O cardeal Oswald Gracias, membro do Conselho dos Cardeais encarregado de reformar a burocracia do Vaticano, diz que, acima de tudo, é necessária uma mudança de mentalidade, que levará mais tempo do que simplesmente a reforma das estruturas do Vaticano, mas, segundo ele, o grupo está “bastante confiante de que isso acontecerá, pois a liderança do papa tem sido muito eficaz”.

Quase quatro anos depois que o papa criou o Conselho de Cardeais Conselheiros para ajudá-lo na tarefa de reformar a Cúria Romana, um membro do grupo disse que o trabalho está quase concluído e talvez o grupo precise de apenas mais algumas reuniões para concluir o que pretende fazer.

O processo contínuo de reforma “está sendo feito em vários estágios de desenvolvimento, e espero que cheguemos a conclusões sobre todas essas questões em breve”, disse o cardeal Oswald Gracias, de Bombay, no dia 14 de setembro.
“Serão necessárias apenas mais duas ou mais três reuniões”, disse ele, acrescentando que “talvez até junho veremos o fim do túnel”.

Gracias também é presidente da Conferência Episcopal da Ásia e, em 2013, foi escolhido pelo papa junto com outros oito prelados de todo o mundo para aconselhá-lo em questões de governança e reforma da Igreja.

Ele uma longa entrevista depois que o conselho – também chamado de “C9” – concluiu sua última rodada de reuniões na semana passada.

Em relação à reforma, Gracias disse que “não haverá mudanças muito significativas; trata-se da governança da Igreja, não podemos simplesmente mudar tudo de uma hora para outra”. Será “uma mudança gradual, uma mudança de mentalidade, uma mudança de abordagem, reestruturando um pouco os departamentos para que estejam mais logicamente adequados às necessidades atuais”.

Ele disse que um dos principais objetivos do C9 é implementar a visão do Concílio Vaticano II, especificamente em relação à importância do papel dos leigos e das mulheres, incorporando maior sinodalidade e colegialidade às estruturas da Igreja.
Desde o início, o Papa Francisco “sabia muito bem o que queria que o grupo fizesse”, afirmou o cardeal. “Ele não hesitou, é um bom líder. Tinha uma visão clara.”

Gracias admitiu que, no início, não sabia se estavam no rumo certo e começaram a se preocupar com o que as pessoas de fora poderiam dizer, já que muitos frutos das reuniões não eram e provavelmente não serão imediatamente visíveis. Ele disse que também ficou angustiado com suas dúvidas sobre o ritmo do grupo e achava que as coisas estavam “muito lentas”.

“Confesso que no início cheguei a me questionar: ‘estamos no rumo certo?’ Mas agora vejo que sim”, afirmou, explicando que o discurso de Natal de Francisco à Cúria Romana no ano passado foi um ponto de virada para ele.

Acima de tudo, é necessária uma mudança de mentalidade, que levará mais tempo do que simplesmente a reforma das estruturas do Vaticano, mas, segundo ele, o grupo está “bastante confiante de que isso acontecerá, pois a liderança do papa tem sido muito eficaz”.

Além da reforma da Cúria que está em andamento, Gracias também falou sobre a recente libertação do sacerdote indiano Tom Uzhunnalil 18 meses depois de ser sequestrado no Iêmen. Também falou sobre a próxima viagem do papa a Myanmar e Bangladesh e sobre quando uma possível viagem papal à Índia pode ocorrer.

O senhor viu o Pe. Tom e vocês estavam nesse encontro com o papa Francisco. Como ele está?

Tive uma agradável surpresa com a calma com que saiu, porque ele não sabia, a meu ver, que estava sendo libertado. Ele disse ‘sei que as pessoas oraram por mim, agradeço às pessoas que oraram por mim’, mas dizia: “Jesus é maravilhoso, Jesus é maravilhoso”. E disse ao Santo Padre. Foi um momento muito emocionante. Assim que o Santo Padre chegou, ele se colocou diante dele, beijou seus pés e disse: “Obrigado, obrigado, obrigado. Obrigado, Santo Padre, mas só quero dar uma mensagem: Jesus Cristo é maravilhoso. Jesus estava comigo, eu sentia a presença de Deus comigo’… E cheguei a pensar que havia lágrimas nos olhos do Santo Padre. Quando Tom continuou falando sobre Jesus, o que disse ao Santo Padre foi: por favor, fale às pessoas que Jesus é maravilhoso!

Eu diria que ele saiu com uma experiência da presença do Senhor e acho que naquele momento havia lágrimas nos olhos do Santo Padre… Encontrei o Santo Padre naquela tarde e ele disse o quanto estava impressionado. Também ficou surpreso com sua calma, com Tom… É um homem cuja fé pode ter se fortalecido depois dessa experiência, não é amargo por nada. Particularmente por seus algozes, demonstrava muita compreensão.

Foi uma experiência especial, muito edificante. Ele precisa descansar, certamente. Fará exames e ficará com seus superiores, mas um dia vai voltar (para a Índia). Graças a Deus, realmente. Foi um momento de ansiedade para toda a Igreja na Índia. Nós não sabíamos o que estava acontecendo, mas entendemos que colocar mais pressão, na perspectiva do governo, poderia dificultar as coisas para ele. (Mas) não está tão estressado como se possa imaginar. Fisicamente fraco, mas espiritualmente forte. Quando encontrou o Santo Padre, ele estava chorando. E o Santo Padre ficou muito emocionado, beijou sua mão e o abençoou… Sentiu o conforto e a força de toda a Igreja. Como ele disse, nunca se sentiu abandonado, seja pela Igreja ou por Deus.

Continuou dizendo: “Jesus é maravilhoso”. Saiu espiritualmente fortalecido nesse sentido. Foi um grande alívio, uma grande benção, e o Santo Padre ficou muito feliz. Acho que o governo de Omã fez um trabalho esplêndido de assistência… Levaram até um salesiano para acompanhá-lo no último avião. Foi muito humano da parte deles, havia o conforto de um companheiro espiritual.

Que papel a Santa Sé desempenhou na sua libertação?

Eles apenas ofereceram ajuda, mantiveram a questão em aberto e continuaram compartilhando. A Santa Sé foi informada de que ele estava vivo e se comunicou com o governo indiano. No Iêmen, a situação política é muito frágil, e não se sabe quem está comandando a situação. Há bombardeios e todos os tipos de grupos estão assumindo o controle, então sempre havia o risco, acredito, de talvez prejudicá-lo ao tentar libertá-lo.

Mas sempre estiveram interessados, mantiveram-no vivo. Cada vez que eu vinha a Roma, alguém da Secretaria de Estado me atualizava. O Vaticano se certificou de que havia interesse. A Santa Sé compartilhava toda informação que obtivesse com o governo indiano, o governo omanense, isso era bom.

É interessante que ainda não se conhece o responsável…

Não é um ataque terrorista, é um sequestro. Eles não se vangloriariam por levá-lo. Isso não apareceu. Fiquei com ele durante cerca de meia hora diante do Santo Padre, e falou sem parar. Em momento algum tentei fazer perguntas, porque acho que isso seria estressante para ele. Ele tem que compartilhar… e quer compartilhar, então eu imagino que sinta-se mais leve. Deve precisar descansar muito, fisicamente e também mentalmente, tem que tirar isso da mente. Ele não saiu de lá totalmente destruído. Eu tinha medo disso, que saísse destruído, mas não… É um momento de graça, um momento de fé, uma experiência especial.

O ponto alto foi quando disse ao Santo Padre: “Diga a todos que Jesus é maravilhoso, Jesus é maravilhoso”. Apenas três palavras simples. Foi o resumo de toda a experiência, o que ele quis dizer e por que quis dizer isso… não se sentiu abandonado, imagino. Espero que se recupere. Imagino que ele precisa de alguns meses realmente, ou talvez mais, para realmente descansar. Precisa de tempo para estar com a família também, em circunstâncias normais… Não tenho certeza, mas tenho a sensação de que o governo de Omã decidiu trazê-lo para Roma porque queria entregá-lo ao Vaticano.

Acho que foi melhor para ele, porque acho que se tivesse ido para a Índia, todos ficariam à sua volta. Só precisa de espaço para se recuperar e para que os médicos o examinem. Fisicamente, para ver se está bem, e psicologicamente também, para se investigar. Acho que foi uma decisão sábia, mas acho que partiu mais do governo de Omã.

Não quero tomar muito o seu tempo, mas queria fazer algumas perguntas sobre o processo da reforma e sobre o C9. As últimas reuniões acabaram recentemente…

Sim, terminamos a última rodada, a 21ª reunião. Nem acredito que foram 21. Não me dei por conta que já eram 21. Acho que estamos trabalhando muito. O bom é que somos um grupo coeso agora. No começo, éramos [gestos]. Agora nos conhecemos bem e trabalhamos juntos e, claro, tentamos implementar a visão do Santo Padre sobre a Igreja. Além disso, uma das coisas que sempre dizemos, e que é muito clara, é que antes do conclave os cardeais haviam falado muito sobre sua visão da Igreja, e nós temos os textos do que cada um disse, e todos os cardeais expressaram sua visão. Tiramos daí, e o Santo Padre tirou daí sua própria visão.

