A palavra “ética” é muito citada nos dias de hoje. Mas, nas discussões modernas, a palavra pode ter diferentes significados em diferentes situações. Se olharmos com cuidado, podemos ver que ela assume diferentes nuances de acordo com o contexto e a perspectiva do falante. Vejamos as diferentes perspectivas da ética, para que possamos ver a utilidade e a necessidade dos princípios éticos em nossa vida pessoal e social.

Ética como instituição

A ética é uma estrutura normativa para as práticas e princípios da sociedade, caracterizada pela sua prescritibilidade (qualidade do que é prescritível). O objetivo da ética como instituição social normativa é conectar os aspectos normativos com os desejos das pessoas, de modo a garantir o grau necessário de cooperação social para a sobrevivência, para o bem-estar e para a autorrealização dos membros da sociedade. Em outras palavras, é um sistema de princípios “institucionalizados” estabelecidos que nos dizem como devemos nos comportar como membros da sociedade a fim de melhor promover o nosso próprio bem e o da sociedade como um todo, procurando evidenciar a relação entre as normas e o resultado desejado do bem-estar.

Ética e direito

O objetivo geral da ética descrito acima está relacionado a outra grande instituição social normativa: o direito. A lei distingue-se da ética (pelo menos) nas seguintes formas: a lei é válida para os cidadãos de um território específico, sem necessariamente pretender ser um princípio universal; prescreve uma punição material para os transgressores, em vez de apenas dizer o que é certo ou errado; nos termos da lei, apenas um juiz está autorizado a aplicar a lei e a proferir uma sentença; e as normas jurídicas são respeitadas pelos cidadãos por medo da punição, não pelo valor intrínseco de fazer o que é certo.

Ética e moral

Embora de uso comum – esses dois termos são mais ou menos considerados sinônimos (as palavras gregas e latinas ethos e mores designam a mesma coisa: hábitos e costumes) – eles têm nuances diferentes. A palavra ética é geralmente usada quando se fala de princípios, enquanto a palavra moralidade se refere mais às convicções pessoais de alguém. Ao lidar com a moralidade, todos – e não apenas especialistas em moral – podem aprovar ou desaprovar, sem se engajar em uma reflexão ética. A ética pode ser descritiva, normativa ou aplicada; isto é, uma reflexão ética pode descrever o comportamento, dar-lhe diretrizes ou concentrar-se, sobretudo, na aplicação específica de teorias éticas.

A universalidade do julgamento moral

A conduta moral deveria ser justificável de um ponto de vista universal. Esta declaração é uma generalização da “regra de ouro” (“faça aos outros o que gostaria que fizessem a você”, ou “ame seu próximo como a si mesmo”), o que nos convida a “nos colocar no lugar do outro”. O princípio ético não pode ser devidamente justificado em termos de interesses especiais, particulares (egoísmo, considerações étnicas ou raciais, sexo, espécie etc.); deve ser igualmente aplicável a todos, em qualquer lugar.

Do ponto de vista moral, é irrelevante se o beneficiário de uma determinada ação sou eu, ou você, ou nossa raça (ou grupo étnico ou espécie); não posso agir de uma maneira que privilegie um grupo em detrimento de outros para vantagem pessoal ou por razões não substancialmente relevantes para o problema em questão. O que importa na moralidade é, propriamente falando, a possibilidade de transcender os interesses egoístas de grupos e facções.

Essas breves reflexões nos lembram que o bem pessoal e o bem comum estão relacionados. Não podemos favorecer um em detrimento do outro. O bem e o desenvolvimento da nossa sociedade serão sustentáveis ​​se o nosso bem pessoal for sustentável e, consequentemente, o bom comportamento de cada ser humano for uma condição necessária para garantir um futuro de progresso para nós e para as gerações futuras.

Autor: Javier Fiz Pérez

A universidade “deve estar ligada exclusivamente à autoridade da verdade” e, portanto, deve ser autônoma, livre “de autoridades políticas e eclesiásticas”. Por isso, se interroga sobre o que um papa tem a dizer no encontro com a universidade de sua cidade, Roma. Para responder, ele reflete acima de tudo sobre a natureza e a missão do papado e, depois, sobre a natureza e a missão da universidade.

Publicamos aqui a conferência do jesuíta italiano Federico Lombardi, ex-porta-voz da Santa Sé, proferida na International Academic Conference: In search of the truth. From Nicolaus Copernicus to Benedict XVI, realizada na Faculdade de Teologia da University of Nicolaus Copernicus, em Toruń, Polônia, 17-04-02018.

O discurso foi publicado no sítio da Fundação Ratzinger.

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Autor: Federico Lombardi

Ilustres professores, estudantes e amigos,

Estou muito grato pela honra que vocês me prestam, ao me acolherem nesta importante conferência e me dando a palavra por primeiro. Na realidade, estou ciente de que falar por primeiro não significa tanto que o meu discurso seja o mais importante, mas que, não podendo participar de todos os seus trabalhos por causa da minha grave ignorância da língua de vocês, é bom que meu discurso seja o primeiro, de modo que, depois, vocês fiquem mais livres para continuar os seus trabalhos na belíssima língua polonesa.

O meu breve discurso se propõe dois objetivos.

O primeiro é de oferecer uma contribuição para recordar um discurso do Papa Bento XVI, que é bastante significativo para quem trabalha na universidade, como vocês, mas que permaneceu menos conhecido do que outros. Justamente há três meses, em janeiro deste ano, celebrava-se o 10º aniversário desse discurso, e, por isso, eu o escolhi para esta intervenção.

O segundo objetivo, inspirando-se nesse discurso, é de expressar algumas ideias sobre a linha programática da Fundação Ratzinger, que eu represento e que tem a alegria de colaborar com vocês nesta ocasião e, se possível, também no futuro.

O discurso do Papa Bento de que falo é um discurso que, na realidade, nunca foi proferido. Recordo, aqui, muito brevemente os acontecimentos. Bento XVI havia sido convidado oficialmente pelo reitor da mais antiga e maior universidade de Roma, que se chama “La Sapienza” – fundada pelo Papa Bonifácio VIII em 1303 –, para visitar a universidade e fazer um discurso na Aula Magna. Alguns professores, em sua maioria ideologicamente orientados à esquerda, manifestaram-se contrários. Mas se tratava de relativamente poucas pessoas.

A data havia sido fixada para o dia 17 de janeiro, mas, nos dias anteriores, um grupo de estudantes ocupou a reitoria em protesto e iniciou uma contestação com tons muito duros contra a visita, dizendo que o Papa Bento era um expoente do obscurantismo contrário à cultura e que a universidade, como lugar da liberdade de pesquisa e depensamento, não podia aceitar essa visita. Tratava-se de uma pequena minoria, mas a repercussão foi grande. Para evitar tensões, Bento XVI renunciou à visita dois dias antes da data marcada, mas enviou o texto do discurso, que foi lido e aplaudido por muitos presentes.

Na realidade, o episódio continua sendo um fato de séria intolerância por parte daqueles que queriam se apresentar como arautos da razão e da liberdade, e muitíssimos intelectuais italianos, até mesmo não católicos, se envergonharam profundamente disso.

Mas eu não tenho a intenção de voltar sobre isso. Acho que hoje é preciso refletir mais sobre o conteúdo do próprio discurso, que se insere na série de muitos discursos dedicados por Bento XVI à natureza e à finalidade da universidade, e é provavelmente um dos mais importantes deles.

Bento XVI começa afirmando expressamente que a universidade “deve estar ligada exclusivamente à autoridade da verdade” e, portanto, deve ser autônoma, livre “de autoridades políticas e eclesiásticas”. Por isso, se interroga sobre o que um papa tem a dizer no encontro com a universidade de sua cidade. Para responder, ele reflete acima de tudo sobre a natureza e a missão do papado e, depois, sobre a natureza e a missão da universidade.

Bento reconhece naturalmente que a missão do papado é, acima de tudo, de guiar a comunidade dos fiéis, mas observa que essa comunidade vive no mundo e, portanto, as suas condições e as suas vicissitudes atuam sobre o conjunto da comunidade humana. Por isso, o papa “tornou-se cada vez mais uma voz da razão ética da humanidade” (à luz da autoridade internacional conquistada pelos papas recentes, em particular por João Paulo II, antes, e Francisco, hoje, isso parece ser completamente correspondente à nossa experiência).

Depois de pronunciar as palavras: “razão ética da humanidade”, Bento faz um aprofundamento muito interessante. Pode-se falar de “razão” ética, se os juízos do papa provêm da fé? Que validade eles podem ter para quem não compartilha essa fé? Por isso, Bento se pergunta: “O que é a razão? Como uma afirmação – acima de tudo, uma norma moral – pode se demonstrar como ‘razoável’?”.

Para responder Bento faz referência ao famoso filósofo político estadunidense John Rawls, que reconhece às doutrinas das grandes religiões o caráter de “razoabilidade” pois “derivam de uma tradição responsável e motivada, na qual, durante longos tempos, foram desenvolvidas argumentações suficientemente boas em seu sustento”.

De sua parte, Bento concorda e evidencia “que a experiência e a demonstração ao longo de gerações, o fundo histórico da sabedoria humana são também um sinal da sua razoabilidade e do seu duradouro significado”. A razão não deve ser a-histórico, “a sabedoria da humanidade como tal – a sabedoria das grandes tradições religiosas – deve ser valorizada”, não pode ser “jogada na lata de lixo da história das ideias”.

Bento conclui, então, a resposta à primeira pergunta dizendo que o papa fala à universidade “como representante de uma comunidade que conserva em de si um tesouro de conhecimento e de experiência éticos, que é importante para a humanidade inteira: nesse sentido, fala como representante de uma razão ética”.

Passando, depois, à pergunta sobre a natureza da universidade, o papa pensa que “a íntima origem da universidade está na ânsia de conhecimento que é própria do ser humano”. Ele quer saber o que é tudo o que o cerca. Quer verdade”.

Bento XVI identifica no interrogar-se de Sócrates a manifestação mais clara desse desejo de conhecer e enfatiza o fato de que Sócrates exerce a sua maiêutica justamente na crítica à antiga religião mítica e na busca de um Deus supremo e verdadeiramente divino. Para Bento, é fundamental entender que os cristãos dos primeiros séculos se reconheceram nesse exercício socrático: para eles, “o interrogar-se da razão sobre o Deus maior, assim como sobre a verdadeira natureza e sobre o verdadeiro sentido do ser humano (…), fazia parte da essência do seu modo de ser religioso”. Eles deviam “reconhecer como parte da própria identidade a busca fatigante da razão para alcançar o conhecimento da verdade inteira”.

Bento dá também outro passo aqui. “O ser humano quer conhecer – quer verdade”, e verdade é “coisa do ver, do compreender (…) mas – ele observa – nunca é somente teórica”. “Verdade significa mais do que saber: o conhecimento da verdade tem como propósito o conhecimento do bem. Este é também o sentido do interrogar-se socrático: qual é o bem que nos torna verdadeiros? A verdade nos torna bons, e a bondade é verdadeira”.

Os cristãos se reconhecem também nessa direção, ou, melhor, nessa direção, sua reflexão floresce esplendidamente. Os Padres sublinham que “a fé corresponde às exigências da razão em busca da verdade (…) é o ‘sim’ à verdade, em relação às religiões míticas”.

Assim, a dissolução da religião mitológica dá lugar “à descoberta daquele Deus que é Razão criadora e, ao mesmo tempo, Razão-Amor”. A fé cristã é profundamente “otimista” – observa Ratzinger – “porque a ela foi concedida a visão do Logos, da Razão criadora, que, na encarnação de Deus, revelou-se ao mesmo tempo como o Bem, a própria Bondade”.

