebrações da “Festa da Reforma“, com um culto solene na Igreja do Castelo de Wittenberg celebrado pelo presidente da EKD, Heinrich Bedford-Strohm e também uma recepção oficial que contou com a presença, entre outros, da própria chanceler Angela Merkel ; todos eventos promovidos pela Igreja evangélica luterana alemã – Evangelische Kirche in Deutschland (EKD) na última terça-feira – “ocasiões importantes – continuou Bludau – em que surgiu, com força, a necessidade de continuar o trabalho ecumênico e interreligioso. Um tema decisivo é o da liberdade religiosa.

Bedford-Strohm em seu precioso sermão também falou sobre a atualidade da Reforma e a importância de olhar para o futuro, um futuro à insígnia da responsabilidade, seja coletiva ou pessoal; a chanceler Merkel, colocando lado a lado a liberdade religiosa com a Reforma Protestante reiterou que as liberdades não podem, no entanto, prescindir dos deveres; ressaltando também a importância da presença religiosa e interreligiosa no tecido institucional, social, político e comunitário da Alemanha”.

O presidente do Conselho da Igreja Evangélica Alemã, o bispo Heinrich Bedford-Strohm, diante do presidente alemão, Frank-Walter Steinmeier, da chanceler Angela Merkel, do presidente do Bundestag Wolfgang Schäuble, bem como numerosos outros convidados do mundo político e ecumênico e centenas de fiéis, quis lembrar: “Estamos sentados aqui, 500 anos depois” e depois enviou uma mensagem ao Papa Francisco: “Irmão em Cristo, agradecemos a Deus pelo seu testemunho de amor e misericórdia que para nós, protestantes, também significa testemunho de Cristo”.

Palavras importantes de reconhecimento endereçadas ao Papa, prosseguiu Bludau, “porque, embora seja verdade que o caminho de aproximação e aberturas ecumênicas começou com o Concílio Vaticano II, é igualmente verdade que o impulso mais significativo ao diálogo e à reconciliação nestes últimos anos vieram dos movimentos dos Papa Francisco. Uma aproximação com todas as igrejas protestantes e evangélicas.

Certamente, importantes são as declarações assinadas no passado, tais como a católico-luterana sobre a doutrina da justificação de 1999, ou a de 2103 “Do conflito à comunhão“, todos documentos dogmáticos importantes. Mas eu acredito que a visita do Papa Francisco em Lund – para abrir as comemorações dos Quinhentos anos da Reforma – tenha sido a verdadeira faísca que realmente modificou a atmosfera e a percepção geral, um movimento visível para todos, de maneira especial na Itália, onde a informação generalista e secular conta muitas vezes e espasmodicamente a vida do papa, as suas obras, as suas viagens e os seus pensamentos. O Papa abrindo as celebrações da Reforma mostrou a todos que não somos “seitas”, mas igrejas cristãs. Uma mensagem que soube penetrar nos interstícios mais inatingíveis da própria igreja católica”.

Após reuniões compartilhadas entre as igrejas protestantes e evangélicas e a cúpula da Igreja Católica, como a do início deste ano em Trento junto com o Departamento Nacional para o Ecumenismo e Diálogo (Unedi) da CEI, e intitulado “Católicos e protestantes 500 anos depois da reforma”, é possível ter um olhar comum, como aconteceu por ocasião da “Festa da reforma” em Roma no último dia 28 de outubro, graças à presença do Cardeal Ravasi e à transmissão da Rai Due ao vivo por mais de uma hora.

Juntamente com a CEI – Unedi, Bludau finalmente recordou “que nasceu a ideia de promover também a declaração conjunta divulgada em 31 de outubro. As relações entre a Igreja Luterana e a Igreja Católica são parte, certamente significativa, de um percurso ecumênico bem mais amplo.

Um percurso empreendido há muito tempo juntos com a Federação das Igrejas Evangélicas na Itália (FCEI) da qual somos federados, e com a qual, graças aos seus esforços, pudemos compartilhar em 28 de outubro último uma jornada realmente rica e importante que, amplificada pela Rai, permitiu-nos colocar à disposição o evento não como um fato “intraprotestante”, mas de todos e para todos os italianos. Essas relações ecumênicas e essas atenções são o sinal importante de um percurso em contínua evolução”.

Sitio da Igreja Valdense na Itália, Riforma.

Duas especialistas na relação católico-luterana, uma católica e outra luterana, dizem que as atuais celebrações conjuntas do 500º aniversário da Reforma Protestante refletem um forte anseio por unidade na base e podem representar uma nova “primavera” no ecumenismo, ou seja, a busca pela unidade cristã.

Quinhentos anos atrás, de acordo com a tradição, Martinho Lutero pregou suas 95 tesesna porta da Catedral de Wittenberg, na Alemanha, disparando, assim, a reforma protestante e dividindo o cristianismo ocidental.

Hoje, duas especialistas de cada lado da divisão católico-luterana dizem que o que detectam nas trincheiras é uma “surpreendente” sede por unidade.

Kathryn Johnson, diretora da Igreja Evangélica Luterana na América (Ecumenical and Interreligious Relations for the Evangelical Lutheran Church in America – ELCA), disse, recentemente, em uma assembleia da ELCA, que esse espírito era forte.

“A profundidade do desejo expresso pelas pessoas no nosso conselho diretivo, do qual 60% são leigos, nos surpreendeu”, disse. “As pessoas querem que avancemos nesse ponto, porque reflete no cotidiano.”

“Eu acho que a visibilidade deste aniversário nos oferece uma oportunidade de dizer ‘Não estamos onde estávamos, e não queremos ficar onde estamos. Queremos ir em frente'”, disse Johnson. “Acredito que a profundidade desse sentimento do nosso povo nos surpreendeu”, afirmou.

A Irmã Susan K. Wood, membro das Irmãs de Caridade de Leavenworth, no Kansas, professora de teologia na Universidade Marquette e líder veterana no diálogo entre católicos e luteranos, disse que as comemorações conjuntas do aniversário da reforma podem marcar um ponto de virada.

“Antes, as pessoas costumavam falar de um ‘inverno ecumênico’. Como se o ecumenismo estivesse desfalecendo”, disse. “Acho que o que aconteceu é que esta comemoração nos levou à primavera, em que as pessoas se preocupam com as relações entre luteranos e católicos.”

“Penso que está afetando as pessoas porque cada diocese está celebrando em conjunto, de alguma forma”, afirmou, “e isso está trazendo o ecumenismo de volta de uma forma diferente da antiga para as pessoas comuns”.

Ambas apontaram para a Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação da Federação Luterana Mundial e da Igreja Católica, de 1999, como um momento importante do caminho.