Até agora, focamos em… é para um duplo propósito que o grupo foi formado: um é para ajudá-lo na governança da Igreja universal e o segundo é rever o Pastor Bonus, o documento papal de São João Paulo II que estabelece a Cúria e descreve os cargos e a visão de cada dicastério. É para revitalizar, imagino que seja isso que o Papa Francisco quer que façamos, e desenvolver uma nova mentalidade que também aplique o Vaticano II; como tornar a Cúria Romana mais eficaz a serviço do Santo Padre, as Igrejas locais, as Igrejas nas dioceses, como fazer a Cúria Romana ajudar as Igrejas locais a serem mais eficazes pastoralmente, para que possam ser mais vibrantes nesse sentido. Então acho que o Santo Padre está satisfeito com o que está acontecendo. Também estou satisfeito com a maneira como estamos caminhando.

Nos encontramos em três dias e trabalhamos intensamente, a partir das 9:00 do primeiro dia às 7:00 (da noite) no último, tentando chegar a uma conclusão sobre tudo, trabalhamos muito. Mas está chegando ao fim. Acho que precisaremos de mais duas ou três reuniões para poder chegar a conclusões sobre os dicastérios. Depois, é claro, o Santo Padre estudará o assunto e decidirá. Então estamos indo bem. O retorno que recebemos é que o Santo Padre está feliz, satisfeito e, às vezes, usa as mensagens de Natal para dar uma indicação, fazer um boletim do progresso, por isso a mensagem de Natal desse ano (2016). Não me dei por conta disso, mas quando li, percebi que era praticamente um boletim de progresso sobre o que o grupo tem feito. Espero que isso gere um impacto.

Não haverá mudanças muito significativas; trata-se da governança da Igreja, não podemos simplesmente mudar tudo de uma hora para outra. É uma mudança gradual, uma mudança de mentalidade, uma mudança de abordagem, reestruturando um pouco os departamentos para que estejam mais logicamente adequados às necessidades atuais e correspondam à visão do Concílio Vaticano II: a importância dos leigos, da sinodalidade, da colegialidade, depois a preocupação com as mulheres, envolver mais mulheres, dar valor às igrejas locais.

Também refletir sobre o papel das conferências episcopais nisso tudo, porque essa é outra grande questão. Tudo isso está sendo feito em vários estágios de desenvolvimento e espero que cheguemos a conclusões sobre todas essas questões em breve. Serão necessárias mais duas ou três reuniões. Penso que levará pelo menos até fevereiro, junho … Até junho, talvez veremos o fim do túnel.

É um processo longo…

Tem sido um processo muito longo, realmente, mas é bom. Participei de outros grupos desse tipo, em que, no começo, não sabemos o que estamos fazendo, por onde começar, e depois se encontra o caminho e a visão. Mas aqui estava muito claro, o Santo Padre tinha muito claro o que ele queria que este grupo fizesse… não sabíamos bem por que fomos chamados e o que ele queria fazer, mas gradualmente compreendemos o que estava em sua mente. “Ele não hesitou, é um bom líder. Tinha uma visão clara e seu povo estava com ele”.

Está lá conosco, realmente não marca outros compromissos. Ele está lá, exceto na audiência geral. Há emergências, claro, desta vez tinha muita coisa acontecendo, mas ele participa e escuta a discussão e, de vez em quando, levanta a mão quando quer falar. É muito estranho, mas agora estamos acostumados, o papa levantando a mão (risos)… É muito valioso, ele participa de toda a discussão, completamente inserido. Claro, ele não fala muito, porque acho que nos sentiríamos inibidos e tentaríamos ir pelo mesmo caminho. É na medida certa e no momento certo.

Bem, ele é muito a favor do processo, não é? Não quer interromper o processo que está acontecendo…

Com certeza! E fica feliz. Todo mundo diz o que pensa. Nós nos conhecemos muito bem e sabemos que o Santo Padre quer que falemos o que pensamos, então ninguém fica (excessivamente) alerta sobre o fato de o papa estar conosco, não… mas está indo bem, acho que está indo bem. “Confesso que no início cheguei a me questionar: ‘estamos no rumo certo?’ Mas agora vejo que sim.

Ele é um homem de fé profunda, o papa. Lembro de ter conversado com ele sobre o sínodo, estava compartilhando com ele minhas ansiedades sobre se estava indo bem, e ele me disse: ‘Cardeal, não estou preocupado’. Disse isso. Eu disse que estava preocupado, não sabia que rumo estávamos tomando, se conseguiríamos expressar sua visão em dois sínodos. (Ele disse) ‘Eu não estou preocupado. Vai dar certo.’ Ele sabe o que quer, é um bom jesuíta, e os jesuítas sabem exatamente o que querem.

Em que ponto você teve certeza de que as coisas estavam indo no rumo certo?

Depois de cerca de sete, oito ou nove reuniões, eu comecei a me questionar. Minha preocupação era ‘o que o mundo vai dizer?’. Todo mundo sabe que estamos tendo essas reuniões, mas somos muito limitados no que dizemos serem os frutos. O que esses oito homens – nove, nos tornamos nove depois que o Secretário (do Estado) passou a fazer parte também – nove cardeais estão vindo discutir aqui, o que está acontecendo? Não estão aqui apenas para debater. Estava preocupado que os frutos não fossem vistos, e o processo era muito lento.

Mas então, justamente depois de ouvir o discurso do Santo Padre (no Natal de 2016), para mim, tudo ficou claro. Fiquei assim: ‘nossa, realizou-se muito’. Isso foi totalmente… No Natal passado, foi como um boletim do progresso do grupo. Estou no grupo, certo, mas nunca percebi o quanto já discutimos. Além de modificar o documento, a proteção dos menores, a economia, as atualizações a respeito disso, princípios gerais de colegialidade, sinodalidade, estamos pensando nessas coisas. Cuidado da equipe da Cúria. É tudo que o Santo Padre… ele não é como nós, que quando voltamos para casa estamos inteiros na diocese, ele fica com isso na cabeça e continua trabalhando nisso de verdade depois. Voltamos para nossas dioceses e nos preocupamos com a igreja local, mas ele certamente acompanha o que dizemos. Já vi várias vezes. Ele leva o grupo muito a sério.

De vez em quando, ele pedia que discutíssemos um pouco um determinado assunto, sobre o qual queria um conselho. Acho que é um novo sistema, iniciado por ele, no qual ele recebe retorno de todo o mundo a partir das bases. Acho. E espero, na verdade. Somos de diferentes continentes e trazemos nossas próprias experiências. Mas está indo bem. Na verdade, eu realmente acho que há uma contribuição ao Santo Padre, e então o Santo Padre decide. Tenho a sensação de que isso é compartilhado por todos agora. Não tenho dúvidas de que é o sentimento geral.

O ponto de virada foi realmente o seu discurso, mas já antes disso, digamos cerca de seis ou sete meses antes, começamos a ver quando refletimos isso… talvez o Santo Padre soubesse que isso estava na nossa cabeça. Estava na minha cabeça, e talvez eu tenha expressado de forma indireta. E o Santo Padre também comentou uma vez: “já fizemos tudo isso, então não desanimem”.

Em um dado momento, ele meio que respondeu essa dúvida na minha cabeça.
O senhor mencionou que também é necessária uma mudança de mentalidade. Além das mudanças estruturais, parece que a mudança de mentalidade será a tarefa mais desafiadora…

Isso demorará mais. Mas esperamos que tenha penetração, porque depois de criar uma certa mentalidade, geralmente não se muda, a menos que as circunstâncias mudem, o ambiente mude. E, em certo sentido, não muda drasticamente. Acho que isso pode demorar mais. Mas acredito que vai acontecer.

Estamos muito, muito esperançosos. Estamos bastante confiantes de que vai acontecer, porque a liderança do papa tem sido muito eficaz, e de vez em quando vem uma mensagem clara dele. Mas vai acontecer e de repente vamos perceber: ‘olha, mudou!’ É assim que vai ser. Não será do dia para a noite, mas, em algum momento, vamos perceber que as coisas mudaram.

Ele sabe o que quer. E está feliz. Certamente, a indicação que posso ver mostra esse caminho; pelo relacionamento que tem com o grupo e a alegria que demonstra ao estar com o grupo. Ele diz que sente que o ajudou. Graças a Deus. Fazemos o possível. Eu não sei como ou por que ele nos escolheu, mas está feliz. Fiquei muito surpreso quando fui chamado. Disse: ‘por que eu? O que foi que eu fiz?’ Acho que ele sabe. Não sei por quê. Eu não conhecia o Santo Padre, nunca havia participado de nenhuma outra comissão. Somente no conclave. Nem lembro de ter conversado com ele durante ou antes do conclave. Após o conclave, sei que estive com ele. É verdade que, depois do conclave, estive com o papa em Santa Marta por alguns dias. Almoçamos juntos – café da manhã, almoço e jantar por quatro ou cinco dias. Foi quando nos conhecemos. Nos colocaram juntos por cerca de uma semana.

Fiquei impressionado que estava em Santa Marta depois da eleição, porque havia cinco ou seis cardeais. Todos os cardeais estadunidenses estavam lá, os cardeais europeus, todos os cardeais das proximidades saíram e voltaram (para a posse). Fiquei para a posse e voltei para a Índia. E aí se compartilha, conversa. Ele estava muito confortável conosco, muito confortável comigo. Mas, ainda assim, teve que escolher.

Ele mencionou alguma coisa sobre quando poderia ocorrer uma visita à Índia?