Bento XVI está convencido de que, pelo fato de a busca da razão fazer parte da própria identidade cristã, a universidade “podia ou, melhor, devia nascer no âmbito da fé cristã, no mundo cristão”.

Nesse ponto, o discurso se desloca, então, para a estrutura da universidade medieval e para como a busca do conhecimento e da verdade se desenvolve nas suas quatro faculdades fundamentais: Medicina, Jurisprudência, Filosofia e Teologia.

Sobre a Medicina, Ratzinger não diz muito: limita-se a destacar que, na época, a medicina não era concebida tanto como “ciência”, mas como “arte de curar”, mas sua inserção na universidade significa que ela é “subtraída do âmbito da magia” para entrar cada vez mais no âmbito e sob a orientação da racionalidade.

Muito mais amplo é o discurso sobre a Jurisprudência, porque nela “se trata de dar forma justa à liberdade humana”. Aqui, Ratzinger dá um “salto ao presente” para levantar uma das questões debatidas hoje e que mais estão em seu coração: “É a questão de como pode ser encontrada uma normativa jurídica que constitua um ordenamento da liberdade, da dignidade humana e dos direitos humanos”.

Ratzinger a considera como uma questão crucial para a democracia moderna e para o futuro da humanidade, estando totalmente ciente dos problemas que nascem da contínua multiplicação dos “direitos humanos” e dos conflitos que surgem entre eles, e dos fundamentalismos ideológicos e religiosos (não foi à toa que Bento XVI abordou isso em várias ocasiões, como os grandes discursos públicos de Westminster Hall em Londres ou do Reichstag em Berlim). Sobre tal questão, portanto, ele quis dialogar de modo construtivo com grandes pensadores atuais.

No discurso de que estamos falando, ele indica como seu interlocutor significativo Jürgen Habermas (com quem – como sabemos – ele tivera, em 2004, um famoso diálogo público na Katholische Akademie de München). Ratzinger aprecia o fato de Habermas ver os fundamentos da legitimidade de um ordenamento estatal não só “na participação política igualitária de todos os cidadãos”, mas também na “forma razoável em que os contrastes políticos são resolvidos”. Ele aprecia sobretudo que essa “forma razoável” não é identificada por Habermas apenas com o cálculo aritmético das maiorias, mas como “um processo de argumentação sensível à verdade” (wahrheitssensibles Argumentationsverfahren).

Ratzinger conclui a parte do discurso dedicada a esse assunto com duas observações importantes. Por um lado, destaca com grande realismo que, na realidade do debate político, “a sensibilidade à verdade é sempre de novo subjugada pela sensibilidade aos interesses”. Por outro lado, considera significativo que Habermas, ao falar da “sensibilidade à verdade como elemento necessário no processo de argumentação política, insere novamente o conceito de verdade no debate filosófico e no político”.

No decorrer do diálogo – primeiro com Rawls, depois com Habermas, dois dos maiores filósofos políticos contemporâneos – são reacendidos, portanto, os conceitos de “razoabilidade” e de “verdade”, como conceitos inevitáveis se quisermos tentar fundamentar a legitimidade da convivência humana, o direito da liberdade, além de uma mera composição dos interesses graças às regras da maioria. Mas o que são a razoabilidade e a verdade?

Aqui, Ratzinger retorna à estrutura da universidade medieval e à função das outras duas faculdades: a filosofia e a teologia, às quais “era confiada a pesquisa sobre o ser humano na sua totalidade e, com isso, a tarefa de manter viva a sensibilidade pela verdade”. Isso ainda vale; porque não só naquela época, mas hoje também esse é “o sentido permanente de ambas as faculdades: serem guardiães da sensibilidade pela verdade, não permitir que o ser humano seja desviado da busca da verdade”.

Mas o que me parece particularmente significativo é aquilo que o Papa Bento diz logo depois, manifestando um espírito extraordinariamente humilde e respeitoso, verdadeiramente aberto ao diálogo com a grande cultura da história e do mundo.

De fato, após dizer que as faculdades de filosofia e teologia “não devem permitir que o ser humano se desvie da busca da verdade”, ele faz uma das afirmações mais emocionantes e impressionantes para mim de todo o discurso: “Como elas podem corresponder a essa tarefa? Essa é uma pergunta para a qual é preciso, sempre de novo, se esforçar e que nunca é posta e resolvida definitivamente. Assim, nesse ponto, nem eu posso oferecer propriamente uma resposta, mas sim um convite para permanecer a caminho com essa pergunta – a caminho com os grandes que, ao longo de toda a história, lutaram e buscaram, com as suas respostas e com a sua inquietação pela verdade, que continuamente remete para além de cada resposta individual”.

O título desta conferência diz: “Em busca da verdade: de Nicolau Copérnico a Bento XVI”. Com efeito, Bento XVI absolutamente não é – como afirmavam aqueles que o impediram de proferir essas palavras – uma pessoa que impõe aos outros com prepotência a sua posse da verdade, mas sim uma pessoa que se sente solidária com todos os grandes apaixonados buscadores da verdade, sabendo que, nesta terra, ninguém jamais a possuirá.

À universidade medieval da Europa cristã e, em particular, a São Tomás de Aquino, Ratzinger reconhece o mérito de ter destacado a autonomia da filosofia, isto é, “o direito e a responsabilidade próprios da razão que se interroga com base nas suas forças”. As religiões míticas haviam desaparecido, e, ao contrário, os escritos filosóficos de Aristóteles haviam se tornado acessíveis integralmente, e as filosofias judaicas e árabes haviam se apropriado deles. Nesse contexto, “o cristianismo, em um novo diálogo com a razão dos outros, que vinha encontrando, teve que lutar pela própria razoabilidade”. A filosofia, portanto, torna-se uma verdadeira faculdade, “uma parceira autônoma da teologia e da fé nela refletida”.

A relação entre filosofia e teologia é apresentada por Ratzinger em analogia com a famosa fórmula de Calcedônia sobre as duas naturezas de Cristo: “sem confusão e sem separação”.

Sem confusão. “A filosofia deve permanecer verdadeiramente como uma busca da razão na própria liberdade e responsabilidade (…)deve ver seus limites e sua grandeza”. “A teologia deve continuar recorrendo a um tesouro de conhecimento que não foi inventado por ela mesma”, mas que recebeu e que a supera, e, sendo inesgotável, sempre a coloca novamente em movimento.

Sem separação. Porque a filosofia não deve se isolar, mas se mover no grande diálogo da sabedoria histórica, que inclui também a riqueza trazida pelas religiões e, particularmente, pelo cristianismo. Enquanto a teologia – e também as autoridades eclesiais – deve aceitar a purificação da crítica da razão e, ao mesmo tempo, constituir uma força purificadora da própria razão, em particular libertando-a das pressões do poder e dos interesses. (Esse tema da purificação recíproca entre fé e razão voltou com força em outros grandes discursos de Ratzinger, como o da Westminster Hall, em Londres, onde era aplicado à contribuição positiva da fé cristã e das religiões na vida pública e na sociedade moderna).

Naturalmente, Ratzinger sabe muito bem que a universidade moderna abraça outras dimensões do saber que cresceram de modo extraordinário e maravilhoso. Ele fala sobretudo de dois âmbitos, o das ciências naturais e o das ciências históricas e humanísticas.

O discurso aqui se torna muito mais sintético, mas continua sendo rico em intuições de reflexão fundamentais.

“Abriu-se à humanidade uma medida imensa de saber e de poder; cresceram também o conhecimento e o reconhecimento dos direitos e da dignidade do ser humano.” Bento vê e admira o positivo, mas adverte com lucidez e coragem as ambiguidades e os riscos, algo que, aliás, é evidente nos eventos dramáticos da história atual. Como o discurso de que estamos falando se dirige ao mundo da universidade, ou seja, daqueles que estão envolvidos plenamente no estudo, no alargamento e no aprofundamento do saber, Ratzinger se encaminha à conclusão se concentrando nos riscos relacionados com essa dimensão da nossa vida histórica.

“O perigo do mundo ocidental – para falar apenas dele – é hoje que o ser humano, precisamente em consideração da grandeza do seu saber e poder, se rende perante a questão da verdade. E isso significa, ao mesmo tempo, que a razão, no fim, se curva diante da pressão dos interesses e da atratividade da utilidade, forçada a reconhecê-la como critério último.”

Do ponto de vista da vida da universidade, para Ratzinger, isso significa que a filosofia se degrada em positivismo e que a teologia se confine à esfera privada de um pequeno grupo. Significa que a razão se torna surda à sabedoria que lhe é oferecida pela fé cristã e se empobrece e seca. Perde a coragem da verdade e se apequena nas tarefas e nos horizontes.

Do ponto de vista da cultura europeia, para Ratzinger, isso significa que, “se quiser apenas se autoconstruir com base no círculo das próprias argumentações e – preocupada com a sua laicidade – se afasta das raízes das quais vive, então não se torna mais razoável e mais pura, mas se decompõe e se despedaça”.

A conclusão do discurso, nesse ponto, é clara: o papa não vai à universidade para impor de modo autoritário a fé, que só pode ser dada, mas para “manter desperta a sensibilidade pela verdade; convidar sempre de novo a razão a se pôr em busca do verdadeiro, do bem, de Deus” e a entrever ao longo da história as luzes que surgiram a partir da fé cristã, de modo a poder perceber Jesus Cristo como a Luz que ilumina a história e o caminho rumo ao futuro.

* * *

Quem conhece o pensamento de Joseph Ratzinger e os grandes discursos do pontificado de Bento XVI facilmente reconhecerá reflexões e temas familiares e característicos. O discurso poderia ser facilmente enriquecido e ampliado com inúmeras citações e referências. Evidentemente, não é o que pretendo fazer. Em vez disso, como mencionei no início, no rastro do que recordei, quero explicar brevemente o espírito no qual a nossa Fundação está se movendo e se propõe a operar.

Simplificando de maneira extrema, pode-se dizer que o grande pensamento de Joseph Ratzinger se desenvolveu ao longo de duas diretrizes principais complementares. Uma que podemos chamar de vertical: o chamado do primado de Deus, do Deus revelado por Jesus Cristo e aquilo que se segue para a vida cristã e da Igreja. E uma que podemos chamar de horizontal ou transversal: o diálogo com a cultura contemporânea, fundamentado na confiança na razão, considerada capaz de buscar e encontrar respostas razoáveis e verdadeiras para as suas perguntas.

O discurso que evoquei é típico dessa linha do diálogo, do exercício confiante da razão, que olha com otimismo e com gosto ao enriquecimento recíproco das diversas dimensões do saber, das ciências naturais às humanas, à filosofia, à teologia. Para isso, porém, a razão não deve se fechar nos estreitos limites do positivismo, deve se manter aberta à questão da verdade, do bem, do sentido da vida, de Deus. Também deve se manter aberta àquele fascinante diálogo com os grandes da história de que Ratzinger nos falou por referências, de Sócrates e a filosofia grega, às testemunhas da sabedoria do Antigo Testamento e das grandes religiões, ao Evangelho e aos Padres da Igreja, aos filósofos e aos teólogos medievais, a Copérnico e aos cientistas modernos, até Rawls e Habermas, filósofos políticos dos nossos dias…

Ainda no discurso evocado, vieram à tona alguns nós problemáticos cruciais para a humanidade do nosso tempo, aos quais Ratzinger dedicou muitíssima atenção. Cito dois em particular: os fundamentos do direito e de um ordenamento jurídico e político legítimo no mundo atual; os fundamentos de um uso responsável do imenso saber e poder dado ao ser humano pelo desenvolvimento da ciência e da tecnologia. Não se trata, de modo algum, de problemas abstratos. São de interesse comum evidente, estão no centro da preocupação da Igreja, como ficou claro a partir das últimas duas grandes encíclicas sociais, a Caritas in veritate de Bento XVI e a Laudato si’ do Papa Francisco. São também nós problemáticos que, para serem enfrentados na sua complexidade, requerem naturalmente abordagens interdisciplinares e, portanto, chamam ao apelo o mundo que, por sua vocação, é chamado ao diálogo interdisciplinar: o mundo universitário.

