Um terço dos americanos adultos acredita em algum tipo de poder superior, mas não em Deus conforme descrito na Bíblia (Foto: Pew Research center)

Uma nova pesquisa da Pew Research descobriu que um terço dos americanos — tanto aqueles que dizem acreditar como aqueles que dizem não acreditar em Deus — crê em um poder superior ou força espiritual.

Este grupo interpreta a transcendência de uma maneira mais flexível. Alguns chamam de Deus, outros não.

A pesquisa ouviu 4.729 entrevistados e foi feita on-line em dezembro. Ela apresenta alguns insights sobre a diversidade das crenças dos Estados Unidos. E como pesquisas anteriores sobre a década passada, sugere o número de americanos que creem em Deus está declinando lentamente.

“Uma das questões-chave que motivou a pesquisa foi obter um estudo mais detalhado sobre aqueles que dizem não acreditar em Deus” disse Gregory Smith, diretor de pesquisa associado da Pew. “As pessoas que simplesmente respondem ‘não’ quando perguntadas se acreditam em Deus, rejeitam também a crença numa força superior?”

Na pesquisa, quem respondeu que não acredita em Deus foi perguntado se acredita em “algum outro poder superior ou força espiritual do universo.”

Para ser exato, a maioria, — 56% — , disse acreditar no convencional benevolente, onisciente, todo-poderoso Deus da Bíblia.

Depois, há os descrentes convictos: cerca de 10% disse não acreditar no Deus da Bíblia ou num poder superior.

Mas entre os chamados “nenhuns” — uma categoria ampla de ateus, agnósticos e aqueles que respondem “nenhuma das respostas acima” em perguntas sobre religião — um total de 72% acredita num poder superior de algum tipo.

Duas pesquisas anteriores do Pew descobriram que a crença em Deus está caindo. Um estudo de 2007 indicou que a crença e Deus chegava a 92%; até 2014, o percentual caiu para 89%. Esta pesquisa mais recente, embora metodologicamente diferente — foi uma enquete on-line em oposição a uma pesquisa por telefone — aponta 80%.

A crença em Deus conforme descrito na Bíblia é mais alta entre os cristãos — 80% segundo a pesquisa. Os evangélicos e protestantes negros tinham as maiores taxas de crença em um Deus da Bíblia — 91 e 92% respectivamente. Por outro lado, apenas um terço dos judeus diz acreditar. (A pesquisa não incluiu suficiente entrevistados muçulmanos ou pessoas de outras religiões).

A pesquisa também mostrou que:

– A crença no Deus da Bíblia muda com a idade.

– Aqueles como menos de 50 anos veem Deus menos potente e menos envolvido nos assuntos terrenos do que os americanos mais velhos.

– Entre os graduados, apenas 45% acredita no Deus da Bíblia.

A visão de Deus também tende a diferir por raça e partido político. 70% dos Republicanos acredita no Deus bíblico, e dos Democratas, 45%. Mas entre os Democratas, existem grandes diferenças nas exibições de Deus quando se trata de uma corrida; 70% dos Democratas não-brancos acreditam no Deus da Bíblia — número comparável ao dos Republicanos.

A crença num poder superior foi encontrada em todos os segmentos da população que não possui uma religião. Em geral, 70% dos ‘nenhuns’ disse que acredita em alguma força espiritual. Entre agnósticos, 62%.

Mesmo entre os ateus, uma em cada cinco (ou 18%) disse acreditar num poder superior.

Saber por que tantos agnósticos, e até mesmo ateus, acreditam em um poder superior é uma questão digna de debate.

Ryan Cragun, um sociólogo da Universidade de Tampa que estuda os sem-religião, disse que algumas pessoas podem dizer que eles acreditam em um poder superior para evitar o estigma social.

“Em que medida estão dizendo isso para evitar algum prejuízo é um questionamento interessante,” disse Cragun. Ele apontou para estudos que sugerem que homens brancos heterossexuais são os mais prováveis de se dizerem ateus porque eles têm um certo privilégio social que os outros não possuem e, portanto, têm menos a perder ao fazer tal declaração.

Outros dizem que a categoria de crença com suas opções binárias — sim ou não — não dá conta da diversidade da experiência humana. A Transcendência, por exemplo, pode ser uma experiência sobrenatural, mas também natural, disse Elizabeth Drescher, professora de estudos religiosos na Universidade de Santa Clara e autora de “Choosing Our Religion: The Spiritual Lives of America’s Nones.”

Algumas pessoas podem ter fé na força que anima a vida ou no espírito humano, disse ela.

“Há muitas pessoas que experimentam coisas em suas vidas que são misteriosas ou inexplicáveis, mesmo sem acreditarem em nada, mas que, no entanto, entendem que não sabemos tudo,” disse Drescher. “A realidade da experiência das pessoas é muito mais complexa e matizada.”

A margem de erro da pesquisa é de 2,3 pontos percentuais para mais ou para menos.

Fonte: Religion News Service, via IHU

Números mostram que uma maioria de jovens adultos em 12 países não tem religião, com os tchecos sendo os menos religiosos.

A marcha da Europa em direção a uma sociedade pós-cristã está nitidamente ilustrada numa pesquisa que mostrou que uma maioria de jovens em uma dezena de países não segue religião alguma.

Um estudo com os jovens de 16 a 29 anos descobriu que a República Tcheca é o país menos religioso na Europa, com 91% deste grupo etário dizendo não ter nenhuma filiação religiosa. Entre 70 e 80% dos jovens adultos na Estônia, Suécia e nos Países Baixos também se classificam como não religiosos.

O país mais religioso é a Polônia, onde 17% dos jovens adultos se definem como não religiosos, seguido pela Lituânia com 25%.

70% dos jovens do Reino Unido se identificam como sem religião. O gráfico mostra como os jovens de 16 a 29 anos se identificam em termos religiosos.

No Reino Unido, apenas 7% dos jovens adultos se identificam como anglicanos, número abaixo dos 10% que se categorizam como católicos. Os jovens muçulmanos, 6%, estão próximos de ultrapassar os que se consideram parte da Igreja estabelecida do país.

Estes números estão publicanos no relatório intitulado “Europe’s Young Adults and Religion” [Os jovens adultos da Europa e a religião], de Stephen Bullivant, professor de teologia e sociologia da religião na St Mary’s University, em Londres. Os números se baseiam em dados tirados da Pesquisa Social Europeia 2014-2016.

Segundo se lê no texto do relatório, a religião está “moribunda”. Com algumas “notáveis exceções, os jovens adultos estão cada vez mais deixando de se identificar como religiosos e de praticar a sua religião”.

A tendência é a de estes números ficarem mais acentuados no futuro. “O cristianismo como padrão, como norma, se foi, e é provável que se foi de modo permanente – ou pelo menos para os próximos 100 anos”, escreveu Bullivant.

Mas houve também variações significativas. “Os países que são próximos uns dos outros, com fundos culturais e histórias parecidos, têm perfis religiosos amplamente diferentes”.

59% dos jovens no Reino Unido nunca frequentaram cerimônias religiosas. O gráfico mostra a frequência a templos religiosos, fora de ocasiões especiais, entre os jovens de 16 e 29 anos.

Os dois países mais religiosos (a Polônia e a Lituânia) e os dois menos religiosos (a República Tcheca e a Estônia) são Estados pós-comunistas.

A tendência da filiação religiosa se repetiu quando se perguntou aos jovens sobre a prática religiosa. Somente na Polônia, em Portugal e na Irlanda mais de 10% dos jovens disseram frequentar cerimônias religiosas pelo menos uma vez por semana.

Na República Tcheca, 70% dizem que nunca foram à igreja ou a algum outro local de adoração, e 80% diz que nunca rezam. No Reino Unido, na França, Bélgica, Espanha e Países Baixos, entre 56 e 60% disseram nunca ir à igreja, e entre 63 e 66% falaram que nunca rezam.

Entre os que se identificam como católicos, houve uma grande variação nos níveis de comprometimento. Mais de 80% dos jovens poloneses dizem que são católicos, com cerca da metade indo à missa pelo menos uma vez por semana. Na Lituânia, onde 70% dos jovens adultos dizem ser católicos, somente 5% afirmam ir à missa semanalmente.

Quase dois terços dos jovens do Reino Unido nunca rezam. O gráfico mostra a frequência de oração, fora das cerimônias religiosas, entre os jovens de 16 e 29 anos.

Segundo Bullivant, muitos jovens europeus “serão batizados e, depois, nunca entrarão numa igreja novamente. As identidades religiosas culturais simplesmente não estão sendo passadas adiante de pais para filhos”.

Os números concernentes ao Reino Unido explicam-se parcialmente pelo alto índice de imigração, acrescentou o autor o relatório. “Um em cada 5 católicos no Reino Unidonão nasceu aqui”.

“E sabemos que o índice de natalidade dos muçulmanos é mais alto do que a população geral, e eles possuem índices de retenção [religiosa] muito mais elevados”.

Na Irlanda, houve um declínio significativo na religiosidade ao longo dos últimos 30 anos, mas comparado a qualquer outro lugar da Europa ocidental, ele ainda parece bastante religioso”, explicou Bullivant.

“O novo cenário padrão é ‘sem religião’, e os poucos que são religiosos se veem como nadando contra a maré”, completou.