“Para os luteranos, foi algo gigantesco”, disse Johnson. “Na nossa questão-chave acerca da Reforma, dizíamos que já não tínhamos que condenar a doutrina e a prática católicas, e isso foi extremamente importante.”

Wood e Johnson concederam a entrevista abaixo, por vídeo, no final de outubro.

Na mente popular, a Reforma Protestante tratava basicamente da separação entre protestantes e católicos. Então por que é importante, 500 anos depois, celebrar este marco juntos?

Johnson: Acho que os luteranos gostariam de dizer, muito claramente, que o objetivo da Reforma Protestante não era a separação, mas a reforma, e a separação veio depois. É um efeito colateral com que convivemos e nos tornamos confortáveis em excesso nos últimos 500 anos.

Era importante para os luteranos garantir que não fosse mais uma oportunidade de colocar sal nas feridas da divisão. Acho que a frase usada no serviço de Lund [Suécia], em que o Papa Francisco e líderes luteranos iniciaram este ano de celebração no dia 31 de outubro do ano passado é um resumo importante de como nos sentimos. Diz que ‘Cristãos luteranos, ao lembrar os acontecimentos que levaram à formação específica de suas igrejas, não querem fazê-lo sem seus companheiros cristãos católicos’. Havia um desejo, ou seja, um anseio, de não perpetuar esta separação.

Wood: Cada celebração tem seu próprio contexto histórico. O fato é que os católicos envolveram-se no diálogo ecumênico com os luteranos por 50 anos, desde o encerramento do Concílio Vaticano II. O que muitos católicos não entendem é que um dos objetivos do Concílio Vaticano II era a unidade com outros cristãos. O primeiro documento do Concílio foi sobre a liturgia, e seu primeiro parágrafo menciona a unidade cristã.

É importante celebrar isso porque trabalhamos por 50 anos para atingir essa unidade e temos que curar as divisões do passado.

Há apenas 100 anos, é provável que a ideia de uma celebração conjunta da reforma pareceria quase impensável, ou, no mínimo, terrivelmente avant-garde. O que mudou em cada tradição para que isso fosse possível?

Wood: No mundo católico, antes do Concílio Vaticano II, tínhamos essa noção de ‘retornar’ ao ecumenismo, que nem era um ecumenismo verdadeiro. Era algo do tipo: ‘os protestantes estão errando e deveriam vir para casa, em Roma’. Foi isso que mudou com o Concílio Vaticano II, pois reconhecemos os elementos da Igreja de Cristo em nossos irmãos e irmãs que estavam separados.

Nos envolvemos num ‘ecumenismo espiritual’ de reconciliação. Aprendemos uma nova humildade como Igreja. Somos menos convencidos agora, espero, e acredito que por todas essas razões mudamos nosso posicionamento em relação a outros cristãos.

Johnson: Isso se refletiu no posicionamento luterano, porque o Vaticano II também foi um evento importante para os luteranos na mudança de tom da nossa relação com os católicos. Sem isso, não teríamos estes 50 anos de diálogo, que, a nível nacional, em locais como os Estados Unidos, a Alemanha, os países escandinavos e o Brasil, bem como em nível internacional, mudaram a maneira como nos apresentamos uns aos outros.

Acho que, além disso, tem havido um legado comum de conhecimento, que começou antes do Concílio Vaticano II. O movimento litúrgico, por exemplo, foi uma influência comum em nossas igrejas, o que nos aproximou muito em nossa experiência semanal da vida cristã. Tudo isso nos permitiu, como disse Susan, colher os frutos do ‘ecumenismo espiritual’ em nossas relações e nossas amizades.

Wood: Também não podemos esquecer o que aconteceu em 1999: a assinatura, por autoridades de ambas as igrejas, da Declaração Conjunta da Doutrina da Justificação. Para os católicos, foi a primeira vez que receberam oficialmente resultados do diálogo entre igrejas a partir da reforma. Para os luteranos, a justificação é a doutrina pela qual julgam-se todas as outras doutrinas.

Eu digo aos meus alunos que a palavra ‘justificação’ não sai da boca dos católicos com tanta frequência, porque para nós é um termo estrangeiro. Tendemos a falar mais de ‘santificação’ do que de ‘justificação’. No entanto, foi um avanço que os católicos, acho, não apreciam tanto em nossas relações.

Todos os outros acordos depois de 1999 baseiam-se nele, e isso afeta como celebramos este tempo juntos.

Johnson: A respeito do que disse Susan, acho que a Declaração Conjunta trouxe alguns avanços significativos.

Um deles foi que, para os luteranos, era algo gigantesco. Na nossa questão-chave acerca da Reforma, dizíamos que já não tínhamos que condenar a doutrina e a prática católicas, e isso foi extremamente importante.

Também nos forneceu um panorama pelo qual podíamos honrar e apreciar nossas diferenças em piedade e vocabulário, de que Susan falava. Não é preciso que a justificação seja o termo favorito dos católicos para que não seja mais um termo de divisão entre nós.

Wood: Acho que também temos de olhar para o que está acontecendo com o ecumenismo de base, não apenas em relação às igrejas oficiais, mas às pessoas.

No verão passado, tive o privilégio de assistir à assembleia geral da ELCA, onde confirmou-se a Declaração Conjunta, com enormes 99,4% de aprovação. Tivemos uma sessão de escuta na noite anterior e esperávamos todo tipo de questões doutrinárias.

Em vez disso, as pessoas fizeram fila junto ao microfone, dando testemunhos de como tinham trabalhado juntas em paróquias, em questões de justiça social ou sobre sua experiência em casamentos ecumênicos. As pessoas, as pessoas comuns nos bancos das igrejas, têm sede pela continuidade deste trabalho com o ecumenismo e por alcançar a unidade pela qual anseiam. Foi emocionante.

Vocês poderiam mencionar um resultado prático que esperam que possa advir deste ano de celebração que o católico ou luterano praticante realmente notaria?

Johnson: O que Susan mencionou sobre a nossa assembleia geral também foi uma surpresa para nós, luteranos. A profundidade do desejo expresso pelas pessoas no nosso conselho diretivo, do qual 60% são leigos, nos surpreendeu. As pessoas querem que avancemos nesse ponto, porque reflete no cotidiano.

O ano do aniversário elevou a relação entre católicos e luteranos de forma especialmente intensa. Não conheço um único sínodo dentro da Igreja Luterana que ainda não tinha uma comemoração local do aniversário com seus vizinhos católicos. Já aconteceu a nível paroquial, em que muitas pessoas escrevem para mim sobre seus novos amigos católicos, ou quando aprendem algo diferente. É uma prática que querem continuar no seu trabalho de bairro com imigrantes, para tornar um testemunho comum.

