Um livro publicado recentemente nos Estados Unidos pretende mostrar uma realidade sobre a Igreja Católica pouco difundida. O título da obra já expõem a tese defendida: “Heroísmo e Gênio: de como os sacerdotes católicos ajudaram a construir – e podem ajudar a reconstruir – a civilização ocidental”.

“Durante este período, os sacerdotes católicos, somando-se a tantos homens de heroísmo e gênio em suas filas e também devido a suas posições de liderança, se converteram nos pioneiros e construtores insubstituíveis da cultura e da ordem sociopolítica cristã. ‘Heroísmo e Gênio’ apresenta alguns destes homens formidáveis”, diz na apresentação do livro.

O Padre William J. Slattery, autor do livro, ressalta o modo como a Igreja Católica construiu uma nova civilização inspirada pela Fé. “A construção e a conservação da civilização ocidental, em meio ao desgaste e terremotos culturais, é uma saga que se estende ao longo de mil e seiscentos anos”, explica na obra.

Segundo o professor da Universidade de Phoenix, Robert Curtis, esta perspectiva é surpreendente e profunda. “Em todos lugares que olhamos na história, desde os momentos de povoar regiões até os descobrimentos científicos, os momentos de conquista, os sacerdotes católicos estão ali: aplicando a razão, buscando as verdades menos conhecidas da criação de Deus e exigindo justiça”.

Após o colapso de Roma, o trabalho dos sacerdotes foi de suma importância para unificação cultural da Europa e a construção da civilização ocidental. Os sacerdotes ofereceram aos governos conceitos de dignidade humana e liberdade, além de desenvolver o conceito de cavalaria e ordens monásticas.

Os sacerdotes também praticaram e impulsionaram as artes, a música e a ciência, “sempre na vanguarda do desenvolvimento humano, sempre buscando revelar a criação de Deus”, comentou Curtis.

Dentre os sacerdotes famosos estão o Beato Fra Angélico, de enorme transcendência nas artes plásticas, o grande compositor Antônio Vivaldi e os cientistas Copérnico e George Lamaitre. São Tomás de Aquino e Santo Alberto Magno foram os sacerdotes que defenderam conceitos como, por exemplo, os direitos de propriedade individual.

O professor Curtis ressalta que “tudo isto é apenas a superfície do que os sacerdotes têm feito pela civilização ocidental. O que os sacerdotes podem fazer por nós hoje é conduzir-nos de volta a este mesmo caminho, recordando-nos que Deus nos fez quem somos e que se insistimos em fazê-lo sozinhos – como humanistas seculares – não teremos uma oportunidade”. (EPC)

Fonte: Gaudium Press

O Pavilhão dos Padres’, do jornalista Guillaume Zeller, fala sobre o campo de Dachau, onde sacerdotes católicos foram exterminados pelos nazistas.

Primeiro a ser inaugurado e um dos últimos a ser fechado, o campo de concentração de Dachau, a 17 quilômetros a noroeste de Munique, na Baviera, foi um dos mais terríveis laboratórios de tortura e morte do nazismo de Adolf Hitler. Em 12 anos de funcionamento, entre 22 de março de 1933 e 29 de abril de 1945, abrigou milhares de prisioneiros políticos da Alemanha e de países ocupados.

Opositores ao regime, combatentes da resistência, religiosos de vários credos, comunistas, homossexuais, deficientes e judeus superlotaram os 30 pavilhões erguidos em uma antiga fábrica de munição, para se tornarem modelo de outros centros de detenção. Heinrich Himmler fez ali um estágio, antes de se tornar o poderoso e cruel executor da política racial nazista. Também passaram por lá outros líderes do projeto de extermínio, como Adolf Eichmann e Rudolf Hoss.

A partir de 1938, começaram a chegar a Dachau os primeiros sacerdotes católicos. Do total de 2.720 enviados para o campo, 1.034 foram assassinados até 1945, no fim da 2.ª Guerra Mundial. Desembarcaram sucessivamente padres vindos da Áustria, de outras cidades da Alemanha, da antiga Checoslováquia, da França e de outros países, principalmente da Polônia. É a história desses prisioneiros que o jornalista Guillaume Zeller conta no livro O Pavilhão dos Padres, publicado em 2015 em Paris e lançado agora no Brasil pela editora Contexto. Zeller é diretor do Canal+, rede de televisão francesa, e autor do livro Oran, 5 Juillet 1962, sobre a guerra na Argélia.

É um relato preciso, com nomes, datas, depoimentos e descrições dos sofrimentos impostos aos prisioneiros. Dois deles, Pierre Metzger e Gérard Pierré, sobreviventes do pavilhão 26, onde se concentravam os sacerdotes, encabeçam a lista de agradecimentos do autor às pessoas que colaboram para a edição de ‘O Pavilhão dos Padres’. Além transcrever depoimentos sobre o horror de Dachau com chocante realismo, Zeller faz uma análise das relações da Igreja Católica com o nazismo, desde antes de Hitler conquistar o controle do partido e da Alemanha, em 5 de março de 1933. Os bispos alemães apoiaram o regime de início, mas mudaram de posição ao avaliar os riscos de sua ideologia.

O Vaticano assinou uma concordata com a Alemanha, quatro meses depois, com a pretensão de evitar um endurecimento do governo nazista. A Igreja recebeu garantias de respeito e liberdade, desde que renunciasse a qualquer atividade política.

Sacerdotes foram presos e torturados por terem protegido judeus. Na Noite dos Cristais, quando os nazistas invadiram residências e depredaram lojas de judeus, padre Bernhard Lichtenberg declarou na igreja Santa Edwiges de Berlim: “Lá fora, a sinagoga está ardendo, mas também é uma casa de Deus.” Detido em outubro de 1941, morreu em 5 de novembro de 1943, durante sua transferência para Dachau. Em 1994, foi reconhecido “Justo entre as Nações” pelo memorial de Yad Vashem, o Museu do Holocausto de Jerusalém.

Na Itália, invadida pelos alemães em julho de 1943, após a derrota do fascismo de Mussolini, 28 padres foram deportados. O frade dominicano Giuseppe Girotti foi mandado para Dachau, onde morreu, por ter protegido judeus, fornecendo-lhes documentos falsos e esconderijos. Também foi considerado “Justo entre as Nações” em Israel e seu decreto de beatificação foi assinado pelo papa Francisco em março de 2013.

A Congregação para as Causas dos Santos estuda vários casos de beatificação e canonização de religiosos do campo de Dachau. Alguns deles poderiam canonizados e juntar-se ao polonês São Maximiliano Kolbe e à alemã Santa Edith Stein, judia convertida, mártires do campo de Aushwitz, na Polônia.

Fonte:  O Estado de S. Paulo

O perfil predominante dos padres brasileiros, segundo dom Pedro, é de um presbitério jovem, diocesano e de brasileiros (já houve uma predominância de padres estrangeiros). Esses dados gerais emergem de uma pesquisa ainda inconclusa que a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) está desenvolvendo desde 2014. Os dados foram apresentados pelo arcebispo de Palmas (TO), dom Pedro Brito Guimarães, na segunda Coletiva de Imprensa da 56ª Assembleia Geral (AG) da CNBB, realizada dia 12/04.

O levantamento teve início em 2014 com a formulação de um questionário de 100 perguntas que foi enviado a 25 mil padres brasileiros. Destes, 1/3, cerca de 7 mil responderam, informou o religioso. “Percebemos, pela pesquisa, que apesar das dificuldades os padres brasileiros estão animados com a sua vocação e missão e não tem medo de assumir seu seguimento e anúncio de Jesus Cristo”, disse. A pesquisa foi um dos subsídios que deu suporte à elaboração do texto sobre o tema central da 56ª AG.