“Em 20 ou 30 anos, as igrejas tradicionais/predominantes estarão menores, mas as poucas que restarem serão altamente comprometidas”.

Harriet Sherwood – The Guardian, 21-03-2018

Vi na televisão um programa sobre a Chapada dos Veadeiros. Surpreso, fiquei sabendo de quantas pessoas vivem ali à espera de um contato com extraterrestres. Um desses devotos dos ETs vive numa verdadeira disciplina ascética, preparando-se para o encontro com os seres de outros planetas; é vegetariano, vive na pobreza e fez voto de castidade; chega mesmo a rezar para eles…

Como é louca a humanidade! Como é desorientada a nossa civilização ocidental! Primeiro, a partir do século XVIII, declaramos que o homem se tornara adulto e emancipado. Era necessário matar toda verdade religiosa e tudo quanto não coubesse na cachola miúda da razão humana. Assim, negou-se toda religião sobrenatural, toda revelação de Deus a Israel e inventou-se, no Ocidente, um deus distante, teórico, Arquiteto do Universo, distante, frio e inútil… Depois, nosso Ocidente negou Deus de vez: era preciso matar Deus – dizia-se – para que o homem vivesse de verdade. Assim, esta nossa civilização ocidental, colocou o homem no trono que pertence somente a Deus.

Esta razão endeusada e este homem no centro de tudo (na escola no ensinaram o absurdo que foi um ótimo negócio passar do teocentrismo medieval para o antropocentrismo do renascimento, como se o homem fosse Deus e Deus fosse apenas um detalhe…) levaram o Ocidente a duas guerras crudelíssimas, com mais 70 milhões de mortos… Depois das guerras (do nazismo em nome da razão, do fascismo em nome da racionalidade, do marxismo em nome da ciência e da história), veio a ressaca: não se crê mais em nada: nem no Deus revelado, nem na razão, nem nas instituições, nem nos grandes projetos…

Agora, não é mais o homem no centro; é somente o indivíduo, sozinho, fechado, egoísta, com uma ilusãozinha, uma moralzinha, um projetozinho, um deusinho segundo a sua imagem e semelhança medíocre e escrava de mil paixões…

No vazio de Deus, na negação do cristianismo, o Ocidente encontra-se perdido – alegremente perdido, bebadamente iludido e inconsciente de sua perdição! Procura-se desesperadamente encher o vazio existencial e encontrar um sentido para a vida no consumismo, no poder a qualquer custo, nas drogas, no endeusamento da natureza, no turismo desenfreado, nas seitas, na promiscuidade, na busca frenética pelo prazer e a autoafirmação… É assim: tire Deus, apague o Cristo da consciência do nosso Ocidente e fica somente o vazio, um homem infantilizado, presa das velhas práticas pré-cristãs…

Era para ser claro, palpável: sem Deus, o homem definha, o homem torna-se menos homem. Fomos, todos nós, feitos para o Infinito, para o Absolutamente Outro, o Eterno, e somente nessa abertura encontramos o Sentido, a Direção, o Eixo da nossa existência. O homem não é fruto da natureza; o homem é fruto do Autor na natureza, que nela impregna um desígnio, um sonho de amor: o homem é imagem de Deus, criado para Deus, com um coração que não se contenta com menos que Deus! Tire Deus e endeuse o que não é Deus; elimine o Deus verdadeiro e torne-se escravo de mil ídolos mentirosos!

O cristianismo, na Antiguidade, vencendo o paganismo, deu ao Ocidente a firmeza conceitual e a clareza de visão da vida e do mundo que permitiram o surgimento de uma civilização que tornou-se planetária. Esse Ocidente volta as costas para o Cristo e torna-se presa de todos os infantilismos e escravidões dos quais o cristianismo o havia libertado: desprezo pela vida humana, adoração infantilóide na natureza, falta de sentido para a existência, angústia, medo do sofrimento e da morte…

Que você, meu Amigo, tenha certeza: ainda haveremos de ver muita coisa! A tolice tem ares de sabedoria; a superstição tem pose de religião; a loucura tem fama de profunda lucidez…

Pobre homem, pobre Ocidente! Quanto precisamos de Deus; quantos temos necessidade daquele que é o Caminho, a Verdade e a Vida!

Dom Henrique Soares da Costa

Bispo de Palmares, PE

Via Aleteia

Ex-médico, Michel Aupetit sucedeu, em 6 de janeiro, a André Vingt-Trois como arcebispo de Paris. “Não temos o direito de falar de Deus; se o fizermos, ficamos envergonhados”, diz ele em entrevista concedida ao Le Monde. Aos 66 anos, aquele que “não gosta da exposição” será agora uma das vozes mais ouvidas desta instituição. Este ex-médico, que entrou no seminário aos 39 anos e tornou-se bispo de Nanterre em 2014, é o sucessor de dom André Vingt-Trois.

Como estudante, ele odiava ter que ir ao quadro negro e preferia rir de seus colegas de longe. Nomeado arcebispo de Paris pelo Papa Francisco em 7 de dezembro de 2017 e tendo tomado posse em 6 de janeiro, o bispo Michel Aupetit o centro das atenções de muitos católicos. Se, em teoria, o bispo de Paris é um bispo entre os outros, na prática ele ocupa um lugar proeminente na Igreja católica.

Você trabalhou durante 11 anos como clínico geral antes de entrar no seminário. Como essa vida de leigo influencia sua maneira de ser padre?

Como leigo, eu era aquilo que se chamava na Igreja de “consumidor”. Eu chegava em casa às 22h e estava muito pouco enfronhado na vida da Igreja. Este é o meu pecado! Quanto ao resto, a medicina me ensinou a gostar das pessoas, independentemente de quem sejam. Quando se é médico, você cuida de pessoas agradáveis e não agradáveis, todos os tipos de pessoas.

Isso faz com que você esteja aberto para acolher a todos e a Igreja está aberta a todos. Não pedimos os papéis ou o certificado de batismo àqueles que chegam. No inverno, os sem-teto vêm se aquecer e não os importunamos. Outros vêm simplesmente para ter um tempo de repouso e silêncio. Não há muitos lugares como esse, onde você pode ficar, gratuitamente, de forma pacífica. E a medicina já me ensinou isso: acolher incondicionalmente as pessoas que batem à sua porta.

Você cresceu em uma família onde a prática religiosa não era a regra. Isso lhe dá uma visão particular da transmissão da fé?

Isso é bastante surpreendente, porque nunca me incomodou. Minha mãe era uma mulher de fé, ela ia à missa com bastante frequência, não necessariamente comigo. Mas eu sei que ela tinha uma fé profunda e eu via a influência que isso poderia ter em sua vida. Ao passo que, no lado “masculino”, éramos bastante descrentes. Meus amigos também não eram praticantes. Então, eu vivi durante muito tempo a minha fé de maneira isolada.

Eu penso que a transmissão se faz pela oração. Porque na oração, aprendemos a falar com Deus. Estabelecemos uma relação. Ao passo que em uma relação de catecismo, aprende-se a falar “de” Deus; é intelectual. A única coisa que minha mãe me ensinou foi o Pai-Nosso e a Ave-Maria. A partir dessas duas orações, aprendi a falar com Deus. Mas em segredo: ninguém sabia nada sobre isso.

Quando eu deixei o meu consultório de médico, eu disse o porquê aos meus pacientes. Muitos me disseram que rezavam há 30 anos pela manhã e pela noite, sem mesmo que sua esposa soubesse! Eu me dei conta de que muitas pessoas tinham uma vida espiritual, mas que não a exibiam. Há espontaneamente no ser humano essa propensão a entrar em relação com uma transcendência. (…)

Parte dos católicos teme a chegada de migrantes em números muito altos. Os bispos devem falar com mais clareza?

Há um medo da insegurança cultural. Quando eu era médico em Colombes [Hauts-de-Seine], inicialmente, nas cidades, as pessoas viviam muito bem juntas. Não se olhava para quem era muçulmano ou cristão. Prestavam-se serviços entre as pessoas. Hoje, isso virou guetos. As prefeituras tentam promover a diversidade social, mas ainda estamos muito comprometidos com o comunitarismo.

Certo dia, um imã me disse: “Já não temos mais o controle sobre os nossos jovens, não somos mais aqueles que os formam na religião. Eles vão se formar em outros lugares”… (…)

Os católicos são agora uma minoria religiosa na França?

Muitas pessoas se dizem católicas mesmo se não frequentam mais a Igreja. O que é ser católico? Qualquer pessoa que é praticante? Ou quem se reconhece nesta religião, porque nasceu nesta cultura, faz seus os valores evangélicos, enquanto sua relação com Deus ou a Igreja é mais do que tênue? O que isso quer dizer? Não sei, deixo isso para Deus. Se contarmos apenas aqueles que são praticantes, os católicos são, sem dúvida, uma minoria. Muitos estão envolvidos em questões de solidariedade, não necessariamente com o rótulo de “católico”, mas fazem isso em nome da sua fé.

A “guerra de laicidades” traduz, na sua opinião, uma rejeição da religião em geral ou uma desconfiança em relação ao Islã?