Por todos esses motivos, a nossa Fundação, embora se conservando em suas finalidades institucionais atenta a encorajar muitas iniciativas e direções do trabalho teológico e, mais amplamente, cultural, sente-se chamada hoje a promover em particular os esforços que se orientam ao exercício da “razão aberta”, do diálogo interdisciplinar que se ocupa de responder aos grandes desafios da humanidade atual.

Em certo sentido, queremos continuar o compromisso de Bento XVI com o diálogo com a cultura moderna, como um dos grandes serviços pela humanidade hoje, mesmo que se trate, às vezes, de um diálogo difícil, que pode se encontrar diante de fechamentos ou preconceitos, como nos recorda a recusa encontrada por Bento na Universidade de Roma.

Assim, o Simpósio Anual realizado no ano passado na Costa Rica, com a nossa contribuição e apoio, ocupou-se dos desafios da ecologia humana já enfocados pelo Papa Ratzinger e aprofundados mais ainda na encíclica Laudato si’. Por sua vez, o Simpósio em preparação para o próximo outono [europeu] se ocupará especificamente dos problemas dos fundamentos do direito e dos direitos humanos, no 70º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Depois, em colaboração com a Universidade Francisco de Vitoria de Madri, está sendo desenvolvida a segunda edição do Prêmio Razão Aberta, que pretende promover pesquisas específicas e iniciativas de docência universitária que traduzam concretamente em ações aquele diálogo entre as diversas disciplinas – ciências naturais, humanas, da comunicação, artes, filosofia, teologia… –, diálogo no espírito comum da busca da verdade que Ratzinger deseja para que o saber não se despedace e se decomponha em setores não comunicantes, mas conserve a coragem e o gosto de responder às grandes perguntas do ser humano e da sociedade, sem excluir aquelas últimas sobre a origem e o fim, sobre o sentido e sobre Deus.

Se, nessas perspectivas, conseguirmos identificar linhas realistas de colaboração e de promoção na pesquisa, a nossa Fundação terá muita alegria em colaborar e dar a contribuição possível a ela.

Obrigado pela atenção!

Algumas pessoas são tão pobres que não têm nada além de dinheiro…

Não é de hoje que o luxo, a riqueza e o conforto são atrativos e valorizados nos meios sociais. Com o advento das mídias, incluindo-se a internet, a ostentação, por si só, tornou-se algo rentável, como que um meio de vida.

Existem pessoas que sobrevivem e ganham muito dinheiro, inclusive, apenas vivendo e se mostrando, estampando capas de revistas, programas de televisão, perfis que bombam nas redes sociais, por serem ricas e, consequentemente, famosas.

Nesse contexto, não raro se confundem os valores, deixando-se a essência de lado, enquanto se supervalorizam as aparências, ou seja, o que se tem sobrepõe-se ao que se é, porque o que se vê torna-se referência em quaisquer julgamentos sobre o outro.

Basta perceber que os cantores atuais também trabalham a imagem, seus corpos e cabelos, pois devem vender muito além de sua voz. Parece que qualquer talento necessariamente precise atrelar-se a um corpo esguio, uma vez que a mídia pede isso.

Nessa lógica materialista, as pessoas acabam sendo tomadas como objetos que podem ser comprados e usados. Infelizmente, tudo vem se tornando mercadoria: pessoas, sentimentos, casamento, empregos, como se o único meio de ocuparmos um lugar ao sol fosse pela sua compra.

Compram-se votos, cargos, vaga na faculdade, compram-se amizades, testemunhos, compra-se amor. Sobra pouco para quem não tem grana, mas o que sobra é, ao menos, real.

Nada substitui a satisfação e o contentamento proporcionados pelas conquistas que alcançamos com nossos próprios méritos, pelo que somos verdadeiramente e oferecemos afetivamente. Tudo o que chega com sinceridade e vontade fica e enriquece, pois soma e agrega valores nobres que dinheiro algum corrompe.

Quem fica junto pelo que temos dentro de nós traz intensidade, inteireza e completude. Serão os abraços reconfortantes, faça sol ou caia chuva torrencial, sem hesitações, sem meias verdades. Serão o corpo e a alma.

Tentar conquistar algo ou alguém por outros meios que não a nossa verdade nos igualará ao nível de quem se vende. Temos, portanto, que aprender a valorizar além das aparências, apreciando o melhor que cada um possui dentro de si.

É preciso cautela com o que brilha demais, afinal, lembremo-nos das mariposas: atraídas pela luz das lâmpadas, acabam antecipando o próprio fim.

(via Psiconlinews)

Já falamos sobre as orientações que o Beato Paulo VI deu em sua primeira encíclica a respeito da evangelização como diálogo compreensivo e amistoso. Se queremos, porém, evangelizar com fidelidade à fé da Igreja e com a esperança de sermos compreendidos pelos nossos interlocutores, é necessário tomar consciência de uma noção muito importante: a hierarquia das verdades.

Implicitamente, essa noção não é nenhuma novidade, mas corresponde a uma sensibilidade básica que guiou o anúncio da Igreja desde o início. Foi o Concílio Vaticano II que a retomou de modo explícito, dizendo que “existe uma ordem ou ‘hierarquia’ das verdades da doutrina católica, já que o nexo delas com o fundamento da fé cristã é diferente” (Decreto Unitatis Redintegratio, n. 11). O papa Francisco, por sua vez, a desenvolveu na sua exortação Evangelii Gaudium (n. 34-39).

“No mundo atual, com a velocidade das comunicações e a seleção interessada dos conteúdos feita pelos meios de comunicação de massa, a mensagem que anunciamos corre mais do que nunca o risco de aparecer mutilada e reduzida a alguns dos seus aspectos secundários”, constata Francisco. É algo que percebemos no dia-a-dia: quantas pessoas, por exemplo, têm a impressão de que a doutrina da Igreja se resume a um conjunto de proibições, pela maneira como temas como aborto, contracepção e homossexualidade são tratados nas notícias?

“O problema maior ocorre quando a mensagem que anunciamos parece então identificada com tais aspectos secundários, que, apesar de serem relevantes, por si sozinhos não manifestam o coração da mensagem de Jesus Cristo”, diz o papa. “Portanto, convém ser realistas e não pressupor que os nossos interlocutores conhecem o horizonte completo daquilo que dizemos ou que eles podem relacionar o nosso discurso com o núcleo essencial do Evangelho que lhe confere sentido, beleza e fascínio.”

Desvinculadas daquilo que é o núcleo essencial do anúncio cristão, questões sobre aspectos morais ou sacramentais podem parecer sem sentido. Não basta falar sobre ir à missa aos domingos ou sobre o sexo antes do casamento e simplesmente esperar que o ouvinte, instantaneamente, veja sentido no que dizemos. Nem sequer explicar exaustivamente esses pontos é suficiente. É preciso ir mais fundo e entender o horizonte no qual se situam essas questões, deixando claro qual a relação que existe entre elas e o coração do Evangelho.

Por isso, diz o papa, “uma pastoral em chave missionária não está obcecada pela transmissão desarticulada de uma imensidade de doutrinas que se tentam impor à força de insistir. Quando se assume um objetivo pastoral e um estilo missionário, que chegue realmente a todos sem exceções nem exclusões, o anúncio concentra-se no essencial, no que é mais belo, mais importante, mais atraente e, ao mesmo tempo, mais necessário. A proposta acaba simplificada, sem com isso perder profundidade e verdade, e assim se torna mais convincente e radiosa.”

Qual é, então, o essencial? Em que consiste a medula do anúncio cristão? Qual é a doutrina segura que a Igreja proclama? “Todas as verdades reveladas procedem da mesma fonte divina e são acreditadas com a mesma fé, mas algumas delas são mais importantes por exprimir mais diretamente o coração do Evangelho. Neste núcleo fundamental, o que sobressai é a beleza do amor salvífico de Deus manifestado em Jesus Cristo morto e ressuscitado”, escreve Francisco.

O amor de Deus que nos salva! Um amor tão incondicional, tão sublime, tão apaixonado que nos constrange, que nos faz corar de vergonha pela nossa frieza. Na vida, morte e ressurreição de Jesus, Deus torna esse amor imenso palpável, concreto, inegável.

O papa tira as consequências práticas disso para a nossa pregação: “Antes de mais nada, deve-se dizer que, no anúncio do Evangelho, é necessário que haja uma proporção adequada. Esta reconhece-se na frequência com que se mencionam alguns temas e nas acentuações postas na pregação. Por exemplo, se um pároco, durante um ano litúrgico, fala dez vezes sobre a temperança e apenas duas ou três vezes sobre a caridade ou sobre a justiça, gera-se uma desproporção, acabando obscurecidas precisamente aquelas virtudes que deveriam estar mais presentes na pregação e na catequese. E o mesmo acontece quando se fala mais da lei que da graça, mais da Igreja que de Jesus Cristo, mais do papa que da Palavra de Deus.”

E Francisco deixa claro: isso não significa negar ou esconder nenhum elemento da doutrina da Igreja. Pelo contrário, trata-se de fazer cada elemento ser compreendido na plenitude de seu significado, e não distorcido e tornado, assim, estéril e frágil, fazendo da doutrina da Igreja “um castelo de cartas”, como diz o papa.

Se falamos desses elementos sem evidenciá-los como decorrências daquele anúncio central de amor, o risco é grande. Muitas pessoas, não vendo sentido no que dizemos, não aceitarão a nossa pregação – e com razão. Diz o papa: “É que, então, não estaremos propriamente a anunciar o Evangelho, mas algumas acentuações doutrinais ou morais, que derivam de certas opções ideológicas.” A tarefa do evangelizador não é propagar verdades isoladas, fragmentadas e incompreensíveis, mas anunciar o amor misericordioso de Deus manifestado em Jesus Cristo e só então, a partir daí, servir à consciência do outro, explicitando como a nossa resposta de amor pode se concretizar nas diversas dimensões da nossa vida.

Autor Felipe Koller- Sempre Família

Em discussões infindáveis na internet, assim como na vida, às vezes, tudo que precisamos é admitir que estamos errados ou, melhor, simplesmente não se importar.

Meu cérebro, como todos os cérebros, abriga uma quantidade inacreditável de informações acumuladas, e uma vasta quantidade dela diz respeito a coisas que vi na TV. Sempre detestei Star Trek, e isso é uma coisa que expresso em voz alta sempre que posso, mas basta eu ver um pedacinho qualquer de A Nova Geração, que logo descubro se tratar de um episódio que já assisti.

Também nunca fui exatamente fã do programa da Oprah, mas sem dúvida que o assisti por centenas de horas. Muitos anos após ele ter saído do ar sigo lembrando-me de um insight que Oprah compartilhou com a audiência. Não lembro o contexto, mas Oprah se surpreendeu ao perceber que não precisava atender ao telefone só porque ele estava tocando.

Foi um insight significativo também para mim, e não porque atender ao telefone seja uma tarefa particularmente difícil, mas porque significa que há uma liberdade invisível nisso, que eu de alguma forma não havia percebido antes. Mesmo que eu seguisse atendendo todas as ligações, agora parecia haver uma escolha. Antes de considerar a questão, era um relacionamento de mestre-escravo, em que uma pessoa lá fora aperta alguns botões, e meu corpo se levantava (talvez me retirando de um episódio antigo de Star Trek).

