A Conferência Episcopal da Bolívia (CEB) criticou o novo Código do Sistema Penal do país e pediu sua revogação, pois é “um código feito à medida dos interesses do poder e não dos do povo” e fere o direito à vida e à liberdade religiosa.

A nova versão do Código, alertam os bispos, “atenta contra direitos humanos e cidadãos fundamentais, é intencionalmente ambíguo na formulação com a qual se cria insegurança jurídica e significaria um retrocesso dos valores democráticos conquistados pela sociedade boliviana”.

Por estas razões, pediram aos legisladores que “se tenha a sabedoria de anulá-lo e se inicie um debate amplo, franco e transparente com todos os setores envolvidos, sem cair uma vez mais na costumeira e fácil acusação de tramas de conspiração e desestabilização contra o Governo”.

A CEB enumerou alguns dos artigos que rechaça, como o 157 que estabelece que o aborto poderá ser realizado até a oitava semana de gestação sempre que houver consentimento da mulher grávida, e também não constituirá infração penal se a mãe for criança ou adolescente.

Criticaram também a anulação dos delitos de bigamia e abandono da mulher grávida, já que se “deixa desprotegida a família”; e o artigo 107 que despenaliza o microtráfico de droga.

Os bispos também denunciaram que o novo Código do Sistema Penal “implementa o delito do recrutamento com fins religiosos realizado por instâncias religiosas, cuja ambiguidade manifesta atenta claramente contra a liberdade religiosa no artigo 88.I.11”. Este artigo é particularmente polêmico, pois dá margem a interpretar como crime as atividades evangelizadoras da Igreja.

“A lista de artigos questionáveis poderia ser muito mais longa”, continua o comunicado, “mas os exemplos citados servem para qualificá-lo como um código feito à medida dos interesses do poder e não dos do povo”.

Para a Conferência Episcopal da Bolívia essas “imposições unilaterais ameaçam a convivência pacífica”, razão pela qual pedem, “no espírito de verdadeira democracia participativa e em consideração da grande importância que reveste o Código do Sistema Penal, tenha-se a sabedoria de anulá-lo”.

“O ano novo que acaba de iniciar está em nossas mãos, não o tornemos um ano de conflitos e de luto, sejamos operadores de paz sobre os alicerces da justiça, da liberdade e da verdade”, conclui o comunicado.

Fonte: ACI

O socialismo é uma doutrina segundo a qual toda e qualquer transcendência deve ser refutada imediatamente como ideológica. A única realidade seria o dado sensorial imediato. Toda e qualquer interpretação deste, o que inclui a filosofia inteirinha, é por seus sustentadores considerada como ideologia opressora, autoritária e silenciadora.

Como, porém, alguém chega à afirmação grotesca de que Jesus Cristo teria sido socialista?

A distorção cognitiva é tão grande que requer a análise de cada termo do julgamento.

O termo “socialista”, aqui, é esvaziado de seu significado real, filosófico e histórico, e forjado retoricamente a partir de ideias difusas, genéricas, inconsistentes, imprecisas, composto pela revolução cultural gramsciana, que tomou os seus aspectos positivamente interpretáveis, quase de modo sentimentalista, para repropor o produto de modo propagandisticamente atraente. E deu certo durante um tempo!

Ninguém sabia bem o que era o socialismo, mas as pessoas acreditavam que era uma coisa boa, que nunca deu certo, embora ninguém saiba muito bem o porquê, muito menos os socialistas, e que todo mundo que era “do bem” devia ser socialista de algum modo…

Neste sentido, Paulo Freire soube traduzir o ideário socialista num discurso tão sentimentalmente apelativo para a consciência cristã que, finalmente, conseguiu aquilo que a filosofia marxista de Karl Korsh pretendia: substituir a consciência do homem pela estrutura mesma do marxismo.

A falsificação, embora grosseira, precisava ir muito mais além, e recriar a própria imagem de Jesus Cristo. Em certo sentido, teria de dar-se a inversão completa do dado bíblico: agora teríamos que criar um Jesus Cristo à imagem e semelhança do “homem novo” socialista. Mas, como fazê-lo?

Havia um modo. Já nos finais do século XIX, a teologia protestante histórico-critica havia criado aquilo que, em lógica, se chama “falácia de falsa dicotomia”: o Cristo da fé versus o Jesus histórico. Aquele seria uma elaboração posterior da comunidade dos crentes, este seria o personagem real, com uma práxis histórica revolucionária.

Com um golpe de retórica, transformaram Cristo em mitologia e, obviamente, como o Jesus histórico seria em si mesmo inacessível, transformaram-no também num mito, num arquétipo que, apesar de inalcançável, seria, pelo menos, manipulável. A tese foi condenada por São Pio X, mas pouca gente deu importância.

A chamada “cristologia de baixo” se tornou o campo fértil para o desmonte do imaginário cristão. Apresentando-se um Jesus “humano demais” conseguiu-se interceptar nele um novo Cristo, desconhecido até então, um Cristo socialista.

Como, porém, esta série de desvios se tornou possível? Um sem-fim de forçações flagrantes, inadequadas, absurdas, que fizeram Cristo caber nos estreitíssimos limites materialistas do socialismo…

Não é possível substituir a fé por uma ideologia sem, antes, desligar a própria fé no coração do homem.