Meus dois avós eram anticlericais até a ponta das unhas, por isso eu conheço o sistema um pouco. Hoje, são defendidas duas formas de secularismo. A de Jean-Louis Bianco[presidente do Observatório da Laicidade] e de Emmanuel Macron, que deve permitir que todos possam praticar a sua religião. A outra é a de uma religião relegada à esfera privada, que não deve aparecer em qualquer lugar.

A sociedade francesa está dividida. A questão do Islã provoca medo por causa dos ataques e de determinados discursos que afirmam que a França se tornará uma terra do Islã – voltamos a encontrar a questão da insegurança cultural. Mas nós já vivemos, no passado, outras inseguranças culturais! Santa Genoveva, padroeira da cidade de Paris, viveu na época de Átila e Childéric, rei dos francos. Os alemães e os francos que chegaram não eram da cultura galo-romana nem da cultura cristã. Era uma transição colossal. Na época, a Igreja privilegiou a cultura cristã, mesmo que isso significasse sacrificar a cultura romana. Esse período, muito pior do que o nosso, também contribuiu para o que somos atualmente… (…)

O governo quer expandir o ensino religioso nas escolas. Que papel ele pode ter?

O papel do Estado é controlar o que podemos fazer, especialmente se diz respeito à religião. Há o fato religioso visto sob a perspectiva histórica. Muitas vezes, é por aí que vamos. Mas acho que devemos ir mais longe, para o espaço teológico. No RER, os muçulmanos me fazem perguntas como sacerdote. No final, eles me dizem: “Obrigado por ter falado de Deus”. Os muçulmanos que colocam seus filhos em uma escola católica fazem-no porque ali se pode “falar de Deus”… (…)

Fonte: Le Monde

“Star Wars: Os Últimos Jedi” estreou mundialmente esta semana, gerando um interesse renovado pela franquia mais bem-sucedida do cinema. Embora para a maioria dos espectadores, o oitavo capítulo da saga intergaláctica seja garantia de entretenimento, para alguns fãs radicais, é quase uma “revelação”.

Já existem seguidores do jediismo, um grupo religioso que prega a influência da “força” na vida fora das telas. O que era apenas devoção pela série de filmes se manifesta como fé religiosa.

O documentário “American Jedi”, dirigido pelo cineasta Laurent Malaquais, aborda o quanto esse movimento filosófico/religioso vem crescendo. A Igreja Jedi, ou Jediismo afirma possuir 500 mil membros em todo o mundo. Curiosamente, no último censo do Reino Unido, foi a sétima maior religião mencionada.

Em 2001, nove mil moradores do Canadá afirmaram seguir a “Ordem de Jedi” como religião. No mesmo ano, 53 mil moradores da Nova Zelândia se identificaram assim. A República Tcheca contabiliza mais de 15 mil adeptos. Há inclusive brasileiros que dizem ser parte do movimento.

O fundador desse movimento religioso no Reino Unido, Daniel Jones deu uma entrevista recentemente, onde questionou a fé dos cristãos em Jesus. Ele afirma como o Jediismo está buscando o reconhecimento do governo como religião. Segundo ele, o site do movimento tem recebido, em média, 30.000 visitas em seu site todos os dias desde que o novo filme foi lançado.

Curiosamente, tanto nos filmes “Rogue One” (2016) quando em “Os Últimos Jedi” (2017), os jedis são tratados claramente como um movimento religioso, com direito a templos, Escrituras Sagradas e sacerdotes. Sem esquecer, claro, da onipresente “força” que mantém o equilíbrio no universo.

O documentário de Malaquais mostra como algumas pessoas que eram fãs dos filmes de Star Wars passaram a se designar seguidores de Jedi, representantes do “lado da luz” e apresentando-se como os guardiões da paz e da justiça na galáxia.

Eles possuem inclusive o que chamam de “Código Jedi”, que funciona como um credo, onde estabelecem suas crenças.

“Jedi americano”, mostra como um jovem chamado Opie Macleod se dedica a essa busca pela “força”.  Ele ajuda a treinar novos seguidores, como o ex-soldado da marinha Perris Cartwright.

“O Jediismo não é como uma varinha mágica. Trata-se de um processo de aprendizagem”, diz Cartwright. Para pessoas como Macleod e Cartwright, o Jediismo é um estilo de vida. Após acompanhar as reuniões dos jediistas por meses, o documentarista conclui: “Eu acredito que o Jediismo é uma religião. Afinal, é inspirado por práticas religiosas antigas e definitivamente oferece uma opção de religião para quem busca um sentido de vida”. 

 The Mirror Huff Post

“Algumas sociedades secularizadas perderam o sentido cristão do domingo iluminado pela Eucaristia. Isto é uma lástima”.

Papa Francisco respondeu à pergunta “por que ir à missa aos domingos?”, durante a Audiência geral deste dia 13 de dezembro de 2017, durante a qual recordou que, no princípio, “foi o sentido cristão do viver como filhos e não como escravos, animado pela Eucaristia, o que fazia do domingo (quase universalmente) o dia de repouso”. 

“Retomando o caminho da catequese sobre a Missa”, disse o Papa, “hoje, perguntamo-nos: Por que ir à Missa no domingo?”. A celebração dominical da Eucaristia “está no centro da vida da Igreja”, disse Jorge Mario Bergoglio, recordando que os discípulos de Jesus “celebraram o encontro eucarístico com o Senhor no dia da semana em que os judeus chamavam “o primeiro da semana” e os romanos “dia do sol”, porque nesse dia Jesus havia ressuscitado dos mortos e havia aparecido aos discípulos, falando com eles, comendo com eles, doando a eles o Espírito Santo.

É a missa, insistiu o Papa, “que faz o domingo cristão! O domingo cristão gira ao redor da Missa”, mas “algumas sociedades secularizadas perderam o sentido cristão do domingo iluminado pela Eucaristia. Isto é uma lástima. Neste contexto, é necessário reavivar esta consciência, para recuperar o significado da festa – não perder o sentido da festa -, o significado da alegria, da comunidade paroquial, da solidariedade, do descanso que repõe a alma e o corpo. De todos estes valores, a Eucaristia é nossa mestra, domingo após domingo. Por isso, o Concílio Vaticano II quis reafirmar que “o domingo é a festa primordial, que deve se apresentar e inculcar à piedade dos fiéis, de modo que seja também dia de alegria e de libertação do trabalho”.

“A abstenção dominical do trabalho não existia nos primeiros séculos: é uma contribuição específica do cristianismo. Por tradição bíblica, os judeus descansam o sábado, ao passo que na sociedade romana não estava previsto um dia semanal de abstenção dos trabalhos servis. Foi o sentido cristão do viver como filhos e não como escravos, animado pela Eucaristia”, destacou o Papa, que é o que “faz do domingo (quase universalmente) o dia de descanso. Sem Cristo somos condenados a ser dominados pelo cansaço do cotidiano, com suas preocupações, e pelo temor do amanhã. O encontro dominical com o Senhor nos fortalece para viver o hoje com confiança e coragem e seguir adiante com esperança. Por isso, nós, cristãos, vamos ao encontro do Senhor no domingo, na celebração eucarística”, que também antecipa o domingo sem ocaso, quando não existirá mais fadiga, nem dor, nem luto e nem lágrimas, mas apenas alegria de viver plenamente e para sempre com o Senhor. Também deste abençoado descanso nos fala a Missa do domingo, ensinando-nos, no correr da semana, a nos entregarmos nas mãos do Pai que está nos céus”.

O Papa também apontou que há comunidades cristãs que, “infelizmente, não podem ter a missa todos os domingos. No entanto, também elas, neste dia santo, são convidadas a se recolher em oração em nome do Senhor, escutando a Palavra de Deus e mantendo vivo o desejo da Eucaristia”.

“O que podemos responder a quem diz que não adianta ir à Missa, nem sequer no domingo – questionou-se o Papa -, porque o importante é viver bem, amar ao próximo? É verdade que a qualidade da vida cristã se mede pela capacidade de amar, como disse Jesus: “Nisto todos reconhecerão que vocês são meus discípulos: no amor que tenham uns aos outros”; mas, como podemos praticar o Evangelho sem tomar a energia necessária para isto, um domingo após outro, da fonte inesgotável da Eucaristia? Não vamos à Missa para dar algo a Deus, mas para receber dele o que, de verdade, temos necessidade”. 

Vatican Insider.

Na Suécia, a cúpula da Igreja também tem seu dia de eleições gerais. No domingo, 900 mil suecos foram às urnas para escolher os representantes da maior organização religiosa do país, a Igreja da Suécia, instituição protestante de confissão luterana. Foi o maior comparecimento na história das eleições da instituição desde 1950.

sistema eleitoral dessa instituição cristã é único no mundo. A cada quatro anos, os cidadãos filiados à igreja elegem uma espécie de Parlamento da Igreja Sueca(Svenska kyrkan), a que é a maior organização religiosa do país.

Esse Parlamento é composto tanto por representantes do clero como por leigos e tem o poder de decidir não só questões mundanas, como a reforma das paróquias e o valor de doações a países pobres, mas também assuntos de ordem teológica – a exemplo do casamento entre pessoas do mesmo sexo, aprovado pela Igreja Sueca em 2009.

“A Constituição sueca é clara: a Igreja deve ser democrática e aberta”, diz à BBC Brasil a pastora sueca Jenny Sjögren, chefe do Departamento de Teologia e Ecumenismo da Igreja da Suécia.