Lentamente começo a reconhecer outra liberdade ignorada, que é a liberdade de deixar os outros estarem certos (ou pelo menos se sentirem certos) mesmo que eu pense que estão errados ou estejam errados em temas acidentais, não essenciais.

Reconheço que tenho um longo histórico de debater minhas visões, mesmo quando não estou bem certo de porque o estou fazendo. Uma vez eu estava discordando respeitosamente de um colega de trabalho com relação a alguma coisa, e depois de eu levantar um ponto particularmente bem colocado, ele saiu do tom esportivo e disse: “ você gosta mesmo de discutir, hein?!” Tentei dizer que ele estava errado, mas mais tarde indaguei a mim mesmo por alguns segundos se eu realmente gosto de discutir. Não, ele que gosta de discutir. Caso contrário ele teria percebido que eu estava certo.

E isso foi antes da internet se tornar onipresente em nossas vidas, antes de ir junto com a gente para o banheiro, quando “se conectar” era uma atividade que só se fazia em alguma momento do dia, em vez de ser um modo de percepção global adicional que acionamos a qualquer momento. Naquela época uma pessoa normal vivenciava muito menos momentos em que se considerava adequado levar uma questão além do ponto permitido pela polidez.

Hoje é alarmante o quanto é fácil se encontrar batendo com uma pessoa distante, sem rosto, que está tentando dizer a você que prover saúde para todos os cidadãos é uma conspiração comunista, enquanto você espera que sua batata termine de esquentar no micro-ondas. O fato de não ter um rosto aumenta ainda mais nosso impulso de discutir. Você já deve ter percebido que é bem menos agradável discutir com alguém quando se pode ver seus olhos.

Suponho que muitos de vocês nem tenham ideia do que estou falando. Você vê uma afirmação com que não concorda, ou que por conhecer os fatos sabe estar errada, e então tem o impulso de corrigir, iluminar ou reprimendar o outro, mas isso fica apenas em sua cabeça. Você pode ouvir alguém louvando Nancy Grace como uma defensora altruísta dos vulneráveis, ou defendendo que Godfather III foi tão bom quanto os outros filmes da trilogia, e ainda assim não sente desejo algum de fazer a outra pessoa parar de pensar isso. Você é sábio o suficiente para saber que a “luta justa” em áreas de comentário na internet é quase sempre pura condescendência, e só provê motivos para a ignorância fincar suas âncoras e aumentar o tom da voz.

Mas muitos entre nós não são sábios assim. Essas almas debatedoras, que, dentre nós, realmente se engajam (e, como vemos, há zilhões de nós: basta examinar os comentários no Facebook ou no Youtube) muitas vezes creem estar de alguma forma realmente mudando as mentes, erradicando a ignorância e o pensamento superficial. Não estamos nos entregando a um passatempo destrutivo, ou no mínimo inútil, estamos salvando o mundo do erro, um usuário sem rosto do Reddit de cada vez.  Não só está tudo certo em se engajar nesses pequenos conflitos, trata-se de um imperativo moral. Não podemos permitir que a ignorância siga sem oposição. A internet (e o mundo todo, mas é mais fácil na internet) precisa ser patrulhada em busca de crenças ruins.

E, é claro, raramente ocorre a nós que estejamos errados. Talvez todas minhas fontes estejam incorretas, e nós de fato engulamos oito aranhas por ano durante o sono. Mas no entusiasmo de corrigir os erros de outros, nunca nos ocorre que talvez sejamos nós o problema, ou pelo menos parte do problema. Estar errado dá a mesma sensação de estar certo, e essa é a única sensação que todos os envolvidos têm, em qualquer discussão, sobre qualquer coisa.

Para aqueles entre nós inclinados a discutir cada ponto, é fácil esquecer que temos a liberdade de simplesmente seguir nossas vidas e permitir que os pontos-de-vista “errados” sigam. É fantástico o quanto parece que uma conversa qualquer precisa de sua contribuição, da mesma forma que uma chaleira gritando precisa ser tirada da boca do fogão.

Mas não é a mesma coisa. Uma perspectiva diferente, não importa o quão absurda pareça, não é uma emergência. A civilização sobreviveu por 10 mil anos antes de eu e você chegarmos aqui com nossas correções sarcásticas e nossos retruques condescendentes, e não fizemos exatamente muita diferença desde que chegamos. Parece que não precisamos tentar fazer parar as pessoas pensarem o que não queremos que pensem, e que nossa energia provavelmente será mais bem aplicada em outra coisa.

Em outras palavras, é possível, em teoria, se aposentar da Patrulha da Crença Alheia.

Reconheço que as crenças têm consequências no mundo real. Ações prejudiciais vêm de crenças ruins. Não estou dizendo que não devemos jamais opor a ninguém, nunca confrontar ninguém, nunca se engajar com aqueles que discordam de nós. Só acho que fazer luvas, usar um cabeça dura qualquer nas medias sociais de sparrer, não afeta as crenças de ninguém de qualquer forma útil.

Acho que o conselho de Richard Carlson provavelmente é um mote ideal para isso: deixe os outros estarem “certos” a maior parte do tempo. Afirmar e defender suas visões demanda uma quantidade enorme de energia mental e realiza quase nada. Algumas vezes é importante (e até mesmo útil) se posicionar numa conversa, mas geralmente é apenas uma forma de se entregar à destruição da paz.

Por “aposentadoria da Patrulha da Crença Alheia”, estou falando principalmente de se aposentar de discussões que não sejam cara-a-cara, e em que não haja respeito mútuo. Na mesma hora que a motivação deixa de ser boa vontade e vira má vontade ou incomodação, fui embora.

Espero muito que você perceba o impulso que surge antes das palavras saírem. Pode ser muito automático. Quando você começa a considerar a aposentadoria, é incrível como se torna atraente dizer algo, jogar um “Bem, na VERDADE…”

É como ser o policial de narcóticos no programa de TV, convencido pela família a se aposentar, mas que então, sem perceber, se descobre envolvido em alguma aventura fantástica, atrás de pistas e perseguindo marginais em telhados. Ele acaba de volta àquele mundo, dando socos em algum traficante no topo de um trem em movimento, e não porque conscientemente decidiu retornar à vida, mas porque seus instintos de detetive eram mais aguçados do que a consciência do que estava fazendo.

Então veremos como as coisas se dão na aposentadoria. Já percebi como esse impulso surge frequentemente. Já apaguei tantas respostas meio-escritas para o Reddit que me pergunto se alguma vez contribuí com algo que não fosse refutar alguém ou fazer um comentário de escárnio.

O convido a se juntar a mim, caso você seja um veterano da Patrulha da Crença Alheia. Vamos largar completamente esse jogo de capa e espada e ir jogar tênis. Ainda podemos expressar nossas visões em milhares de outras formas que não sejam tão duras e intemperadas. Temos essa liberdade, e não o culpo se você não a reconhece. Mas já posso adiantar que é melhor se aposentar.

Só não vou discutir o assunto.

David Cain

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Evidentemente é verdadeiro que aconteceram as Cruzadas, a Inquisição e centenas de casos hediondos de pedofilia por parte de membros da Igreja católica.

E também é verdade, lamentavelmente, que os fatos concretos a respeito dessas e outras polêmicas têm sido tergiversados, manipulados e inflados de modo grosseiro por pessoas que não estão dispostas a debatê-los com base na verdade, mas sim na sua conveniência ideológica.

Para quem quiser de fato debater com mais objetividade a “trindade” Cruzadas-Inquisição-Pedofilia, sugiro os seguintes textos:

SOBRE AS CRUZADAS

O horror do Estado Islâmico desmascara 4 mitos sobre as cruzadas – LER

Cruzadas, inquisição e guerra contra as mulheres: é hora de derrubar mitos – LER

SOBRE A INQUISIÇÃO

Inquisição, uma breve história – LER

Inquisição espanhola, uma lenda negra passada a limpo pela BBC de Londres – LER

Em defesa da Igreja? Não: em defesa da história! – LER

A perseguição religiosa mais terrível da história: não, não é a Inquisição espanhola – LER

Terror vermelho na Espanha: seu professor de História não lhe contou sobre a perseguição sangrenta contra padres e freiras? – LER

SOBRE PEDOFILIA NA IGREJA

Onde é que foram parar todos aqueles padres pedófilos? – LER

4 casos de padres presos injustamente por crimes que não cometeram – LER

A verdade inteira sobre o abuso sexual contra menores – LER

SOBRE NAZISMO E PIO XII

O plano de Hitler para sequestrar o Papa Pio XII – LER

Por que Hitler odiava tanto Pio XII? – LER

Pio XII conseguiu salvar 63,04% dos judeus de Roma durante a perseguição nazista – LER

“Presidente de Hitler” não, mas “Papa de Hitler” sim? – LER

A Igreja realmente apoiou o nazismo? – LER

Existe o risco, e é alto, de que a maioria dos detratores da Igreja não se dê ao trabalho de ler nenhum desses artigos e mesmo assim continue a criticá-la, mas também existe a chance de que alguns tenham um gesto elementar de honestidade intelectual e se informem sobre todos os pontos de vista antes de formarem a sua opinião. Meus votos são de que, cada vez mais, prevaleça a segunda possibilidade.

Religião-Católica-10

Obs: Este texto requer um conhecimento prévio dos argumentos para a existência de Deus. Veja aqui uma série de 6 breves vídeos no Youtube.
 
Com base no argumento cosmológico, sabemos que Deus é:
1. Auto-existente, atemporal, não espacial, imaterial (uma vez que ele  criou o tempo, o espaço e a matéria, então deve estar fora do tempo, do espaço e da matéria). Em outras palavras, ele não tem limites. Ou seja, ele é infinito.
2. Inimaginavelmente poderoso, uma vez que ele criou todo o Universo do nada.
3. Pessoal, uma vez que ele optou por converter um estado de nulidade em um Universo tempo-espaço-material (uma força impessoal não tem capacidade de tomar decisões).
Com base no argumento teleológico, sabemos que Deus é:
4. Supremamente inteligente, uma vez que planejou a vida e o Universo com incrível complexidade e precisão.
5. Determinado, uma vez que planejou as muitas formas de vida para viverem nesse ambiente específico e ordenado.
Com base no argumento moral, sabemos que Deus é:

6. Absolutamente puro no aspecto moral (ele é o padrão imutável de moralidade pelo qual todas as ações são medidas. Esse padrão inclui justiça e amor infinitos).

Teísmo é a abordagem adequada para descrever tal Deus. Aqui está a maravilhosa verdade sobre essas descobertas: o Deus teísta que descobrimos é compatível com o Deus da Bíblia, mas nós o descobrimos sem usar a Bíblia. Mostramos que, por meio de raciocínio, ciência e filosofia adequados, pode-se conhecer muitas coisas sobre o Deus da Bíblia. Na verdade, isso é o que a própria Bíblia diz (e.g. 5119; Rm 1.18-20; 2.14,15). Os teólogos chamam essa revelação de Deus de natural ou revelação geral (que é claramente vista independentemente de qualquer tipo de Escritura). A revelação das Escrituras é chamada de revelação especial. Assim, sabemos por meio da revelação natural que o teísmo é verdadeiro.
 
Essa descoberta nos ajuda a ver não apenas como é a verdadeira tampa da caixa, mas o que ela não pode ser. Uma vez que o oposto de verdadeiro é falso, sabemos que qualquer visão de mundo não teísta deve ser falsa. Ou, colocando de outra maneira, entre as maiores religiões mundiais, somente uma das religiões teístas — judaísmo, cristianismo ou islamismo — pode ser verdadeira. Todas as outras principais religiões mundiais não podem ser verdadeiras, porque elas são não-teístas.
 