Além deste levantamento, dom Pedro Brito, membro da Comissão de Elaboração do texto sobre o tema central, falou sobre o documento “Diretrizes para a Formação dos Presbíteros da Igreja no Brasil”. O religioso destacou que a formação de um presbítero não se encerra quando é ordenado. “Depois de ordenado, como toda pessoa e todo profissional, inicia a fase da a formação continuada do padre” disse.

Tempos e espaços da formação

A formação continuada seria a última fase de um processo permanente de formação que tem início com o trabalho da Pastoral Vocacional e se estende pela formação inicial – que compreende as demais fases de estudo, incluindo a formação em filosofia e teologia. O arcebispo apresentou aos jornalistas a estrutura e os conteúdos do texto mártir que está em processo de análise e aprovação pelo episcopado brasileiro.

O texto é constituído de três capítulos.

O primeiro, cujo título é “As coordenadas para a formação presbiteral” trata dos desafios do contexto e da realidade, bem como os fundamentos previsto no magistério da Igreja para esta formação. Nele também consta a ideia do processo formativo dos sacerdotes que deve ser único, integral, comunitário e missionário.

O segundo capitulo e mais longo capítulo aborda a “Formação Inicial”. Nesta parte o texto vai falar dos tempos, espaços como casas, seminários, capelas e institutos, onde o processo de formação acontece.

O terceiro capítulo do texto trata da “Formação Continuada”, disse.

O texto, após ser debatido e aprovado pelo plenário da 56ª Assembleia Geral da CNBB, segue para apreciação e aprovação da Congregação do Clero do Vaticano. A previsão de publicação, como documento da CNBB, é no segundo semestre segundo dom Pedro.

Fonte: CNBB

Para os jovens sacerdotes o Papa Francisco recomendou “não se perder na armadilha das circunstâncias do ‘Ah, mas isso é dessa maneira, aquilo de outra, não se pode fazer nada…’ e afundar nas “queixas” e “precipitações da juventude”, mas encontrar “um estilo próprio” pessoal e sacerdotal e não ter vergonha dos próprios “limites”.

Para os sacerdotes adultos, aqueles que vivem a “crise da meia idade” pediu para ir em frente buscando uma “transformação necessária”, indispensável para amadurecer e superar as muitas e “novas tentações” que ocorrem nessa fase da vida, da mesma forma que na juventude.

Para os idosos encorajou-os a ouvir e os animou, por fim, a dialogar com o mundo “sem medo da realidade”, embora diferente do passado, porque sempre esconde “algo de bom que vem do Espírito.” E sobre isso precisa ser adaptada a pastoral, por exemplo, a matrimonial para os casais que vivem juntos.

O Papa Francisco falou a três gerações de sacerdotes durante o tradicional encontro com o clero da Diocese de Roma, em São João de Latrão. Um diálogo sincero, a portas fechadas e aberto a tudo, durante o qual o Pontífice – acompanhado pelo vigário Angelo De Donatis, com quem compartilhou um momento pessoal de oração antes da reunião e depois da liturgia penitencial – respondeu por mais uma hora de improviso, às perguntas que alguns sacerdotes lhe tinham enviado previamente.

O Papa atendeu a confissão, durante 45 minutos, dos sacerdotes de Roma

Chegando às 10h30 na Basílica, o Papa Francisco atendeu a confissão por cerca de 45 minutos de um grupo de sacerdotes romanos durante a liturgia penitencial presidida pelo vigário De Donati, começando com os jovens. Eles são, de fato, aqueles que precisam de maior ajuda e maior proximidade espiritual.

Os jovens sacerdotes devem encontrar um “estilo” próprio

O clero jovem de Roma perguntava ao Papa, em sua carta, como alimentar o fogo das vocações “que nascem bem, mas depois esfriam, se acomodam, se apagam”, especialmente considerando o contexto atual que impede “viver em liberdade a vida sacerdotal”, em cidades onde os padres “não são incisivos” e existe um “estilo de igreja que ainda não foi renovada”.

Para o Papa, essas são “circunstâncias”, bem como “limitações que não nos permitem ir em frente”, porque parece que “na frente delas não há saída”. “É uma armadilha porque não te permite crescer”. Então é preciso “colocá-las de lado” e ir em busca de “um estilo sacerdotal próprio, da própria personalidade, da própria identidade, com um toque pessoal, com motivações que te levem a viver em paz e fervor”.

Face a face com o Senhor, não é um clichê

Também é importante viver momentos pessoais, face a face com o Senhor em oração. “Não é um clichê dizer que não poderíamos viver o ministério com alegria sem momentos de oração pessoal com o Senhor, face a face com Ele, falando, conversando, sobre tudo aquilo que cada um está vivendo”, explicou o Papa.

“Falo com o Senhor ou falo comigo mesmo diante da impossibilidade de tantas circunstâncias que fecham a porta, que me puxam para baixo? ‘Aqui não é possível, aqui está tudo uma bagunça, não é possível ser sacerdotes neste mundo secularizado. E assim começam as queixas’. Não!”, afirmou o Pontífice. Que concentrou sua reflexão sobre os “limites” que cada um tem e aos quais, em suas palavras, não se deve fugir: eles, aliás, “devem estar presentes na tua vocação sacerdotal, no teu próprio estilo”. “Identificar os limites, os gerais, mas também os pessoais. Dialogar com os limites no sentido: o que eu posso fazer com tal limite, como conviver com ele? Também discernir entre os limites…”.

Os pecados têm uma raiz, identifique-a e dialoguem com os seus limites

“A questão pode nos assustar, porque existem muitos limites, tantas circunstâncias que nos puxam para baixo”, mas não devemos “ter medo”. Além disso, o diálogo com os próprios limites é necessário porque “os pecados devem, sim, ser perdoados, o sacramento da Confissão é usado para isso, mas ali não termina tudo. O teu pecado surge de uma raiz, de um pecado capital, de uma atitude … e isso é um limite, é preciso discernir. É um caminho diferente daquele de pedir perdão pelo pecado. “Oh, sim, eu tenho este problema, eu me confessei e acabou ali.” Não, não termina aí! O perdão está ali, mas depois precisas dialogar com essa tendência que te levou a um pecado de orgulho, de vaidade, de inveja, de fofoca. O que me leva a isso? Dialogar com o limite e discernir”.

Encontrar um homem sábio, não é suficiente se confessar

E esse diálogo “para ser eclesial” deve ser feito “diante de uma testemunha, alguém que me ajude a discernir”. “É tão importante o confronto”, explicou Francisco, e brincou: “Não tanto sobre os pecados, os pecados devem ser confessados para pedir perdão, depois com o Senhor continuo em frente. Mas sobre os limites, as tendências, os problemas, as doenças espirituais que eu tenho: estes nunca poderão ser vencidos sem o confronto”.

“Não é suficiente confessar os pecados”, insistiu Bergoglio. “Na confissão existe a humildade do pecador e a misericórdia de Deus que se encontram e se abraçam. Um momento belíssimo, mas não é suficiente. Você é responsável por uma comunidade, você precisa seguir em frente e para isso você precisa de um guia. Não tenha medo”. É preciso, portanto, “buscar um homem sábio”, sugeriu o Papa, alguém que “oriente e ajude a discernir. Se você tem um pecado, procure um misericordioso – se for surdo, melhor ainda – peça perdão e continue”; mas “para entender o que te levou ao pecado, qual é o problema, procure um sábio para dialogar e resolver o teu caminho”.