Ele está muito interessado. Estamos trabalhando, e tenho muita esperança. Ele gostaria de vir, nós gostaríamos de recebê-lo, e o governo também. Mas agora é preciso ver a agenda, a agenda do governo, mas tenho certeza de que virá. Não há detalhes por enquanto. Tenho bastante esperança de que conseguiremos trazer o Santo Padre. Ele tem interesse, e acho que cada vez mais. E as pessoas estarão ansiosas… mal podemos esperar por isso.

No começo, logo após sua eleição, perguntei: “quando vem à Índia?” E ele não estava muito (interessado), mas aos poucos começou a gostar da ideia. Nunca foi à Índia. Como jesuíta, acho que deveria ir ao Japão, foi o que me disse. Agora, vai ao Bangladesh e a Myanmar. Será muito emocionante. Bangladesh tem seus problemas, acredito que tenham eleições no próximo ano, e Myanmar tem problemas para resolver, também a questão dos refugiados no momento. Ultimamente, essa questão está em voga, acho que ontem ou hoje pela manhã eu vi na CNN, e a BBC está trazendo reportagens sobre isso. É um problema do mundo.

Eu já estive lá (Bangladesh) algumas vezes. É uma boa igreja, concentrada principalmente em Dhaka, uma fé viva. Estive em Myanmar também, fui como legado papal há alguns anos, e achei a igreja muito vibrante. Uma fé simples, mas estou feliz. Acho que isso terá muito significado para as pessoas. E também as fortalecerá. Acredito que a Igreja também é muito vibrante, não tem dificuldades específicas, na impressão que tive como legado papal há cerca de dois ou três anos, mas fiquei muito impressionado com a fé e a organização. Era vibrante. A igreja era pequena, mas forte e viva. Fará a diferença para as Igrejas e para os governos, espero.

O senhor estará lá?

Pretendo ir nos dois, sim. Estive em todas essas viagens à Ásia: Sri Lanka, Coreia, Filipinas. Atualmente, sou presidente da Conferência Episcopal da Ásia, então eu suponho que terei que ir por causa disso.

Fonte:  Crux

Na sequência da mais recente onda de violência na Europa, o Vaticano diz não estar tomando medidas extras de segurança, em parte porque a salvaguarda já era “muito forte”.

Normalmente os papas sentem um grau maior de calmaria com respeito à própria segurança do que outras figuras públicas, pois, do ponto de vista deles, os pontífices contam com a rede se segurança máxima que se pode ter.

A essa altura, um ataque com facas na Finlândia ocorrido sexta-feira deixou dois mortos. A polícia diz que passou a considerar o ato como terrorista e informou que prendeu um marroquino de 18 anos e outros cinco. Este incidente levou ao recrudescimento das medidas de segurança nos aeroportos e estações de metrô, além de uma maior presença policial em locais onde as pessoas se reúnem.

A Cidade do Vaticano, evidentemente, é também um alvo europeu, sendo um lugar onde muitas pessoas se reúnem. Na verdade, é provavelmente milagre que algo semelhantemente horrível não tenha ocorrido aí ainda. Afinal, para um jihadista esta cidade-Estado é o alvo perfeito: um símbolo imponente do cristianismo e da civilização ocidental, além de ser o lar do líder cristão mais conhecido do planeta.

Na sexta-feira, conversei com a porta-voz do Vaticano, Paloma García Ovejero, que me disse que o Vaticano não está tomando nenhuma precaução extra em se tratando de segurança à luz dos eventos recentes, em parte porque “não temos nenhum indício” de uma ameaça em específico.

“Não adotamos medidas extras de segurança, pois aqui o nível de vigilância já era muito forte”, disse García Ovejero. “A Basílica de São Pedro está sempre protegida, e a Via della Conciliazione [avenida que leva até a praça] permanece fechada para o tráfico”.

“Ou seja, estamos com o mesmo nível de alerta”, completou ela.

Então, resta saber se as ansiedades com a questão da segurança influirão em alguma atividade pública do papa, seja em Roma, seja quando ele pegar a estrada. (A sua próxima viagem está marcada para o começo de setembro, quando visitará a Colômbia.)

Na falta de indícios diretos de uma ameaça específica, a minha aposta é que o Papa Francisco não irá diminuir a sua exposição pública, e o mesmo eu diria quanto aos dois papas anteriores que cobri, Bento XVI e João Paulo II.

Em geral, os papas contam com uma preocupação com a questão da segurança muito menor em comparação com os outros líderes mundiais. Se olharmos o aparato de segurança em torno de um presidente americano ou do presidente da Rússia, as comparações com um papa sequer fazem sentido.

As equipes que trabalham para o papa são de alto nível, porém enfrentam limites no número de membros e no que podem fazer para manter o religioso longe de qualquer perigo.

Lembro certa vez de estar em uma viagem com João Paulo II na Grécia. Ele presidia uma missa em uma pequena avenida. Durante a procissão do ofertório, um homem não autorizado se juntou à fila e começou a se aproximar do papa. Ele estava talvez a meio passo do altar, a poucos metros de João Paulo, quando um segurança percebeu e o retirou.

As manchetes nos jornais do dia seguinte diziam: “Homem é atacado enquanto corria em direção ao papa!” Posso lhe garantir que ele “não corria”, pois usava muletas.

No final da missa, anunciou-se que o indivíduo era um sem-teto e estava doente, e que só queria dar a João Paulo uma amostra de seu trabalho. Por fim, foi trazido de volta, recebeu um abraço papal e posou para fotos. No entanto, é óbvio que essa história poderia ter acabado diferente.

Por que os papas se permitem correr perigos como este?

Além do aspecto pastoral de querer estar o mais próximo possível das pessoas, há uma outra dimensão que nem sempre entra nos cálculos para avaliar os níveis de segurança e que é, sem dúvida, real: os papas realmente acreditam que, no fim, o destino deles está nas mãos de um poder muito maior.

Eu não estava em Roma quando tentaram assassinar João Paulo, em 13-05-1981. Na verdade, eu cursava o ensino médio quando o fato ocorreu. No entanto, passei muito tempo ao longo dos anos conversando com quem estava lá, incluídos alguns dos assessores mais próximos do papa, os quais deixaram claro que João Paulo acreditava, com firmeza, que a Virgem Maria estendeu as mãos para ele naquele dia – era, lembremos, Dia de Nossa Senhora de Fátima – e o salvou.

Temos de concordar: João Paulo II era bem mais místico do que Bento XVI ou Francisco, mas todos estão convencidos de que o destino deles a Deus pertence.

Isso não quer dizer, é claro, que os papas são imprudentes ou que recusam medidas de segurança básicas. Mesmo o espontâneo Papa Francisco tornou-se um pouco mais disciplinado, geralmente permitindo que sua equipe de segurança faça barreiras à sua frente enquanto caminha entre as multidões.

Quando esteve na República Centro-Africana, Francisco quis parar próximo a uma igreja em que, diziam, cristãos haviam sido mortos recentemente. No entanto, ele acabou desistindo da ideia quando o núncio apostólico no país lhe explicou que era “perigoso demais”.

Da mesma forma, quando Francisco esteve nas Filipinas, um momento marcante aconteceu numa visita à ilha de Tacloban, local que tinha sido devastado por fortes tempestades. Mesmo assim, Francisco concordou em encurtar a sua programação quando os pilotos disseram que que uma tempestade tropical que se aproximava deixaria inseguro o seu retorno para casa.

Portanto, embora os papas não contem somente com a sorte – especialmente porque, onde quer que vão, a segurança de outras pessoas está em jogo também –, eles muitas vezes sentem uma calmaria maior quanto à própria segurança pessoal do que outras figuras públicas.

Novamente, temos de concordar: do ponto de vista deles, os papas contam com a rede de segurança máxima.

A reportagem é de John L. Allen Jr.- Crux

 

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Treze votos a favor do reconhecimento da sobrenaturalidade das primeiras sete aparições de Medjugorje, um voto contra e uma abstenção. A maioria dos votos suspensivos e muitas dúvidas sobre o prosseguimento do fenômeno das aparições que aconteceram entre o final de 1981 e hoje. Este é o resultado final do trabalho da comissão sobre Medjugorje instituída em 2010 por Bento XVI e presidida pelo cardeal Camilo Ruini.

O Papa Francisco mencionou esse relatório durante a conversa com os jornalistas durante o voo de retorno de Fátima, quando revelou a diferença entre as primeiras aparições e o fenômeno posterior, dizendo: “Uma comissão composta por bons teólogos, bispos e cardeais. A relação da comissão é muito, muito boa”. Como se sabe, a indicação das palavras do Pontífice é positiva sobre os frutos espirituais e as conversões (“pessoas que se convertem, que encontram Deus, que mudam de vida. E isto não graças a uma varinha mágica”), mas negativa sobre as aparições que continuam atualmente: “Eu, pessoalmente, sou mais malvado, prefiro a Nossa Senhora Mãe em vez da Nossa Senhora chefe de um escritório de telégrafos e que diariamente envia uma mensagem com hora marcada”.

Uma comissão instituída por Ratzinger

Entre 17 de março de 2010 e 17 de janeiro de 2014, por vontade de Bento XVI, foi instituída uma comissão presidida por Ruini. Além do ex-presidente da Conferência Episcopal da Itália, faziam parte dela os cardeais Jozef Tomko, Vinko Puljic, Josip Bozanic, Julián Herranz e Angelo Amato. Além disso, era integrada pelo psicanalista Tony Anatrella, os teólogos Pierangelo Sequeri, Franjo Topic, Mihály Szentmártoni e Nela Gaspar, o mariólogo Salvatore Perrella, o antropólogo Achim Schütz, o canonista David Jaeger, o relator das Causas dos Santos Zdzislaw Józef Kijas, o psicólogo Mijo Mikic e o oficial da Doutrina da Fé Krzysztof Nykiel.