Pode ser verdadeira (teísta) Não pode ser verdadeira (não teísta)
1. Judaísmo 1. Hinduísmo (panteísta ou politeísta)
2. Cristianismo 2. Budismo (panteísta ou ateísta)
3. Islamismo 3. Nova Era (panteísta)
  4. Humanismo secular (ateísta)
  5. Mormonismo (politeísta)
  6. Wicca (panteísta ou politeísta)
  7. Taoísmo (panteísta ou ateísta)
  8. Confucionismo (ateísta)
  9. Xintoísmo (politeísta)
Isso pode parecer uma declaração muito imponente — negar a verdade de tantas religiões mundiais nesse estágio. Mas, por meio de lógica simples usando a lei da não-contradição — religiões mutuamente excludentes não podem ser verdadeiras ao mesmo tempo. Tão certo quanto jogadores de futebol são cortados da escalação de um jogo porque carecem de certas habilidades, certas religiões mundiais são cortadas da escalação como possíveis religiões verdadeiras porque carecem das qualificações necessárias.
 
Desse modo, por meio da lógica, se o teísmo é verdadeiro, então todos os não teísmos são falsos. Isso não significa que todo o ensinamento de uma religião não teísta é falso ou que não existe nada de bom nessas religiões — certamente existe verdade e bondade na maioria das religiões mundiais. Isso simplesmente quer dizer que, como uma maneira de se olhar para o mundo (i.e., uma visão de mundo), qualquer religião não teísta está construída sobre um fundamento falso. Embora alguns detalhes possam ser verdadeiros, o cerne de qualquer sistema religioso não teísta é falso.
 
Fonte: GEISLER, Norman; TUREK, Franklin; – Não tenho fé suficiente para ser ateu – Ed. Vida (Adaptado)
liberdade
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“Neste ponto, outra decisiva pergunta impõe-se: Não é presunção falar de verdade em tema de religião e, ainda mais, afirmar que se conheceu a verdade na própria religião? Aquela verdade única, que certamente não exclui a presença de verdades nas outras religiões, mas que recompõe em unidade os fragmentos dispersos? Hoje se tornou um slogan comum qualificar como simplórios, além de arrogantes, aqueles aos quais se pode reprovar a presunção de ‘possuir’ a verdade. (Observação minha: Note-se que é uma falácia, até mesmo uma mentira, dizer que a convicção de ter encontrado a verdade, faça alguém ‘possuir’ a verdade. O cristão católico não ‘possui’ a verdade, mas é possuído por ela! A Verdade não é algo, é Alguém! Somente quem não descobriu esse Alguém é que pode nos acusar de ser pretensiosos por ter encontrado a Verdade. Por puro dom, ela veio a nós! Seu nome: Jesus Cristo. Se Ratzinger é tão convicto do que fala, é porque ele mesmo, como cristão e filho da Igreja, experimenta o que significa ser possuído por essa Verdade. Não é por acaso que o seu lema de Bispo é  ‘Cooperadores da Verdade’). Parece que tais pessoas são fechadas ao diálogo e, portanto, não merecem ser levadas a sério. Ninguém ‘possui’ a verdade! Todos nós podemos sempre e somente mantermo-nos à sua procura.

Mas, poder-se-ia argumentar: que tipo de procura é essa que não pode mais chegar a uma conclusão? Procura de verdade ou, ao invés, não tem nenhuma intenção de encontrar, visto que o objeto da procura não pode existir? Além do mais, não é reduzir a uma caricatura o pensamento daqueles aos quais se atribui a pretensão de ‘possuir’ a verdade? Em nenhum caso a verdade se torna uma posse. A relação com ela deve ser sempre de humilde adesão, no temor de poder tornar-se indigno dela. Eu não posso vangloriar-me do dom recebido, como se se tratasse de uma coisa minha. Devo, ao invés, saber colocá-lo a serviço dos outros. O mesmo afirma também a fé: a dessemelhança entre o que nós conhecemos e a Verdade em si mesma é sempre imensamente maior que o dom da semelhança. E, contudo, essa imensa diferença não reduz o conhecimento a não-conhecimento, a verdade a não-verdade.

A mim parece que a acusação de presunção deveria ser invertida. Não seria, talvez, presunção, afirmar que Deus não pode nos dar o presente da verdade? que ele não é capaz de abrir nossos olhos? Não é desprezar Deus afirmar que nascemos irremediavelmente cegos e, portanto, a verdade não é tarefa nossa? Não é degradar o homem e o seu desejo de Deus considerar-nos como condenados a caminhar sempre às apalpadelas no escuro? A verdadeira presunção entra em jogo quando somos nós a querer tomar o lugar de Deus para estabelecer quem somos, o que podemos decidir, o que queremos fazer de nós mesmos e do mundo. Na realidade, o conhecimento e a procura não se excluem reciprocamente” (Do livro Introduzione a Ratzinger, de Dag Tessore).

Fonte Ratzinger

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A IGREJA CATÓLICA CRIOU AS UNIVERSIDADES SIM OU NÃO?

Uma resposta ponderada

“A fé na possibilidade da Ciência, gerada, antes do desenvolvimento da teoria científica moderna, constitui uma derivação inconsciente da teologia medieval.” (Alfred North Whitehead).

A Internet é um mundo, às vezes me deparo com coisas surpreendentes, algumas para o bem, outras para o mal. Nessas navegações pelo Facebook, no perfil pessoal de uma jovem protestante conservadora ouvi pela primeira vez o nome Lucas Banzoli, não dei muita confiança. Entretanto, percebi que a jovem em questão estava radicalizando sua posição, tentei debate com elegância e sem radicalismo. Fui expulso do hall de suas amizades. Então, descobri um blog chamado “Heresias Católicas”, pertencente ao Banzoli, o termo “heresias” nome por si só um paradoxo, já que aquele que afirma há uma heresia deve provar primeiro que tem uma ortodoxia ao seu lado. Até aí, nada de novo, já que todos os dias surgem novas “ortodoxias”, cada grupo defende como verdade.

Contudo, não pretendo desconstruir todos os artigos do site, pois não é do meu interesse e nem tenho tempo para isso. Mas efetivamente um artigo me chamou a atenção, que sem apresentar uma historiografia atualizada e pertinente, tenta desmentir a afirmação que a Igreja católica criou as universidades[ii]. No artigo intitulado “A Igreja Católica criou as universidades!!!!”[iii], o autor diz que essa afirmação é de papistas, mais precisamente de Thomas Wood. Peraí! Não é afirmação “errada”, mas fruto da pesquisa de Woods, cuja interpretação pode ser exagerada, mas não imprecisa. O texto de Banzoli tenta menosprezar a afirmação de que a Igreja não inventou as universidades, e eu vou desconstruir isso e faço com uma argumentação baseada em diversos pesquisadores vinculados a História da Ciência (não sei a religião deles e nem procurei saber), como Grant e Haskins. Faço várias considerações, com informações que permitirão ao leitor fazer uma conclusão embasada.

Então, preparei algumas refutações, mas vocês perceberão que fujo bastante das indagações do site. Isto se deve a minha proposta de não ficar só questionando as afirmações do artigo em questão, mas de apresentar coisas novas vinculadas a uma historiografia moderna (que não é tão moderna assim). Então, vamos algumas contestações:

  • Uma das afirmações é que UNESCO cita que a primeira universidade do mundo foi a Universidadeal Quaraouiyine, digo que é completamente contestável. Há vários poréns nisso, As “universidades” islâmicas era madrassas (GRANT 2009, p. 123), centros de estudo religioso, e apesar da Europa dever aos comentaristas muçulmanos de Aristóteles, a filosofia natural no mundo islâmico já havia caído em declínio devido as imposições teológicas o Islã (Idem, p. 121). A ciência islâmica já estava em decadência. Dizer, como a UNESCO, que as primeiras universidades nasceram no mundo muçulmano é mais um posicionamento político da instituição do que um fato histórico.
  • A acusação ao Trivium é descabida, que já existia desde Antiguidade, aperfeiçoado e padronizado pelos pensadores vinculados a Igreja durante a Idade Média. O autor não afirma que o estudo das artes liberais foi invenção da Igreja, mas que seu ensino nas Universidades era apenas um simples jogo de retórica. Por que é descabido? Porque usa o Trivium como falácia do espantalho, as universidades não apenas estudavam-no como também a filosofia natural aristotélica, a partir do século XII. Podemos deduzir, por causa disso que o estudo das artes liberais não era um entrave ao conhecimento científico. Hoje finalmente temos acesso, em português, a obras sobre o Triviume o Quatrivium pela editora É Realizações. Sua publicação já é uma vitória contra o desprezo que a academia brasileira tem ao conhecimento medieval levando a um público especializado e não-especializado a riqueza de nossas tradições.
  • Cita o padre Claude Fleury, um pré-iluminista e janseanista (por isso sua visão tão pessimista), autor de uma obra de mais de 400 anos, fonte de boa parte do artigo. A obra é crítica a igreja, recebeu até elogio de Voltaire (isso diz muito). A Historiografia atual, moderna procurou ser livre do ranço dos preconceitos iluministas e liberais. Hoje, a renovação da escrita histórica quebra com muito dos preconceitos sobre a Igreja Católica. Podemos perceber, no artigo do Banzoli, uma bibliografia uma historiografia antiquada, sendo que a obra mais recente citada tem 72 anos.
  • As universidades, as catedrais e os parlamentos são frutos da Idade Média (HASKINS, 2015, p.17). Há vários erros como, por exemplo, usar como fonte um livro sobre as Cruzadas, de 1944, onde ele retira partes do texto para evidenciar a falta de cultura na Idade Média. Segundo a opinião de um professor medievalista da Federal do Espírito Santo sobre o livro: “Na ocasião, eu o li quase como um romance, pois, apesar de conter informações verdadeiras, o autor não indica as fontes.” A bibliográfica é antiga e desatualizada. Impresso muito antes das reformas do ensino de história brasileiro
  • Se a igreja Católica não criou (no pior dos casos), pelo menos apoiou, supervisionou, padronizou, deu aval e subsidiou. As universidades têm seu núcleo inicial nas guildas medievais de estudantes e professores. Isso na renovação cultural dos séculos XII (HASKINS, 2015, p. 20). Os imperadores e os Papas deram legitimidades a essas instituições, e por muitas vezes gerenciaram os conflitos entre os estudantes e a população local, muitas vezes belicoso (não é que estudante é o mesmo não importa a época?).
  • O que nos diz uma literatura como a de Edward Grant? Grant no escreve que a criação das universidades foi um evento único na História da Europa Ocidental, mas também único na História do mundo (GRANT, 2009, p. 190). As universidades de Bolonha, Oxford e Paris foram as primeiras. Claro que nenhuma universidade poderia ser fundada sem uma congregação de professores e aluno relativamente grande, e a universidades foram um fenômeno urbano. A Igreja e o Estado na idade Média tornaram possível que indivíduos formassem corporações que como entidades ficcionais e com direitos legais (Idem, p. 191). As universidades medievais permitiram uma estabilidade para o ensino de filosofia natural, e isto permitiu que se desenvolvesse nas quatros áreas que a compunha, artes, teologia, medicina e direito (Idem, p. 191).
  • Ainda há uma acusação de as aulas não eram nada científicas e voltadas a mistérios metafísicos. Outro engano, por exemplo, e o do católico Galileu que influenciado pelo seu mentor Francesco Buonamici, Galileu acreditava em respeitar o papel fundamental da experiência e estabelecer regras para conhecer os fenômenos. Na revista da Scientifican American, edição especial sobre Galileu Galilei, no seu segundo capítulo intitulado “o mundo sensível”, chama a atenção a declaração de que a filosofia natural, do século XVII, havia abandonado a metafísica para explicar os fenômenos. Entretanto, essa separação já era observada há algum tempo pela academia, desde o surgimento das universidades medievais, segundo Edward Grant.
  • Segundo o professor de matemática Alfred North Whitehead (1861-1947) três os fatores que chamam atenção para uma mudança de paradigma que aconteceu no século XVI e XVII: o aparecimento da (nova) matemática; a crença em uma ordem na natureza; e o racionalismo da alta Idade Média (WHITEHEAD, 2006, p. 57). Esses fatores levam ao abandono dos antigos métodos para o estudo baseado em dados empíricos.