A solidão não é boa para um padre

Isso também ajuda a superar a solidão que para um sacerdote “não é boa”. “O sacerdote é um homem sozinho e não pode viver sem um companheiro de viagem, um guia espiritual”. Nesse sentido, também é útil “criar pequenos grupos que se acompanham – as fraternidades sacerdotais – que se encontram, falam… é importante”.

Cuidado com a crise da meia-idade, é “o diabo do meio-dia”

O discurso vale para os jovens, é claro, mas também para os adultos. Especialmente para os sacerdotes de 40-50 anos, que – escreveram os próprios sacerdotes na sua pergunta – vivem uma “idade decisiva”, em que “cai-se em perfeccionismos moralistas” e “há a consciência de ser pecadores” ( “Isso é muito bom” observa o Papa). É “o diabo do meio-dia”, exclamou Francisco, “na Argentina é chamado de ‘el cuarentazo’ porque surge aos 40-50 anos … É uma realidade, ouvi dizer que alguns o chamam de ‘agora ou nunca’, tudo precisa ser repensado”.

Dois livros: Grün e Voillaume

Para enfrentar tal crise, o Pontífice sugeriu a leitura da obra do monge austríaco Anselm Grün intitulado “40 anos. Idade de crise ou tempo de graça”, uma espécie de diálogo psicológico-espiritual; depois o livro do padre René Voillaume “A segunda chamada. A coragem da fragilidade” em que é apresentada “uma bela exegese da vocação de Pedro, a última em Tiberíades, a segunda chamada”. “O Senhor nos chamou pela primeira vez, nos chama constantemente, todos os dias, mas em algum momento da vida faz uma segunda chamada forte. É um momento de muitas tentações – observou o Papa – em que é preciso uma necessária transformação. Não é possível continuar sem esse amadurecimento, porque se continuar assim, sem amadurecer, “dar o passo”, nessa crise vai acabar mal. Numa vida dupla talvez … ou deixando tudo”.

Sejam sinceros com Deus, é um momento duro, mas libertador

Mesmo nesse caso é bom dialogar com os próprios limites: ou seja, ser consciente de que “não existem mais aqueles primeiros sentimentos que eu tinha quando jovem para seguir o Senhor, aquele entusiasmo”. Como no casamento, em que a paixão e a emoção vão se enfraquecendo. Como remédio, o Papa indicou “buscar o ‘gosto do pertencimento’. O prazer de pertencer a um grupo, de compartilhar, de caminhar e lutar juntos. Isso se conserva”.

Para encontrar esse gosto é bom ter o apoio de “um homem prudente, um sábio que te acompanhe”: “Se você ainda não o tem, procure-o! É perigoso continuar em frente sozinhos nessa idade. E muitos terminaram mal”. Também ajuda ficar diante do Senhor e “dizer-lhe a verdade: que você está um pouco decepcionado, que o entusiasmo se foi”. É uma “oração de doação. Dar-se ao Senhor, uma maneira de rezar diferente. É um momento duro, mas libertador. O que passou, passou, agora é outra idade, outro momento da vida sacerdotal. É com o meu guia espiritual que eu tenho que continuar em frente”.

O Papa, ele mesmo confessou, experimentou isso em primeira pessoa em 1992, quando o cardeal Quarracino o chamou como seu colaborador mais próximo em Buenos Aires. Naquela época, lembra-se, após o telefonema do Núncio, “ajudou-me muito a oração, ficar diante do tabernáculo”. Nos anos anteriores, “eu era o confessor e diretor espiritual, mas eu vivi [um período] muito escuro e de sofrimento, inclusive na infidelidade de não encontrar o caminho e das compensações mundanas. No final desse período, o Senhor me preparou para aquele telefonema e me colocou em um caminho diferente”. Depois veio o 13 de março de 2013: “Eu nem me apercebi do que tinha acontecido, eu continuava a trabalhar como bispo”, riu Bergoglio.

“O tempo dos filhos”: eles crescem, nós ficamos para trás

Esse tempo, acrescentou ele, é também “o tempo dos filhos”, de “ajudar a paróquia, a Igreja, a crescer”. “O tempo em que eu começo a diminuir. O tempo de fecundidade, aquela verdadeira, não a falsa. O tempo da poda: eles crescem e eu ajudo ficando para trás”. E, justamente por isso, as tentações aumentam e são tentações “ruins, que nunca alguém pensou pudesse ter antes”. “Não sintam vergonha”, incentivou o Papa Francisco, “são tentações, o problema é do tentador não de vocês. Não tenham vergonha, mas desmascare-as imediatamente”.

Os anciãos escutem a dor humana e ofereçam o perdão incondicional

Aos sacerdotes idosos, o Papa explicou que a sua idade é uma época em que se deve “fornecer proximidade para os sofrimentos e misérias humanas, a compaixão de um pai, com uma palavra, um sorriso. Hoje as pessoas precisam ser ouvidas. É o momento de oferecer perdão sem condições”. Uma pastoral que “escute”, é o que lhes compete: “Os jovens precisam, neste mundo virtual, sem substância, que arranca as raízes.”

Discernir os sinais dos tempos, a realidade é superior às ideias

Finalmente o bispo de Roma convidou a “discernir os sinais dos tempos”, porque “às vezes, o olhar é tentado a ver apenas realidades negativas, longe do Evangelho”. “Precisamos olhar para a realidade, mas também a realidade escondida, porque a realidade sempre esconde algo de sublime. Não tenha medo da realidade. Ela é, eu gosto de dizer, é maior que as ideias, é superior às ideias. Não tenha medo da realidade! Sim, existem condutas também morais que não são aquelas às quais estamos acostumados. Vamos pensar na vida conjugal, hoje muitos não se casam, preferem viver juntos. E esta realidade: como eu a encaro, como a acompanho, como posso ajudar e explicar como avançar, como amadurecer? Como posso fazer com que esse casal que se ama “dê o passo” para uma maior maturidade espiritual?”.

Tantas coisas boas

São perguntas a serem consideradas, realidades pastorais “que não podemos esquecer ou pôr de lado”, observou o Papa. “Há desafios, mas também realidades muito boas. Não só desastres”. E especialmente neste tempo, em comparação com o passado, há muitos aspectos positivos: “Uma maior consciência dos direitos humanos e da dignidade, agora ninguém mais pode impor as próprias ideias, as pessoas estão mais informadas, o valor da igualdade, a tolerância e a liberdade de manifestar-se da forma como a pessoa é, a convivência social é mais sincera e espontânea”.

Hoje, existem “novos valores”, não nos assustemos com a realidade

Portanto, não devemos “nos assustar com as dificuldades, com os novos valores (“novos valores” entre aspas), as coisas são assim. E o que eu posso fazer? “Ah, mas isso não é bom, esse outro sim!”. Discernir os sinais e pegar o que pode ser levado adiante e ajudar os outros. É verdade – concluiu o Papa – o mundo é em si pecador e mundaniza muitas coisas, mas é preciso discernir o que é possível pegar, porque vem do Espírito”.

Fora da programação no Pontifício Seminário Romano Maior

No final do encontro foi distribuído o subsídio “Caros irmãos no sacerdócio …”, os textos dos Papas para o clero romano, de Paulo VI até Francisco, para o Ofício das Leituras dos dias da Quaresma.

Por fim, um momento fora da programação: saindo da Basílica de Latrão, o Papa Francisco dirigiu-se ao vizinho Pontifício Seminário Romano Maior, onde em duas ocasiões, nos últimos anos, não tinha sido possível fazer uma visita por várias razões. Lá ele rezou na capela de Nossa Senhora da Confiança e almoçou com cerca de setenta seminaristas.