As eleições, contudo, estão atreladas à política tradicional. Representantes de três dos oito partidos políticos tradicionais do país disputaram o pleito, ao lado de grupos independentes. Os resultados preliminares indicam que o Partido Social-Democrata, nacionalista e anti-imigração, conquistou a maior parcela dos votos e aumentou sua participação na Igreja.

“Pode-se dizer que a Igreja da Suécia tem um sistema eleitoral único no mundo, no sentido de que todas as instâncias do poder decisório da instituição são eleitas de forma direta. Embora as igrejas protestantes de países como a Noruega realizem algum tipo de eleições, em geral os pleitos ocorrem apenas a nível paroquial. Já na Suécia, desde a virada do milênio o próprio Sínodo Geral, que pode ser definido como o Parlamento da Igreja Sueca, é eleito nas urnas”, acrescentou Sjögren, que se tornou padre há 17 anos: desde 1958, a Igreja da Suécia aceita a ordenação feminina.

Regras

Para participar das eleições – seja como eleitor, ou como candidato -, o cidadão deve ser membro da Igreja da Suécia. A idade mínima para votar é de 16 anos, e a partir de 18 anos é possível se candidatar ao pleito.

No total, 5,2 milhões de suecos têm direito a votar no país de cerca de 10 milhões de habitantes.

A eleição de bispos e arcebispos na Suécia também costuma ser realizada com a participação popular: 50 por cento do eleitorado deve ser composto por leigos.

“Em várias partes do mundo protestante, as eleições de bispos e arcebispos se dão através do voto tanto de clérigos como de leigos. Isto se dá por razões históricas, diz Jenny Sjögren.

Em 2013, a Suécia elegeu pela primeira vez uma mulher como ‘arcebispa’ – a até então bispa da cidade de Lund, Antje Jackelén.

Campanha Eleitoral

Na mídia sueca, a cobertura da campanha para as eleições gerais da Igreja segue, ainda que em menor dimensão, o figurino dos pleitos políticos. Nesta reta final da corrida eleitoral, candidatos leigos e religiosos duelam na TV e no rádio, jornais debatem as diferentes propostas, e os “partidos” – chamados de “grupos” – apresentam filmes de campanha publicitária. Nas ruas, cartazes e panfletos reforçam o clima de eleição.

Todo o processo das eleições eclesiásticas é muito semelhante ao processo eleitoral para o Parlamento, assim como as regras democráticas que regem o funcionamento das assembleias eleitas pelos membros da Igreja”, diz à BBC Brasil o membro da Igreja David Axelson Fisk, que participou do comitê organizador das primeiras eleições gerais, na virada do milênio.

“Até o ano 2000, a Igreja da Suécia realizava apenas eleições a nível paroquial, como ocorre em outros países protestantes. Mas quando a separação entre Igreja e Estado entrou em vigor, naquele ano, entendeu-se que a forma mais democrática de gerir a instituição deveria ser através de eleições gerais e diretas para todas as instâncias do poder eclesiástico”, observa Fisk.

As eleições da Igreja da Suécia são organizadas em três níveis, num único dia de votação: a nível local, os membros de cada uma das 2.225 paróquias do país elegem uma Assembléia da Paróquia (Kyrkofullmäktige). A nível regional, os eleitores das 13 dioceses escolhem a Assembléia da Diocese (Stiftsfullmäktige), com 81 representantes. E a nível nacional, é eleito o Sínodo Geral da Igreja da Suécia(Kyrkomötet) – a mais alta instância da instituição, composta por 251 integrantes.

arcebispa sueca é a representante da Igreja para eventos ecumênicos e conferências internacionais, mas a autoridade máxima de poder decisório da instituição é o Sínodo Geral. E pelas regras suecas, os bispos não fazem parte do Sínodo, embora devam estar presentes nas sessões do órgão.

“Os 13 bispos do país podem se pronunciar ou apresentar propostas nas sessões do Sínodo, mas não estão autorizados a votar”, esclarece Ewa Almqvist, do departamento de Comunicação da Igreja da Suécia. Por outro lado, segundo Jenny Sjögren, os bispos detêm influência no poderoso Comitê Doutrinário do Sínodo.

Em sua composição atual, 187 dos 251 assentos do Sínodo Geral são ocupados por representantes leigos. Entre os 64 clérigos da assembleia, estão 61 pastora e três diáconos. Os valores suecos da igualdade de gênero também se refletem na formação da assembleia nacional eleita no último pleito: são 124 mulheres e 127 homens, segundo dados fornecidos à BBC Brasil pela Igreja da Suécia.

Os representantes eleitos não ganham salário: recebem apenas compensação pelas horas que deixam de trabalhar em seus empregos regulares, a fim de exercer suas atividades do Sínodo. E em cumprimento às práticas suecas de transparência, as atividades e finanças da Igreja da Suécia também são disponibilizadas para a fiscalização pública.

Críticas

Um dos principais temas do debate da campanha eleitoral deste ano foi o questionamento sobre a participação política nas eleições da Igreja.
Embora as agremiações que concorrem ao voto não tenham a denominação de “partido”, o fato é que três dos oito partidos políticos tradicionais do país disputam o pleito com suas próprias legendas, ao lado de grupos independentes – o Partido Social-Democrata, o Partido do Centro e o Democratas da Suécia, de extrema-direita.

“Há diferentes pontos de vista, e o tema é complexo”, diz a padre sueca Jenny Sjögren.

“Um eleitor pouco familiarizado com as questões da Igreja, por exemplo, pode sentir-se mais seguro ao votar no candidato de um partido político com o qual ele tem afinidade. Este seria um lado positivo de se ter representantes de partidos políticos tradicionais na disputa. Por outro lado, muitos começam a questionar esse envolvimento político na igreja. Mas cada vez mais, surgem novos grupos independentes que não possuem conexão com partidos. Portanto, este é um processo em evolução”, ela ressalta.

Êxodo

Apesar do caro e complexo aparato democrático para a realização de eleições diretas nos três níveis decisórios da Igreja, o comparecimento às urnas tem sido relativamente baixo. Especialmente nestes novos tempos, em que a Igreja da Suécia enfrenta uma perda considerável de seu rebanho.

Nas últimas eleições gerais da Igreja, em 2013, apenas 700 mil pessoas votaram. O índice de comparecimento às urnas não costuma ultrapassar 15% do eleitorado – em claro contraste com o percentual registrado nas eleições políticas para o Parlamento sueco, que costuma girar em torno de 86%.

O êxodo têm preocupado as autoridades eclesiásticas. Em 2016, mais de 90 mil pessoas deixaram de ser membros da Igreja – praticamente o dobro do índice registrado no ano anterior. Segundo pesquisa conduzida pelo instituto sueco Norstat, o principal argumento dos fiéis que decidiram abandonar a instituição é franco: eles não acreditam em Deus.

A Igreja da Suécia abandonou a Igreja Católica Romana no século 16, quando aderiu à Reforma Protestante.

Na virada do milênio, quando a Suécia se tornou oficialmente um Estado laico, 82% dos suecos eram membros da Igreja da Suécia – mais por tradição, segundo muitos comentam, do que por uma real afirmação de fé. Atualmente, segundo os números oficiais, a instituição possui 6,1 milhões de membros (cerca de 62% da população). Mas cada vez mais, a tradição religiosa perde força neste país de descrentes.

Até meados da década de 90, os filhos de membros da Igreja da Suécia se tornavam automaticamente, ao nascer, também membros da instituição. Na era do Estado laico, a nova geração tende a desfazer esses tênues laços religiosos: hoje, pelos cálculos da agência central de estatísticas da Suécia (Statistiska centralbyrån), somente cinco por cento dos suecos costumam frequentar algum tipo de igreja.

Apenas 29% da população afirma ter alguma crença religiosa. E na hora de casar, um em cada três casais optam por uma cerimônia civil.

Fonte: BBC Brasil.

Historia-Europa

Minha avó paterna costumava soltar frases inteiras em italiano quando conversava entusiasmadamente. Seus filhos nascidos nos Estados Unidos lhe recordavam: “Mamãe, você está na América. Nós não falamos mais essa língua“.

No álbum de família, minha avó faz parte de uma narrativa que começa com imigrantes empobrecidos e avança rapidamente para a imagem de um dos seus filhos erguendo um carro, de tão forte que era. Sua irmã aparece em pose de estrela, num modesto maiô. Há fotos de um casamento e, de repente, o álbum revela uma forte mudança para o lado irlandês, à medida que as culturas iam se misturando.

A mobilidade ascendente faz uma breve aparição antes do baque financeiro. Uma breve recuperação permite belas cerimônias de batismos, casamentos e primeiras comunhões antes de um segundo desastre, quase aniquilador. Depois, o álbum perde o seu significado. Deixa de haver uma história porque não há mais coerência: apenas imagens formais, geralmente seguindo a tendência da época. Um carro aqui, um bolo ali, a próxima casa acolá.

A narrativa terminou porque a família, em sua essência, terminou. A própria palavra “família” deixou de ter significado para muitos de nós.

Nós não falamos mais essa língua”.