Eu acho que a visibilidade deste aniversário nos oferece uma oportunidade de dizer: ‘Não estamos onde estávamos, e não queremos ficar onde estamos. Queremos ir em frente’. A profundidade desse sentimento do nosso povo nos surpreendeu.

Wood: Antes dessa celebração, as pessoas costumavam falar de um ‘inverno ecumênico’. Como se o ecumenismo estivesse desfalecendo. Acho que o que aconteceu é que esta comemoração nos levou à primavera, em que as pessoas se preocupam com as relações entre luteranos e católicos.

Penso que está afetando as pessoas porque cada diocese está celebrando em conjunto, de alguma forma, como disse Kathryn, e isso está trazendo o ecumenismo de volta de uma forma diferente da antiga para as pessoas comuns.

A entrevista é de John L. Allen Jr-  Crux

 

“Pedimos perdão pelos nossos fracassos, pelas formas como os cristãos feriram o Corpo do Senhor e se ofenderam uns aos outros durante os 500 anos transcorridos desde o início da Reforma até hoje”, diz a Declaração Conjunta que a Federação Luterana Mundial e o Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos assinaram ontem, “31 de outubro de 2017, ano de comemoração comum da Reforma“.

Uma comemoração que, pela primeira vez, “compartilhamos juntos e com nossos parceiros ecumênicos do mundo inteiro”. No documento, luteranos e católicos mostram-se “muito agradecidos pelos dons espirituais e teológicos recebidos através da Reforma“.

“Nós, luteranos e católicos, estamos profundamente agradecidos pelo caminho ecumênico que percorremos juntos nos últimos 50 anos”, prossegue o texto, que reconhece como, ao longo deste tempo, se aprofundou a “nossa oração comum, o culto e o diálogo ecumênico”, o que representou “a eliminação de preconceitos, uma maior compreensão mútua e a identificação de acordos teológicos decisivos”.

O documento faz um balanço positivo deste ano da reforma, que começou com a oração comum luterano-católica em Lund, com a presença do Papa Francisco e a assinatura de uma declaração conjunta “que recolhe o compromisso de continuar percorrendo juntos o caminho ecumênico rumo à unidade pela qual rezava Cristo”.

“Muitos membros das nossas comunidades desejam receber a Eucaristia em uma mesa como expressão concreta da plena unidade. Sentimos a dor daqueles que compartilham toda a sua vida, mas não podem compartilhar a presença redentora de Deus na mesa da Eucaristia. Reconhecemos a nossa conjunta responsabilidade pastoral para responder à fome e à sede espirituais do nosso povo para ser um em Cristo. Desejamos que esta ferida no Corpo de Cristo seja curada. Este é o propósito dos nossos esforços ecumênicos, que desejamos que também avancem através da renovação do nosso compromisso com o diálogo teológico” , insiste o documento, com palavras da citada declaração.

“Pela primeira vez – ressalta a afirmação –, luteranos e católicos consideraram a Reforma desde uma perspectiva ecumênica, o que deu lugar a uma nova abordagem dos acontecimentos do século XVI que levaram à nossa separação”, o que pode redundar em “um estímulo para o crescimento da comunhão e um sinal de esperança para que o mundo vença a divisão e a fragmentação. Uma vez mais, ficou claro que o que temos em comum é muito mais do que o que nos divide”.

De frente para o futuro, conclui o documento, “nos comprometemos a seguir nosso caminho comum, guiados pelo Espírito de Deus, para a maior unidade de acordo com a vontade de Nosso Senhor Jesus Cristo” para “superar as diferenças remanescentes que existem entre nós”.

Eis a íntegra da declaração.

Declaração conjunta da Federação Luterana Mundial e do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos de 31 de outubro de 2017, ano da comemoração comum da Reforma

No dia 31 de outubro de 2017, último dia do ano da comemoração ecumênica comum da Reforma, estamos muito agradecidos pelos dons espirituais e teológicos recebidos através da Reforma, comemoração que compartilhamos juntos e com os nossos parceiros ecumênicos do mundo inteiro. Da mesma forma, pedimos perdão pelos nossos fracassos, pelas formas como os cristãos feriram o Corpo do Senhor e se ofenderam uns aos outros durante os 500 anos desde o início da Reforma até hoje.

Nós, luteranos e católicos, estamos profundamente agradecidos pelo caminho ecumênico que percorremos juntos nos últimos 50 anos. Essa peregrinação, apoiada pela nossa oração comum, pelo culto e pelo diálogo ecumênico, redundou na eliminação de preconceitos, em uma maior compreensão mútua e na identificação de acordos teológicos decisivos. Diante de tantas bênçãos recebidas ao longo do caminho, elevamos os nossos corações em louvor ao Deus Trino pela misericórdia recebida.

Neste dia, fizemos uma retrospectiva de um ano de notáveis eventos ecumênicos que começou em 31 de outubro de 2016 com a oração comum luterano-católica em Lund, na Suécia, na presença de nossos parceiros ecumênicos. Durante a presidência desse serviço, o Papa Francisco e o bispo Munib A. Younan, então presidente da Federação Luterana Mundial, assinaram uma declaração conjunta que recolhe o compromisso de continuar percorrendo juntos o caminho ecumênico rumo à unidade pela qual rezava Cristo (cf. João 17, 21). Nesse mesmo dia, nosso serviço conjunto àqueles que necessitam da nossa ajuda e solidariedade também foi fortalecido por uma declaração de intenção entre a Caritas Internationalis e a Federação Luterana Mundial – Serviço Mundial.

O Papa Francisco e o Presidente Younan declararam juntos: “Muitos membros das nossas comunidades desejam receber a Eucaristia em uma mesa como expressão concreta da plena unidade. Sentimos a dor daqueles que compartilham toda a sua vida, mas não podem compartilhar a presença redentora de Deus na mesa da Eucaristia. Reconhecemos a nossa conjunta responsabilidade pastoral para responder à fome e à sede espirituais do nosso povo para ser um em Cristo. Desejamos que esta ferida no Corpo de Cristo seja curada. Este é o propósito dos nossos esforços ecumênicos, que desejamos que também avancem através da renovação do nosso compromisso com o diálogo teológico”.

As bênçãos deste ano de comemoração incluem o fato de que, pela primeira vez, luteranos e católicos consideraram a Reforma a partir de uma perspectiva ecumênica, o que deu lugar a uma nova abordagem dos acontecimentos do século XVI que levaram à nossa separação. Reconhecemos que, embora o passado não possa ser alterado, sua influência sobre nós hoje pode ser transformada para servir de estímulo para o crescimento da comunhão e um sinal de esperança para o mundo para que supere a divisão e a fragmentação. Uma vez mais, ficou claro que o que temos em comum é muito mais do que o que nos divide.