Os últimos parágrafos do texto são repletos de ódio ao catolicismo e de triunfalismo protestante, vamos a algumas verdades: não foi a Reforma Protestante que deu algum avanço social e econômico aos países protestantes, foi a Revolução Industrial. E a Revolução Industrial não foi um movimento ocasionado por melhorias educacionais nesses países por causa da leitura da Bíblia. Até o final do século XIX esses países do norte da Europa continham uma grande massa de analfabetos. A Revolução industrial que deu a esses países as melhorias, que nasceu da necessidade metalista, do acumulo de ouro e prata, coisa que a Inglaterra por não ter colônias ricas em metais preciosos se especializou para obtê-los através do comercio e da industrialização. Esses eram movidos pelo lucro e as descobertas científicas eram motivadas por isso também. Claro que houve avanços educacionais nos países protestantes, porém, em tese é a educação universitária a ponta de lança de qualquer transformação econômica de um país.[iv]

Enfim, não estamos dizendo que a Igreja católica foi a única responsável pela criação das universidades, mas sem ela as universidades não existiriam. Contundo, nascem num ambiente cultural fomentado pela Igreja e pelo renascimento urbano. As guildas de estudantes e professores jamais teriam sucesso sem o apoio e a universalização que a Igreja fez por toda a Europa. O que posso dizer é que invés de ficar procurando triunfalismo para um ou outro ramo no cristianismo é necessário ser dialético no estudo do passado. Não adianta denegrir um para colocar no pódio mais alto o outro, porque a história vai derrubar as certezas, ainda mais quando estudada com cuidado e respeito às fontes.

Bibliografia

GRANT, Edward. História da Filosofia Natural: do mundo antigo ao século XIX. São Paulo: Masdras, 2009.
HASKINS, Charles Homer. A Ascensão das Universidades. Balneário Camboriú: Livraria Danúbio Editora, 2015.
NUMBER, Ronald L (org.). Galileu na Prisão: e outros mitos sobre ciência e Religião. Lisboa: Gradiva, 2012.
WHITEHEAD, Alfred North. A ciência e o mundo moderno. São Paulo: Paulus, 2006.

Por Rogério Fernandes da Silva[i]

[i] Licenciado em História (UERJ) e professor de História da rede pública estadual do RJ, Mestre em Ciências da Religião (PUC-SP), Doutorando em Humanidades, Culturas e Artes (UNIGRANRIO).

[ii] O termo universidade vem de universitas societas masgistrorum discipulorunque , nome dado as guildas de mestres e estudantes (HASKINS, 2015, p.25).

[iii]Disponível em: <http://heresiascatolicas.blogspot.com.br/2015/11/a-igreja-catolica-criou-as-universidades.htm>. Acesso em10/08/2016.

[iv] Dois exemplos no século XX são a Índia e Brasil, o primeiro país fez um reforma educacional priorizando o ensino superior, ao ponto, nas  décadas de oitenta, países ocidentais, como EUA e Inglaterra, importarem cientistas indianos para seus grandes centros universitários. A Índia reformou o Ensino Superior, mas não acabou com a grande desigualdade social de seu país. Mas o Ensino Superior a transformou numa potência regional.  O Brasil durante o período de crescimento (2002-2010) passou por problemas relativos a mão-de-obra, não havia mão-de-obra qualificada para as indústrias e tivemos que importar. Isso é um indicativo que um país pode crescer sem está preparado no quesito base educacional, visto que o Brasil não investia qualitativamente em sua base de ensino a anos. Povo mais alfabetizado não gera riqueza, é preciso investimento em tecnologia que se alcança num nível universitário, ou seja, pesquisa acadêmica de ponta.

Fonte original do artigo

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Eu acredito sinceramente que os católicos podem e devem abraçar o que existe de bom na cultura atual e servir-se dela de maneira construtiva para agir no mundo a fim de produzir nele um impacto positivo.

Mas a necessidade de “servir-se dela de maneira construtiva” não poderia ser mais urgente, assim como as consequências da falta de ação positiva no mundo atual não poderiam ser mais terríveis. Vários traços da nossa moderna sociedade ocidental serão julgados com severidade pela história, e, com visão imparcial, podemos identificá-los desde já. Cito cinco deles.

1. O abandono da família por parte dos homens

A família foi a maior ‘invenção’ da história para trazer a paz, a estabilidade e a prosperidade aos seres humanos. Antes do surgimento do cristianismo, o modelo de pai e mãe fiéis um ao outro e aos filhos estava muito longe de ser o padrão. Foi o cristianismo que definiu o mais elevado conceito de família, e foi o conceito de família que nos permitiu garantir os direitos das crianças e das mulheres, além de embasar uma unidade estável e amorosa na qual a civilização pudesse desenvolver-se e florescer.

O desprezo pelo modelo de família tradicional é um fator de crucial importância no aumento da pobreza. As famílias tendem a ficar presas num círculo vicioso em que os homens abandonam suas responsabilidades e, agindo assim, “convencem” a próxima geração a seguir os mesmos passos. Quando os homens abandonam suas famílias, os filhos acabam recebendo menos educação e ficando mais expostos ao crime e à violência.

Será que a história vai nos marcar como a cultura que conseguiu extinguir a instituição da família?

2. O extermínio dos mais frágeis

“Toda sociedade será julgada com base no seu modo de tratar os membros mais fracos”, declarou o papa João Paulo II, numa afirmação absolutamente certa. Ficamos horrorizados com os pecados das sociedades do passado: torturas, punições assustadoras e perseguições raciais. As culturas do passado eram muito mais brutais do que a nossa, desde que não levemos em conta o aborto.

E por quê? Os historiadores do futuro ficarão horrorizados ao documentar que a mesma civilização que conseguiu tantos avanços na compreensão e no tratamento da vida humana ainda no útero também matava um milhão de crianças não nascidas por ano.

Graças aos esforços incansáveis de católicos e de outros cristãos, temos trabalhado com perseverança para superar esta mancha em nossa evolução, mas ainda não conseguimos eliminá-la.

3. A epidemia de suicídios

Os índices de suicídio têm aumentado ao longo do século XXI. Hoje, o gesto de acabar com a própria vida é a terceira principal causa de morte de jovens nos Estados Unidos. Em 2012, ainda nos EUA, o suicídio ultrapassou os acidentes de carro como a principal causa de morte por lesão e se tornou também a principal causa de morte entre os militares da ativa.

Há muitas teorias sobre o porquê deste fenômeno. Uma delas aponta para o crescente isolamento social: é cada vez menos comum as pessoas terem um confidente ou um grupo regular de amigos ou vizinhos com quem possam contar. E a solidão leva ao desespero.

As palavras de São Pedro têm sido, há muito tempo, uma espécie de declaração de missão da apologética cristã: “Sabei dar razão da esperança que habita em vós”. O mundo está precisando dessas razões mais do que nunca.

4. A sexualização infantil

Quanto mais as crianças usam as mídias modernas, mais elas são convencidas de que a sexualidade é a coisa mais importante que existe. As meninas, em especial, recebem esta mensagem desde muito jovens, através de peças de vestuário, bonecas e programas de televisão carregados de sensualidade, sem falar no conteúdo online disponível 24 horas por dia.

O abuso sexual cometido contra crianças tem muito a ver com a sexualização infantil. Ironicamente, os escândalos de abuso sexual na Igreja católica ajudaram a desacelerar a tendência da aceitação do sexo com crianças.

A história reconhecerá que a Igreja admitiu e encarou os seus escândalos, enquanto o escândalo maior em nossas instituições formadoras de opinião, desde as escolas públicas até a indústria do entretenimento, permanece, comparativamente, desatendido.

5. A coisificação da mulher

As gerações futuras vão se perguntar como, numa época de ênfase nos direitos e nas oportunidades para as mulheres, a nossa cultura definiu as mulheres tão disseminadamente como objetos de prazer.

Uma das maiores máquinas de fazer dinheiro dentro da indústria do entretenimento é a pornografia. Nossa cultura está quase o tempo todo olhando para imagens sexuais, a maioria delas tendo as mulheres como objeto. As mulheres estão cada vez mais coisificadas, da “cultura do estupro” às imagens que nos rodeiam em quase todos os meios de comunicação. A epidemia de tráfico de seres humanos é o resultado triste, mas nem um pouco surpreendente, desta armadilha disfarçada de “liberdade”.

A Igreja, que enxerga muito além das dimensões sexuais e econômicas da mulher, é uma guardiã intransigente da dignidade feminina.

É inegável a realidade: o grande experimento da democracia ocidental nos trouxe mais oportunidades e mais liberdade do que qualquer outro momento da história. Mas as fraquezas da nossa cultura atual são fatais. Sem Deus, ruiremos completa e estrondosamente.

Tom Hoops

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É-me dito com frequência que a ciência deveria ser a juíza maior da verdade. Seria muito bom se isto fosse verdade, mas esta crença não sobrevive ao escrutínio visto que seria preciso que a ciência fosse a autoridade final em todos os assuntos. Embora isso possa ser um pensamento simpático, a realidade dos fatos é que ele não aguenta o seu próprio peso.

“Nós só devemos acreditar naquelas coisas que podem ser cientificamente comprovadas”. Mas é esta frase em si cientificamente comprovável? E o que dizer daquelas ideias que parecem inacessíveis para a ciência? Declarações tais como “Ela é bonita”, “Isso está errado”,“O aborto é um mal”, “O vermelho é uma cor”, “O um é um número ímpar”, e assim por adiante.

Torna-se claro que muito tópicos teriam que ser explorados como forma de analisar esta ideia conhecida como cientismo, e uma destas áreas envolve as muitas pressuposições da própria ciência.

Como é que algo que depende de outras coisas pode ser declarada como a juíza única da verdade e a única fonte de conhecimento?

Pode-se ver facilmente que se P é uma pressuposição de Q, então P é fundamental para Q, e que P é necessário para Q. Se colocarmos de parte P, então temos também que colocar de parte Q.

Quais são os P da ciência? Se por acaso tu és um realista científico, tens que concordar que a ciência opera segundo algumas pressuposições. Em “Nature of Philosophy”, John Kekes afirma:

A ciência tem compromisso com várias pressuposições: que a natureza existe, que ela tem uma ordem detectável, e que ela é uniforme, são tudo pressuposições existenciais da ciência. A distinção entre o espaço e o tempo, entre a causa e o efeito, entre o observador e o objecto observado, entre o aparente e o real, e entre o ordenado e o caótico, mais não são que pressuposições classificativas.

Enquanto que a testabilidade interdisciplinar, a quantificabilidade, e a disponibilidade pública dos dados são pressuposições metodológicas, algumas das pressuposições axiológicas são o relato honesto dos resultados, a nobreza moral de se apurar os dados reais, e a escrupulosidade em se evitar erros observacionais ou experimentais.

Se qualquer uma destas pressuposições é colocada de parte, a ciência tal como a conhecemos, não pode ser feita. No entanto, a aceitação destas pressuposições não pode ser vista como algo mundano porque todas elas foram colocadas em causa e  temos à nossa disposição alternativas.  (1)

Kekes levanta um argumento sólido em favor do falhanço do cientismo. Se há coisas concretas que têm que estar em operação antes de ciência funcionar, então essas coisas são ainda mais fundamentais e fundacionais para se determinar a verdade.