No entanto, aqueles que conseguiram se manter ligados a esta palavra e à linguagem do amor em que ela se enraíza construíram novas narrativas, sanaram-se e fortaleceram-se no paradoxo do sacrifício e do serviço a algo que é maior que nós e que nos torna plenos, livres e suficientemente destemidos para não desprezar o antigo dialeto, mas reaprendê-lo e reabraçá-lo.

Estes pensamentos me surgiram depois de ler esta descrição da Casa da História Européia, que me parece um álbum de família incoerente e morto:

“Os andares dedicados às atrocidades do século XX, a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais, são particularmente impressionantes. O visitante chega a essa parte da exposição no escuro, sentindo-se desorientado. É uma experiência física do estado mental de quem atravessa a impressionante exposição da Casa sobre o Holocausto.

Após essas imagens agitadoras, o último andar é realmente decepcionante. Ele é reservado a uma visão geral das instituições da União Europeia, como o Parlamento Europeu, o Conselho Europeu e a Comissão Europeia (…) Mas o mais notável nessa Casa é que, para ela, é como se a religião não existisse na Europa – e não só na atualidade: é como se a religião nunca tivesse existido nem impactado a história do continente”.

Sem o reconhecimento da sua história espiritual, esse museu de Bruxelas está dizendo, em essência, “Nós não falamos mais essa língua. E não queremos nenhuma ligação com as nossas raízes”.

Se for isso mesmo, se a Europa estiver mesmo empenhada em eliminar a língua e a memória da fé, então a sua narrativa chegará a um final rápido, deliberado e sem glória. A Europa se sepultará no túmulo “sustentável” que ela própria já está cavando.

Elizabeth Scalia

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O hospital infantil britânico Great Ormond Street anunciou nesta que reavaliará novas possibilidades para tratar um bebê gravemente doente após as intervenções do papa Francisco e do presidente americano, Donald Trump.

O hospital londrino tinha previsto deixar de manter o bebê Charlie Gard vivo após uma decisão da Justiça contra à qual os pais se opuseram. Charlie tem 10 meses e sofre de uma doença genética rara e terminal.

“Dois hospitais internacionais e seus pesquisadores nos indicaram nas últimas 24 horas que havia novos elementos para o tratamento experimental que propuseram”, explicou o hospital em um comunicado.

“Consideramos, assim como os pais de Charlie, que é justo explorar esses elementos”, acrescentou.

O hospital disse que solicitou a um tribunal britânico “uma audiência sobre o caso de Charlie Gard à luz do anúncio de novos elementos relacionados a um possível tratamento de sua doença”. “Não é uma questão de dinheiro ou de recursos, trata-se unicamente do que é justo para Charlie”, acrescentou a instituição.

O hospital afirmou que os seus médicos “testaram todos os tratamentos médicos” e que outro tratamento “seria injustificável […] e prolongaria o sofrimento de Charlie”. “Nosso ponto de vista não mudou”, acrescentou.

“Acreditamos que seja justo contar com a opinião da Alta Corte sobre os supostos novos elementos”.

Em abril, um tribunal britânico afirmou que os médicos deveriam interromper o tratamento que mantinha Charlie Gard vivo – ele sofre de uma rara doença genética e seu cérebro está muito prejudicado.

O Tribunal Europeu de Direitos Humanos (TDH) ratificou a decisão. Os pais do bebê de 10 meses lutam para que o seu filho possa receber tratamento nos Estados Unidos.

O tribunal decidiu que manter o bebê vivo somente prolongaria o seu sofrimento. A doença mitocondrial que o atinge deteriora os tecidos musculares.

O Papa Francisco deu o seu apoio aos pais do bebê em suas tentativas de transferir o menino, enquanto o presidente Trump ofereceu ajuda.

G1

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Recentemente, foi anunciado o fechamento de um número considerável de paróquias católicas no estado de Connecticut, Estados Unidos. Isso é somente uma parte do problema que está vivendo a Igreja na nação americana, especialmente nas dioceses do norte.

Sobre este aspecto, o monsenhor Charles Pope propôs, na revista Community in Mision, seis pontos para a reflexão, oferecendo aos fiéis americanos um guia para saber quais são as raízes do fenômeno e, portanto, para ajudá-los a enfrentar o problema com mais conhecimento.

  1. Os bispos não fecham as paróquias; são as pessoas que o fazem. É certo, entretanto, que, juridicamente, os bispos são os responsáveis por dar o certificado de reconhecimento de abertura, fechamento ou fusão das paróquias. Em última instância, é o povo de Deus que cria ou retira a necessidade de ter uma paróquia. A dura verdade é que, a cada dia, há mais católicos a favor dos anticoncepcionais e do aborto. O número de fiéis só cai. Nas áreas urbanas do noroeste dos Estados Unidos, somente 15% frequentam regularmente as missas dominicais. Houve uma falha na evangelização, mas as feridas mais profundas estão na diminuição da frequência nas missas e nossa incapacidade de transmitir a fé. Atualmente, estamos enterrando a última geração que ensinou que a missa do domingo é uma obrigação, que deveria ser cumprida – sob a pena de pecado mortal.
  2. Existe uma responsabilidade compartilhada. É fácil ficar zangado com os bispos e padres quando eles fecham as paróquias. Anos de má catequese, falta de pregação efetiva e liturgias mal celebradas estão na conta. E o clero deve ficar com a primeira responsabilidade sobre isso. No entanto, a divisão dos fiéis e o desvio da prática da fé também são fatores importantes. Há muitos padres que não pregam com firmeza nem insistem em uma doutrina clara. O preço disso é alto, sim, mas no final do dia, o clero não pode assumir a responsabilidade completa do problema nem abordá-lo por si só. A evangelização não pode ser só um problema da reitoria; em última instância, é um problema familiar. Os pais e avós devem se esforçar mais para reunir seus filhos em casa e serem testemunhos da força transformadora da liturgia e dos sacramentos.
  3. A liturgia tem culpa? Muitos culpam a liturgia da Igreja Católica por ser “enfadonha”, “monótona” e até “banal”. As soluções para este tema são, muitas vezes, desconcertantes e não cumprem com o objetivo, atraindo somente porções muito pequenas de fiéis. Por exemplo, alguns são a favor da reintrodução da missa tradicional, em latim. Com todo o encanto que isso possa ter, não há uma só diocese nos Estados Unidos em que essa forma de expressar a liturgia atraia mais de um por cento dos frequentadores da missa. Portanto, o problema parece ser mais profundo.
  4. O coração do problema é um mal-estar geral. Há pouca urgência; poucas pessoas parecem sentir a necessidade da fé, da Igreja, dos sacramentos ou da palavra de Deus. O universalismo (todos se salvarão) e o relativismo (tudo é verdade) dentro e fora da Igreja representaram o papel mais importante do problema. O que a Igreja oferece “não é necessário”. Os problemas dela “não são os problemas da modernidade”. A opinião comum em nossa cultura é que a religião é um pouco menos do que um acessório agradável para a vida. Quem se importa com isso?
  5. Como controlar a erosão da prática da fé católica? Como disse Ralph Martin, o primeiro passo deve ser reviver uma visão mais bíblica – com urgência – da salvação. O fato de muitas pessoas, inclusive entre o clero, dizerem que a salvação “não é um problema” não significa que não seja. Jesus dedicou muitas horas de pregação e muitas parábolas para nos alertar sobre a necessidade de merecer a salvação que Ele oferece. Mas muita gente não considera a confissão dos pecados, a frequência na missa e o recebimento da Eucaristia como caminhos para a salvação de nossas almas.
  6. Não cair na ilusão do chamado “discurso do medo”. Muitos temem o juízo de Deus. De algumas coisas temos que ter medo, incluindo nossa tendência a sermos de coração duro e tolo em relação à Graça e a preferir as coisas do mundo às verdades eternas. O pânico, com efeito não é útil. Mas a sobriedade, a necessidade vital dos sacramentos, a Palavra proclamada, a comunhão e o poder transformador da liturgia são.

É triste perder edifícios, muitos deles verdadeiras obras de arte. Mas é ainda mais triste refletir sobre a perda humana que os edifícios vazios representam.

Aleteia

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Jovens ‘fanáticos’que reivindicam a própria fé. Com orgulho, entenda-se. O Le Monde talvez seja um pouco depreciativo ao descrever o retorno ao religioso na França, onde o que era sagrado, nas últimas décadas, era a laïcité. Alguma coisa mudou. Quem diz isso são os indicadores numéricos, elaborações de estatísticas de autoridade e – acima de tudo – as massas de jovens que não têm escrúpulos ao exibirem símbolos da própria fé, que frequentam as igrejas e fazem peregrinações..

Que fique claro: trata-se sempre de uma minoria (criativa). Os jovens que se definem como crentes estão sempre abaixo dos 50% da população. Mas, entre os muito jovens (dos 18 aos 29 anos), os crentes sobem para 53%. Apenas nove anos atrás, eles eram 34%.

Um acréscimo necessário: não são apenas muçulmanos, já que 42% dos “crentes” são católicos. Uma bela mudança de curso, se considerarmos que, no fim do século passado, o cristianismo era dado como agonizante na terra das catedrais. Era a “grande era da pós-religião”, lembra o Le Monde: “Todas as pesquisas e as investigações afirmavam que as igrejas estavam vazias, que os jovens não acreditavam mais e que os pais não transmitiam (ou faziam isso muito pouco) aos seus filhos o patrimônio religioso. Dizia-se que o budismo e as filosofias Nova Era estavam substituindo o monoteísmo ocidental”.