Alegra-nos o fato de que a Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação, assinada em um ato solene pela Federação Luterana Mundial e pela Igreja Católica Romana em 1999, também foi assinada em 2006 pelo Conselho Metodista Mundial e pela Comunhão Mundial das Igrejas Reformadas neste ano de comemoração. Além disso, hoje mesmo será acolhida e recebida pela Comunhão Anglicana em uma cerimônia solene na Abadia de Westminster. Sobre esta base, nossas comunhões cristãs podem construir um vínculo mais estreito de consenso espiritual e testemunho comum a serviço do Evangelho.

Reconhecemos com gratidão os inúmeros eventos de oração e culto comuns que luteranos e católicos celebraram junto com seus parceiros ecumênicos em diferentes lugares do mundo, os encontros teológicos e as publicações significativas que deram substância a este ano de comemoração.

De frente para o futuro, nos comprometemos a seguir nosso caminho comum, guiados pelo Espírito de Deus, para a maior unidade de acordo com a vontade de Nosso Senhor Jesus Cristo. Com a ajuda de Deus, pretendemos discernir através da oração a nossa compreensão da Igreja, da Eucaristia e do Ministério, buscando um consenso substancial que permita superar as diferenças remanescentes que existem entre nós. Com profunda alegria e gratidão, confiamos em “que Aquele que começou em [nós] esse bom trabalho, vai continuá-lo até que seja concluído no dia de Jesus Cristo” (Filipenses 1, 6).

Religión Digital

É cada vez mais frequente que professores de grupos de escolas protestantes do norte da Europa, que visitam Roma, levem seus estudantes a uma missa católica, para que vejam como é e para que estes tomem tranquilamente a comunhão.

Segundo muitos protestantes e católicos da Europa e da América, esta é também uma das consequências de uma aproximação para baixo entre os dois credos, segundo confirmou uma ampla pesquisa realizada em uma quinzena de países pelo Pew Research Center, de Washington.

Quinhentos anos após fixar suas 95 teses em WittenbergMartinho Lutero já não é esse fomentador de discórdias que foi durante séculos.

Nos Estados Unidos, 65% dos católicos e 57% dos protestantes estão convencidos que entre seus respectivos credos há mais semelhanças que diferenças.

E na Europa ocidental mais da metade dos protestantes e católicos pensam o mesmo. Com índices que chegam a 78% entre os protestantes da Alemanha, 67% entre os católicos da Holanda e 64% entre os católicos da Áustria. Também entre os católicos da Itália já são mais os que consideram que há semelhanças: 47% frente a 41%.

Entre os católicos que continuam se sentindo mais distintos que iguais, em último lugar estão os católicos da Bélgica e Espanha, com 28%. Ao passo que entre os protestantes irredutíveis, os últimos são os da Suécia, com 18%.

A pesquisa também permitiu identificar uma importante faixa da população que não se identifica como católica, nem protestante, e que se considera sem religião. Na Europa ocidental, o índice mais elevado de ateus ou agnósticos é registrado na Holanda, com 48%. Seguem Noruega, com 43%; Suécia, com 41%; Bélgica, com 37%; Dinamarca e Espanha com 30%.

É interessante o dado da Alemanha, a pátria de Lutero. Aqui, o tradicional equilíbrio entre católicos e protestantes sofreu uma fratura. Os protestantes descenderam até chegar a ser só de 28%, os católicos são 42% e os ateus ou agnósticos são já um quarto da população, com 24%.

Também na Itália os ateus e agnósticos aumentaram e são 15%, frente aos 78% dos católicos e o 1% dos protestantes.

No que diz respeito à prática religiosa entre os protestantes europeus, os que vão à igreja uma vez por semana praticamente desapareceram. São 3% na Dinamarca, 7% na Alemanha e, de qualquer modo, em quase todas as partes são menos de 10%. A única exceção é a Holanda, onde entre os poucos protestantes ainda existentes – 18% da população -, 43% vão à igreja semanalmente.

Vice-versa, sempre na Holanda, os católicos estão em queda livre: são 20% da população e apenas 5% vão à igreja uma vez por semana. Números pequenos também na Bélgica, com 8%; no Reino Unido, com 9%; na Áustria, com 11%; na França, com 13%; na Alemanha, com 14%. Acima de 20% são os casos de Itália, Portugal, Espanha e Irlanda.

Curiosamente, no que durante séculos existiu um dos mais fortes fatores de divisão, a saber: a convicção dos protestantes de que a salvação se obtém sola fide, ao passo que para os católicos a fé deve ser acompanhada de obras, o pêndulo se deslocou em favor dos segundos. Praticamente em todas as partes, ou seja, também entre os protestantes, a maioria pensa que ambas, fé e obras, são necessárias. A única exceção são os protestantes noruegueses, entre os quais a sola fide prevalece para 51% frente aos 30%.

No entanto, é necessário ressaltar que a sola fide luterana também encontra um grande número de defensores entre os católicos: na Itália e na Alemanha, um quarto dos católicos a defendem; no Reino Unido, França e Suíça, um terço.

No que diz respeito à comunhão aos protestantes nas missas católicas – e vice-versa, aos católicos nos cultos evangélicos -, a pesquisa realizada por Pew Research Center não indica nada. Mas, bem se sabe que é um comportamento cada vez mais difundido, certamente não podado, ao contrário, estimulado pelo que o Papa Francisco e o cardeal Walter Kasper disseram acerca do assunto.

Sandro Magister- Settimo Cielo.

Na Suécia, a cúpula da Igreja também tem seu dia de eleições gerais. No domingo, 900 mil suecos foram às urnas para escolher os representantes da maior organização religiosa do país, a Igreja da Suécia, instituição protestante de confissão luterana. Foi o maior comparecimento na história das eleições da instituição desde 1950.

sistema eleitoral dessa instituição cristã é único no mundo. A cada quatro anos, os cidadãos filiados à igreja elegem uma espécie de Parlamento da Igreja Sueca(Svenska kyrkan), a que é a maior organização religiosa do país.

Esse Parlamento é composto tanto por representantes do clero como por leigos e tem o poder de decidir não só questões mundanas, como a reforma das paróquias e o valor de doações a países pobres, mas também assuntos de ordem teológica – a exemplo do casamento entre pessoas do mesmo sexo, aprovado pela Igreja Sueca em 2009.