Se apresentassem este Cristo socialista para Agostinho, Tomás de Aquino, Teresa d’Ávila, Inácio de Loyola ou Francisco de Assis, eles desprezariam o simulacro como uma loucura, no máximo, digna de risos. Isso jamais os convenceria!

Por quê? Porque, evidentemente, eles sabiam quem era Cristo. A luz da fé, brilhando em suas almas, dava-lhes a percepção clara de Jesus Cristo vivo, uma Pessoa real, na qual não há dicotomia alguma. É o Verbo Eterno, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade encarnada, e pronto!

Num certo dia, quando Santa Teresa recebeu a primeira vez a graça da oração contemplativa, disse ao seu confessor: “eu vi Jesus Cristo”. Ele perguntou-lhe como era Cristo. Ela não soube explicar. O sacerdote replicou-lhe: “mas como você sabe que era Ele?”. Ela disse: “estou mais certa disso do que da luz do Sol que ora brilha sobre nós”.

Ela conheceu Cristo porque, pela graça, penetrou em outro nível ontológico, percebeu o ser divino como fonte do ser mesmo de todos os seres. Ela viu a Deus pela fé.

O mesmo disse Agostinho: “queres tocar em Cristo, crê que Ele é co-eterno com o Pai e o terás tocado”.

Jesus Cristo jamais poderia ser socialista, não apenas porque isso seria totalmente extemporâneo, mas porque aqui há uma contradição radical de princípios: o socialismo, por princípio, não é sequer uma filosofia, mas um arranjo de ideias usado por um grupo de pessoas que visa somente o poder e, por isso, afirma que nada, na realidade, é alguma coisa, tudo, absolutamente tudo, é apenas dado material-sensorial puro sem significado; ao contrário, Jesus Cristo é a Verdade mesma, o próprio Logos de que está impregnada totalmente a criação, o Ser no ato de ser de todos os seres.

Entre estes dois princípios não há alguma conveniência. Conjugá-los só é possível para quem não sabe direito o que é socialismo, desconhece completamente Jesus Cristo pela fé e está munido de uma retórica fatalmente fajuta.

Pe. Dr. José Eduardo de Oliveira e Silva,
Doutor em Teologia Moral pela PUSC (Roma)

Na última semana, o pedido de Rebeca Mendes Silva Leite solicitando autorização para abortar chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF). Aos 30 anos e com dois filhos, a mulher alegava que tem um salário de R$ 1.250, e passava por sérios problemas financeiro.

Ela gravou um vídeo com um desabafo para a ministra Rosa Weber, relatora da ação pedindo a descriminalização da prática, impetrada pelo PSOL.

Todo o arranjo pareceu ser uma manobra do partido, que tenta junto ao Supremo a descriminalização da interrupção da gestação no Brasil até a 12ª semana. Junto com o pedido de Rebeca, o PSOL pedia também uma liminar, que estenderia os efeitos dessa decisão a todas as grávidas. Ou seja, tentava legalizar o aborto, alterando judicialmente o que é previsto em lei.

Insistindo que os filhos são dependentes dela, o pedido encaminhado ao STF argumenta que Rebeca “jamais cogitaria violar a lei ou arriscar sua própria vida para interromper a gestação”.

O argumento da legenda socialista é que negar a Rebeca o direito ao aborto seria equivalente à tortura, por que imporia tanto sofrimento quanto risco à sua saúde física, mental e social.

Nesta terça (28), Rosa Weber negou todos os pedidos.

Em 8 de março deste ano, Dia Internacional da Mulher, o PSOL encaminhou uma ação em favor da liberação do aborto. A base do seu argumento era um estudo financiado pelo Ministério da Saúde, mostrando que cerca de 330 mil mulheres brasileiras já fizeram aborto.

Além da negativa do STF, tanto a Advocacia-Geral da União (AGU) quanto a Câmara dos Deputados manifestaram-se contra a ação do PSOL, argumentando que o pedido de liberação do aborto até a 12ª semana deve ser negado pelo STF por se tratar de um assunto de competência do Congresso.

O Senado, por sua vez, limitou-se a dizer que o tema está “sendo tradado no Legislativo”. A Procuradoria-Geral da República (PGR) não se manifestou sobre o caso.

Especialistas opinam

Angela Martins, doutora em Filosofia do Direito e professora visitante de Harvard. Em entrevista à Gazeta do Povo explicou que “os autores da ação utilizam uma situação de fragilidade humana para poder continuar questionando o assunto e colocar o STF na parede para uma sentença pontual”.

Ela lembra que “hoje existe a curadoria de nascituros, por meio do Estado e de outras ONGs, nacionais e internacionais, entidades religiosas e outras que recebem essas crianças para adoção; matar nunca é meio de combater qualquer mal e, por outro lado, não seria condizente com a nossa Constituição que protege a vida de modo incondicional”.

Já Regina Beatriz Tavares, Presidente da Associação de Direito de Família e das Sucessões (ADFAS), doutora em Direito Civil pela USP, acredita que a opção do PSOL em tentar abrir uma brecha jurídica no STF é por que o Supremo tem assumido um protagonismo permissivo, que contraria os desejos da maioria da população, acionado por ativistas.

Flávio Henrique Santos, presidente da ADFAS de Pernambuco, acredita que essa manobra do PSOL junto ao STF representa um risco para o resto da população.