Eles tiveram a tarefa de “reunir e examinar todo o material” sobre Medjugorje e apresentar “um relatório detalhado”, com a votação sobre a “sobrenaturalidade ou não” das aparições, além de indicar as “soluções pastorais” mais adequadas. A comissão reuniu-se 17 vezes, avaliou toda a documentação depositada no Vaticano, na paróquia de Medjugorje e nos arquivos dos serviços secretos da ex-Iugoslávia. Ouviu todos os videntes e testemunhas, e em abril de 2012 fez uma visita ao pequeno povoado da Bósnia-Herzegovina.

Juízo positivo sobre as primeiras aparições

A comissão identificou uma diferença muito clara entre o início do fenômeno e seu desenvolvimento posterior. E decidiu expressar-se com duas votações diferentes sobre duas fases diferentes: as primeiras sete supostas aparições, que aconteceram entre o dia 24 de junho e o dia 03 de julho de 1981, e tudo o que aconteceu depois disso. Os membros e os peritos se expressaram com 13 votos a favor do reconhecimento da sobrenaturalidade das primeiras visões. Um dos membros votou contra e um dos peritos se absteve. A comissão sustenta que os sete rapazes videntes eram normais psiquicamente, foram surpreendidos pela aparição e que não houve nenhuma influência externa (nem por parte dos franciscanos da paróquia nem de outros sujeitos) sobre o que disseram ter visto. Negaram-se a contar o que tinham visto apesar de a polícia tê-los detido e ameaçado de morte. A comissão também descartou a hipótese de origem demoníaca das aparições.

As dúvidas sobre a evolução do fenômeno

Em relação à segunda fase das aparições, a comissão considerou as fortes interferências provocadas pelo conflito entre o bispo e os franciscanos da paróquia, assim como pelo fato de que as aparições, pré-anunciadas e programadas singularmente para os videntes (e já não em grupo), tenham continuado com mensagens repetitivas. Estas continuam, embora os rapazes tenham dito que não, coisa que não se verificou. E depois há a questão dos “segredos” com requintes apocalípticos que os videntes afirmam ter recebido da aparição. Sobre esta segunda fase, a comissão votou em dois momentos diferentes. Uma primeira vez, considerando os frutos espirituais de Medjugorje, mas deixando de lado o comportamento dos videntes. Nesta votação três membros e três peritos afirmaram que havia efeitos positivos, quatro membros e três peritos indicaram que havia efeitos mistos, principalmente positivos, e outros três membros disseram que havia efeitos mistos (positivos e negativos). Se além dos frutos espirituais se considera o comportamento dos videntes, oito membros e quatro peritos consideraram que não se podia fazer um juízo, ao passo que outros dois membros votaram contra a sobrenaturalidade. 

A solução pastoral

Após constatar que os videntes de Medjugorje nunca foram acompanhados adequadamente do ponto de vista espiritual e observar que há muito tempo já não faziam parte de um grupo, a comissão pronunciou-se a favor da suspensão da proibição de organizar peregrinações a Medjugorje (com o voto de 13 membros e peritos dos 14 que estavam presentes) e votou a favor da criação, em Medjugorje, de “uma autoridade dependente da Santa Sé” e da transformação da paróquia em um santuário pontifício. Uma decisão motivada por questões pastorais (o cuidado dos milhões de peregrinos que chegam ali, evitar que se formem “igrejas paralelas”, esclarecer questões econômicas), mas que não implicaria o reconhecimento da sobrenaturalidade das aparições.

As dúvidas da Congregação para a Doutrina da Fé

O Papa Francisco também falou sobre isso durante a entrevista que o levava de volta a Roma de Fátima. A Congregação para a Doutrina da Fé, dirigida pelo cardeal Gerhard Ludwig Müller, manifestou suas dúvidas sobre o fenômeno e também sobre o relatório da comissão Ruini, considerado como um documento confiável, mas que deve ser comparado com outros pareceres e documentos. Em 2016, aconteceu a Feira IV, reunião mensal dos membros do dicastério, convocada para discutir o caso de Medjugorje e o relatório da comissão Ruini. Cada um dos cardeais e bispos membros recebeu o texto da comissão, mas também mais documentos que se encontram na Congregação para a Doutrina da Fé. Durante a reunião pediu-se aos membros que expressassem suas opiniões. O Papa Francisco, que não queria que o relatório da comissão Ruini fosse “leiloado”, estabeleceu que enviassem a ele, pessoalmente, todos os pareceres dos membros da Feira IV. E isso foi feito na hora.

A decisão do Papa Francisco

O Papa, após ter examinado o relatório da comissão Ruini e os pareceres dos membros da Congregação para a Doutrina da Fé, decidiu encomendar ao arcebispo polonês Henryk Hoser uma missão de “enviado especial da Santa Sé” e, “sobretudo, das exigências dos fiéis que para ali se dirigem em peregrinação” para “sugerir eventuais iniciativas pastorais para o futuro”. Antes que termine o verão deste ano de 2017, o enviado da Santa Sé entregará os resultados do seu trabalho ao Papa e este tomará uma decisão.

Andrea Tornielli – Vatican Insider

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O jesuíta estadunidense Padre James Martin, da revista América, e Michael Warsaw, presidente do conselho e diretor da EWTN Global Catholic Network, foram nomeados pelo Papa Francisco para ajudar a assessorar a Secretaria de Comunicação do Vaticano.

O Vaticano divulgou as novas nomeações em 12 de abril.

Francisco nomeou seis padres, seis leigos e uma leiga para serem os novos consultores ou conselheiros da equipe de comunicação, liderada pelo Monsenhor Dario Vigano, que coordena as diversas operações de comunicação e mídia do Vaticano. Eles formam um grupo consultivo separado dos membros da secretaria – um grupo de 16 cardeais, bispos e leigos nomeados pelo Papa no ano passado.

Entre os novos consultores estão:

– Padre Martin, editor-geral da revista jesuíta América. Editor prolífico, ele também é graduado em Administração e trabalhou com finanças corporativas antes de entrar na Companhia de Jesus. Ele frequentemente colabora com alguns dos principais meios de comunicação nos Estados Unidos e é membro de uma companhia de teatro Off-Broadway em Nova York.

– Warsaw entrou na EWTN em 1991 e ocupou posições de alto nível na produção televisiva, em operações de satélites e serviços técnicos. A rede, que inclui rádio, publicações impressas e o National Catholic Register, atinge mais de 140 países no mundo.

– Ann Carter, co-fundadora da Rasky Baerlein Strategic Communications de Boston, agora lidera a ACcommunication Partners, dando consultoria sobre desafios administrativos e questões de comunicação. Ela foi CEO da Rasky Baerlein quando a empresa abandonou seu papel de relações públicas externas da arquidiocese de Boston, período em que surgiu a crise de abusos sexuais na igreja. A empresa retomou seu trabalho depois que o chefe da arquidiocese, o cardeal Bernard Law, renunciou.

– Michael Unland, diretor executivo do Conselho Católico de Meios de Comunicação (CAMECO), que auxilia os meios de comunicação do mundo todo e busca contribuir com a presença da igreja na mídia, bem como destacar a importância da mídia dentro da igreja.

– Graham Ellis, vice-diretor da BBC Radio e presidente da comissão Euroradio com a União Europeia de Radiodifusão.

Dino Cataldo Dell’Accio, especialista em tecnologia da informação e da comunicação e segurança e principal auditor de TICs da sede das Nações Unidas, em Nova York.

Catholic News Service.

REUTERS2002736_ArticoloA última vez que a Capela Sistina foi fotografada integralmente para a posteridade, foi em tempos em que a fotografia digital estava em sua infância e palavras como “pixel” eram cogitados principalmente por nerds de computador e cientistas da NASA.

Agora, depois de décadas de avanços tecnológicos na arte de fotografar, salas escuras digitais e técnicas de impressão, um projeto que durou cinco anos  –  num total de 270.000 frames que mostram os afrescos de Michelangelo e outros mestres, em detalhes impressionantes – vai ajudar nas restaurações futuras.

O mestre renascentista terminou de pintar o teto em 1512 e o enorme painel do “Juízo Final” por trás do altar entre 1535 e 1541.

“No futuro, isso vai nos permitir conhecer o estado de cada centímetro da capela, como é hoje, em 2017”, disse Antonio Paolucci, ex-Diretor dos Museus Vaticanos e especialista de renome mundial.

A última vez que todos os afrescos da Capela Sistina foram fotografados foi entre 1980 e 1994, durante um projeto de restauração, que limpou-os pela primeira vez em séculos.

As fotos tiradas foram incluídas em um novo conjunto de três volumes, de 870 páginas, limitado a 1.999 cópias e comercializado para bibliotecas e colecionadores.

O conjunto, que custa cerca de 12.000 euros (US$ 12.700), foi uma produção conjunta dos Museus do Vaticano e Scripta Maneant editores, da Itália.