“A Constituição sueca é clara: a Igreja deve ser democrática e aberta”, diz à BBC Brasil a pastora sueca Jenny Sjögren, chefe do Departamento de Teologia e Ecumenismo da Igreja da Suécia.

As eleições, contudo, estão atreladas à política tradicional. Representantes de três dos oito partidos políticos tradicionais do país disputaram o pleito, ao lado de grupos independentes. Os resultados preliminares indicam que o Partido Social-Democrata, nacionalista e anti-imigração, conquistou a maior parcela dos votos e aumentou sua participação na Igreja.

“Pode-se dizer que a Igreja da Suécia tem um sistema eleitoral único no mundo, no sentido de que todas as instâncias do poder decisório da instituição são eleitas de forma direta. Embora as igrejas protestantes de países como a Noruega realizem algum tipo de eleições, em geral os pleitos ocorrem apenas a nível paroquial. Já na Suécia, desde a virada do milênio o próprio Sínodo Geral, que pode ser definido como o Parlamento da Igreja Sueca, é eleito nas urnas”, acrescentou Sjögren, que se tornou padre há 17 anos: desde 1958, a Igreja da Suécia aceita a ordenação feminina.

Regras

Para participar das eleições – seja como eleitor, ou como candidato -, o cidadão deve ser membro da Igreja da Suécia. A idade mínima para votar é de 16 anos, e a partir de 18 anos é possível se candidatar ao pleito.

No total, 5,2 milhões de suecos têm direito a votar no país de cerca de 10 milhões de habitantes.

A eleição de bispos e arcebispos na Suécia também costuma ser realizada com a participação popular: 50 por cento do eleitorado deve ser composto por leigos.

“Em várias partes do mundo protestante, as eleições de bispos e arcebispos se dão através do voto tanto de clérigos como de leigos. Isto se dá por razões históricas, diz Jenny Sjögren.

Em 2013, a Suécia elegeu pela primeira vez uma mulher como ‘arcebispa’ – a até então bispa da cidade de Lund, Antje Jackelén.

Campanha Eleitoral

Na mídia sueca, a cobertura da campanha para as eleições gerais da Igreja segue, ainda que em menor dimensão, o figurino dos pleitos políticos. Nesta reta final da corrida eleitoral, candidatos leigos e religiosos duelam na TV e no rádio, jornais debatem as diferentes propostas, e os “partidos” – chamados de “grupos” – apresentam filmes de campanha publicitária. Nas ruas, cartazes e panfletos reforçam o clima de eleição.

Todo o processo das eleições eclesiásticas é muito semelhante ao processo eleitoral para o Parlamento, assim como as regras democráticas que regem o funcionamento das assembleias eleitas pelos membros da Igreja”, diz à BBC Brasil o membro da Igreja David Axelson Fisk, que participou do comitê organizador das primeiras eleições gerais, na virada do milênio.

“Até o ano 2000, a Igreja da Suécia realizava apenas eleições a nível paroquial, como ocorre em outros países protestantes. Mas quando a separação entre Igreja e Estado entrou em vigor, naquele ano, entendeu-se que a forma mais democrática de gerir a instituição deveria ser através de eleições gerais e diretas para todas as instâncias do poder eclesiástico”, observa Fisk.

As eleições da Igreja da Suécia são organizadas em três níveis, num único dia de votação: a nível local, os membros de cada uma das 2.225 paróquias do país elegem uma Assembléia da Paróquia (Kyrkofullmäktige). A nível regional, os eleitores das 13 dioceses escolhem a Assembléia da Diocese (Stiftsfullmäktige), com 81 representantes. E a nível nacional, é eleito o Sínodo Geral da Igreja da Suécia(Kyrkomötet) – a mais alta instância da instituição, composta por 251 integrantes.

arcebispa sueca é a representante da Igreja para eventos ecumênicos e conferências internacionais, mas a autoridade máxima de poder decisório da instituição é o Sínodo Geral. E pelas regras suecas, os bispos não fazem parte do Sínodo, embora devam estar presentes nas sessões do órgão.

“Os 13 bispos do país podem se pronunciar ou apresentar propostas nas sessões do Sínodo, mas não estão autorizados a votar”, esclarece Ewa Almqvist, do departamento de Comunicação da Igreja da Suécia. Por outro lado, segundo Jenny Sjögren, os bispos detêm influência no poderoso Comitê Doutrinário do Sínodo.

Em sua composição atual, 187 dos 251 assentos do Sínodo Geral são ocupados por representantes leigos. Entre os 64 clérigos da assembleia, estão 61 pastora e três diáconos. Os valores suecos da igualdade de gênero também se refletem na formação da assembleia nacional eleita no último pleito: são 124 mulheres e 127 homens, segundo dados fornecidos à BBC Brasil pela Igreja da Suécia.

Os representantes eleitos não ganham salário: recebem apenas compensação pelas horas que deixam de trabalhar em seus empregos regulares, a fim de exercer suas atividades do Sínodo. E em cumprimento às práticas suecas de transparência, as atividades e finanças da Igreja da Suécia também são disponibilizadas para a fiscalização pública.

Críticas

Um dos principais temas do debate da campanha eleitoral deste ano foi o questionamento sobre a participação política nas eleições da Igreja.
Embora as agremiações que concorrem ao voto não tenham a denominação de “partido”, o fato é que três dos oito partidos políticos tradicionais do país disputam o pleito com suas próprias legendas, ao lado de grupos independentes – o Partido Social-Democrata, o Partido do Centro e o Democratas da Suécia, de extrema-direita.

“Há diferentes pontos de vista, e o tema é complexo”, diz a padre sueca Jenny Sjögren.

“Um eleitor pouco familiarizado com as questões da Igreja, por exemplo, pode sentir-se mais seguro ao votar no candidato de um partido político com o qual ele tem afinidade. Este seria um lado positivo de se ter representantes de partidos políticos tradicionais na disputa. Por outro lado, muitos começam a questionar esse envolvimento político na igreja. Mas cada vez mais, surgem novos grupos independentes que não possuem conexão com partidos. Portanto, este é um processo em evolução”, ela ressalta.

Êxodo

Apesar do caro e complexo aparato democrático para a realização de eleições diretas nos três níveis decisórios da Igreja, o comparecimento às urnas tem sido relativamente baixo. Especialmente nestes novos tempos, em que a Igreja da Suécia enfrenta uma perda considerável de seu rebanho.

Nas últimas eleições gerais da Igreja, em 2013, apenas 700 mil pessoas votaram. O índice de comparecimento às urnas não costuma ultrapassar 15% do eleitorado – em claro contraste com o percentual registrado nas eleições políticas para o Parlamento sueco, que costuma girar em torno de 86%.