Em suma, na aurora do novo milênio, olhava-se com temor para a profecia apócrifa de André Malraux, segundo a qual “o século XXI será espiritual ou não será”.

Vinte anos depois do oráculo sinistro, observa o jornal progressista francês, estamos “na ostentação” da própria fé. “Socorro, Jesus está voltando!”, era a manchete do Libération em novembro passado. Na televisão, os políticos exibiam cruzes no pescoço. Durante a campanha presidencial, mais de um candidato falou sobre a fé e sobre a sua educação cristã.

“Nos debates – informa o Le Monde – foi até invocada a revisão da lei de 1905 sobre a separação entre Igreja e Estado.” Sem falar, no fim da campanha, das visitas às catedrais (até em Reims, onde os reis eram ungidos). “Em um país onde não ser filiado a nenhuma religião é até banal demais, o fato de ser crente ou de reivindicar uma dimensão religiosa significa ser não conformista. Deus não está mais relegado à esfera privada”, ressalta a reportagem do jornal parisiense.

E não se trata apenas de sair às ruas, brandindo bandeiras cruzadas para reconquistar um espaço público aniquilado antes da revolução antropológica, social, histórica e política. Em suma, há mais coisas além da batalha contra o mariage pour tous.

Os jovens de hoje, aqueles que leem a página do Facebook do Abbé Grosjean e que consideram a exasperação laicista como um óvni e que organizam vigílias de oração noturna em algum santuário do país, não têm superestruturas sociológicas que dominaram as gerações anteriores, que cresceram a pão e laicidade exasperada, reduzindo o ser crente a ser algo pessoal, e a participação nos ritos, a uma espécie de hobby como o bridge ou o cinema d’essai.

“A relação dos jovens com a religião manifesta uma mudança de paradigma entre a religião e a modernidade”, disse o sociólogo das religiões Jean-Paul Willaime, acrescentando que “mais modernidade não significa menos religião”. Ao contrário, “na religião, busca-se uma dimensão relevante da própria personalidade, o modo de estar em uma sociedade que não é mais tão cheia de significado”.

Os jovens de hoje, “em comparação com a geração dos anos 1970 – continua Willaime – que foram ‘socializados religiosamente’, não têm uma atitude de rejeição da religião. Eles não têm uma educação para se rebelar contra. A fé os fascina, faz-lhes perguntas. E, se os jovens são mais religiosos, eles são mais engajados, mais visíveis, mais coerentes”. Em suma, reivindicando a própria pertença religiosa, eles “reivindicam a sua liberdade pessoal”.

Jornal Il Foglio

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“Se há quem duvide da transição religiosa no Brasil, a capital do Acre é um exemplo de cidade que já promoveu a mudança de hegemonia entre católicos e evangélicos (especialmente para a população feminina e jovens). Impressiona o ritmo ocorrido nas últimas duas décadas, pois os católicos caíram cerca de 2% ao ano, enquanto para o Brasil a queda foi de 1% ao ano”, escreve José Eustáquio Diniz Alves, doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE, em artigo publicado por EcoDebate.

Depois de 500 anos de predominância católica, o Brasil está passando por uma transição religiosa, com declínio das filiações católicas e aumento das filiações evangélicas, além do aumento do percentual de outras religiões e do percentual de pessoas que se declaram sem religião.

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Esse fenômeno acontece em todo o território nacional, mas com ritmos diferentes nas regiões, nos estados e nos municípios. A Unidade da Federação com menor percentual de católicos era o Rio de Janeiro, com somente 45,8%, segundo o censo demográfico de 2010. A Unidade da Federação com maior percentual de evangélicos era Rondônia, com 33,8%.

Estes dois estados são os mais avançados na transição religiosa, segundo os últimos dados do IBGE. A razão entre evangélicos e católicos (REC) era de 71,1% em Rondônia e de 64,1% no Rio de Janeiro. Para o Brasil a REC era de 34,3% em 2010, significando que existia 34,3 evangélicos para cada 100 católicos.

Mas em termos das capitais, a cidade de Rio Branco, no Acre, é a mais adiantada na transição religiosa no Brasil, com uma REC de 100%, ou seja, o número de católicos e evangélicos estava praticamente empatado, em 2010.

O percentual de católicos na capital do Acre, em 1991, era de 82,4% e o percentual de evangélicos era de 10%. Mas tudo mudou rapidamente em menos de 20 anos. A tabela acima mostra que, para a população total do município, o percentual de católicos caiu para 61,5% em 2000 e declinou ainda mais para 39,9% em 2010, uma queda impressionante (de 42,5% em 19 anos e de 21,6% em 10 anos). O percentual de evangélicos passou de 23,3%, em 2000, para 39,8% em 2010, subindo 30% em 19 anos e 16,5% na última década. Outras religiões e sem religião somavam 20,3% em 2010.

Quando se analisa a população de 0 a 14 anos o percentual de católicos é ainda menor (34,1% em 2010) e o percentual de evangélicos é ainda maior (44,7%). Este padrão que se repete no país como um todo, mostra que existe um fator intergeracional na transição religiosa, pois as gerações mais jovens estão mais avançadas na transição religiosa e os idosos são os menos afeitos às mudanças de hegemonia.

Quando se considera apenas a população feminina, a capital do Acre já completou a transição religiosa, pois as filiações católicas representavam 38,6% entre as mulheres e as filiações evangélicas representavam 43,4%, em 2010. Outras religiões e sem religião somavam 18% em 2010. Entre as mulheres jovens a mudança de hegemonia é ainda mais visível.

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Artigo do Portal G1 (24/01/2014) mostra que a transição religiosa em Rio Branco foi acompanhada pela multiplicação dos templos evangélicos. Somente nas ruas Valdomiro Lopes e Rua da Conquista, no Bairro da Paz, há mais de sete igrejas evangélicas ao longo de pouco mais de 1 km. O número de templos pode ser decisivo na conquista de fiéis, pois as pessoas tendem a frequentar as igrejas próximas de suas residências.

Se há quem duvide da transição religiosa no Brasil, a capital do Acre é um exemplo de cidade que já promoveu a mudança de hegemonia entre católicos e evangélicos (especialmente para a população feminina e jovens). Impressiona o ritmo ocorrido nas últimas duas décadas, pois os católicos caíram cerca de 2% ao ano, enquanto para o Brasil a queda foi de 1% ao ano. Resta saber se a cidade de Rio Branco é uma exceção ou se as demais capitais também vão seguir este mesmo processo. A resposta deve ser dada no censo demográfico de 2020, quando teremos um panorama atualizado das filiações religiosas em todos os municípios brasileiros.

Referências:

ALVES, J. E. D; NOVELLINO, M. S. F. A dinâmica das filiações religiosas no Rio de Janeiro: 1991-2000. Um recorte por Educação, Cor, Geração e Gênero. In: Patarra, Neide; Ajara, Cesar; Souto, Jane. (Org.). A ENCE aos 50 anos, um olhar sobre o Rio de Janeiro. RJ, ENCE/IBGE, 2006, v. 1, p. 275-308
https://pt.scribd.com/doc/249670739/A-dinamica-das-filiacoes-religiosas-no-Rio-de-Janeiro-1991-2000-Um-recorte-por-educacao-cor-geracao-e-genero

ALVES, JED, CAVENGHI, S. BARROS, LFW. A transição religiosa brasileira e o processo de difusão das filiações evangélicas no Rio de Janeiro, PUC/MG, Belo Horizonte, Revista Horizonte – Dossiê: Religião e Demografia, v. 12, n. 36, out./dez. 2014, pp. 1055-1085

ALVES, JED, BARROS, LFW, CAVENAGHI, S. A dinâmica das filiações religiosas no brasil entre 2000 e 2010: diversificação e processo de mudança de hegemonia. REVER (PUC-SP), v. 12, p. 145-174, 2012.

ALVES, JED. “A encíclica Laudato Si’: ecologia integral, gênero e ecologia profunda”, Belo Horizonte, Revista Horizonte, Dossiê: Relações de Gênero e Religião, Puc-MG, vol. 13, no. 39, Jul./Set. 2015

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Willem Jacobus Eijk é, desde 2008, arcebispo de Utrecht e primaz da Holanda e cardeal desde 2012. Sua tarefa não é fácil: é responsável por uma Igreja que nos últimos anos sofreu uma redução drástica em termos numéricos, chegou a um acordo com um processo de secularização impetuoso e presenciou polêmicas internas, que, contudo, foram aos poucos se abrandando. Os católicos holandeses caíram de 5,5 milhões em 1990, a pouco menos de 4 milhões hoje, o que representa uma redução de 37 a 23 por cento da população. Formado em medicina, com uma tese sobre eutanásia, e em filosofia, o Cardeal Eijk foi ordenado sacerdote em 1985.

Eis a entrevista.

Eminência, de acordo com um estudo da ONU a Holanda é o sexto país mais feliz do mundo. Quem está dentro sente a mesma coisa? Os holandeses são felizes hoje?