“Nesse caso, haveria ainda mais uma pergunta a ser feita: o estado de pobreza e miserabilidade pode autorizar o estado a matar pessoas? Essas deficiências econômicas poderiam, por exemplo, justificar higienizar a sociedade, aprovar genocídios porque as pessoas não conseguem sobreviver? Pelo contrário, não seria mais adequado impulsionar o Estado a colocar ações profundas de mudança econômica para que a sociedade tenha uma vida digna? Está havendo uma grande inversão de valores; uma vida inocente não pode ser ceifada por argumentos tão desprovidos de fundamento”.

O trabalho da Cáritas se reflete em resultados que, no mundo inteiro, falam por si. A entidade católica de caridade e assistência humanitária presta serviços que vão do atendimento médico e da distribuição gratuita de remédios até o resgate de vítimas de tráfico humano, passando por inúmeras iniciativas em áreas como educação, alimentação, acolhimento de órfãos, mães solteiras, refugiados…

Na Venezuela, porém, embora as ações da Cáritas sejam urgentíssimas em face da calamitosa falência e corrupção do Estado, o próprio governo de Nicolás Maduro, guiado por critérios exclusivamente ideológicos, não apenas não colabora com a entidade como ainda dedica esforços contínuos a prejudicar o seu trabalho.

Já noticiamos, há cerca de um ano, a denúncia de que o governo bolivariano teria chegado até mesmo a roubar remédios que a Cáritas distribuiria na Venezuela (confira aqui). Além desses casos extremos, a entidade católica sofre no país constantes sabotagens, que incluem desde bloqueio às suas conexões telefônicas e de internet até o autoritário confisco de seus computadores e outros instrumentos de trabalho cotidiano.

Apesar de tudo isso, a Cáritas é uma das poucas instituições que ainda conseguem apresentar números concretos em um país sem estatísticas confiáveis.

Não publicar estatísticas, de fato, é uma estratégia que o governo da Venezuela vem aplicando há anos. Manter ignorância ou dúvidas sobre o desastre social da nação é uma tentativa de silenciar a verdade que depõe contra o regime. Nesse contexto, os relatórios da Cáritas irritam os donos do poder no país e são um dos motivos que levaram Nicolás Maduro a arremeter contra a entidade em uma recente entrevista que concedeu ao programa Salvados, da rede espanhola La Sexta.

Quando o jornalista Jordi Evole perguntou sobre a fome dos venezuelanos e citou a confiabilidade da Cáritas, o sucessor de Hugo Chávez reagiu acusando a organização de “conspiração”. Textualmente, Nicolás Maduro afirmou:

“Pode ser que a Cáritas seja uma organização confiável na Espanha… Na Venezuela, tudo o que está vinculado à Igreja católica está contaminado, envenenado por uma visão contrarrevolucionária e de conspiração permanente”.

Para qualquer mortal no exterior, estas expressões podem surpreender. Para os venezuelanos, são o “pão nosso de cada dia” – até por falta de outro tipo de pão.

O assunto deixou o próprio Evole, de reputação nada conservadora, atônito e incrédulo. Ele retrucou:

“Mas é a Cáritas! Estamos falando de um organismo bastante confiável!”

O jornalista sabe, afinal de contas, que a Cáritas Espanha não somente conta com o respeito de milhões de espanhóis, inclusive ateus e seguidores de outras religiões, como também consegue enviar dinheiro para projetos humanitários em meio mundo.

Mas Maduro, sem qualquer argumento objetivo para desqualificar a entidade, se limitou à sua visão fanatizada do “nós contra eles”, própria dos regimes autoritários e paranoicos.

O presidente da Venezuela desacreditou igualmente a Transparência Internacional, que mede os índices de corrupção no país, e o Foro Penal Venezuelano, um grupo de competentes e jovens advogados e juristas que se dedicam, como voluntários, a defender os venezuelanos que, por se oporem ao governo muy democrático de Nicolás Maduro, se tornaram presos políticos.

Enquanto países em guerra agradecem à Cáritas pela sua ação humanitária inestimável, não se conhece nenhum governante que ataque dessa maneira, e sem qualquer embasamento real, a reputação e credibilidade da entidade católica. Só Nicolás Maduro.

Aleteia

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Papa Francisco convocou os bispos da Venezuela para uma reunião urgente no Vaticano. A definição da data deverá acontecer nas próximas horas. Enquanto isso, a crise se aprofunda nas ruas de Caracas e em outras cidades.

Em Roma, ninguém confirmou a data, mas os bispos da Venezuela já estão prontos para o encontro que deverá acontecer com urgência, dado o particular interesse do Papa Francisco na busca de soluções para a grave crise que atravessa este país sul-americano. Enquanto prosseguem as manifestações e aumenta a lista de mortos – em sua grande maioria jovens – em mais de 70 dias de protestos contra o presidente Nicolás Maduro, a Santa Sé intensifica seu trabalho em todos os flancos.

Os detalhes da data estão sendo analisados, mas a reunião deve acontecer, segundo revelaram ao Vatican Insider fontes do episcopado venezuelano. Ao mesmo tempo, o novo encontro entre uma comissão da conferência episcopal e funcionários do governo de Maduro, após a primeira reunião mantida dias atrás, é mantido em sigilo.