A reportagem é de Salvador Cernuzio, publicada por Vatican Insider,15-02-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

A Arquidiocese australiana de Brisbane informou que um dos seus sacerdotes foi excomungado automaticamente depois de violar o segredo de confissão.

Assim indicou a Arquidiocese liderada por Dom Mark Coleridge em um comunicado divulgado em 7 de fevereiro.

A notícia do caso já foi divulgada por alguns meios, assinalando que foi o Papa teria excomungado Pe. Ezinwanne Igbo, quando na verdade foi o próprio sacerdote de origem nigeriana que incorreu na excomunhão automática.

O que o Vaticano fez foi confirmar a pena pela ofensa canônica cometida pelo sacerdote que servia na Paróquia Stella Maris, em Queensland, onde está localizada a Arquidiocese de Brisbane.

O caso teve início em 2016, quando a Arquidiocese recebeu várias reclamações sobre o sacerdote. Uma delas se referia a “uma ofensa canônica que resultou em excomunhão automática”.

A Santa Sé autorizou o início de uma investigação arquidiocesana, com a qual “foi confirmada a acusação de maneira unânime”, indica o texto.

Depois de concluir o processo local, refere o comunicado: “O Arcebispo enviou o processo à Santa Sé, que solicitou que se torne pública a excomunhão. Portanto, a Arquidiocese informa agora que Pe. Ezinwanne Igbo foi excomungado”.

O texto explica que, “enquanto a excomunhão estiver em vigor, Pe. Ezinwanne não pode presidir a celebração da Missa ou qualquer outra celebração de culto, nem pode celebrar ou receber os sacramentos e não pode exercer nenhum  ofício do ministério na Igreja”.

“A excomunhão continuará vigente até que Pe. Ezinwanne procure, e lhe concedam, a remissão do Papa, que é o único que pode concedê-la”.

Esta situação, concluiu o comunicado da Arquidiocese, “foi dolorosa para a paróquia” e, por isso, “pedimos para que rezem por todos aqueles que sofrem as consequências do que aconteceu. Que Maria, Stella Maris, guie a paróquia em seu caminho à paz”.

Excomunhão automática

O Código de Direito Canônico estabelece em seu cânone 983 que o sigilo sacramental ou segredo de confissão “é inviolável; pelo que o confessor não pode denunciar o penitente nem por palavras nem por qualquer outro modo nem por causa alguma”.

Do mesmo modo, o cânone 1388 assinala que “o confessor que violar diretamente o sigilo sacramental, incorre em excomunhão latae sententiae(automática), reservada à Sé Apostólica”.

Isso significa que só o Papa pode perdoar a pena de excomunhão neste caso.

A Enciclopédia Católica afirma que a excomunhão, “sendo a pena mais grave que a Igreja pode infligir, naturalmente supõe uma ofensa muito grave”.

O Cardeal Mauro Piacenza, Penitenciário Mor da Santa Sé, explicou em uma ocasião que o objetivo da excomunhão é levar “os culpados ao arrependimento e à conversão”.

“Com a pena de excomunhão, a Igreja não tenta de nenhuma maneira restringir o campo da misericórdia, mas simplesmente se evidencia a gravidade do crime”, assinalou.

ACI

Em busca do tetracampeonato, a seleção portuguesa de futsal de sacerdotes católicos estreou na terça-feira, 6 de fevereiro, na 12ªedição do Campeonato da Europa de Futsal de Padres, que em Brescia, na Itália.

Antes de iniciar a competição, o grupo participou na segunda-feira, 5 de fevereiro, de uma Santa Missa.

Agora, a equipe enfrenta inicialmente em seu grupo a seleção da casa, a Itália, além do Cazaquistão e da Hungria. O campeonato, que vai até esta quinta-feira, conta com 16 times no total.

Em declarações à Agência Ecclesia do episcopado de Portugal, o capitão da seleção portuguesa, Padre Marco Gil, reforçou que a equipe está empenhada para alcançar o quatro título consecutivo e se esforçou na preparação.

O tricampeonato dos padres portugueses foi conquistado em 2017, na Croácia, após vitória de 3 a 0 contra a Bósnia-Herzegoviza.

A seleção portuguesa de futsal de padres católicos tem como treinador Pe. Manuel Fernando, da Paróquia de Alfena, na Diocese do Porto.

Fonte: ACI Digital

Esses dias acompanhei o Padre Gabriel Vila Verde e o Padre Antônio Rebouças, ambos do estado da Bahia, em uma missão de dois dias aqui no Estado de Pernambuco. Confesso que, ao final da “minha parte ” na missão, eu estava completamente exausta, mas a parte deles continuou e eles foram até o fim.

Como alguns de vocês talvez saibam, o Padre Gabriel é conhecido nas redes sociais e eu fique bastante surpresa quando eu tentei poupá-lo do assédio das pessoas por perceber o seu extremo cansaço e ele respondeu: “Minha filha, eu quero atender todos que queiram se confessar”, ou quando eu disse que era melhor não divulgar que ele estaria em determinado lugar e em determinado horário porque iria encher de gente e ele respondeu: “A alegria de um Padre é estar perto das pessoas. Deixe que venham.”

Eu percebi que em muitos momentos ele e o Padre Antônio estavam indo além das suas forças e isso me levou a conversar sobre o assunto com outros Sacerdotes. Para minha surpresa, constatei que ir além das forças é algo que está para o Sacerdócio como escovar os dentes ou pentear o cabelo está para qualquer um de nós, ou seja, eles fazem (em silêncio) todos os dias.

Uma pesquisa de 2008 da ISMA Brasil¹ (organização de pesquisa e tratamento do estresse), apontou que:

A vida sacerdotal é uma das profissões mais estressantes.

Naquele ano, 448 dos 1.600 padres e freiras entrevistados, ou seja 28%, se sentiam “emocionalmente exaustos”. O percentual de clérigos nessa situação era superior ao de policiais (26%), executivos (20%) e motoristas de ônibus (15%) que se declararam exaustos emocionalmente.

Após a missa celebrada na cidade de Santa Cruz do Capibaribe (PE), ocasião na qual já acumulávamos duas noites mal dormidas e, no mínimo, uns 600 km de estrada, sem contar com a viagem de avião que os Padres fizeram, o cansaço já tinha despertado vários sentimentos em mim, como um botão que vai ligando coisas como irritabilidade, impaciência, dificuldade de raciocínio.

Eu tinha ido para o hotel com o Fillipp Cabral que servia conosco naquela ocasião. Tínhamos descansado cerca de uma hora, no ar condicionado, olhando as redes sociais e chupando balas de hortelã, enquanto nós descansávamos, os Padres celebravam a Santa Missa e, após a celebração, mesmo tendo atendido confissões anteriormente, se formava uma nova fila para confissões e esta era imensa. Após os Padres darem conta desta primeira fila, muitas outras pessoas os cercaram na saída da igreja. Cada um daqueles fieis traziam seus problemas, cada um levava um conselho, um afago, um encaminhamento. Eu observava tudo do alto da minha impaciência, mas não pude deixar de pensar em:

Quem ouvirá os problemas daqueles dois sacerdotes que haviam acabado de ouvir os problemas de tanta gente?

Como eles fazem para “descarregar” tanta coisa pesada ouvida consecutivamente? Quantas vezes estamos prontos e afiados para julgar e acusar os sacerdotes diante de qualquer falha? Quantas vezes nos escondemos diante desta máquina maravilhosa que é o computador para condená-los sem nos lembrar de quantas vezes eles nos absolveram de nossas culpas e aliviaram nossas dores com a linda frase “Vá em paz e que o senhor vos acompanhe”?