O êxodo têm preocupado as autoridades eclesiásticas. Em 2016, mais de 90 mil pessoas deixaram de ser membros da Igreja – praticamente o dobro do índice registrado no ano anterior. Segundo pesquisa conduzida pelo instituto sueco Norstat, o principal argumento dos fiéis que decidiram abandonar a instituição é franco: eles não acreditam em Deus.

A Igreja da Suécia abandonou a Igreja Católica Romana no século 16, quando aderiu à Reforma Protestante.

Na virada do milênio, quando a Suécia se tornou oficialmente um Estado laico, 82% dos suecos eram membros da Igreja da Suécia – mais por tradição, segundo muitos comentam, do que por uma real afirmação de fé. Atualmente, segundo os números oficiais, a instituição possui 6,1 milhões de membros (cerca de 62% da população). Mas cada vez mais, a tradição religiosa perde força neste país de descrentes.

Até meados da década de 90, os filhos de membros da Igreja da Suécia se tornavam automaticamente, ao nascer, também membros da instituição. Na era do Estado laico, a nova geração tende a desfazer esses tênues laços religiosos: hoje, pelos cálculos da agência central de estatísticas da Suécia (Statistiska centralbyrån), somente cinco por cento dos suecos costumam frequentar algum tipo de igreja.

Apenas 29% da população afirma ter alguma crença religiosa. E na hora de casar, um em cada três casais optam por uma cerimônia civil.

Fonte: BBC Brasil.

O próximo 31 de outubro se completarão 500 anos desde que Lutero afixou suas 95 teses na porta da igreja do castelo de Wittenberg. Era o início da Reforma Protestante que mudou o curso da história ocidental: do ponto de vista religioso, social, cultural e político. Seguiram-se décadas de guerras e séculos de divisões dentro do mundo cristão. Hoje, um estudo duplo – um na América e outro na Europa – do Pew Research Center registra que católicos e protestantes veem as suas crenças mais semelhantes do que diferentes. Em um mundo onde as divisões religiosas voltaram a se manifestar com toda a ênfase, é interessante notar que cinco séculos depois do cisma de Martinho Lutero diferenças permanecem, mas a tendência é por uma visão da religião e da vida convergentes.

Nos Estados Unidos, entre os protestantes, 57% considera que os dois credos são semelhantes, contra 41% que os considera diferentes. Entre os católicos, as percentagens são, respectivamente, 65 e 32.

Na Europa, a situação é mais complexa, mas não se desvia da tendência. Entre os protestantes europeus, os alemães caracterizam-se por serem aqueles que menos percebem a diferença: para 78% as duas religiões são semelhantes e apenas 19% as considera claramente diferentes.

Na Holanda, as opiniões dividem-se em 65% contra 28%, na Grã-Bretanha, 58 contra 37 e assim por diante, com uma predominância em todo lugar de quem vê mais pontos de compartilhamento do que de discordância. O mesmo vale para os católicos do Velho Continente, com exceção dos britânicos, onde 45 contra 41 veem mais divisão do que unidade.

Na Holanda, Áustria, Suíça e Alemanha, entre os católicos a percepção de semelhança é bastante evidente.

Na Itália, menos: 47% veem mais proximidades contra 41% que ressalta as divergências.

Ainda mais interessante é observar as opiniões sobre como obter a salvação eterna. De acordo com Lutero, somente por meio da fé. A maioria dos protestantes de hoje (com exceção dos noruegueses) considera que é alcançada através da combinação de fé e boas ações, que é substancialmente a posição tradicional da Igreja Católica.

Mas deve-se notar que na Europa, tanto entre os protestantes como entre os católicos, as pessoas praticantes são uma minoria: apenas 14% dos primeiros e o 8% dos segundos afirmam participar dos serviços religiosos pelo menos uma vez por semana. Cinco séculos depois, podemos dizer que, no Ocidente, as guerras religiosas acabaram.

Fonte: Corriere della Sera.

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“Os Estados Unidos continuam sendo o maior país cristão do mundo e devem manter este posto ao longo das próximas décadas. Mas tende a ser um país cada vez mais secularizado, desencantado (na expressão de Max Weber) e com alto grau de pluralidade religiosa. Mas caminha para ter um percentual de população “descrente” semelhante a outros grandes países, como China, Japão, Suécia, Suíça e Reino Unidos – todos com elevado número de pessoas que se declaram sem religião”, escreve José Eustáquio Diniz Alves, doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE, em artigo publicado por EcoDebate, 12-06-2017.

Não apenas a América Latina e o Brasil estão passando por uma transição religiosa e por um processo de aumento da pluralidade. Os Estados Unidos (EUA), de maneira diferente dos seus vizinhos continentais do Sul, também estão passando por uma reconfiguração no seu panorama religioso.

Os EUA são o terceiro maior país do mundo em tamanho de população (estão atrás apenas da China e da Índia) e são o maior país cristão do mundo. De origem WASP (White, Anglo-Saxon and Protestant), os cristãos norte-americanos se dividem em três grandes ramos: protestantes tradicionais, protestantes pentecostais e católicos.

O gráfico do “The Public Religion Research Institute” (PRRI), (links abaixo) mostra que, em 1974, os protestantes (tradicionais e pentecostais) representavam 63% da população, os católicos 26%, os sem religião (unaffiliated) 7% e as outras religiões 4%.

Quarenta anos depois, em 2014, os protestantes caíram para 46%, os católicos caíram para 21% e os sem religião subiram para 23%. As outras religiões se mantiveram no mesmo patamar.

O mesmo gráfico do PRRI apresenta uma projeção linear para meados do atual século. A novidade seria a posição majoritária do grupo sem religião que ultrapassaria os protestantes em 2050 e seria o grupo majoritário (embora sem maioria absoluta).

Os católicos ficariam abaixo de 20% em 2050 e as outras religiões manteriam a mesma proporção de 4%. Ou seja, os EUA passariam por um forte processo de secularização e podendo chegar a mais de 40% de pessoas sem afiliação religiosa (aproximadamente o mesmo percentual que existe hoje no Uruguai).

Pesquisa do Instituto PEW mostra, com pequenas diferenças e maior desagregação, o quadro religioso nos EUA entre 2007 e 2014. Nota-se que a maior queda ocorreu entre os protestantes tradicionais que passaram de 18,1% para 14,7% entre 2007 e 2014. No mesmo período, a queda dos protestantes pentecostais foi de 26,3% para 25,4% e dos católicos de 23,9% para 20,8%. O maior aumento aconteceu entre os sem religião (unaffiliated) que passou de 16,1% em 2007 para 22,8% em 2014.

As outras religiões também subiram, passando de 4,7% para 5,9%, no mesmo período.