Na pós-produção foram usadas técnicas de computador, incluindo “stitching” de frames. Os fotógrafos que fotógrafos trabalharam durante 65 noites, das 19 horas às 2 da manhã, período em que a Sistina estava fechada aos visitantes.

O projeto era conhecido por poucas pessoas, até ter sido revelado na noite de sexta-feira  (24/02).

O trabalho contemplou toda a Capela, incluindo o mosaico do piso e os afrescos do século XV.

Mais de 220 páginas foram impressas em escala 1: 1, incluindo “A Criação de Adão” e o rosto de Jesus no Juízo Final.

Cada volume pesa cerca de 9 kg e páginas desdobráveis medem 60 por 130 cm.

As antigas fotos, tiradas durante a última restauração, ainda faziam uso de rolos de filme.

“Nós usamos um software especial de pós-produção para obter a profundidade, intensidade, calor e nuance de cores com uma precisão de 99,9 por cento”, revelou Giorgio Armaroli, chefe de Scripta Maneant.

“Futuros restauradores usarão estas como padrão”, disse ele, acrescentando que cada página foi impressa seis vezes.

Pinceladas são claramente visíveis como são as “bordas” que delineiam seções, conhecidas como “giornate”, ou dias.

Os fotógrafos utilizaram andaimes portáteis a 10 metros de altura e lente telescópica especial. Os resultados foram armazenados nos servidores do Vaticano, ocupando 30 terabytes de informação.

Rádio Vaticano

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Ele cuida de 2.797 chaves. De todas elas, 300 são usadas diariamente para abrir e fechar os Museus Vaticanos. Todas as manhãs, ele chega às 5h45 à Gendarmaria para retirar as chaves e abrir as portas das salas repletas de arte que são visitadas anualmente por 6 milhões de pessoas.

Gianni Crea, romano de 45 anos de idade, é o guardião das chaves dos Museus Vaticanos. Ao longo dos últimos cinco anos, ele tem exercido a função de chefiar os clavígeros, ou seja, os responsáveis por todas e cada uma dessas chaves.

O “bunker”

Eu cuido de todas as chaves do Museu do Papa. Trezentas são usadas todos os dias para abrir e fechar as diversas seções. As outras 2.400 chaves ficam guardadas em um bunker com ar condicionado para impedir a ferrugem e são vistoriadas semanalmente para verificar sua funcionalidade. Conheço as chaves tão bem quanto os meus bolsos“, afirma Gianni.

As três chaves mais antigas e preciosas são:

– A número 1, que abre o portão monumental, usado hoje como saída dos Museus do Vaticano;
– A número 401, que pesa nada menos que meio quilo e abre o portão de entrada do Museu Pio Clementino;
– E a famosa chave sem número…

A chave sem número

A maior e mais importante de todas é a chave sem número, que abre uma das máximas preciosidades da arte e da devoção cristã: a Capela Sistina, sede, desde 1492, do conclave que elege o Sucessor de Pedro.

Esta chave é mantida no bunker, dentro de um envelope fechado, selado e assinado pela direção. Seu uso deve ser expressamente autorizado e protocolado em um antigo registro, no qual também deve ser escrita a razão para cada uma das utilizações, junto com os horários de retirada e devolução da chave sem número.

Em tempos de conclave

E o que acontece quando há um conclave? “O clavígero“, explica Gianni, “é o herdeiro do Marechal do Conclave, que era quem selava todas as portas em torno à Capela Sistina para garantir o silêncio e o segredo de tudo o que acontecia no conclave“. A tarefa-mestra do clavígero é precisamente esta: fechar e selar todas as salas ao redor da Capela Sistina.

Chaves eletrônicas

Nos últimos anos, os novos setores dos Museus receberam também chaves eletrônicas, que nada têm a ver com as pesados e tradicionais chaves de ferro. Cada seção dos Museus tem uma numeração sequencial: por exemplo, o molho que abre o Museu Gregoriano vai da chave número 200 à de número 300; o que abre a Pinacoteca vai do 301 ao 400; o Museu Etrusco, do 501 ao 600, e assim por diante, para cada uma das doze seções.

E se o clavígero ficar doente?

Há substitutos, mas aconteceu raríssimamente”, conta Gianni, sorrindo. “Eu estou afeiçoado às minhas chaves”, completa, como quem diz que não tem tempo nem motivo para ficar doente.

Saiba mais sobre Gianni

O homem das chaves dos Museus Vaticanos deu uma interessante entrevista ao jornal italiano La Repubblica, que você pode conferir aqui (em italiano).

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O diálogo entre o Governo e a oposição vai ganhando forma lentamente na Venezuela. O Vaticano confirmou em agosto que aceita ser intermediário em eventuais negociações. O cardeal Pietro Parolín, secretário de Estado do papa Francisco, informou mediante carta ao secretário-geral da Unasul, Ernesto Samper, que a Igreja Católica concorda em intervir na crise e pede às duas partes um convite formal para começar o diálogo, circunstância que ainda não ocorreu.

A incorporação do Vaticano à comissão de facilitadores de um diálogo depende da solicitação e da instalação formal das negociações entre esses adversários políticos na Venezuela. O presidente venezuelano, Nicolás Maduro, confirmou que o Vaticano enviou a carta à Unasul, mas não revelou se encaminhará uma petição oficial de mediação da Igreja Católica. Em julho, o Governo e a oposição aprovaram uma possível arbitragem da Santa Sé.

Até agora os facilitadores do diálogo são o ex-presidente de Governo da Espanha (primeiro-ministro) José Luis Rodríguez Zapatero, e os ex-presidentes Martín Torrijos, do Panamá, e Leonel Fernández, da República Dominicana. Jesús Torrealba, secretário-geral da coalizão oposicionista Mesa da Unidade Democrática (MUD), afirmou nesta quarta-feira que enviará uma resposta ao Vaticano. “A carta chega em um momento em que o governismo tentou empanar a imagem da oposição. Nós estamos dispostos a conversar com quem quer que seja para conseguir que sejam respeitados os cronogramas do referendo revogatório para mudar de presidente na Venezuela”, explicou a este jornal.

Na terça-feira, o chavismo revelou um segredo da oposição. Jorge Rodríguez, prefeito de Caracas, afirmou que o Governo manteve dois encontros privados com quatro representantes da MUD. “Foram reuniões preparatórias para um possível diálogo. Nunca deixamos de exigir que sejam respeitados os períodos de tempo do referendo revogatório na Venezuela”, confirmou Torrealba. O anúncio caiu como uma bomba nos meios políticos por causa da recusa do Governo de aceitar a exigência da oposição de sentar-se em uma mesa de diálogo se for realizado este ano o referendo revogatório para deporMaduro. Henrique Capriles, governador do Estado de Miranda e ex-candidato presidencial, respondeu que tinha “reservas” quanto às últimas decisões da MUD, mas as respalda por pertencer a esse partido. “Se há um milímetro de negociação turva que comprometa o país, eu vou dizer”, alertou.

Acesse aqui Carta enviada do Vaticano à Unasul

Maduro dá estratégicos passos na direção do diálogo como saída para a crise. Mas os possíveis acordos entre a oposição e o Governo desmoronaram por causa da resistência dos governistas de libertarem os presos políticos, reconhecerem a crise econômica e respeitarem os prazos de um referendo revogatório. Por isso, muitos opositores criticam as reuniões secretas com o Executivo. E embora a carta do Vaticano seja a primeira manifestação direta de sua disponibilidade para mediar um possível diálogo, o Governo da Venezuela precisa formalizar essa petição.

O conflito político não parece minguar. A oposição advertiu que não abandonará as ruas até obter uma data para a arregimentação dos 20% de assinaturas do eleitorado, necessárias para a ativação do referendo revogatório. Se a consulta se realizar depois de 10 de janeiro e a MUD obtiver mais votos do que os conseguidos por Maduro nas presidenciais, ocorridas em abril de 2013, o vice-presidente da República, Aristóbulo Istúriz, ficaria no comando do país até o final do mandato.

A popularidade de Maduro continua em queda por causa da crise econômica, as últimas prisões de dirigentes políticos, a escassez de remédios e alimentos e os empecilhos impostos pelo Conselho Nacional Eleitoral (CNE) — controlado pelo chavismo — para realizar este ano o referendo revogatório. O prefeito Rodríguez, o encarregado pelo oficialismo da verificação das assinaturas do referendo, introduziu ações contra a MUD por cometer supostas fraudes no processo. A oposição respondeu com protestos multitudinários para pressionar o Poder Eleitoral. 

Fonte: El País

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                                                                                          Pe. Lombardi e Greg Burke.

A nomeação de Greg Burke, 56, foi anunciada seguindo a renúncia de Federico Lombardi, padre jesuíta que atuou como porta-voz do papa Francisco e de seu predecessor, Bento XVI.

Burke trabalhou mais de uma década como correspondente da Fox News em Roma antes de ser contratado pelo Vaticano, em 2012, como assessor de comunicação. Em dezembro, o americano foi instalado como vice-diretor do escritório de imprensa.

Embora Burke não seja membro do clero, o Vaticano ressaltou, na segunda-feira, que o nativo da cidade americana de St. Louis é proveniente de uma família católica tradicional. Como estudante na Universidade de Columbia em Nova York, ele se tornou um membro do Opus Dei.

Em outra mudança considerada dramática para a Santa Sé, a espanhola Paloma García Ovejero foi contratada como o vice-diretora da Sala de Imprensa. Em seu papel como porta-voz para a mídia do mundo, García Ovejero, 40 anos, natural de Madrid, em breve se tornará uma das mulheres mais proeminentes na hierarquia do Vaticano.