Depende muito dos critérios que essas pesquisas utilizam para chegar a conclusões. De acordo com um relatório de uma entidade oficial holandesa, o Instituto para o Planejamento Social e Cultural (SCP), dois terços dos holandeses são pessimistas, acreditam que o país está seguindo na direção errada. Há um sentimento generalizado de que nos últimos anos a Holanda piorou. Lamenta-se um empobrecimento dos costumes, do modo como as pessoas se tratam. Nas discussões públicas é comum ouvir insultos, mesmo no parlamento, e respira-se um clima de intolerância. Uma parte crescente da população está convencida que o Estado ajuda demais os imigrantes e muito pouco os holandeses nativos. Alguns vivem em um estado de carência extrema.

A Holanda é um país rico, é claro, e essa riqueza é certamente uma das razões que levou a ONU a declarar que os holandeses estão entre os mais felizes do mundo. Mas nem todos nos últimos anos têm aproveitado a recuperação econômica: os grupos da população menos instruídos estão sofrendo um empobrecimento. Nós, Igrejas, estamos fazendo mais e mais para as famílias pobres, aquelas em que pai e mãe ficaram ambos desempregados. O estado ocupa-se cada vez menos dessas pessoas, os recursos para a assistência social diminuíram e o resultado é que o número de pessoas que já não conseguem pagar o aluguel ou as contas básicas aumentou.

Uma parte da população está se tornando cada vez mais rica, tem nas mãos a maioria dos recursos financeiros, enquanto a outra parte é cada vez mais pobre e cada vez mais irritada porque vê que os outros estão aproveitando a situação. Dentro desse quadro é crescente a desconfiança em relação à elite política: uma parte da população pensa que os políticos não fazem nada para ajudá-la e que nem sequer tentam fazê-lo porque a Holanda perdeu parte da sua soberania, devolvendo-a à UE.

Hoje em dia, qual é a característica da sociedade holandesa que mais lhe agrada e qual a que mais lhe preocupa?

Os holandeses são generosos, querem ajudar os menos afortunados. Neste momento estamos realizando uma grande arrecadação de fundos para as vítimas da fome no Sudão do Sul, organizações cristãs e não cristãs se uniram nesta iniciativa. Por outro lado, há coisas que me deixam triste: a falta de fé em nossa sociedade e a relativa perda de valores éticos ligados à fé e ao bom senso. É possível constatar que no nosso país o respeito pela vida humana está aos poucos diminuindo. Outro campo que gera preocupação é em relação ao casamento: poucos se casam, seja na igreja ou no registro civil.

Como em muitos outros países europeus, a fé e a prática religiosa diminuíram muito na Holanda. Segundo a edição de 2016 do levantamento “Deus na Holanda” a soma de ateus e agnósticos representa quase 60 por cento da população holandesa, e pela primeira vez o número de ateus declarados superou o daqueles que acreditam na existência de um Deus pessoal.

Em sua opinião, qual foi o fator mais importante que desencadeou a tendência de queda no número de crentes e da prática religiosa? Trata-se de causas relacionadas com as Igrejas, portanto com a teologia liberal e com a pastoral ligada a esse direcionamento, ou é a pressão geral da sociedade que enfatiza e impõe valores seculares?

O fator mais importante, em minha opinião, é a cultura. Os primeiros sinais de uma secularização entre os católicos na Holanda já podiam ser observados nas décadas de 1920 e 1930. Nas grandes cidades já havia católicos que não frequentavam mais a igreja, que já não batizavam mais os filhos. O fenômeno se intensificou desde a Segunda Guerra Mundial. Em outubro de 1947, realizou-se um simpósio no seminário menor da Arquidiocese de Utrecht em que sacerdotes e laicos reuniram-se para estudar este problema. Eles falaram dos problemas da pastoral e formularam a previsão de que um grande número de pessoas batizadas deixaria a Igreja silenciosamente nas décadas seguintes. Eles estavam certos, porque vinte anos mais tarde a Igreja holandesa havia se esvaziado bem rapidamente. Em 1947 já se verificava que muitos católicos mantinham com a Igreja um vínculo de tipo ético-social, mas não estavam interessados nas verdades da fé. Vivia-se em uma rede de organizações católicas, mas faltava uma vida pessoal de oração, uma verdadeira espiritualidade.

Karol Wojtyla visitou nosso país no final da década de 1940, quando estava realizando a sua tese de doutorado na Universidade de Leuven, na vizinha Bélgica, e mesmo expressando admiração para a grande estrutura e organização da Igreja Católica, observou uma falta de vida espiritual, de uma ligação pessoal com Cristo. Ele constatou que a Igreja Católica na Holanda estava unida e combatia os protestantes, mas era uma unidade puramente no negativo, pois carecia de fé pessoal.

Todos esses fatores tornaram-se a causa da grave crise que a Igreja holandesa tem vivido desde o início dos anos 1960, momento em que surgiu o fenômeno do individualismo. A grande prosperidade que se iniciou na época colocava a pessoa em condições de viver de forma bastante independente dos outros e isso levou a um individualismo muito forte, exagerado, que bem conhecemos agora em nosso país. O individualista é uma pessoa autorreferencial, que acredita ter não apenas o direito, mas o dever de construir por si o seu próprio ser e seus próprios valores éticos. Não procura pontos de referência nos outros, em realidades e estruturas que o transcendam, mas apenas em si mesmo. E esse indivíduo está fechado em si mesmo, não se abre a um Deus transcendente e nem mesmo a uma comunidade de fiéis, que é a essência da Igreja. Todos esses fatores levaram à grave crise de fé e da vida da Igreja Católica de hoje.

Inclusive os teólogos vêm experimentado essa evolução, tornando-se cada vez mais liberais. Eles sentiram os efeitos bem mais do que os produziram. Edward Schillebeeckx, por exemplo, um professor de dogmática na Universidade de Nijmegen, costumava ser bastante ortodoxo nos anos 1950, mas a partir de 1965 tem se transformado em um defensor das novas correntes teológicas. Os teólogos foram mais seguidores das mudanças da cultura do que tiveram influencia sobre ela. Para isso contribuíram múltiplos fatores, cujo resultado é que a catequese acabou faltando na Igreja Católica nos últimos cinquenta anos.

Eu frequentei uma escola religiosa em Amsterdã e, nos primeiros anos, de 1965 a 1967, recebi uma excelente formação de catequese, especialmente bíblica. Prometeram-nos que tratariam dos sacramentos a partir do terceiro ano, mas nunca o fizeram. Os professores de religião ainda eram sacerdotes, mas havia discussões sobre Che Guevara, sobre os temas da época, mas nada sobre religião. Eu descobri e mantive a vocação sacerdotal graças ao pároco da minha cidade natal, perto de Amsterdã, uma pessoa de grande sensibilidade. Em geral na escola católica não tinha catequese, e isso é um problema que subsiste até hoje.

Nas paróquias não é ensinada a catequese?

Atualmente apenas é feita uma preparação para a Primeira Comunhão e para a Crisma, mas é muito difícil reunir os jovens para a catequese, há muitas atividades recreativas, todo mundo tem seus próprios programas pessoais. Quando eu era criança não havia tantas atividades, hoje em dia é muito difícil reunir as pessoas à tarde ou à noite para a catequese. Ainda existem muitas escolas com uma identidade católica, mas como a maioria dos alunos não é mais católica, e nem mesmo os professores o são, ou não são membros ativos, a escola católica não tem mais condições de transmitir a fé como acontecia até 50 anos atrás.

No Relatório “Deus na Holanda”, ressalta-se que os católicos mais jovens são mais ortodoxos do que os mais velhos em relação à doutrina católica tradicional. O senhor concorda ou isso não passa de uma ilação?

É isso mesmo, posso confirmá-lo. As gerações mais velhas são aquelas que nos anos 1960 adotaram as novas correntes teológicas, enquanto os jovens, quando ainda acreditam, não questionam a ortodoxia e têm uma intensa vida de oração. O Domingo de Ramos coincide com uma atividade da pastoral juvenil na minha arquidiocese, que inclui uma hora de Adoração.

Os nossos jovens realmente amam a Adoração, adoram a oração silenciosa. Durante essa hora, nós sempre oferecemos a possibilidade de fazer a confissão, e praticamente todos os jovens se confessam, mas quando se fala em confissão com a geração mais velha, as reações são bem mais negativas e hostis: “Nós não fazemos mais essas coisas”. Não se vê isso entre os jovens, eles são muito abertos para a confissão. O número de católicos é sempre decrescente, mas a qualidade está aumentando, e isso é um sinal de esperança.

Num futuro próximo, a Igreja na Holanda será muito pequena, mas vai ser uma Igreja com uma forte fé, que poderá ser a semente para o Reino de Deus na sociedade do amanhã. Eu não sou um arcebispo desesperançado, no entanto, temos de aceitar que a Igreja na Holanda vai se tornar muito pequena. Estou fechando muitas igrejas, talvez um terço das igrejas da Arquidiocese de Utrecht será fechada antes de 2020 e dois terços antes de 2025. Talvez tenhamos condições de manter umas 20 paróquias, com uma ou duas igrejas em cada uma delas, enquanto na década de 1960 eram quase 400: é uma imensa redução. Mas quando os paroquianos têm uma fé forte e profunda, esta poderá ser o fermento do futuro: esta é a minha esperança para o tempo que virá. E devo dizer que, mesmo entre os idosos aqueles que permanecem têm uma fé mais substancial do que a que havia em sua própria geração no passado.