Em abril de 2012, a Revista Isto É publica uma intrigante matéria intitulada “Padres no Div┲ e traz o dado de que A Fazenda da Esperança, presente no Brasil e em outros dez países, tem nos dependentes de drogas o seu público-alvo, mas cerca de 3% de seus pacientes são religiosos. Mas o que levaria um Sacerdote ao alcoolismo? A falta da fé? Ele ser fraco? Não ter certeza de sua vocação? Nada disso, penso que o justo a dizer é que estes caminhos são trilhados pelo fato de serem humanos e, muitas vezes, pela falta de humanidade nossa (leigos) em relação a eles.

Antes desta missão eu ainda não tinha atentado para o fato de que o Sacerdote não é um “Super Herói” e não devemos esperar que ele fosse. Antes destes dias eu não tinha parado para pensar que o meu sacerdote precisa do meu sorriso, do meu carinho, dos meus dons tanto quanto eu preciso dos dele e que é justo que haja esta troca.

Olhe com carinho para o seu Sacerdote, esteja atento às suas necessidades e não entregue unicamente aos céus a responsabilidade de cuidar daquele que optou por cuidar de você. Lembre-se que a dor que dói em você e em mim, também dói nele.

Cada sacerdote é um presente de Deus!

Escreve: Ana Lígia Lira 

Fontes:

1 – ISMA Brasil (organização de pesquisa e tratamento do estresse) http://www.ismabrasil.com.br/

2 – Revista Isto É – “Padres no Divâ” – Em abril de 2012 – https://istoe.com.br/197721_PADRES+NO+DIVA/

(via Fundação Nossa Senhora de Cimbres)

Além de ser o país mais violento da América Latina, o México é o local onde mais se matam padres. Nos últimos quatro anos, 18 sacerdotes foram assassinados no país – a lista quintuplicou na última década. O aumento de assassinatos coincide com um pico de violência que atinge a todos e que até o momento deixou mais de 21 mil mortos apenas em 2017 até o momento – um dos anos mais violentos dentre os últimos.

Nos últimos quatro anos, foram denunciadas pelo menos 520 ameaças a padres, 17 assassinatos e 25 atentados contra seminaristas, segundo o Centro Católico Multimeios (CCM). O relatório ainda aponta que dois padres estão desaparecidos e dois foram vítimas de sequestros frustrados.

De acordo com Centro, pelo nono ano consecutivo, o México é considerado o país mais perigoso para exercer o sacerdócio. Ainda segundo o CCM, essa onda de violência é marcada pela falta de investimentos na segurança pública.

O texto do órgão ligado à Igreja diz que “os agentes pastorais no México são cada vez mais vulneráveis à crescente onda de agressões, assassinatos e sequestros, posto que as autoridades lhe entregam pouca ou nenhuma proteção contra atentados, sobretudo em zonas de alto risco onde prolifera a insegurança e operam grupos do crime organizado”.

Matéria publicada esta semana no jornal El País, atualiza os dados e relata que no último ano, os religiosos mexicanos receberam 800 ameaças de morte – 50% a mais em relação a 2016. Mas, entre os especialistas que há anos analisam a violência religiosa, chamam a atenção a crueldade e a brutalidade dos crimes.

Segundo Omar Sotelo, fundador do centro, que tem o aval da Igreja e se dedica a estudar o assunto, “os sacerdotes se somam às estatísticas porque são pessoas que incomodam o crime organizado, já que denunciam os políticos, ajudam os imigrantes, socorrem osferidos e conhecem bem as pessoas de seus vilarejos”. Ele diz ainda que “a figura do sacerdote se dessacralizou como o guia e o pastor da comunidade. Com o assassinato de um sacerdote, manda-se uma mensagem clara de que se eu mato um padre posso matar qualquer pessoa”, resume o religioso.

“Antes éramos intocáveis, diz Solalinde”

padre Alejando Solalinde é provavelmente o sacerdote mais ameaçado do México. “Nós, padres, antes éramos intocáveis, mas a violência se tornou mais democrática e se romperam todos os limites”. Um dos sacerdotes que corre risco de vida, o mexicano que ganhou Prêmio Nacional de Direitos Humanos de 2012, afirma que tem repetidamente denunciado as ameaças recebidas aos meios de comunicação, e agora com o livro I narcos mi vogliono morto (Os narcos me querem morto), também publicado na Espanha, com o título “Uma vida em risco”, quer mostrar ao mundo o que acontece com os migrantes, a conivência do crime organizado com o “crime autorizado”.

Na entrevista, ele explica que os padres são incômodos para o governo e os cartéis porque entram no meio negócios e dinheiro. “Os migrantes são mercadoria para eles. Se você defende os direitos humanos, apresenta denúncias e protege as vítimas, atrapalha os negócios. Eu tenho a sorte de ainda estar vivo, mas existem 106 ativistas de direitos humanos vítimas de assassinato, assim como muitos jornalistas, que no México foram assassinados. Estamos em perigo, mas quem tem consciência vai lutar enquanto estiver vivo”, declarou. 

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A nomeação anunciada nesses dias do frei Gabriele Faraghini, romano, 51 anos, como novo reitor do Pontifício Seminário Romano Maior marca uma mudança de direção decidida na diocese confiada há poucos meses ao novo vigário Angelo De Donatis, sucessor do cardeal Agostino Vallini.

Confiar a responsabilidade pela formação dos seminaristas romanos a um seguidor dos Pequenos Irmãos de Jesus Caritas, instituto religioso da família espiritual de Charles de Foucauld, significa pedir que Roma fale uma única língua, a do Evangelho dos pobres e dos últimos. 

De Foucauld, bem-aventurado francês (1858-1916), explorador do Saara e missionário entre os tuaregues, foi apóstolo da fraternidade entre as diversas culturas, aquela mesma fraternidade que hoje Francisco pede que a Igreja assuma como própria. De Donatis, nesse sentido, interpretou bem os auspícios papais com uma primeira nomeação de traços inconfundíveis.

“A notícia sobre o pedido explícito do Papa Francisco de confiar ao frei Gabriele a orientação da formação dos futuros presbíteros no Seminário Romano foi, para a nossa pequena fraternidade, um ‘raio em céu azul’, sem dúvida, uma novidade que literalmente abalou a todos”, dizem os próprios Pequenos Irmãos de Jesus Caritas.

“A nomeação, que ocorreu no fim de junho, foi confirmada pelo Capítulo Geral da nossa congregação e anunciada oficialmente hoje, 31 de julho de 2017.”

O Seminário Maior de Roma desde sempre aspira a ser um farol na formação sacerdotal. Todo o mundo, em certa medida, tende a olhar naturalmente para Roma. E, assim, a chegada de Faraghini soa como um sinal muito claro. De Roma, aliás, partem muitos sacerdotes em missão pelo mundo, enquanto diversos padres saídos do Maior, depois, se tornaram professores universitários, bispos, responsáveis de dicastérios romanos e de escritórios da Conferência Episcopal Italiana.

A formação sacerdotal é um ponto-chave da revolução de Bergoglio, feita de caminhos que se abrem, de estradas para começar a caminhar. A entrada para os Pequenos Irmãos de Jesus Caritas, depois da ordenação no dia 16 de maio de 1992  em Latrão pelo então cardeal vigário Camillo Ruini, marcou o percurso de Faraghini.

Depois, a partida para a Terra Santa, em Nazaré, para o ano de noviciado. Em seguida, ele foi pároco em Limiti di Spello (1998-2005) e em Foligno (2005-2017). No Seminário Maior, ele sucede ao padre siciliano Concetto Occhipinti.