Desde jornadas de oração com exposição do Santíssimo e assembleias extraordinárias no pleno dos bispos, até diligentes e inéditas ações diplomáticas, mantêm a Igreja ocupada em todos os níveis. Somente nos últimos 15 dias foram recebidos no Vaticano – para falar sobre o caso venezuelano – dirigentes políticos da oposição e alguns cardeais, embora alguns mantenham comunicação através de diferentes meios com a Secretaria de Estado.

Sobre essas reuniões, a Santa Sé não informou oficialmente nem divulgou fotografias. Soube-se delas apenas através das pessoas diretamente interessadas. No dia 31 de maio, Julio Borges, presidente da Assembleia Nacional, e Stalin González, chefe da Fração Parlamentar da Unidade Democrática tiveram um encontro com o secretário de Estado vaticano, Pietro Parolin.

Segundo indicou González no seu perfil do Twitter, a Santa Sé “tem conhecimento de que os protestos no país são organizados por um povo que busca respeito à Constituição”. “Nós confiamos e acreditamos que a Santa Sé quer uma imediata solução para a crise e para os sofrimentos vividos pelos venezuelanos”, acrescentou.

No último fim de semana, o núncio apostólico em Caracas, Aldo Giordano, reiterou a preocupação do Papa e garantiu que ele quer ajudar, o que deve ser um motivo de esperança para os venezuelanos. Disse que o serviço diplomático da Santa Sé é integrado por “operadores de paz” e ratificou a especial proximidade de Francisco, que “acredita profundamente nos milagres”.

Algo similar disse, por sua vez, o bispo Mario Moronta no sábado durante um ato eclesial em San Antonio del Táchira, região situada na fronteira com a Colômbia: “Assim como Pietro Parolin é um homem que não põe empecilhos, mas abre portas para construir pontes onde for necessário, assim é também Aldo Giordano na busca da paz para a Venezuela”.

“Converso com frequência com o núncio apostólico. Mantemos correspondência. E ele o faz também com o Papa Francisco, que está bem informado sobre o que estamos fazendo na Venezuela. Também conhece todas as dificuldades e a permanente ação da Igreja”, acrescentou. Ao confirmar que “o Papa convocou a Conferência Episcopal da Venezuela para uma reunião no Vaticano”, o também vice-presidente do episcopado assinalou que “vivemos momentos difíceis; mas queremos paz, convivência e fraternidade”.

Augurou que será uma ocasião “para atrair bênçãos para a Venezuela” e que se falará também sobre a situação da fronteira, onde diariamente atendem dezenas de milhares de pessoas que atravessam a ponte binacional para mitigar a crise.

Recentemente, o plenário dos bispos emitiu uma contundente exortação pastoral. Nela, reiteraram como “ilegal” e “inconveniente” a convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte convocada pelo presidente Nicolás Maduro.

O comunicado ratificou o chamado ao cumprimento da Constituição e aderiu ao pedido de eleições como uma solução para a crise, após reiterar que a população venezuelana espera o cumprimento das condições aceitas, mas descumpridas: abertura de canal humanitário, eleições gerais, libertação de presos políticos e respeito à Assembleia Nacional.

Posteriormente, uma comissão da Conferência Episcopal presidida por seu presidente, Diego Padrón, recebeu uma equipe de alto nível do governo encabeçada pelo ministro e vice-presidente Elías Jaua, que prometeu levar o pedido pessoalmente a Maduro.

Embora se tenha anunciado a possibilidade de uma segunda reunião em circunstâncias diferentes, sem a presença das câmeras e dos “excessos de protocolo”, mantém-se sigilo a este respeito; assim como sobre a abertura ou não do canal humanitário através da Cáritas, ao que o governo ainda reage com resistências.

Neste contexto, as marchas continuam e aumenta a repressão à espera de um desenlace que freie a escalada de mortes nas ruas venezuelanas. Enquanto isso, a procuradora-geral da República, Luisa Ortega Díaz, ratificou sua posição contra a Constituinte, considerada pelos bispos como “desnecessária” e pelo Parlamento como um “golpe de Estado”, uma “evidência da ruptura da ordem constitucional na Venezuela”.

Vatican Insider

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O governo da Nicarágua, presidido por Daniel Ortega, demorou pelo menos 24 horas para responder, por meio do magistrado Francisco Rosales Argüello, presidente da Sala Constitucional da Suprema Corte da Justiça, ao comunicado da Conferência Episcopal da Nicarágua, no qual esta pede que as eleições gerais de novembro se realizem em um clima de transparência, competitividade e pluralismo ideológico. Os bispos também pediram que as eleições tivessem a participação de observadores nacionais e internacionais.

Em uma entrevista coletiva, o magistrado Rosales, acompanhado dos demais magistrados da Sala Constitucional atacou a cúpula empresarial, a Igreja e em especial o bispo auxiliar de Manágua, o carmelita descalço Silvio José Báez, a quem acusou de ser um “ativista político”.

Na semana passada, a Sala Constitucional esteve na mira da opinião pública do país devido a uma polêmica decisão do tribunal que despojou a oposição nicaraguense, aglutinada na denominada Coalizão Nacional pela Democracia(CND), da representação legal da cadeira 13, para entregá-la a um grupo político alheio.