García Ovejero, desde 2012, atua como correspondente no Vaticano para mídia espanhola e também possui experiência americana, tendo estudado na Universidade de Nova Iorque.

A nomeação de dois estrangeiros marca uma mudança significativa na administração do Vaticano, conhecida como a Cúria Romana, que por séculos foi predominantemente italiana. Ambos são poliglotas e falam o idioma do pontífice argentino, o espanhol, enquanto García Ovejero, segundo dizem, também tem conhecimento da lingua chinesa, uma habilidade notável, já que Francisco manifestou o desejo de visitar a China.

Elogios foram derramados sobre Lombardi. O porta-voz de 73 anos, que se encontra de saída, vinha diminuindo sua carga de trabalho e em fevereiro deixou o cargo de diretor-geral da Rádio Vaticano.

Thomas Rosica, assistente da assessoria de imprensa de língua inglesa, disse que ele tinha compartilhado “experiências eclesiais profundamente comoventes” com Lombardi nos últimos anos. “Eu aprendi muito com sua maneira suave, calma, o seu sensus Ecclesiae, o seu humor e sua capacidade de versatilidade com tanta serenidade,” Rosica escreveu no Facebook.

O padre jesuíta James Martin, editor da revista America, agradeceu Lombardi por seu ministério “incansável”. “Amável, trabalhador, orante: um modelo de jesuíta”, escreveu Martin no Twitter.

080804-A-8725H-341        Iraqi children gather around as U.S. Army Pfc. Shane Bordonado patrols the streets of Al Asiriyah, Iraq, on Aug. 4, 2008.  Bordonado is assigned to 2nd Squadron, 14th Cavalry Regiment, 25th Infantry Division.  DoD photo by Spc. Daniel Herrera, U.S. Army.  (Released)

Uma análise criteriosa que durou sete anos sobre o papel da Inglaterra na invasão de 2003 liderada pelos Estados Unidos ao Iraque é devastadora em sua crítica das decisões tomadas pelo governo de Tony Blair – e indiretamente sustenta as advertências feitas na época pela Igreja Católica.

Uma investigação independente e há muito esperada sobre o papel da Inglaterra na invasão do Iraque emitiu um veredito condenatório sobre a justificativa para ir à guerra, com efeito concordando com as advertências a respeito de sua legitimidade expressas pelo Vaticano e pelos bispos católicos na ocasião.

A investigação, conhecida como “Chilcot Inquiry” – Inquérito Chilcot, que levou sete anos, resultando em 12 volume os quais, somados, são três vezes maiores que a Bíblia –, é uma análise meticulosa e rigorosa do processo de tomada de decisão feito pelo governo de Tony Blair na dianteira da invasão em março de 2013, assim como de seus resultados sangrentos.

Cerca de 179 militares ingleses morreram no conflito que tirou do poder o ditador Saddam Hussein e levou à queda quase total do governo e da infraestrutura iraquiana. Seguiram-se anos de lutas prolongadas entre facções sunitas e xiitas, alimentadas por insurgentes dos vizinhos Síria e Irã, enquanto extremistas exploraram a anarquia.

Pelo menos 150 mil iraquianos, a maioria civis, foram mortos como consequência dos conflitos, e cerca de 1 milhão acabaram deslocados.

Entre os principais achados do relatório do Sir John Chilcot estão:

  • A Inglaterra juntou-se à invasão liderada pelos Estados Unidos quando opções pacíficas para o desarmamento ainda existiam.
  • Saddam Hussein não representava uma ameaça iminente.
  • A base jurídica para a guerra esteve “longe de ser satisfatória”.
  • O trabalho de inteligência sobre a existência de armas de destruição em massa no Iraque foi “falho” e deveria ter sido reavaliado.
  • O planejamento e a execução da guerra foram “totalmente inadequados”.

Embora o Vaticano e os bispos não tenham feito referência explícita à teoria católica da guerra justa naquele momento, eles tiveram em conta implicitamente critérios de discernimento que remontam a Santo Agostinho e que foram desenvolvidos desde então. Esses critérios avaliam a legitimidade da ação militar, tanto na fase de preparação para a guerra (“ius ad bellum”) como durante a guerra (“ius in bello”).

Entre os critérios (ou princípios) “ius ad bellum” está o de que a guerra deve ter uma causa justa, ser decidida por uma autoridade válida, ser realizada por um bom motivo e ser o último recurso. As regras “ius in bello” exigem que a guerra seja executada via meios proporcionais, tenha uma probabilidade razoável de sucesso e evite baixas civis.

Enquanto os EUA e a Inglaterra se preparavam para guerrear em março de 2003, após um impasse no Conselho de Segurança da ONU, a posição do Vaticano era a de que os inspetores de armas deveriam ter a autorização para continuar em seu trabalho.

O Cardeal Jean-Louis Tauran, que foi ministro das Relações Exteriores do São João Paulo II, disse na época que não tinha sido demonstrado que Saddam Hussein “estivesse cometendo crimes contra a humanidade”, e que “somente o Conselho de Segurança das Nações Unidas pode decidir, com base em circunstâncias determinadas, que a posse de armas de destruição em massa pode constituir uma ameaça à paz”.

Na Inglaterra, o então arcebispo anglicano de Canterbury, Dr. Rowan Williams, e o então arcebispo católico de Westminster, Cardeal Cormac Murphy-O’Connor, advertiram, em um raro comunicado conjunto, que “ainda persistem dúvidas sobre a legitimidade moral, bem como sobre as consequências humanitárias e políticas imprevisíveis, de uma guerra contra o Iraque”; disseram também que não tinham se esgotado todas as alternativas.

Em março de 2003, os dois arcebispos pediram a todos os lados que “se engajam, através das Nações Unidas, plena e urgentemente, em um processo que inclua inspeções de armas e que possa tornar desnecessários o trauma e a tragédia da guerra”.

Posto diante das premissas da guerra justa, o relatório não deixa dúvida de que a guerra foi ilegítima, apesar dos argumentos apresentados à época por destacados teólogos católicos americanos, como George Weigel e Michael Novak.

Na questão da justa causa, Chilcot afirma que o primeiro-ministro britânico na época, Tony Blair, superestimou a ameaça representada pelo ditador iraquiano.

“Não havia nenhuma ameaça iminente de Saddam Hussein”, conclui o relatório. Referindo-se à principal justificativa de Blair para a necessidade de ação no Iraque, o texto declara que “os julgamentos sobre a gravidade da ameaça representada pelas armas de destruição em massa do Iraque foram apresentados com uma certeza que não se justifica”.

Quanto a ter sido um último recurso, Chilcot diz: “Concluímos que a Inglaterra optou por aderir à invasão do Iraque antes que as opções de paz estivessem se esgotado”, acrescentando claramente: “A ação militar naquela época não foi o último recurso”.

Chilcot também acha que “a estratégia de contenção poderia ter sido adaptada e continuada por algum tempo” e que “a maioria do Conselho de Segurança apoiou a continuação das inspeções e do monitoramento da ONU”.

Quanto à autoridade competente, Chilcot rejeita a afirmação do governo inglês feita na época de que ele estava agindo “para defender a autoridade do Conselho de Segurança” em face de a França e a Rússia se recusarem a apoiar as ações dos EUA e da Inglaterra. Chilcot considera que “na falta de uma maioria de apoio à ação militar, pensamos que a Inglaterra estava, na verdade, enfraquecendo a autoridade do Conselho de Segurança”.

Embora o relatório não pondere sobre a legalidade da guerra, Chilcot conclui de maneira condenatória que “as circunstâncias em que se decidiu que havia uma base jurídica para a ação militar inglesa estavam longe de ser satisfatórias”.

Considerando o rescaldo sangrento da invasão, Chilcot diz que o planejamento de Blair “não conseguiu levar em conta a magnitude da tarefa de estabilizar, administrar e reconstruir o Iraque”. Os britânicos ficaram com a tarefa de administrar Basra, no sul iraquiano, para a qual eles estavam totalmente despreparados.

Chilcot diz que Blair deveria saber que isso aconteceria. “O Sr. Blair fora avisado de que tal ação militar aumentaria a ameaça da Al Qaeda ao Reino Unido e aos interesses do Reino Unido. Ele também fora alertado de que uma invasão poderia fazer com que armamentos e instalações iraquianos fossem transferidos para mãos de terroristas”.

O relatório acrescenta: “Os riscos de conflitos internos no Iraque, a busca iraniana ativa de seus interesses, a instabilidade regional e a atividade da Al Qaeda no Iraque foram identificados explicitamente antes da invasão”.

Isto significou que a ocupação tinha poucas chances de sucesso – um dos princípios-chave do “ius in bello”. Devido ao fato de que “a escala do esforço inglês no Iraque pós-conflito jamais esteve à altura do desafio”, conclui o relatório, “o papel militar do país no Iraque pôs fim a um longo caminho de sucesso”.

Em uma coletiva de imprensa marcante e, ao mesmo tempo, desafiadora de duas horas concedida na semana passada, Tony Blair expressou pesar e remorso pelos fracassos, dizendo que ele irá levar a decisão que fez de ir à guerra – a “decisão mais angustiante e importante” do seus anos como primeiro-ministro – para o resto da vida.