Durante o Capítulo Geral que acaba de concluir, ele apresentou uma conferência sobre ser um pequeno irmão presbítero na paróquia. “O segundo ponto – disse – é a gratuidade da presença. Viver em pura perda, sem compensações, apenas estando aí. O frei Charles de Jesus falava do anúncio do Evangelho com a vida, de evangelização por meio da amizade e da bondade. Imitar Jesus na vida cotidiana de Nazaré é estar em um lugar e compartilhar a vida com quem está lá. Fazer amizade com as pessoas: essa foi a atividade do frei Charles no deserto do Saara.”

La Repubblica

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Um novo artigo da revista TIME indaga-se sobre um fenômeno que está se tornando cada vez mais comum nos Estados Unidos: o aumento do número de seminaristas e sacerdotes “millennialls”.

De acordo com o Centro de Pesquisa Aplicada no Apostolado da Universidade de Georgetown, 1.900 homens menores de 30 anos se matricularam em seminários católicos em 2016, frente aos 1.300 em 2015.

“Os sacerdotes ‘millennialls’ são frutos da Igreja e do século XXI. Usam Facebook e Snapchat e conversam com seus amigos usando GIFs engraçados”, escreveu a jornalista Elizabeth Dias em seu artigo para TIME.

Além disso, indicou que “é mais provável que em público sua roupa clerical do que calças jeans” e “que compartilham mais rápido os detalhes de sua vida de oração do que as suas noites de sexta-feira assistindo Netflix”.

Além disso, acrescentou, falam abertamente com seus supervisores a respeito das suas lutas com relação à castidade.

Segundo a autora, esta mudança acontece em um momento no qual o Papa Francisco “está pedindo um novo tipo de sacerdote para servir nas paróquias de todo o mundo”.

“Seu pontificado tem apenas quatro anos e os sacerdotes ‘millennials’ não são um grupo homogêneo, mas já compartilham uma missão”, assegurou.

Para dar um exemplo, Dias disse que a próxima geração de sacerdotes que atendem ao apelo do Papa “será muito parecida ao Pe. Chris Seith”, (foto acima) vigário paroquial de Nossa Senhora da Misericórdia em Potomac, estado de Maryland.

“Seith, atualmente tem 28 anos, pratica CrossFit, anda de bicicleta nos corredores da escola católica da sua paróquia e cumprimenta todos os estudantes, com um bigode falso e um chapéu de gondoleiro. Também faz bolos nos dias religiosos a fim de incentivar as pessoas a celebrar as festas religiosas como verdadeiras festas”.

Finalmente, indicou que “a missão da misericórdia e a primeira Exortação Apostólica do Papa Francisco, A Alegria do Evangelho, orienta o seu propósito”.

“A alegria é contagiante, a energia é contagiante. Eu só quero ser o rosto dessa alegria”, disse o Pe. Seith.

ACI

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Devemos desconfiar dos sacerdotes “que sabem tudo”, aos quais as crianças poderiam chamar de “padres Google e Wikipedia”, porque fazem muito mal, assim como os padres “empresários”, que não estão abertos às surpresas de Deus. O Papa Francisco disse estas palavras na manhã do dia 27 de maio de 2017 na Catedral de São Lourenço da cidade de Gênova, onde se reuniu com os bispos da Ligúria, com o clero e os religiosos da região, com os colaboradores leigos da cúria e com representantes de outras confissões, na segunda etapa de sua visita à cidade. O Pontífice citou o cardeal Giovanni Canestri: “A Igreja é como um rio; o importante é estar no rio”.

Depois da saudação do arcebispo cardeal Angelo Bagnasco, o Bispo de Roma respondeu a algumas perguntas que lhe foram dirigidas pelos presentes. Mas, antes, ao tomar a palavra, pediu para “rezar juntos por nossos irmãos coptas egípcios que foram assassinados porque não queriam renegar sua fé. Junto com eles, junto com seus bispos, o meu irmão Tawadros, convido vocês para rezar em silêncio e, depois, juntos uma Ave-Maria. E não vamos esquecer que hoje os mártires cristãos são mais numerosos do que nos primeiros tempos da Igreja”.

Santo Padre, pedimos que nos indique os critérios para viver uma intensa vida espiritual em nosso ministério que, na complexidade da vida moderna e das tarefas administrativas, tendem a fazer que vivamos dispersos e fragmentados.

Penso que quanto mais imitarmos o estilo de Jesus, melhor será o nosso trabalho de pastores. Este é o critério fundamental: o estilo de Jesus. Jesus sempre estava a caminho, entre as pessoas, a multidão, diz o Evangelho, que distingue bem entre discípulos, multidão, doutores da Lei. Podemos intuir que Jesus passava a maior parte do tempo na rua: isso quer dizer proximidade com os problemas das pessoas; não se escondia. E depois, à noite, escondia-se para rezar. Isso é útil para nós, que sempre estamos com pressa, olhando para o relógio, porque devemos nos apressar; mas este comportamento não é pastoral. Jesus não fazia isso. Jesus nunca esteve parado, e, como todos os que caminham, está exposto a tensões.

O maior medo que devemos ter é de uma vida estática, do padre que tem tudo bem resolvido, em ordem, estruturado, tudo em seu lugar. Eu tenho medo do padre estático, inclusive quando é estático na oração, de tal hora a tal hora. Mas não tem vontade de passar uma hora com o Senhor? Uma vida tão estruturada não é uma vida cristã. Talvez esse pároco seja um bom empresário, mas é cristão? Pelo menos vive como cristão? Sim, celebra a missa, mas, e o estilo? É cristão ou empresário? Jesus sempre foi um homem da rua, do caminho, aberto às surpresas de Deus; pelo contrário, o sacerdote que tem tudo planejado, tudo estruturado, geralmente está fechado às surpresas de Deus, e  perde essa alegria da surpresa do encontro. O Senhor não o surpreende quando está à Sua espera, mas se está aberto.

Não devemos ter medo desta tensão que vivemos; nós estamos a caminho e o mundo é assim: um educador, um pai, um sacerdote está exposto a esta tensão; um coração que ama sempre viverá exposto a esta tensão.

Se olhamos para Jesus, os Evangelhos nos fazem ver dois momentos fortes, que são o fundamento: o encontro com o Pai e o encontro com as pessoas, todas, inclusive as mais incômodas, como os leprosos.

A oração: você pode rezar como um periquito, mas não é a maneira correta. Em vez disso, encontre o Senhor, cale-se, deixe-se ver, diga alguma coisa ao Senhor… Encontro. Com as pessoas, a mesma coisa. Nós sacerdotes, sabemos o quanto as pessoas que vem pedir conselhos sofrem e nós respondemos apressadamente: “Agora não tenho tempo”. Depressa e não a caminho.

Claro, estar com as pessoas cansa, mas é o Povo de Deus! Pensem em Jesus! Devemos nos deixar cansar pelas pessoas, não defender demais a nossa própria tranquilidade.

O sacerdote não deve falar demais de si mesmo, não deve sentir a necessidade de olhar-se no espelho. O cansaço que serve é o da santidade, e não deve ser auto-referência. Devemos nos perguntar: “Sou homem da rua? De ouvidos que sabem escutar? Deixo-me cansar pelas pessoas?” Assim era Jesus, não há outras fórmulas.

Fará bem a todos nós, sacerdotes, recordar que só Jesus é o Salvador, não há outros. E pensar que Jesus nunca se devotou às estruturas, mas sempre se vinculava às relações. Se um sacerdote vê que está devotado às estruturas, algo não funciona.