Esta decisão foi criticada dentro do país pelo empresariado, por políticos de diferentes tendências ideológicas que integram a CND e por vários bispos, entre eles o cardeal Leopoldo Brenes, arcebispo de Manágua. Brenes disse ao jornal La Prensa de Manágua que a decisão da Suprema Corte de Justiça repercutiria negativamente nas eleições.

Em tom irado e chateado, Rosales acusou os bispos da Nicarágua de fazerem proselitismo político. O funcionário do Poder Judiciário da Nicarágua, após criticar a Igreja, demonstrou seus conhecimentos em história e direito para dizer que a Igreja não “unge” os governantes em um Estado moderno.

“Quando o Papa perde o poder temporal e surge o Estado moderno desaparece a concepção teológica do poder e o Papa deixa de ungir o governante. O Estado moderno e a República põem fim à monarquia e abrem passagem a uma sociedade moderna como a que vivemos. Não é Sua Santidade nem o cardeal nem ninguém que vai ungir os governantes de um país dentro do Estado moderno atual”, disse o magistrado Francisco Rosales entre gesticulações e irritação.

Rosales foi além e continuou fazendo comentários – em tom elevado – contra a Igreja, que acusou de ser a instituição “mais antidemocrática” do mundo. Também criticou o bispo auxiliar de Manágua, dom Silvio José Báez. “O que faz (monsenhor) Silvio Báez quando sai dando declarações sobre isto (a decisão do CSJ)? Faz atividade política. Mas não vou entrar em uma discussão com a Igreja. Mas se há alguém mais antidemocrático no mundo por excelência, é a Igreja católica”, disse o magistrado Rosales, visivelmente irritado.

Para muitos setores do país, as palavras virulentas do magistrado Francisco Rosales são a resposta do Executivo de Ortega, que, ao não poder reagir diretamente ao pronunciamento da Igreja, o fez por intermédio de seus operadores políticos assentados em outro poder do Estado.

Se o governo de Daniel Ortega (que completará 10 anos no poder em 2017) reagiu com irritação ao pronunciamento da Igreja a favor da democracia, outros setores e personalidades apoiaram a instituição e monsenhor Báez diante dos ataques do magistrado Francisco Rosales.

“Não vale a pena falar tanto de Deus e ignorar a sua Igreja. Clara posição da Conferência Episcopal; merece respeito e atenção”, disse pelo Twitter a escritora e poetisa Gioconda Belli.

“Francisco Rosales acusa os bispos de serem ativistas políticos. Isso não é problema. Que ele, sendo magistrado, o seja, isso sim é grave”, apontou nesse mesmo sentido a ex-guerrilheira sandinista Dora María Téllez, que agora faz parte da oposição a Ortega e é membro da CND.

O jornalista Luis Sánchez Sancho, colunista do jornal La Prensa, assinalou em um artigo que “Os bispos, como cristãos que são, estão acostumados a esses delírios do poder. Não vão, por isso, renunciar à sua missão pastoral de proclamar a verdade”.

Este acontecimento é o último dos conflitos entre a Igreja e o Governo de Ortega em 10 anos, entre outras razões, pelos excessos de Ortega no poder e o empenho da Conferência Episcopal da Nicarágua por manter-se firme na defesa da democracia, dos direitos humanos e da denúncia profética.

Fonte: Religión Digital

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O papa Francisco “segue com atenção” a situação na Venezuela e escreveu ao chefe de Estado Nicolas Maduro, disse  o porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi. Lombardi escusou-se a divulgar o conteúdo da carta de Francisco para Maduro, mas afirmou que o papa escreveu sobre “a situação do país”.

A Venezuela é já há algum tempo uma das preocupações do Vaticano e do papa, que se referiu ao país, em várias ocasiões, no passado. Lombardi lembrou uma das últimas intervenções de Jorge Bergoglio, no Domingo de Páscoa, antes da benção “Urbi et Orbi”, apelou ao diálogo na Venezuela perante “as difíceis condições em que vive a população”.

Francisco pediu a quem “tem nas mãos o destino do país” para “trabalhar a favor do bem comum, procurando espaços de diálogo e de colaboração entre todos”. O papa defendeu a “cultura do encontro, a justiça e o respeito recíproco” para “garantir o bem-estar espiritual e material” dos venezuelanos.

O Vaticano, que desempenhou um papel fundamental no restabelecimento das relações entre os governos dos Estados Unidos e Cuba, também quer contribuir para a paz na Venezuela, tal como afirmou em abril passado o núncio no país, monsenhor Aldo Giordano. “Estou aqui para comunicar ao país o afeto, a proximidade do papa Francisco, o papa é um protagonista da paz no mundo e estamos aqui para colaborar para a paz no nosso querido país (…) a nunciatura está aqui para contribuir para o bem do povo da Venezuela”, disse, na altura, Giordano, de acordo com um comunicado.

Fonte: Correio da Manhã

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O presidente Evo Morales, pouco antes de voltar para a Bolívia atacou os bispos de seu país. O presidente teve uma reunião na sexta-feira com o Papa Francisco, e participou na Pontifícia Academia das Ciências Sociais em um congresso de dois dias sobre a encíclica Centesimus Annus, publicada no centenário da Rerum Novarum.