“As avaliações de inteligência feitas no momento antes de ir para a guerra acabaram mostrando-se erradas, as consequências acabaram sendo mais hostis, prolongadas e sangrentas do que imaginávamos (…) e uma nação cujo povo queríamos libertar do mal de Saddam tornou-se, em vez disso, vítima do terrorismo sectário”, disse ele aos jornalistas.

“Por tudo isso, expresso tristeza, arrependimento e um pedido de desculpas mais do que vocês podem imaginar ou acreditar”, disse Blair.

Ele insistiu, porém, que a decisão foi acertada, e que o mundo ficou “um lugar melhor e mais seguro como consequência”. Ele disse que em momento algum o citado relatório considerou as alternativas à decisão que tomada por ele, e que era provável que a situação da Síria, hoje, tivesse sido o destino do Iraque também, caso o seu ditador não tivesse sido removido.

“O Iraque sob Saddam não tinha chance alguma. O Iraque de hoje tem uma chance”, disse ele.

Ele concordou que algumas pessoas “podem jamais me esquecer ou perdoar”, mas sustentou que, sem a invasão, Saddam teria “se agarrado ao poder com as mesmas consequências mortais que estamos vendo na Síria”, onde o colega ditador baathista Assad agarrou-se ao poder.

Ele rejeitou os achados do relatório segundo os quais houve pressa para declarar guerra bem como a conclusão de que a invasão não era um último recurso. Falou que aqueles que morreram na guerra não morreram em vão, mas “combateram na luta global definidora do século XXI contra o terrorismo e a violência” – uma luta que acabaria por ser vencida.

A questão-chave, segundo ele, era saber se a decisão que tomada por ele em março de 2003 foi a mais acertada, dadas as circunstâncias e informações que havia no momento. “Será que mais pessoas irão sofrer e morrer caso deixarmos este ditador no poder?”, perguntou-se, acrescentando: “Se você não consegue responder à pergunta sobre qual teria sido a alternativa, você é um comentador, não um tomador de decisão”.

Blair, que se converteu ao catolicismo após deixar o cargo em 2007, acrescentou ainda que “não passa um dia” sem pensar sobre a decisão que tomou, e foi por este motivo que ele passou bastante tempo no Oriente Médio.

O Catecismo da Igreja Católica deixa claro que a avaliação das condições para a legitimidade moral de uma guerra pertence, em última instância, não à Igreja, mas às autoridades civis.

O veredito do “Chilcot Inquiry” não deixa dúvidas de que, no caso do governo inglês à época, ele errou redondamente

A opinião é do jornalista britânico Austen Ivereigh, publicada por Crux.

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O Papa Francisco aprovou o estatuto do novo Dicastério (ministério do Vaticano) para a Família que, entre outras coisas, irá prevenir o recurso do aborto e ajudará as mães que tenham recorrido a esta prática. O pontífice, sob proposta do Colégio dos Cardeais, que o aconselha, aprovou “ad experimentum” este novo Dicastério “para os leigos, a família e a vida”, que começará a operar em 1º de setembro deste ano, informou hoje à Santa Sé em um comunicado.

Ele assumirá as funções do Conselho Pontifício para os Leigos e pelo Conselho Pontifício para a Família.

O Dicastério, anunciado já em outubro passado, será presidido por um secretário, que poderia ser um leigo, articulado em três seções: para os fiéis leigos, para a família e para a vida, cada um liderado por um subsecretário.

Ele será composto por vários membros, como leigos, homens e mulheres, solteiros ou casados, de diferentes partes do mundo “para que reflitam o caráter universal da Igreja”.

O Dicastério “promove e organiza convênios internacionais e outras iniciativas, sejam relativas ao apostolado dos leigos, à instituição matrimonial ou à realidade da família e da vida no âmbito eclesiástico, seja às condições humanas e sociais dos leigos, da família e da vida humana na sociedade”.

Na seção para os fiéis leigos, o Dicastério deverá estimular a promoção da vocação e da missão destes fiéis no mundo, entre outros assuntos.

Do ponto de vista da família, promoverá a proteção pastoral à família, cuidará com dignidade os bens baseados no sacramento do matrimônio, e se posicionará a favor dos direitos e das responsabilidades dentro da Igreja e na sociedade civil.

Tudo para que “a instituição familiar possa cada vez absorver melhor suas próprias funções, tanto no âmbito eclesiástico quanto no âmbito social”.

Também irá garantir o aperfeiçoamento da doutrina sobre a família, sua divulgação na catequese e, entre outras coisas, o favorecimento “da abertura das famílias para adoção e guarda de crianças, além da proteção dos idosos.”

Quanto a seção para a vida, o Dicastério “apoia e coordena iniciativas a favor da procriação responsável da vida humana, desde a concepção até ao seu fim natural, considerando as necessidades da pessoa nos distintos estágios evolutivos”.

Esta nova entidade vai estimular “às organizações e associações que ajudam as mulheres e as famílias a acolherem e a protegerem o dom da vida, especialmente no caso de gravidez de alto risco, e a prevenir que se recorra ao aborto”.

Também irá apoiar programas e iniciativas que busquem “ajudar as mulheres que tenham abortado”, segundo consta em seu estatuto.

Fonte:  Religión Digital

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Jorge Mario Bergoglio, arcebispo de Buenos Aires, havia declarado: “a perda do Estado Pontifício foi um evento positivo para a Igreja, porque assim é claro que o Papa governa sobre meio quilômetro quadrado”. São atualmente remotos os conflitos oitocentistas (que angustiaram tantos italianos) sobre a assim dita questão romana: a soberania dos Papas sobre Roma e uma parte da Itália. A perda destes domínios pareceu a muitos católicos o fim do mundo. Significou a ruptura entre o papado e a Itália unida com a abstenção dos católicos das eleições políticas até 1913. Paulo VI, que também considerava providencial o fim do Estado dos Papas, explicou assim o estado de alma da Igreja oitocentista: “O poder temporal tinha sido o escudo defensivo do poder espiritual”.

A velha questão foi resolvida, como é sabido, com os Pactos do Latrão de 1929, firmados por Mussolini e pelo cardeal Gasparri. O fundo da controversa questão era que o Papa não aceitava ser súdito do Estado italiano, mesmo com as garantias concedidas pela Lei das Garantias de 1871 (a extraterritorialidade do Vaticano e de outros edifícios; a imunidade do Pontífice como soberano, o direito de receber e enviar embaixadores, além de uma dotação financeira). Queria ser soberano sobre uma terra própria, enquanto os juristas discutiam se poderia existir soberania e subjetividade internacional – aquela da Santa Sé até 1929 sem controle de um território.

Desde 1929, os Papas tiveram um pequeníssimo território, chamado Estado da Cidade do Vaticano: a área de Roma compreendida entre os muros leoninos que os soldados italianos jamais ocuparam nem mesmo em 1870. Tanto que, durante a Segunda guerra mundial, o perímetro do Vaticano foi iluminado durante a noite, para evitar os bombardeios que atingiam a capital fascista. E, durante a ocupação alemã, em 1943-44, uma faixa branca delimitava a soberania vaticana na Praça São Pedro. O líder palestinense Arafat me disse certa vez que esta situação podia ser um modelo para Jerusalém hebraico-árabe. 

Hoje o prestígio internacional do Papa Bergoglio vai bem além das questões territoriais. Não é por certo aquele de um soberano, mas de um líder espiritual. Todavia, permanece o fato: O Papa governa sobre meio quilômetro quadrado vaticano, “revestido”…, disse Paulo VI apresentando-se à ONU em 1965, “de uma minúscula, quase simbólica soberania temporal, quanta lhe basta para ser livre de exercer a sua missão espiritual, e para assegurar qualquer um que trata com ele, que ele é independente…”.

É um paradoxo: um líder espiritual é ao mesmo tempo um soberano. Não há situações comparáveis em outras Igrejas cristãs ou religiões: desde 1959, desde o ingresso das tropas chinesas, o Dalai Lama não é mais o soberano do Tibete, enquanto a República monástica do Monte Athos é somente um território autônomo no âmbito da Grécia.

O Estado vaticano tem uma função instrumental com respeito à obra da Monte Athos. É a de ser titular de um corpo diplomático no mundo, os núncios (com uma função religiosa antes do que política), e a de receber embaixadores. Parece uma anomalia para as outras Igrejas cristãs. Mas atualmente entrou na prática e nas relações entre catolicismo e religiões. É uma estrutura a serviço da atividade pastoral do catolicismo e da obra de paz e diálogo do Papa. As antigas polêmicas estão distantes. De resto, a Igreja católica é uma internacional religiosa muito particular, coesa de modo forte com o seu centro, mas também articulada e presente em quase todos os Países do Mundo. A história foi bem além do mundo do poder temporal dos Papas.

 Andrea Riccardi, historiador da Igreja e fundador da Comunidade de Sant’Egidio, publicado por Corriere della Sera.

jubileu

As “bulas”, ou documentos oficiais, com as quais os papas anunciavam o número de jubileus ordinários, desde a primeira vez, em 1300, até a última, em 2000, sairão nesta quarta-feira (4) dos arquivos do Vaticano para ficarem expostas por alguns meses em Roma.

O nome deste documento emitido pelo papa provém do latim “bulla”, que designa o selo de chumbo que as autentifica.