Certa vez ouvi um homem de Deus, possível beato, dizer que na Igreja devemos devotar o mínimo de tempo para as estruturas e o máximo de tempo para a vida, e não o contrário.

Sem a relação com Deus e com o próximo nada tem sentido na vida de um presbítero: fará carreira, irá a essa paróquia de que gosta, mas o coração ficará vazio, porque seu coração está devotado às estruturas e não às relações essenciais, com o Pai e com Jesus e com as pessoas.

Nós gostaríamos de viver melhor a fraternidade sacerdotal tão aconselhada por nosso cardeal arcebispo e promovida com encontros diocesanos, de vicariatos, peregrinações, retiros e exercícios espirituais, semanas de comunidade… O senhor pode nos dar alguma indicação?

Quantos anos você tem (“81 já completados”, foi a resposta, ndr.). Somos contemporâneos. Faço-lhe uma confissão: ouvindo-o falar assim, lhe teria dado 20 anos a menos (risos gerais, ndr.).

Fraternidade é uma bela palavra, mas não é cotada na Bolsa de Valores; é uma palavra, viver a fraternidade entre nós é muito difícil, é um trabalho diário na fraternidade presbiteral. Nós temos um perigo, o de ter criado essa imagem de padre que sabe tudo, que não necessita de conselhos. As crianças podem dizer: “Este é um padre Google e Wikipedia!” E isso faz mal à vida presbiteral.

Por que perder tanto tempo em reuniões? E quantas vezes nas reuniões eu estou em órbita e não escuto o meu irmão sacerdote que está falando? Se o bispo dissesse: “Vocês sabem que no ano que vem vai subir o 8X1000” (imposto, na Itália, destinado pelos contribuintes que o desejarem à Igreja católica, ndr.), aí sim passa a chamar a atenção!) (Risos gerais, ndr.) Há perguntas que devemos nos fazer se nas reuniões não escuto o outro que está falando: por que não me interessa? Por que não me interessa o que o meu irmão sacerdote está dizendo?

Devemos nos ouvir mutuamente, rezar juntos, fazer um bom almoço juntos, e fazer festa juntos; os sacerdotes jovens, um jogo de futebol juntos, isso faz bem: ser irmãos. A fraternidade é muito humana. Os “irmãos” são uma riqueza para o outro.

Os presbíteros e os bispos não são o Senhor, nós somos os discípulos do Senhor. Devemos nos ajudar, também discutir, como os discípulos que discutiam sobre quem era o maior dentre eles, mas não fazer fofocas, “dizer por trás”: “ouviu o que este idiota disse?” Não às murmurações e às competições.

Pensei três vezes se podia dizer isso, não sei se devo dizê-lo, mas posso dizê-lo (risos, ndr.). Para fazer uma nomeação de um bispo pede-se informações a sacerdotes, fiéis, consagrados. Às vezes, encontram-se calúnias ou opiniões que, sem serem graves, desvalorizam o sacerdote, e entende-se imediatamente que por trás estão os ciúmes. Quando não há fraternidade sacerdotal existe a traição da fé. Para seguir em frente, para crescer, depena-se o irmão.

Os grandes inimigos contra a fraternidade sacerdotal são a inveja e os ciúmes. Acontece que, às vezes, a ideologia é mais importante que a fraternidade, e até mesmo que a doutrina. Onde chegamos? Pode ajudar saber que ninguém de nós é o todo, todos somos parte de um corpo, a Igreja de Cristo. A pretensão de ter razão sempre leva-o a equivocar-se, mas isso se aprende já no seminário.

Um bom arcebispo daqui, o cardeal Canestri, dizia que “a Igreja é como um rio; o importante é estar no rio”, mas estar do lado direito ou esquerdo do rio é uma variedade lícita; o importante é estar no rio. E muitas vezes nós queremos que o rio fique pequeno e que esteja só do nosso lado, e condenamos os outros. Isso não é fraternidade. Todos dentro do rio!

Isso se aprende no seminário, e eu aconselho aos formadores: se veem um seminarista bom, inteligente, mas que é fofoqueiro, expulsem-no: será uma hipoteca para a fraternidade. Há um dito popular que diz: criam corvos e eles lhes arrancarão os olhos; se cria corvos no seminário, destruirão qualquer fraternidade no presbitério.

E existe também o pároco e o vigário paroquial. Às vezes estão de acordo, às vezes estão em lados diferentes do rio: façam um esforço para se compreenderem e se falarem. O importante é estar no rio e não fazer fofocas; precisamos criar unidade, devemos acolher os dons, os carismas, as luzes de cada um.

Certa vez, alguns monges foram ver o abade Pafnúncio, preocupados com os pecados de um deles e pediram-lhe ajuda: “Sim, vi na margem do rio um homem na lama até os joelhos. Alguns irmãos queriam dar-lhe uma mão, e, pelo contrário, afundaram-no até o pescoço. Há algumas ajudas que, na realidade, tratam de destruir, disfarçadas de ajuda”.

Uma coisa que vai nos ajudar muito quando estivermos diante dos pecados e das coisas ruins de nossos irmãos que tratam de romper a fraternidade é perguntar-se: quantas vezes eu fui perdoado?

O senhor viveu uma longa vida consagrada em diferentes situações e com diferentes cargos de responsabilidade. O que pode nos dizer para viver a nossa consagração com maior intensidade, fiéis ao nosso carisma, ao nosso apostolado e à diocese? (Pergunta da Irmã Rosangela Sala, presidenta da USMI da Ligúria, ndr.)

Irmã Rosangela, conheço-a há anos. É boa, mas tem um defeito: anda a 140 quilômetros por hora (risos, ndr.). A diocese é essa porção do Povo de Deus que tem rosto. Ela fez, faz e fará história. Todos estamos na diocese. Isso nos ajuda a fazer com que a nossa fé não seja teórica. E vocês, consagradas e consagrados, são um presente para a Igreja; cada carisma é um presente para a Igreja universal. Mas sempre é interessante ver como todos os carismas nascem em um lugar concreto que depois cresce e tem um caráter universal, mas na origem sempre tem uma concretude.

É bonito recordar como não há um carisma sem uma experiência fundadora concreta, raízes concretas. Pensemos nos franciscanos: o lugar que nos vem à mente imediatamente é Assis, “Mas somos universais”. Sim, é verdade, mas a origem concreta prevalece. O carisma é para ser encarnado, nasce em um lugar concreto e depois cresce. Mas sempre devemos buscar onde nasceu. Isso nos ensina a amar as pessoas nos lugares concretos. Concretamente. A concretude da Igreja é dada pela “diocesanidade”. Isso não quer dizer matar o carisma, não; ajuda para que o carisma se torne mais real, mais visível, mais próximo. Quando a universalidade de um instituto se esquece que deve se inserir nos lugares concretos, nas dioceses concretas, esta ordem final esquecerá onde nasceu. Universaliza-se, mas não há essa concretude da “diocesanidade”. Institutos religiosos voadores não existem, e se alguém tem essa pretensão, acabará mal.

E pensar na universalidade sem concretude leva à auto-referencialidade. E depois enfatizo a disponibilidade. Disponibilidade para ir para onde há mais riscos, necessidades; é preciso doar o carisma, inserir-se onde há mais necessidades, em todas as periferias. Estas periferias são o reflexo dos lugares em que nasceu o carisma primordial. E quando digo disponibilidade também digo revisão das obras: às vezes são feitas porque não há pessoal; mas também quando não há pessoal é bom perguntar: o nosso carisma é necessário aqui? Devemos estar disponíveis, com prudência de governo, mas sem medo dos riscos.