A Agência Boliviana de Informação (ABI) escreve: “O presidente Evo Morales considerou no sábado que os líderes da Igreja Católica na Bolívia que não entendem a mensagem do Papa Francisco, de ficar ao lado dos pobres, deveriam criar o seu partido político pró-capitalista e ser oposição ao Governo do Movimento Al Socialismo”.

A notícia da ABI que destaca como o lugar da sua redação “Roma-La Paz” cita o presidente: “Em algumas missas alguns padres que dizem ‘que satanás está no Palácio’, então quem é o satanás, Evo”, manifestou ao lamentar que alguns líderes católicos assumiram uma postura de direita e de oposição ao Governo do movimento indígena campesino, trabalhadores e organizações sociais’”.

“No entanto, Morales, o primeiro presidente indígena da Bolívia, disse estar fortalecido pela mensagem do Papa Francisco de lutar contra a pobreza e a injustiça. O pontífice reuniu-se com ele na véspera e lhe disse: “Evo, sempre com o povo”, escreve a agência do governo.

A audiência papal, na qual Morales deu três livros sobre a coca ao Papa Francisco, foi considerada por muitos analistas como “fria” em relação às anteriores.

O atrito entre o governo Morales e a Igreja aumentou após os bispos do país andino publicarem, no dia 1 de Abril, um comunicado intitulado: “Igreja católica pede para abrir debate sobre tráfico de droga e toxicodependência que prejudica a sociedade boliviana”.

A Igreja da Bolívia manifestou assim a sua preocupação pela situação negativa que gera a produção de cocaína e o consumo da mesma no país, pede participar na redenção das pessoas que caíram na dependência e fazer com que as instituições fortaleçam o seu compromisso para enfrentar este problema.

“Ser produtor nos mostra como um dos principais elos da cadeia do tráfico de drogas. Ser país de trânsito fala muito mal da capacidade de interdição, até mesmo pode ser interpretado como cumplicidade de nossas instituições. Ser um país consumidor é causa de graves problemas relacionados com a violência, a corrupção e o abandono dos valores culturais”.

Poucos dias após a publicação do documento dos bispos, no 7 de abril, durante a sessão inaugural da 51ª Assembleia dos Bispos da Bolívia, o padre Christopher Washington, representante da Nunciatura Apostólica transmitiu uma mensagem de encorajamento: “Queridos e Exmos irmãos, o Papa nos disse que está seguro de que a Bolívia e a sua Igreja chegarão a tempo com o encontro com eles mesmo, com a história, com Deus”.

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O colégio Reina de la Paz, na localidade de Brunete, em Madri (Espanha), sofreu uma série de atos de vandalismo. Durante a madrugada do último sábado, 9, desconhecidos realizaram pichações ofensivas contra a fé.

A direção do colégio enviou um comunicado no qual assegura que atos como este “nos levam a pensar que hoje, mais do que nunca, vale a pena dedicar-se à causa de Cristo”.

“Denunciamos estes acontecimentos e, a partir de agora, trabalharemos ainda mais em impulsionar o colégio, pois vemos a necessidade de evitar que estes tipos de atos ocorram novamente e a melhor forma é promover a educação enraizada na Verdade, Jesus Cristo”, afirmam.

O Colégio Reina da Paz “promove a educação em virtudes, virtudes que orientam nossa personalidade e nossos atos para o bem” e indicam que “esse é o fim da pessoa: fazer sempre o bem, apesar das circunstâncias”.

Também agradeceram o apoio do prefeito da cidade de Brunete, Borja Gutiérrez Iglesias, o primeiro a denunciar publicamente os fatos nas redes sociais, e um grande número de vizinhos que manifestaram seu apoio e afeto.

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O Partido espanhol ‘Podemos’ pediu à Justiça de Aragão para cancelar o registro por parte da Igreja Católica da propriedade da antiga Catedral de Jaca, construída entre 1077 e 1139 e uma pérola da arquitetura românica.

O bispo da cidade regularizou a posse da Catedral em junho passado, com base em uma lei adotada em 1998 pelo governo espanhol de centro-direita do então Premier José Maria Aznar. “Podemos”, que apoiou a eleição do novo governo regional socialista de Aragão, pede que o ato de propriedade seja anulado e que a Catedral românica torne-se um bem publico

“Nos tiraram toda uma catedral com todos os bens internos”, disse o Secretário do ‘Podemos’ em Aragão, Pablo Ecenique, citado pela Publico online. O Partido ‘anti-casta’ propõe que o governo regional “dê início aos procedimentos necessários para anular o registro da Catedral por parte do Bispado de Jaca, e exija que seja declarada bem de propriedade pública para os cidadãos de aragoneses”.

“Podemos” pede, além disto, que sejam “restituídos” outros 30 cemitérios e igrejas registados como propriedades da Igreja entre 1998 e 2015 em Aragão. A Catedral de San Pedro Jaca é considerada um dos templos mais importantes da primeira fase do românico espanhol. A sua construção, a partir de 1077 pelo rei Sancho Ramirez, está diretamente ligada à própria fundação da cidade e à concessão de privilégios que lhe permitiram crescer e desenvolver-se como um próspero centro comercial na rota do Caminho de Santiago.

A maestria com que foi construído este templo harmonioso, o requinte com que foram esculpidos os capitéis das colunas das duas portas, além dos entalhes na porta principal, demonstram que foram obras de autênticos mestres.