Quando eu me tornei pároco assistente em 1985, a maioria dos meus paroquianos apoiava às idéias do movimento de 8 de Maio. Era o nome do movimento surgido na véspera da visita de João Paulo II à Holanda, que justamente ocorreu em 8 de Maio de 1985. Foi uma visita muito especial, com muitos protestos contra o papa: foi a visita mais difícil que João Paulo enfrentou durante o seu longo pontificado. Os participantes do movimento defendiam uma teologia liberal, criticavam muitos pontos delicados da doutrina da Igreja, especialmente contestavam à moralidade sexual. No domingo, a igreja ainda estava bastante cheia, mas eu sabia que a maioria das pessoas presentes não aceitava o teor de meus sermões. Hoje não é mais assim, o ambiente é mais relaxado, é mais tranquilo. Agora anunciar a fé se tornou mais fácil do que era há 30 anos. Nem todos os desenvolvimentos são negativos, seria um erro pensar isso.

Apesar da diminuição do número de católicos na Holanda, as estatísticas mostram que a cada ano várias centenas de adultos convertem-se ao catolicismo. Que tipos de pessoas são estes adultos que pedem para ser acolhidos na Igreja Católica?

São pessoas tão diversas como é a sociedade holandesa. Algumas poucas se tornam católicas para se casar com um católico, a maioria descobre a fé católica através de amigos ou após um evento importante na vida. Alguns são protestantes, outros nunca foram batizados. Eles são pessoas muito diferentes, e cerca de metade deles se tornam fiéis ativos com uma forte fé.

Há muitos estrangeiros entre eles, ou em sua maioria são holandeses?

A maioria é de nativos holandeses. Entre os imigrantes cristãos encontram-se muitas pessoas batizadas, crentes, mais educadas na fé do que os holandeses. Na Holanda temos um milhão de islâmicos, mas também 800-900 mil católicos imigrantes, que são uma parte muito ativa nas paróquias da parte ocidental do país, nas grandes cidades como Amsterdã, Haia e Rotterdam.

Recentemente o senhor ressaltou a necessidade de um documento de alto nível da Igreja Católica sobre a ideologia de gênero. Por que tal documento seria importante?

Inclusive sobre esta questão a Holanda foi pioneira. Na década de 1980 uma clínica universitária de Amsterdã, de filiação protestante, foi a primeira a oferecer tratamentos tanto hormonais como cirúrgicos para mudar o sexo biológico. O seguro de saúde pagava a maior parte do tratamento e continua sendo assim. Hoje, através de comissões da ONU, são exercidas pressões consideráveis sobre os estados para implementar legislações adequadas com a teoria de gênero, principalmente programas nas escolas. O que defende em resumo esta teoria? Que no passado a identidade de gênero era imposta pela sociedade, especialmente em relação ao papel social da mulher, mas agora somos individualistas, adulto, autônomos, e, portanto, temos o direito e o dever de escolher a nossa identidade de gênero.

Hoje, na Holanda, a teoria do gênero já não é mais um tema debatido, todos a aceitam como um fato evidente: o gênero não tem uma ligação essencial com o sexo biológico, o indivíduo tem a liberdade de determinar sua própria identidade de gênero e de mudar o sexo biológico conforme sua vontade, de acordo com suas idéias sobre a sua identidade de gênero. Para as pessoas tornou-se difícil entender que uma mudança de sexo é algo incompatível com a doutrina da Igreja sobre o casamento e a sexualidade. É por isso que eu pedi um documento sobre a teoria do gênero para o magistério romano: não necessariamente uma encíclica, mas um documento que explique claramente o que a Igreja pensa da teoria de gênero, com base em uma antropologia filosófica cristã, de modo que as pessoas possam entender que, com base na visão do mundo que a Igreja defende, e que vem da Sagrada Escritura e Tradição, o sexo biológico é essencial para a identidade de gênero.

Pode haver mudanças em relação ao papel social do gênero, isso acontece em todas as culturas e ao longo da história, mas não pode ser dito que o gênero é totalmente separado do sexo biológico. Fiz o pedido de tal documento porque todos na nossa sociedade aceitam a teoria de gênero sem ter ciência de suas consequências e da antropologia que pressupõe. O Papa falou algo sobre o assunto aqui e ali, falou de uma colonização ideológica agressiva em relação à teoria de gênero, de uma guerra em escala mundial contra o casamento e a família, mas um documento específico sobre a teoria de gênero poderia ser profético.

Outra questão delicada é a legislação para a eutanásia que na Holanda já existe e é bastante permissiva. O que o senhor pensa da legislação em vigor e das consequências das reformas que são propostas na direção do suicídio assistido?

A situação está ficando complicada. Uma comissão criada pelo governo e presidida por um membro do partido D66, que lutou muito para a introdução da eutanásia na Holanda, concluiu no ano passado que a lei atual funciona bem e não há necessidade de mudá-la. A comissão escreveu que, de fato, na Holanda existem pessoas idosas que gostariam de poder usufruir do suicídio assistido mesmo que não sofram de nenhuma doença, só porque consideram que “completaram suas vidas”. Essas pessoas, de acordo com a comissão, já podem fazer uso da lei vigente. Apesar disso, os ministros da Justiça e da Saúde, em 13 de outubro do ano passado, enviaram uma carta ao Parlamento, em que anunciaram planos para introduzir um novo projeto de lei, para ser anexado ao já existente sobre a eutanásia, para aqueles que consideram ter completado a sua vida. Tal lei sobre a “vida completada” preveria que cada pessoa tivesse o direito de solicitar o suicídio assistido dirigindo-se aos agentes assistenciais autorizados, que podem ser médicos, psicólogos e enfermeiros especializados. Os assistentes têm a competência para verificar se a pessoa está solicitando o suicídio assistido de forma coerente e livre, sem pressões familiares ou ambientais. O próprio partido D66 anunciou um projeto de lei para o suicídio assistido para os idosos, indicando como idade mínima os 75 anos.

Esta é uma nova etapa na discussão da eutanásia na Holanda. Quando alguém menciona que essas propostas estão assumindo uma inclinação perigosa, todos negam e protestam, mas é impossível não notar que a legislação tem avançado por um declive escorregadio dos anos 1970 até hoje. Principiou-se falando em eutanásia para doenças incuráveis na fase terminal da vida; em seguida, discutiu-se sobre a eutanásia fora da fase final; mais tarde, nos anos 1990, foi estendida para doenças psiquiátricas e neurodegenerativas; depois, em 2004, foi introduzido o Protocolo de Groningen, que autoriza a supressão da vida de recém-nascidos gravemente enfermos e, pela primeira vez, foi quebrada uma barreira, aquela que defendia que a supressão de vida deveria ser solicitada pelo paciente. Agora o próximo passo parece ser a introdução do suicídio assistido para aqueles que não sofrem de uma doença, mas afirmam que completaram a sua vida.

Nos últimos 30 anos, a Holanda tornou-se alvo de um grande fluxo migratório. Muito migrantes vêm de regiões do mundo onde a visão religiosa da vida ainda é prevalente. Muitos deles são muçulmanos. A sua percepção é que estes imigrantes estão se secularizando como a maioria dos holandeses, ou estão mantendo e transmitindo uma forte identidade religiosa?

Até 2004 observou-se uma tendência à secularização, inclusive entre os imigrantes islâmicos, mas desde 2004 nota-se um reforço da identidade islâmica entre os imigrantes, especialmente aqueles que chegam da Turquia e do Marrocos e que acima de 95 por cento declaram- se islâmicos praticantes. De fato, 40 por cento dos muçulmanos na Holanda visitam a mesquita às sextas-feiras, um percentual significativo quando comparado com o dos cristãos que frequentam regularmente uma igreja, que é de 10-15 por cento. A prática do culto aos domingos entre os católicos é inferior a 5 por cento. Os islâmicos têm identidade religiosa mais forte do que a de protestantes e católicos atuais.

Quantas mesquitas sunitas existem na Holanda? E quantas paróquias católicas?

As mesquitas são atualmente 500, e outras estão sendo construídas. Eles constroem mesquitas, nós cristãos fechamos igrejas. As paróquias católicas são cerca de 1.500, um número que está se reduzindo assim como o número de igrejas abertas ao culto. Há igrejas que não são mais usadas, mas como que não há compradores, esperamos antes de desconsagrá-las permanentemente. Atualmente na minha arquidiocese há cerca de vinte igrejas à venda. Eu sou da opinião que devemos evitar gastar todos os recursos financeiros de uma paróquia na manutenção de uma igreja que não está em uso, deixando as gerações futuras sem fundos, de mãos vazias: na Holanda não há a destinação de 8 por mil do imposto (alíquota destinada às igrejas, na Itália). Os municípios podem declarar uma igreja no seu território como patrimônio cultural. Isso impossibilita interferir sobre sua arquitetura, e torna-se difícil a venda, porque o comprador não poderá mais alterar sua destinação, ao mesmo tempo em que os municípios gastam muito pouco para a manutenção dessas igrejas declaradas como patrimônio. As municipalidades amarram as mãos da Igreja, mas pouco ajudam para encontrar uma solução.

Fonte: Tempi