Desde a que anunciou o primeiro Jubileu, em 1300, iniciado por Bonifácio VIII, até a que foi assinada por João Paulo II em 2000, todos estes preciosos manuscritos, alguns ainda decorados com selos pontificiais, estão zelosamente conservados nos arquivos secretos do Vaticano.

São acessíveis apenas através de um pedido devidamente apresentado e unicamente por razões de pesquisa histórica, explica o “prefeito” dos arquivos, monsenhor Sergio Pagano.

O Vaticano aceitou que fossem levados para uma exposição em um palácio do século XV de sua propriedade, perto do Panteão, no centro histórico da Cidade Eterna.

O papa Bonifácio VIII (1294-1303) decretou, seguindo o modelo dos Jubileus hebraicos, o primeiro “Ano Santo” em 1300, concedendo a seus sucessores a missão de celebrar um novo a cada 100 anos.

Este primeiro Jubileu obteve grande sucesso: o Papa prometeu indulgência plena a peregrinos que fossem a Roma.

Para dar aos Jubileus mais regularidade, os papas seguintes decidiram organizar dois por cada século, depois três e, por fim, quatro, que é o ritmo atual dos Jubileus chamado “ordinários”, que acontecem a cada 25 anos.

A estes foram acrescidos alguns Jubileus “extraordinários”, como o que foi decretado pelo papa Francisco para este ano.

Esta tradição fica manifestada através dos documentos expostos em Roma até 31 de julho.

“Doze desses documentos são bulas, seis são gravuras antigas, incluindo um precioso incunábulo, e os demais são cópias de manuscritos”, explica monsenhor Libero Andreatta, vice-presidente do Escritório do Vaticano para as Peregrinações.

O maior interesse pelas bulas reside nas primeiras linhas dos textos, que “descrevem a situação política e espiritual do mundo católico na época de sua redação”, acrescenta.

Naqueles séculos mais remotos, os problemas não eram muito diferentes dos de hoje em dia: segurança, epidemias, transportes etc.

As bulas também servem para julgar o estado da fé dos fiéis, afirma monsenhor Pagano, que trabalha nos arquivos secretos há 37 anos e que estudou as bulas em profundidade.

Durante muito tempo, “esta fé era uma muralha em tempos difíceis, marcados pelas guerras, pela fome e a peste”, explica.

“Hoje, se coloca menos à prova, se pede ao fiel que faça umas orações e basta”, lamenta.

Da France Presse

AFP4559389_Articolo“O Papa Francisco está tentando transformar Roma no trampolim para uma Igreja sinodal e colegiada. É uma Igreja não apegada à Europa ou a uma cultura em particular. Não está claro aonde este esforço irá levar. Mas claro está que a visão de Roma e do Vaticano que o papa jesuíta possui decorre não só a partir de sua eclesiologia, mas também de sua leitura dos sinais dos tempos”, escreve Massimo Faggioli, professor de História do Cristianismo na University of St. Thomas, EUA, em artigo publicado por Global Pulse, 27-04-2016.

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Frequentemente o Papa Francisco é acusado de ser populista. No entanto, ele vem tendo muito sucesso em estabelecer relações entre Roma e as demais capitais da assim-chamada geopolítica cristã: Constantinopla (“a segunda Roma” do cristianismo bizantino), Moscou (“a terceira Roma” da ortodoxia russa) e Nova York (a capital cultural do país cristão mais militante do mundo).

A capacidade do papa de estabelecer tais conexões ficou evidente já no início de seu pontificado. Mas ultimamente algumas coisas se aceleraram.

Num breve período de oito dias (de 8 a 16 de julho), ele publicou a exortação pós-sinodal fundamentalmente importanteAmoris Laetitia, habilmente lidou com a presença diplomaticamente delicada de um presidenciável americano no Vaticano e viajou para a Grécia com dois importantes líderes ortodoxos para se encontrar com refugiados mantidos na ilha de Lesbos.

As viagens de Francisco estão sendo significativas não só por causa da geografia física delas; quer dizer, os destinos para onde ele foi. As suas viagens também esboçam uma outra geografia: um mapa daquelas figuras que ele consegue atrair e envolver em suas iniciativas.

O papa de 79 anos “atraiu” a colaboração de Bartolomeu I, o Patriarca de Constantinopla (um verdadeiro parceiro de diálogo), e o Arcebispo Jerônimo, chefe da Igreja Ortodoxa Grega, um dos mais relutantes ao diálogo com o catolicismo romano. Ambos fizeram parte de sua visita emblemática a Lesbos.

De forma inesperada, Francisco foi também capaz de engajar Kirill I, o Patriarca de Moscou, num encontro histórico entre os dois na Cuba comunista – uma das ironias da história da Igreja.

Estas iniciativas possuem consequências ecumênicas para o catolicismo assim como para a tradição ortodoxa. O Bispo de Roma está atraindo os hierarcas da ortodoxia oriental e ajudando-os a lidar com as franjas intransigentes e antiecumênicas. Isso é particularmente importante hoje, nas vésperas do Sínodo Pan-ortodoxo histórico que vai acontecer em junho próximo em Creta.

Mas Francisco igualmente seduziu – de uma forma não costumeira para o Vaticano, a mais antiga diplomacia do mundo ocidental – o candidato socialista judeu à presidência americana, Bernie Sanders. A significação disso ultrapassa os alinhamentos políticos novos e surpreendentes entre o Vaticano e os políticos mundiais. Ele sublinha a resiliência do Vaticano e da Roma papal no cenário mundial.

Em termos políticos, o Vaticano é uma relíquia do passado que deve mais à história política da Europa do que ao martírio de Pedro e Paulo. Há, porém, uma resiliência deste lugar, o seu simbolismo, a sua capacidade de reconhecer e interpretar eventos mundiais, que é fruto da capacidade da Igreja de se adaptar a condições cambiantes.

Em 1870, o papado perdeu Roma e seu poder temporal. Os pontífices de 1846-1939 (de Pio IX a Pio XI) lamentaram essa perda. Porém, no rescaldo do Concílio Vaticano II, Paulo VI considerou-a providencial.

Durante os pontificados de João Paul II e Bento XVI, o Vaticano se transformou no centro da política católica, como uma consequência dos esforços em centralizar em Roma tudo o que dizia respeito à Igreja Católica global.

Mas o Papa Francisco agora está tentando transformar Roma no trampolim para uma Igreja sinodal e colegiada. É uma Igreja não apegada à Europa ou a uma cultura em particular.

Não está claro aonde este esforço irá levar. Mas claro está que a visão de Roma e do Vaticano que o papa jesuíta possui decorre não só a partir de sua eclesiologia, mas também de sua leitura dos sinais dos tempos.

A ida a Lesbos foi, ao mesmo tempo, uma peregrinação ecumênica e uma visita ao cemitério inter-religioso imenso em que o Mediterrâneo se tornou por causa das ondas de refugiados que morreram no mar enquanto tentavam escapar da guerra. E um dos sinais dos tempos é a ilusão dos políticos europeus em suas tentativas de livrar a Europa e o Mediterrâneo do DNA multirreligioso e multicultural da região.

A ênfase de Francisco em que esta é “a crise humanitária mais grave desde a Segunda Guerra Mundial” é um outro lembrete de que, hoje, é preciso um papa da Argentina para recordar a Europa do que a Europa deve fazer.

A atração que Bernie Sanders e as igrejas ortodoxas têm por este papa contrasta-se com a hostilidade que o establishment político europeu tem mostrado para com esta sua mensagem social.

As palavras, em Lesbos, de Francisco, Bartolomeu e Jerônimo emitiram uma mensagem clara à União Europeia e à Turquia com respeito às suas políticas concernentes aos refugiados. Mas as palavras deles também sinalizaram que existem paralelos entre o período pós-Segunda Guerra e o momento atual.

O período imediatamente após 1945 foi o começo do envolvimento da Igreja Católica (mesmo se lenta e cautelosamente) no movimento ecumênico cristão. De forma parecida, a presente crise humanitária pode ser o berço de um novo internacionalismo ecumênico na medida em que o mundo tenta ajudar as vítimas da explosão do mundo árabe.

Isto não é a construção de uma arquitetura geopolítica complexa, mas uma intuição profunda do Papa Francisco. Os refugiados não sabem de teologia, mas sabem o que a Igreja é. É um exemplo da pastoralidade da doutrina que o papa tem em mente. É também uma resposta aos que se queixam de que os ensinamentos dele carecem de clareza e que denigrem a pastoralidade como sendo meras sutilezas eclesiásticas.

Mas, claramente, a ênfase pastoral do papa é algo maior, especialmente a sua volta a Roma com doze refugiados muçulmanos a bordo de seu avião. O ato simbólico de libertar refugiados dos campos onde eles estão detidos é igualmente um ato de reforma na Igreja.

A ironia é que esse ato político perturbador foi possível também devido ao papel extraordinário do Vaticano como um Estado, à sua extraterritorialidade e à herança do poder temporal antigo que o papa possui.

Estas últimas semanas constituíram mais um daqueles momentos em que Francisco coloca o seu pontificado profundamente em desacordo com um século que tem visto conservadores e reacionários fazerem conversões ideológicas ao catolicismo, desde Carl Schmitt na Alemanha nazista até Richard John Neuhaus nas guerras culturais americanas pós-Reagan.

Não é por acaso que estas conversões políticas envolveram nacionalistas que buscavam um refúgio ideológico desta modernidade cosmopolita. Também não é por acaso que a resposta a eles é o espírito global e ecumênico do catolicismo.