O edifício atual é o resultado de sucessivas reformas, ampliações e destruições. Uma visita ao tempo poderia representar uma viagem pela história e pela evolução da arte, desde as primeiras manifestações do românico até as expressões artísticas do final do século XVIII. Tudo está concentrado como se fosse um livro aberto na Catedral de Jaca. (JE/Agências)

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A crise econômica na Venezuela golpeia novamente à Igreja Católica: a produção de hóstias caiu cerca de 60 por cento durante o último mês, afetando três estados do país sul-americano.

Giovanni Luisio Mass, encarregado da fabricação das hóstias por parte da Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo do Templo de Jerusalém, no estado de Anzoátegui, explicou aos meios locais que há um mês aumentou a escassez da farinha de trigo sem fermento, a qual necessitam para fabricar as hóstias.

Segundo informou a TV Caracol, a produção mensal de hóstias diminuiu de 80 mil a 30 mil. Esta queda, indicou Mass, afetou todos os templos dos três estados venezuelanos. Acrescentou que somente podem enviar 1500 hóstias às Igrejas do norte do país, pois não têm a farinha suficiente para fabricar as 8000 que estavam acostumados a enviar.

Do mesmo modo, várias Igrejas junto às comunidades se organizaram para conseguir a farinha de trigo necessária para as hóstias.

A grave crise econômica

A Venezuela enfrenta um desabastecimento que vai desde alimentos, papel higiênico e remédios a peças para automóveis, chocolate, petróleo e ferro de passar roupa. Conforme expressou o Banco Central da Venezuela, no ano passado o preço dos alimentos subiu cerca de 92 por cento e durante os últimos dez anos a inflação subiu 1250 por cento.

Segundo o jornal colombiano ‘El Tiempo’ e ‘GDA’ (Grupo de Jornais da América), desde o ano 2003 o Governo elaborou uma lista de 165 produtos cujo preço é regulado pelas autoridades: azeite de cozinha, sabão, leite, farinha, carnes, cereais, papel higiênico, produtos de limpeza, detergente, fraldas, pasta de dente, açúcar, entre outros.

Esta medida ocasionou uma diferença entre os custos de produção e provocou um grande aumento nos preços, levando várias empresas à falência.

O Governo também estabeleceu políticas para controlar as vendas, como por exemplo a distribuição de ingressos para entrar por turnos aos supermercados e colocaram sensores de impressões digitais nas lojas, a fim de evitar que “ultrapassem” na quantidade de produtos adquiridos.

Segundo informou a BBC, diariamente os venezuelanos são obrigados a enfrentar grandes filas nos supermercados, mas muitas vezes não encontram os produtos de que necessitam e vão a outro e novamente devem enfrentar uma enorme fila. No melhor dos casos, quando encontram o produto que querem, o preço normalmente está muito elevado.

Em média, um venezuelano demora cinco horas semanais para fazer compras.

A BBC cita a pesquisa venezuelana Datanálisis, a qual afirma que em cerca de 80 por cento dos supermercados existe uma escassez de produtos básicos. Por isso, o mercado negro cresceu ou o “bachaqueo” – lugar no qual os produtos custam quatro vezes mais caros –, e 65 por cento das pessoas que estão nas filas dos supermercados são revendedores.

   Francis
Em sua visita à Bolívia o Papa Francisco recebeu do presidente Evo Morales uma cruz em forma de foice e martelo, símbolo do comunismo, tendo nela Jesus Crucificado, símbolo do cristianismo. Era uma réplica da escultura criada pelo jesuíta espanhol Padre Luis Espinal, ligado à Teologia da Libertação, como forma de diálogo ou mesmo simbiose entre o comunismo e o catolicismo.

Ao ver o rosto constrangido do Papa, lembrei-me do constrangimento de Dom Antônio Santos Cabral, arcebispo de Belo Horizonte, ao ser convidado por Juscelino Kubicheck para benzer a Igreja da Pampulha, em forma de foice e martelo. O arcebispo recusou, dizendo que a obra modernista de Oscar Niemeyer ia de encontro ao aceitável pela Igreja.

Deixando de lado a análise da impertinência do insólito presente de Evo Morales, consideremos apenas o significado de tal crucifixo em forma de foice e martelo.

Na entrevista no avião, o Papa explicou que o Pe. Luis Espinal pertencia à linha da Teologia da Libertação que utilizava a análise marxista da realidade. Segundo o Papa, Espinal era um entusiasta dessa análise da realidade marxista e também da teologia usando o marxismo. O Papa lembrou que, nesse tempo, o Superior Geral da Companhia de Jesus mandou uma carta a toda a Companhia sobre a análise marxista da teologia, dizendo que isso não podia, não era justo, pois são coisas diferentes. E o Papa Bergoglio lembra os documentos da Congregação para a Doutrina da Fé sobre o assunto (CDF Libertatis nuntius e Libertatis conscientia).

Alguns tentaram justificar a amálgama entre marxismo e cristianismo, alegando que se poderia “batizar Marx” assim como Santo Tomás de Aquino “batizou” Aristóteles. Mas esses se esquecem de que Aristóteles era pagão, tinha uma filosofia natural, mas não era anticristão, ao passo que Marx, sua filosofia, sociologia, materialismo dialético, negação da propriedade, etc. são visceralmente antinaturais e anticristãos. Impossível ser batizado! Coisas irreconciliáveis!