Muitas pessoas dizem que temos que olhar para os artigos científicos revistos por pares para encontrarmos declarações reais em torno da forma como o mundo é, mas esta frase assume a honestidade das pessoas que reportam os seus resultados. Esta suposição não pode ser tida como certa visto que, por motivos de fraude em favor do autor ou dos autores dos artigos, o número de retratações, de plágios, e até de processos criminais estão dentro do âmbito das possibilidades.

Existem pressuposições filosóficas adicionais que têm que ser levadas em conta antes de se poder fazer ciência. J. P. Moreland fez uma lista decente destas pressuposições científicas em mais do que uma das suas obras (2,4). Ele lista (2) pelo menos 10:

1. A existência dum mundo real, independente de qualquer teoria.
2. A natureza organizada do mundo externo.
3. A cognoscibilidade do mundo externo.
4. A existência da verdade.
5. As leis da lógica.
6. A fiabilidade das nossas capacidades cognitivas e sensoriais como colectores-de-verdade e como motivo da crença justificada no nosso ambiente intelectual.
7. A adequação da linguagem como forma de descrever o mundo.
8. A existência dos valores [morais] usados na ciência.
9. A uniformidade da natureza e da indução.
10. A existência de números.

Todas estas pressuposições servem de fundamento para quem quer levar a cabo ciência da forma como ela é executada. Estas ideias têm que estar estabelecidas e discutidas antes da ciência ser forjada. (Elas têm que, pelo menos, ser assumidas de modo implícito.)

A consistência e a coerência destas pressuposições depende da visão do mundo mantida pela pessoa. É muito difícil para um ateu avançar com um certo número destas ideias de forma consistente, no entanto muito provavelmente ele é a pessoa que avança com esta visão (ou com uma variação da mesma).

(…)

Por Philip Carlson

Fonte:

 

Referências:
(1) Kekes, John; “Nature of Philosophy” (Totowa, New Jersey: Rowman and Littlefield, 1980) pp.156-157
(2) Moreland, J. P.; “The Creation Hypothesis” (Downers Grove, Illinois: Intervarsity Press, 1994) p. 17
(3) Moreland, J. P.; Craig, William Lane; “Philosophical foundations for a Christian worldview” (Downers Grove, Illinois: Intervarsity Press, 2003) pp. 346-366
(4) Moreland, J. P.; “Christianity and the Nature of Science” (Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, 1989)

liberdade

Em um encontro para comunicadores que a Conferência Episcopal Italiana promoveu em novembro de 2002, João Paulo II mencionava o fato de que “as rápidas transformações tecnológicas estão determinando, sobretudo no campo da comunicação social, uma nova condição para a transmissão do saber, para a convivência entre os povos, para a formação dos estilos de vida e das mentalidades. A comunicação gera cultura e a cultura se transmite mediante a comunicação”. Esse nexo entre comunicação e cultura é uma das principais razões pelas quais o mundo da comunicação suscita grande atração entre aqueles que se interessam pela ética. 

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“As rápidas transformações tecnológicas estão determinando, sobretudo no campo da comunicação social, uma nova condição para a transmissão do saber, para a convivência entre os povos e para a formação dos estilos de vida e das mentalidades”[1]. A adequada maturidade moral pessoal não é independente da comunicação e da cultura, que se expressa nos fins e estilos de vida socialmente aceitos, nas leis, na celebração dos acontecimentos e personagens do passado que melhor correspondem à identidade moral de uma sociedade.

A cultura possui algumas leis próprias, pelo que as ideias – e os sentimentos que estas fomentam – têm uma consistência e um desenvolvimento bastante autônomo. É como se as ideias, quando passam ao plano da cultura e da comunicação, se separassem das inteligências que as produziram e começassem a viver uma vida própria, desenvolvendo-se com uma força que depende somente de si mesma. Uma força que depende de sua consistência objetiva e de seu dinamismo intrínseco, talvez diferente da intenção que tinham as pessoas que as colocaram em circulação.

Por isso, todos que desejam influenciar na vida social com o espírito do Evangelho devem estar atentos à íntima relação entre comunicação e cultura; se se deseja intervir positivamente na criação e transmissão de modos de vida e de visões do homem, é preciso atender à consistência e ao previsível desenvolvimento das ideias, mais que à pretensa intenção das pessoas. Uma atitude polêmica, uma resposta brilhante ou ferina podem fazer calar a um adversário, mas se não se entende o que se expunha, nem se apreciou a consistência de suas ideias e as possíveis linhas de desenvolvimento que estas tinham, provavelmente não se colaborou no crescimento cultural nem mesmo se ofereceu uma alternativa cultural adequada; e assim, as ideias que foram rejeitadas, reduzindo ao silêncio a quem as promoveu, seguirão tendo uma vida longa. Somente se se consegue fazer uma proposta que conserve e supere o que de bom e de verdadeiro havia nas ideias que se considera justo combater, é que se dará um influxo cultural real.

Verdade e liberdade

Em mais de uma ocasião, João Paulo II destacou que o conflito entre verdade e liberdade está presente em boa parte dos problemas que afetam a cultura de nosso tempo[2]. A esse mesmo assunto referiu-se  Bento XVI com o conceito de relativismo[3]. Diante das posições relativistas, tem-se a tentação de responder mostrando sua contradição interna: quem considera que toda verdade é relativa faz, na realidade, uma afirmação absoluta, e por isso contradiz-se a si mesmo. Trata-se de uma crítica verdadeira, mas culturalmente pouco eficaz, porque não busca entender os pontos de apoio que sustentam os fundamentos relativistas, nem parece compreender a questão que tentam solucionar.

A partir de uma perspectiva ético-social, as posições relativistas têm seu ponto de partida baseado no fato de que na sociedade atual existe uma pluralidade de projetos de vida e de concepções do bem, o qual parece propor uma disjuntiva: ou se renuncia à ideia de julgar os diferentes projetos de vida, ou há que se abandonar o ideal ou o modus vivendi caracterizado pela tolerância.Com outras palavras, um modo de vida tolerante requereria admitir que qualquer concepção de vida vale o mesmo, ou pelo menos tem o mesmo direito de existir que cada uma das demais; se isto não se admite, cai-se em um fundamentalismo ético e social.

O raciocínio é bastante enganador, mas apresenta-se com aparência de verdade por causa de um feito inegável, que constitui seu ponto de apoio: ao longo da história, e inclusive na atualidade, não faltou quem oprimisse violentamente a liberdade das pessoas e dos povos em nome da verdade. Por isso, para que a mensagem evangélica seja retamente entendida, faz-se necessário evitar qualquer palavra, raciocínio ou atitude que possa fazer pensar que um cristão coerente sacrifica a liberdade em nome da verdade. Se fosse dada esta impressão, ainda que involuntariamente, contribuir-se-ia para consolidar o pressuposto fundamental do relativismo: a ideia de que o amor à verdade e o amor à liberdade são incompatíveis, pelo menos na prática.

A comunicação de convicções cristãs e de conteúdos éticos necessita demonstrar com obras, e não somente com palavras, que entre verdade e liberdade existe uma verdadeira harmonia; isto requer, de um lado, estar profundamente convencido do valor e do significado da liberdade pessoal. Mas, por outro lado, obriga a distinguir cuidadosamente o terreno ético do terreno político e jurídico. Em primeiro lugar, toda chamada da autoridade dirige-se à liberdade; em segundo, o recurso à coação pode ser legítimo.

Ética e política

Nas questões éticas, a consciência abre-se à verdade, que tem um evidente poder normativo sobre as próprias decisões; está em jogo a relação da consciência pessoal com a concepção que se tem do bem humano, às vezes relacionado com princípios religiosos; por sua vez, o âmbito jurídico e político refere-se às relações entre pessoas ou entre pessoas e instituições, que – enquanto reguladas pelas leis – estão submetidas ao poder coativo que o Estado e seus representantes podem usar legitimamente.

Estes dois âmbitos – ético e político – estão muito relacionados, e muitas vezes têm um desenvolvimento paralelo. O homicídio intencional, por exemplo, tem ao mesmo tempo uma grave culpa moral e um crime que o Estado tem o dever de perseguir e punir. Mas ainda neste caso, os dois âmbitos apresentam diferenças significativas. Basta pensar, por exemplo, no perdão. Uma coisa é o perdão da culpa moral e outra bem diferente o perdão do crime: é desejável que os parentes da vítima de um homicídio perdoem cristãmente ao culpado, mas não seria admissível que o Estado seguisse sistematicamente uma política de impunidade do homicídio intencional. Afirmar o contrário seria um abuso ideológico ou uma grave ofensa contra o bem comum.

Neste tipo de diferença se faz necessário distinguir o plano ético do político no que se refere aos princípios morais do Evangelho. Para evitar más interpretações, há que se oferecer um fundamento ético às mensagens do tipo moral, explicitando que tal verdade não pretende impor-se mediante o uso do poder político de coação; isto é compatível com que, em outro tipo de verdades éticas, exista uma dimensão ético-política ou ético-jurídica. Nestes casos, deverá ser oferecida, ademais, uma justificação política ou jurídica, ou seja, deverá ser demonstrado não somente que o comportamento em questão é moralmente equivocado, mas também que existem razões específicas pelas quais o Estado há de proibi-la e puni-la. Razões que não são idênticas às razões éticas, porque não é missão do Estado perseguir a culpa moral, mas promover e tutelar o bem comum, prevenindo e punindo aquelas condutas que o lesionam (que prejudicam a segurança pública, a liberdade e os direitos dos demais, as instituições de interesse social como a família etc).

Ética e Estado

Certamente, o Estado promulga algumas vezes leis injustas. Nesses casos, o cidadão de reta consciência deveria poder criticá-las com liberdade. O Concílio Vaticano II afirmou com clareza o direito e o dever da Igreja de “dar seu juízo moral, inclusive sobre matérias referentes à ordem política, quando o exijam os direitos fundamentais da pessoa ou a salvação das almas”[4].

Nestes casos, é importante saber dar à legislação equivocada uma resposta culturalmente eficaz. Não é uma tarefa fácil, porque é preciso ir além das contra-posições polêmicas, sabendo assumir a parte de verdade da posição contrária. Quando em consciência deve-se criticar uma atuação do Estado, requer-se mostrar uma fina sensibilidade pelos valores das instituições democráticas, sensibilidade que não se deveria deixar indefinida pelo fato, certamente muito doloroso, de que, numa determinada ação, uma instituição concreta tenha se comportado de modo injusto.

A firmeza nos princípios éticos deve ser – e parecer – compatível com a consciência de que a realização de bens pessoais e sociais em um contexto histórico, geográfico e cultural determinado, caracteriza-se por uma contingência parcialmente insuperável. Em questões práticas, é freqüente que não exista uma única solução possível. Inclusive nas decisões da Igreja relativas a coisas não necessárias devem ser contingentes, precisamente porque se referem a uma realidade que depende muito das circunstâncias, que mudam com o passar do tempo; por isso, é necessário aprender a reconhecer que, nesse tipo de decisões, somente os princípios irrenunciáveis expressam o aspecto duradouro[5]. Ninguém pode pretender em questões temporais impor dogmas, que nãoexistem [6]. Com isto não se quer dizer que tudo neste mundo é contingente ou acidental ou opinável; mas trata-se de perceber com clareza que nos assuntos humanos, também os outros podem ter razão: veem a mesma questão que tu, mas de um ponto de vista diferente, com outra luz, com outra sombra, com outros contornos. – Somente na fé e na moral é que há um critério indiscutível: o da nossa Mãe a Igreja[7].