Fonte: Vatican Insider

Há várias semanas, durante as audições às cegas do programa “The Voice”, na Ucrânia, todos os jurados viraram a cadeira para conhecer quem estava por trás daquela voz angelical. Para surpresa de todos, descobriram um homem de batina!

O padre Alexandre Klimenjo escolheu o time da cantora ucraniana Tina Karol. “A missão de um sacerdote é transmitir alegria a todo o mundo”, comentou Klimenjo, associando o programa de entretenimento com a nova evangelização.

No dia 23 de abril passado, depois de várias semanas de competição, o sacerdote ortodoxo conquistou o grande prêmio do programa. Agora, terá a oportunidade de gravar seu primeiro single e seu primeiro videoclipe.

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No dia 16 de novembro de 2016, o padre Rosalino Santos, de 34 anos, publicou no Facebook uma foto de quando era garoto. O pároco da igreja de São Bartolomeu, em Corumbá (MS), parecia triste. Escreveu frases soltas na legenda, como “Dei o meu melhor” e “Me ilumine, Senhor”.

O que parecia ser um desabafo se tornou um bilhete de despedida. Dois dias depois, o corpo do sacerdote foi encontrado morto dentro de casa. O suicídio do padre Rosalino não foi um caso isolado. Oito dias antes, o padre Ligivaldo dos Santos, da paróquia Senhor da Paz, em Salvador (BA), já tinha colocado ponto final em sua história. Aos 37 anos, atirou-se de um viaduto.

Doze dias depois, outro caso. Pela terceira vez em menos de 15 dias, um sacerdote encerrava a própria vida. Renildo Andrade Maia, de 31 anos, era pároco da igreja de Jesus Operário, em Contagem (MG).

“A vida religiosa não dá superpoderes aos padres. Pelo contrário. Eles são tão falíveis quanto qualquer um de nós”, diz o psicólogo Ênio Pinto, autor do livro Os Padres em Psicoterapia (editora Ideias e Letras). “Em muitos casos, a fé pode não ser forte o suficiente para superar momentos difíceis”, afirma Pinto, que atua há 17 anos no Instituto Terapêutico Acolher, em São Paulo (SP), voltado ao atendimento psicoterápico de padres, freiras e leigos em serviço à Igreja.

Desde a fundação, em 2000, o instituto estima ter atendido cerca de 3,7 mil pacientes, com média de permanência de seis meses a um ano.

Estresse ocupacional

O eventual comportamento suicida de sacerdotes intriga clérigos e terapeutas. Para especialistas consultados pela reportagem, há vários possíveis fatores: excesso de trabalho, falta de lazer, perda da motivação.

“O grau de exigência é muito grande. Espera-se que o padre seja, no mínimo, modelo de virtude e santidade”, afirma o psicólogo William Pereira, autor do livro Sofrimento Psíquico dos Presbíteros (editora Vozes).”Qualquer deslize, por menor que seja, vira alvo de crítica e julgamento. Por medo, culpa ou vergonha, muitos preferem se matar a pedir ajuda”, diz.

Pesquisa de 2008 da Isma Brasil, organização de pesquisa e tratamento do estresse, apontou que a vida sacerdotal é uma das profissões mais estressantes. Naquele ano, 448 entre 1,6 mil padres e freiras entrevistados (28%) se sentiam “emocionalmente exaustos”. O percentual de clérigos nessa situação era superior ao de policiais (26%), executivos (20%) e motoristas de ônibus (15%).

A psicóloga Ana Maria Rossi, que coordenou o estudo, afirma que padres diocesanos, que trabalham em paróquias, estão mais propensos a sofrer de estresse do que monges e frades que vivem reclusos.

“Um dos fatores mais estressantes da vida religiosa é a falta de privacidade. Não interessa se estão tristes, cansados ou doentes, padres têm que estar à disposição dos fieis 24 horas por dia, sete dias por semana.”

Em 8 de janeiro de 2008, o padre José Chitumba ingressou na fazenda Santa Rosa, em Garanhuns (PE), uma das unidades do projeto Fazenda da Esperança, de recuperação de dependentes químicos em mais de 15 países. “Quando caí em depressão virei alcoólatra, pensei em suicídio, perdi o ânimo para rezar. Passei oito meses sem celebrar missa. Achei que aquela noite não teria fim”, recorda Chitumba, de 62 anos, hoje pároco da Igreja de Santo Antônio, em Chiador (MG).

A vida sacerdotal é mais atribulada do que se costuma imaginar. Inclui celebração de batizados e casamentos, visita a doentes, sessões de confissão, aulas em universidades, presença em pastorais.

Dados de 2010 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) ajudam a entender essa demanda: havia no Brasil naquele ano 22 mil padres para 123 milhões de católicos, uma média de um padre para cada 5,6 mil fiéis.

“Sobra trabalho e falta tempo. Se não tomar cuidado, o sacerdote negligencia sua espiritualidade e trabalha no piloto automático”, adverte o padre Adalto Chitolina, um dos diretores do centro Âncora, casa de repouso em Pinhais (PR) que atende padres e freiras com diagnóstico de estresse, ansiedade ou depressão. “Ao longo de 2016, nossa taxa de ocupação foi de 100%. Em alguns meses, tivemos lista de espera”, afirma.

O padre Edson Barbosa, da paróquia Nossa Senhora das Graças, em Andradina (SP), foi um dos religiosos atendidos no centro paranaense. Há dois anos, dormia pouco, comia mal, andava irritado. Mas o alarme soou quando começou a beber além da conta. Em julho de 2015, pediu dispensa de suas atividades paroquiais e passou três meses no centro Âncora, entre consultas médicas, palestras de nutrição e exercícios físicos.

“Não sei o que teria acontecido comigo se não tivesse dado essa parada. Demorei a perceber que não era super-herói”, afirma. Sóbrio há um ano e nove meses, o padre, de 36 anos, trocou o álcool por caminhadas e trajetos diários de bicicleta.

Reitor do seminário São José de Niterói, o padre Douglas Fontes diz estar atento à saúde mental dos colegas. Em pregações, costuma alertar os futuros sacerdotes para a necessidade de cuidarem mais de si mesmos.

Dom Jaime Spengler, arcebispo de Porto Alegre (RS) e presidente da comissão da CNBB que se ocupa da vida dos padres, diz que sacerdotes devem pedir ajuda ao bispo de sua diocese em caso de tensão psicológica ou esgotamento físicos. “Os padres não estão sozinhos. Fazemos parte de uma família. E nesta família cabe ao bispo desempenhar o papel de pai e, como tal, zelar pelas necessidades dos filhos”, afirma.

Outros locais do mundo também registram casos de padres com problemas psicológicos. Uma pesquisa da Universidade de Salamanca, na Espanha, ouviu 881 sacerdotes de três países (México, Costa Rica e Porto Rico) e identificou incidência alta de transtornos relacionados à atividade.

“Três em cada cinco experimentavam graus médios ou avançados de burnout, a síndrome do esgotamento profissional”, registrou a autora da pesquisa, Helena de Mézerville, no livro O Desgaste na Vida Sacerdotal (editora Paulus).

Naturalmente, sacerdotes católicos não são os únicos sob risco.

“A natureza do trabalho é a mesma. Logo, estamos sujeitos aos mesmos riscos”, avalia o rabino Michel Schlesinger, da Congregação Israelita Paulista (CIP). O sheik Ahmad Mazloum, do Centro Islâmico de Foz do Iguaçu (PR), faz coro.

“É preciso satisfazer, de maneira lícita e correta, as necessidades básicas do espírito, mente e corpo. Caso contrário, estaremos sempre em perigoso desequilíbrio”, alerta.

BBC Brasil