O documento citado pelo Papa Francisco relembra a advertência do Papa Paulo VI: “Seria ilusório e perigoso o esquecimento do íntimo vínculo que os une de forma radical, aceitar os elementos da análise marxista sem reconhecer suas relações com a ideologia, entrar na prática da luta de classes e de sua interpretação marxista deixando de perceber o tipo de sociedade totalitária que conduz esse processo” (Octogesima adveniens, 34).

“Essa concepção totalizante (de Marx) impõe sua lógica e leva ‘as teologias da libertação’ a aceitar um conjunto de posições incompatíveis com a visão cristã do homem… A nova hermenêutica, inserida nas ‘teologias da libertação’ conduz a uma releitura essencialmente política da Escritura… A luta de classes como caminho para uma sociedade sem classes é um mito que impede as reformas e agrava a miséria e as injustiças. Aqueles que se deixam fascinar por este mito deveriam refletir sobre as experiências históricas amargas às quais ele conduziu…” (Libertatis nuntius).

Dom Fernando Rifan
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O presidente da Bolívia, Evo Morales, é um confesso admirador do papa Francisco, mas, por razões políticas, sempre bateu de frente com a cúpula católica boliviana: embora se declare católico de base, foi o responsável por revitalizar o ancestral culto politeísta indígena andino, que também pratica.

Desde que chegou ao poder em 2006, Morales polemizou e foi ofensivo com a hierarquia católica local, à qual acusou de direitista, aliada de oligarquias, de medieval, de agir como a inquisição e inclusive de estar vinculada a roubos nos templos.

O confronto aberto foi motivado pelo olhar crítico com o qual os bispos analisaram problemas como o crescimento do narcotráfico, o autoritarismo e a perseguição judicial a opositores.

Toda vez que a disputa se aqueceu, o governo alegou que os bispos deveriam se preocupar com a “salvação das almas”, e não influir na política, ao que a hierarquia católica respondeu ressaltando que não deixará de dizer o que pensa sobre o país.

Mas, apesar destas tensões, o anúncio da visita do papa à Bolívia entre os dias 8 e 10 de julho permitiu que o governo dialogasse pela primeira vez em muito tempo com a cúpula católica para coordenar a recepção, mas sem tocar em temas controvertidos.

Trata-se da primeira aproximação em cinco anos entre a igreja e o governo, segundo destacou o secretário-geral adjunto da Conferência Episcopal Boliviana, o sacerdote espanhol José Fuentes, coordenador da visita papal.

O sacerdote disse que os contatos com o governo se desenvolveram de forma muito positiva e relevou seu desejo de que seja “uma real reconciliação” acompanhada de uma renovação para ambas as partes.

No entanto, as tensões aumentaram recentemente devido ao confronto do governo com o sacerdote espanhol Mateo Bautista, a quem Morales e seus ministros desqualificaram por pedir maior orçamento para a saúde por meio de mobilizações.

Morales, que é indígena aimara, também reprova habitualmente que a Igreja Católica tenha acompanhado com a cruz “a dominação e submissão” de índios do continente durante a conquista espanhola.

Apesar de sua visão crítica para com a igreja de Roma, o governante visitou o papa Bento XVI em 2010 e se reuniu no Vaticano em 2013 e 2014 com Francisco, com quem também se encontrou no Brasil durante a Jornada Mundial da Juventude.

Para Bento XVI, Morales pediu a abolição do celibato e a aprovação do acesso da mulher ao sacerdócio, enquanto sobre Francisco opinou que é um papa “comprometido com seu povo, com pensamento revolucionário”.

Antes do governo Morales, a Igreja Católica exercia um papel central como mediadora no conflito político e social do país, mas agora perdeu influência política perante o Estado.

Em 2009, Morales promulgou a Constituição de “refundação” da Bolívia, na qual o catolicismo deixou de ser o culto oficial do país e se declarou que o Estado é “independente da religião”, mas garante a liberdade de todas as crenças.

Segundo defendeu o líder indígena, “o Estado laico é a melhor garantia da democracia religiosa”.

Uma recente pesquisa publicada na imprensa local assinalou que 74% dos bolivianos são católicos e 22% cristãos não católicos.

No entanto, na Bolívia também há uma forte presença dos cultos ancestrais pré-hispânicos misturados com o catolicismo, devido à importância demográfica das culturas indígenas.

À primeira vista, parece contraditório que Morales se declare católico e pratique os rituais que reconhecem a Terra, o Sol e as montanhas como deidades, e participe de cerimônias de sacrifícios de lhamas, que são frequentes na área rural boliviana.

No entanto, Morales e os bolivianos da região andina em geral têm “incorporadas de forma muito natural as práticas religiosas antigas de conjunto de raízes indígena e o catolicismo”, opinou a pesquisadora em temas culturais, Carmen Beatriz Loza.

“Pareceria esquizofrênico passar de uma prática à outra, mas não é contraditório porque ao longo de 500 anos as duas práticas foram se mesclando”, declarou Loza à Efe.

O governo organiza regularmente atos oficiais religiosos com representantes de vários cultos, entre eles os dedicados à Pachamama (Mãe Terra), muitos deles liderados por Morales e dos quais nem sempre participou a Igreja Católica.

Fonte: Terra