A autonomia das realidades temporais

No entanto, poderia ocorrer que a doutrina cristã sobre uma determinada matéria ético-social coincida com a que sustentam todos ou uma boa parte dos cidadãos que legitimamente militam em um determinado partido político. Nestes casos, poderia originar-se – involuntariamente – uma situação delicada, porque poderia parecer que os cristãos ou inclusive a Igreja, ao proporem seus ensinamentos, estão apoiando a uma determinada parte política e não apresentando unicamente a mensagem do Evangelho.

Esta confusão poderia motivar acusações de intromissão ou de falta de respeito para com o Estado; acusações que talvez serão um simples pretexto político, ou inclusive mal intencionadas; mas o que se deve ter em conta quando se busca informar a cultura com o espírito do Evangelho, esclarecendo serenamente aquela aparência de verdade que podem conter estas condenações. Dois tipos de considerações são oportunas.

A primeira é que todos os cidadãos, também os que formam parte de um órgão legislativo ou de um partido político, têm o direito e o dever de sustentar as soluções que em consciência consideram úteis para o bem do próprio país, alegando – se for possível – as razões que justificam sua convicção. Cada um é livre para consultar livros especializados que considera confiáveis, ou de falar com quem deseja; se um cidadão pode inspirar-se em determinada teoria política ou econômica, também pode fazê-lo na Doutrina Social da Igreja. As soluções políticas são medidas por seu valor intrínseco e pelas razões que as justificam. Questionar as fontes utilizadas por cada cidadão para formar suas convicções seria uma falta de respeito à autonomia da consciência dos demais. É fácil ver que a radicalização de tal atitude levaria a conclusões absurdas: por exemplo, afirmar que o Estado, para reforçar o seu estado laical, deveria favorecer o que a Igreja condena, como a escravidão.

A segunda consideração oportuna é a necessidade de se ter uma ideia clara acerca da distinção existente entre a missão do Estado e a da Igreja. A este propósito, Bento XVI ofereceu indicações muito úteis. A distinção entre o que é de César e o que é de Deus, com a consequente autonomia das realidades temporais, pertence à estrutura essencial do cristianismo[8]. É tarefa do Estado interrogar-se sobre o modo de realizar a justiça concretamente aqui e agora; neste campo, a Doutrina Social da Igreja se oferece como uma ajuda, que “não pretende outorgar à Igreja um poder sobre o Estado. Tampouco quer impor aos que não compartilham da fé suas próprias perspectivas e modos de comportamento”[9].

Tal doutrina argumenta a partir da razão e do direito natural, e reconhece que a construção de um justo ordenamento da vida social é uma tarefa política, que “não pode ser uma obrigação imediata da Igreja. Mas, como ao mesmo tempo é uma tarefa humana primária, a Igreja tem o dever de oferecer, mediante a purificação da razão e a formação ética, sua contribuição específica, para que as exigências da justiça sejam compreensíveis e politicamente realizáveis. A Igreja não pode nem deve empreender por conta própria a iniciativa política de realizar a sociedade mais justa possível. Não pode nem deve substituir o Estado. Mas também não pode nem deve ficar à margem na luta por justiça. Deve inserir-se nela através da argumentação racional e deve despertar as forças espirituais, sem as quais a justiça, que sempre exige também renúncias, não pode afirmar-se nem prosperar”[10].

A realização da justiça é um ponto em que a fé e a política se aproximam. Por isso requer-se uma atenção cuidadosa para que ninguém com boa vontade possa pensar que a fé cristã se identifica com uma das partes políticas existentes na sociedade. Certamente, a fé cristã tem algo a dizer às diversas culturas políticas dos homens e dos povos; mas a fé pressupõe a liberdade e se oferece à liberdade, que por ela se deve amar com as palavras e com as obras.

Autor: Ángel Rodríguez Luño

1. João Paulo II, Discurso ao Congresso nacional italiano de agentes da cultura e da comunicação, 9-11-2002, n. 2.

2.. Cf. por exemplo: Litt. enc. Redemptor hominis, 4-03-1979, n. 12; Litt. enc. Centesimus annus, 1-05-1991, nn. 4, 17 y 46; Litt. enc. Veritatis splendor, 6-08-1993, nn. 34, 84, 87 y 88; Litt. enc. Fides et ratio, 14-09-1998, n. 90.

3. Cf. por exemplo: Discurso ao Convênio diocesano promovido pela diocese de Roma sobre o tema “Família e comunidade cristã: formação da pessoa e transmissão da fé”, 7-6-2005; Discurso ao Corpo Diplomático acreditado diante da Santa Sé, 8-01-2007; Discurso a uma Delegação da “Académie des Sciences Morales et Politiques” de Paris, 10-02-2007; Discurso inaugural da V Conferência do Episcopado Latinoamericano, 13-5-2007.

4. Conc. Vaticano II, Const. past. Gaudium et spes, n. 76.

5. Cf. Bento XVI, Discurso aos Cardeais, Arcebispos, Bispos e Prelados superiores da Cúria Romana, 22-12-2005.

6. Conversaciones, n. 77.

7. Sulco, n. 275.

8. Cf Bento XVI, Litt. enc. Deus caritas est, 25-12-2005, n. 28.

9. Ibid.

10. Ibid.

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Tendo em conta a complexidade da teologia católica a respeito da natureza de Deus, a seguinte lista, baseada nas Sagradas Escrituras e no Magistério da Igreja, responde a 8 mentiras recorrentes que estão à espreita dos católicos no mundo atual.

1. “Cristo é insuficiente”

Não existem novas revelações e o cânon bíblico está fechado. Há muitas pessoas que querem “aumentar” os ensinamentos de Cristo sustentando que, como as Sagradas Escrituras foram “escritas há muito tempo”, estas deveriam ser “atualizadas”.

Videntes e impostores de todo tipo difundem suas supostas “habilidades proféticas” que, ao parecer, estão contra o que sabemos de Deus. Nada mais longe da verdade.

Se estas pessoas estão certas, por que o Espírito Santo dá a cada uma diferentes mensagens? Cristo e sua Igreja não precisam de nada dos seres humanos. A mensagem de Cristo é válida e autêntica ontem, hoje e sempre como afirma no livro dos Hebreus 13,8.

2. “Pode haver novas revelações do plano da salvação”

Não há e nunca poderão existir novas revelações para ser acrescentadas na economia da salvação. Algumas revelações privadas foram aprovadas pela piedade popular (por exemplo, Sagrado Coração, Nossa Senhora de Lourdes, a Divina Misericórdia) e outras não.

A chave é se estão de acordo com as revelações originais de Cristo nas Sagradas Escrituras. As pessoas se colocam em uma situação precária quando se atrevem a julgar não somente a Bíblia, como também a Deus e Sua Igreja, negando assim a Tradição e o magistério.

3. “Jesus nunca assegura ser Deus na Bíblia”

Cristo se refere a si mesmo como Deus cerca de 50 vezes nas Sagradas Escrituras.

Do mesmo modo, os Evangelhos mostram as reações de quem se opunha a Jesus depois de afirmar que Ele era Deus ou igual a Deus (por exemplo em Marcos 14,61-62).

Se Jesus nunca afirmou ser Deus, por que algumas pessoas se incomodaram tanto com Ele há 2000 anos até o ponto de crucificá-lo? Cristo foi condenado a morte porque o consideravam blasfemo ao referir-se a si mesmo como Deus.

4. “Todos somos filhos de Deus e, portanto, Ele deve amar tudo o que somos”

Sim. Deus criou todos nós. Deus ama todos. Todos somos seus filhos. Entretanto, Ele nos chama para Si mesmo em um espírito de amor e arrependimento, mas nem todo mundo está preparado e disposto a fazer esse tipo de compromisso.

Não podemos dizer que somos seus filhos e ao mesmo tempo nos negar em reconhecer nossa relação com nosso Pai Celestial. (1 João 3,10, Romanos 8,15, Efésios 2,1-16).

Deus é misericordioso, mas nem todos nós queremos ser perdoados, ou inclusive, pensamos que não fizemos nada que deve ser perdoado (1 João 1, 8).

5. “Todos adoramos o mesmo Deus”

Só existe um Deus único e verdadeiro porque Ele mesmo o afirmou (Deuteronômio 4,39, Isaías 43,11, 45,5), entretanto, nem todo mundo o reconhece. Cabe também destacar que nenhuma deidade pagã afirmou algo assim.

Apesar de parecer ser politicamente correto que todas as pessoas adoram o mesmo Deus, é teológica, histórica e antropologicamente incorreto. Fora da tradição judaico-cristã, as deidades são impotentes, caprichosas, comedidas, hedonistas, egoístas, tremendamente emocionais e tem pouca preocupação pelos assuntos humanos.

O Deus judaico-cristão é o amor mesmo. Nenhuma outra religião descreve sua deidade desta maneira.

6. “Todas as religiões são iguais”

Esta crença está ligada ao ponto anterior, e, portanto, é incorreta. Algumas religiões são violentamente a antítese de todas as demais expressões religiosas. Alguns requerem o sacrifício humano, condutas imorais, as quais são consideradas virtudes ou propõem “textos sagrados” que são ilógicos e contraditórios. É impossível sugerir que todas as religiões sejam iguais.

Cristo nos diz que Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida (João 14,6). O Deus judaico-cristão se apresentou ao seu povo e lhes ensina porque os ama (Atos 4,12). Nenhuma outra religião faz tais afirmações. A salvação só vem de Cristo e não de Maomé, Buda ou Joseph Smith. O culto lhe pertence por direito somente a Yahvé, que é o grande ‘EU SOU’ (Apocalipse 4,11).

Existem diferenças irredutíveis entre o cristianismo e o judaísmo como a encarnação, a paixão e a ressurreição. Podemos estender esta lista de incompatibilidades ao considerar as religiões pagãs. Entretanto, muitas exigências éticas através das religiões podem ser iguais ou pelo menos compatíveis. Esta não é uma coincidência estranha, pelo contrário, se o único Deus está chamando toda a humanidade, então sua marca será deixada sobre várias respostas ao chamado.

7. “Deus usa os homens como “ratos de laboratório”

Deus é onisciente e sabe o que vamos fazer. Ama nossa existência e não nos trata como se fôssemos “ratos de laboratório”.

Deus é amor (1 João 4, 8-16) e, portanto, nunca poderia nos torturar para ver “o que faríamos”. A tentação está dentro de nós mesmos e é nossa decisão seguir a lei de Deus ou rechaçá-la (Deuteronômio 30,19).

8. “A Eucaristia é um mero símbolo”

Esta é uma perniciosa heresia e é bastante frequente. Por que o pão e o vinho são oferecidos no altar por um sacerdote como Corpo e Sangue de Cristo? Porque Jesus o diz (Lucas 16).

De fato, revelou às pessoas que o acompanhavam na sinagoga de Cafarnaum e vários fizeram birra. Jesus perguntou aos seus discípulos se também queriam deixá-lo por fazer tal afirmação e Pedro respondeu: “Senhor, a quem iremos? Tu tens palavras de vida eterna” (João 6,68).

Além do que Jesus disse, deve se considerar como os primeiros cristãos viam a Eucaristia. Para São Paulo, é uma celebração com a qual se anuncia e atualiza a morte do Senhor até a sua volta (1 Coríntios 11,26).

“Portanto, quem come o pão ou bebe o sangue do Senhor indignamente, será réu do corpo e sangue do Senhor. Por isso, cada um deve examinar-se, e comer deste modo o pão e beber do cálice. Porque quem come e bebe sem discernir o corpo, come e bebe sua própria condenação” (1 Coríntios 11, 27-29).

A Didaquê ou instrução dos doze apóstolos reflete este sentimento: “Não permitam que comam ou bebam de sua Eucaristia, a exceção dos batizados em nome do Senhor, porque o Senhor falou: ‘Não deem o que é santo aos cães’” (Didaquê 9,5).

Originalmente publicado no National Catholic Register (https://www.ncregister.com/).