Pesquisa do Instituto Gallup mostra que o percentual de americanos que acreditam em Deus diminuiu de 90% no início do atual século para 79% em 2016. As pessoas que não estão certos da existência de Deus (aproximadamente equivalente a agnósticos) passou de algo em torno de 7% para 10% e os ateus passaram de2% para 11% no mesmo período.

O gráfico abaixo,no link, também do Instituto Gallup, mostra que o pertencimento a alguma igreja, sinagoga ou mesquita nos Estados Unidos tem diminuído desde a época da Segunda Guerra Mundial até 2016, passando de aproximadamente dois terços para pouco mais da metade.

Se o quadro geral é de aumento do percentual de pessoas sem religião e de redução da frequência religiosa, no caso dos jovens esta tendência é mais acirrada. O número de estudantes universitários sem afiliação religiosa triplicou nos últimos 30 anos, de 10% em 1986 para 31% em 2016, de acordo com dados do CIRP Freshman Survey, mostrado em matéria Scientific American (25/05/2017).

No mesmo período, o número de pessoas que frequentavam serviços religiosos caiu de 85% para 69%. O gráfico abaixo mostra como o número de alunos cuja preferência religiosa é “Nenhum” mudou ao longo do tempo. O recuo da religião começa por volta de 1990 e acelera, com uma média de quase 1 ponto percentual por ano. Essas tendências fornecem um retrato da atual geração de jovens adultos e fornecem um quadro da rápida secularização nos EUA.

Outro estudo do “The Public Religion Research Institute” (PRRI), denominado “EXODUS. Why Americans are Leaving Religion, and Why They’re Unlikely to Come Back” (2016) mostra que o crescimento no número de pessoas sem religião cresce em todas as idades, mas principalmente entre os jovens. Este estudo considera que o número de pessoas sem religião é maior do que o comumente mostrado nas pesquisas tradicionais.

Os Estados Unidos continuam sendo o maior país cristão do mundo e devem manter este posto ao longo das próximas décadas. Mas tende a ser um país cada vez mais secularizado, desencantado (na expressão de Max Weber) e com alto grau de pluralidade religiosa. Mas caminha para ter um percentual de população “descrente” semelhante a outros grandes países, como China, Japão, Suécia, Suíça e Reino Unidos – todos com elevado número de pessoas que se declaram sem religião.

Provavelmente, o crescimento da parcela da população sem religião deve ter influência sobre o conjunto da América Latina e do Brasil. O debate sobre “desencantamento”, “reencantamento” “ressacralização e secularização deve ganhar volume, especialmente se consideramos que todo o continente americano está ficando mais diverso e plural.

Referências:

– Robert P. Jones THE CHANGING AMERICAN LANDSCAPE, PRRI, 2015

Pew Research Center’s new Religious Landscape Study, 2015

– GALLUP. Most Americans Still Believe in God Gallup, Social Issues, June 29, 2016

– GALLUP. Five Key Findings on Religion in the US Gallup, December 23, 2016

– Allen Downey. Data from a nationwide survey shows students who list their affiliation as “none” has skyrocketed, May 25, 2017

– Robert P. Jones, Daniel Cox, Betsy Cooper, and Rachel Lienesch, EXODUS. “Why Americans are Leaving Religion, and Why They’re Unlikely to Come Back,The Public Religion Research Institute” (PRRI), September 22, 2016

Reborn

Sexta-feira à noite. Divididos em vestiários de um ginásio em São Paulo, lutadores se recuperam de combates enquanto outros se aquecem, colocam luvas e se preparam para as lutas seguintes.

Do lado de fora das portas, quem domina o centro do octógono montado para a quinta edição do Ultimate Reborn Fight (URF) é o bispo Leandro Miglioli, de 41 anos, da Igreja Apostólica Renascer em Cristo.

Sob as luzes da Arena Renascer — ginásio à beira do rio Tietê arrendado à igreja em 2015 pela Portuguesa —, o bispo Lê, como é conhecido, usa o microfone para um testemunho de fé em que cita a história de Davi e Golias, uma das histórias mais conhecidas da Bíblia.

“Davi partiu para cima de Golias e a vitória mais improvável aconteceu. Davi atirou uma pedra e Golias foi nocauteado imediatamente. Fui nocauteado pela cocaína dos 15 aos 20 anos, quando conheci o que dava a Davi o poder de vitória. (…) O dia em que coloquei meus pés nesta igreja nunca mais usei drogas”, diz o bispo.

“Você não entrou aqui hoje por acaso, apenas para assistir a essas lutas que adoro, mas porque Deus tem um propósito em sua vida. Se tiver a atitude que tive, que Davi teve, Jesus vai entrar em tua vida, e nunca mais esse gigante que te assola irá te vencer.”

Com as mãos ao alto e cabeças curvadas, o público, estimado pela organização em 3 mil pessoas, consente e repete as palavras da oração puxada pelo bispo.

A interrupção dura cerca de dez minutos e evidencia a principal diferença entre o URF e outros eventos profissionais de MMA (Mixed Martial Arts, ou artes marciais mistas).

Nos torneios da Renascer não há mulheres com placas entre os rounds nem álcool na plateia, e a disputa atlética serve de cenário para atrair jovens que não necessariamente dedicariam uma noite de sexta-feira à religião.

“O MMA é um esporte que exige muita dedicação e trabalho. Na igreja ele é praticado com a mesma qualidade: respeitando regras, com ordem e decência. Então não é manifestação de violência”, afirmou à BBC Brasil o apóstolo Estevam Hernandes Filho, de 63 anos, fundador da Renascer, para quem a igreja é “pioneira na realização de eventos esportivos como estratégia de evangelismo”.

A igreja evangélica, diz Hernandes, inicialmente abriu as portas para treinos, de olho em “atrair mais jovens para o esporte”. A grande procura motivou a realização, em 2013, do primeiro grande torneio de MMA profissional da Renascer, que também tem seu time de atletas, o Reborn Team (time renascer, em tradução livre).

Caminho ao octógono

No segundo andar de uma igreja da Renascer em São Mateus, extremo leste de São Paulo, uma sala usada para encontros comunitários faz às vezes de academia. Há espelhos na parede, luvas, troféus e tatames que os próprios alunos montam antes dos treinos gratuitos.

Boa parte dos pupilos passou pelas mãos de Roberto Pedroso, de 38 anos, o pastor Giraia. Praticante de artes marciais desde 1989, Giraia se converteu à Renascer em 2001 e está à frente do Reborn Team desde o começo dos torneios. “Muitas vezes você convida as pessoas a uma igreja e elas não vão, mas a uma noite de lutas elas vão”, diz.

O pastor rebate as críticas à ligação entre MMA e religião – que, segundo ele, vêm sobretudo de outros cristãos. “Já disseram que a igreja era ridícula, ironizando os torneios com a frase de Jesus sobre ‘oferecer a outra face’. Cada um pensa o que quer. Estou salvando vidas e fazendo o que Deus me chamou a fazer.”

Na conversa com a reportagem, o pastor-treinador enfatiza o que vê como receptividade da igreja. “Dizem que a Renascer é a igreja das portas largas. Glória a Deus. Porque é onde mais se abre a porta para gente se converter. Esse é o nosso foco e essência.”

Renato Silva, um dos novos alunos de Jiraya, deixa escapar, durante uma brincadeira, que os treinos o ajudam a enfrentar o vício em drogas.

“Tem um tempinho que estou ‘firmão’, mas estava envolvido com drogas, bebidas. O treinamento ajuda muito, você não têm noção. Você conhece pessoas novas, enquanto na ‘vida louca’ o pessoal com quem você anda não está enxergando. Um ditado diz que um cego não guia outro cego”, afirma ele, que treina na igreja às segundas e quintas-feiras, das 20h às 23h.

“Ontem eu fui, treinei, cheguei em casa moído. Não fiquei na rua”, conta.

Saindo das cordas

O MMA da Renascer não deixa de ser uma estratégia da igreja para se fortalecer após uma série de golpes na última década. Fundada em 1986 e apontada como promessa entre as denominações neopentecostais brasileiras nos anos 1990, a igreja diz ter hoje cerca de 550 igrejas – o que seria menos da metade do que já teria tido.

Em 2007, o casal fundador (Estevam e Sônia Hernandes) foi detido e condenado por contrabando nos EUA após entrar no país com US$ 56 mil não declarados – cumpriram aproximadamente dez meses de prisão em regime fechado e domiciliar. Dois anos depois, o teto da sede da igreja em São Paulo desabou, matando nove pessoas e ferindo mais de cem. Em 2011, a Igreja perdeu seu mais famoso fiel, o jogador de futebol Kaká.

A Renascer nega que haja relação entre os problemas recentes e a aposta nas lutas. “O objetivo do incentivo ao esporte é realmente alcançar vidas, ajudá-las, levar as pessoas a ter uma vida mais saudável e a conhecer Jesus. Não só esta como todas as atividades da igreja Renascer têm apenas este objetivo”, afirmou a assessoria.

Hernandes diz que o próximo passo da igreja no mundo do MMA é criar uma escola na favela de Heliópolis, em São Paulo, e promover um a dois eventos profissionais por ano. “Nosso objetivo é investir mais nestes eventos, não apenas em São Paulo, mas em outras regiões do país.”

Vale-tudo gospel

De volta ao ginásio paulistano, boa parte do público é formada por fieis da Renascer e fãs dos lutadores – alguns usam até camisetas com estampas de atletas. Os ingressos custam de R$ 30 a R$ 50 e tudo é transmitido pela Rede Gospel de Televisão, a rede VHF e UHF da Renascer.

Durante as lutas, é possível ouvir gritos tradicionais do público de MMA – como o “Uh, vai morrer!” -, mas nada que domine a arena. O sermão do bispo Lê promove engajamento: pessoas ficam de pé, erguem as mãos, fecham ou olhos ou repetem parte das frases. Mas há também gente aparentemente indiferente à pregação.

Com exceção da ausência de mulheres em trajes mínimos e de cerveja na arquibancada, o ritual é o mesmo de outros torneios de MMA: apresentador com tom dramático, três juízes, nada de cabeçadas, golpes nos genitais ou na nuca.

No octógono os atletas são todos profissionais, ainda que em início de carreira. Não é preciso treinar na igreja e nem ser ligado à Renascer para participar do evento, que vale registro no Sherdog, o banco de dados que é referência no MMA. O pagamento costuma ser em ingressos para os próprios torneios, de acordo com o nível do atleta.

Quem mais se destacou até hoje nos treinos da Renascer é um alagoano radicado em São Paulo, de 29 anos. José Alexandre, ou Zé Reborn, como é conhecido, foi convidado à equipe depois que um vizinho testemunhou o dia em que ele nocauteou um colega com apenas um soco durante uma brincadeira.

Hoje, cinco anos depois, o peso-mosca ostenta um cartel de 21 vitórias em 31 lutas profissionais.

“Comecei a treinar na igreja, mas ficava naquela: ‘Caramba, treinar um esporte violento na igreja’. Mas quando a pessoa conhece não é nada daquilo que se pensa. Pessoas de fora criticam e acabam se entregando, aceitando, se reconciliando com Deus e tudo mais”, afirma.

A família, também evangélica, resistiu à novidade no começo. A mulher ficava ressabiada e irmãos diziam: “Sai disso, volta para a igreja”, ao que Zé respondia: “Mas eu estou na igreja, mano!”.

Saudado pelo público e pelo narrador como grande atração da noite — ainda que sua luta não fosse a principal —, Zé Reborn demonstrou no octógono a concentração que exibia ao receber, ainda no vestiário, a benção do pastor Giraia.

Disparou um chute de direita que fez o adversário segurar-lhe a perna, mas permaneceu calmo após ser lançado ao chão. Levantou-se e levou a luta ao solo novamente,

invertendo a guarda. Buscou uma finalização até encaixar a guilhotina que encerrou o combate aos 4’27” do primeiro round.

Só então abriu um sorriso e gritou. Escalou as grades do octógono, sob abraços de Giraia. Ao receber o prêmio pela vitória, foi carregado nos ombros e posou para fotos com o pastor e o apóstolo Hernandes.

Apesar da celebração, o lutador ainda não consegue viver de seus socos e chutes. Pai de três crianças, trabalha como auxiliar de limpeza de condomínio por pouco menos de dois salários mínimos e treina à noite, até três vezes por semana.

As bolsas por luta variam de R$ 800 a R$ 2.000, mas ele diz já ter atuado em troca de ingressos e até de graça para melhorar o currículo. “As pessoas falam sobre sair do emprego e me dedicar apenas aos treinos. Viver só de luta é um sonho, claro. Mas como faço se sair do trabalho? Tenhos filhos”, questiona.

Apesar de saber que um eventual patrocínio poderia ajudá-lo a se dedicar ao MMA em tempo integral — aproximando-o do objetivo de lutar com atletas de ponta e até fora do país —, ele não demonstra ansiedade e diz que a parte financeira não é prioridade. “É uma honra lutar pela igreja. Não é sobre dinheiro. É conversão.”

Fonte: BBC Brasil.